{"id":154309,"date":"2019-11-18T10:34:09","date_gmt":"2019-11-18T10:34:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=154309"},"modified":"2019-11-18T10:34:09","modified_gmt":"2019-11-18T10:34:09","slug":"entre-usar-e-ser-usado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entre-usar-e-ser-usado\/","title":{"rendered":"Entre usar e ser usado"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<blockquote><p>\u201cO usu\u00e1rio final, no fim da hist\u00f3ria, foi usado.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Li esta frase num artigo da revista <em>Wired<\/em>. A tecnologia por si mesma n\u00e3o \u00e9 um problema, mas o facto de n\u00e3o termos previsto o impacte que teria na nossa vida \u00e9 que deveria levar-nos a pensar no papel que representa para n\u00f3s e para os relacionamentos com os outros.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Smartphone-in-car.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-154310 size-medium alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Smartphone-in-car-391x260.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Smartphone-in-car-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Smartphone-in-car-480x319.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/Smartphone-in-car.jpg 615w\" sizes=\"(max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><\/a>Num outro dia, no final da missa da tarde, enquanto o sacerdote dava alguns avisos, duas pessoas tiraram do seu <em>smartphone<\/em> e puseram-se a fazer n\u00e3o sei bem o qu\u00ea. Aquele era um tempo-morto e cada vez mais somos incapazes de nada fazer durante tempos, supostamente, mortos. Chamo a isto uma <em>dorm\u00eancia intelectual.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>A insuport\u00e1vel leveza do t\u00e9dio<\/h3>\n<blockquote><p>\u201dA mente \u00e9 o seu pr\u00f3prio lugar, e em si mesma pode fazer um C\u00e9u de um Inferno, e um Inferno do C\u00e9u.\u201d (John Milton, Paradise Lost)<\/p><\/blockquote>\n<p>Investigadores do Departamento de Psicologia da Universidade de Virg\u00ednia nos EUA fizeram uma <a href=\"https:\/\/wjh-www.harvard.edu\/~dtg\/WILSON%20ET%20AL%202014.pdf\">experi\u00eancia<\/a>; intrigante com estudantes universit\u00e1rios: <em>ficar sozinhos numa sala sem decora\u00e7\u00f5es durante 6 a 15 min e enterterem-se com os seus pensamentos.<\/em><\/p>\n<p>Todos os seus pertences eram guardados, incluindo <em>smartphones<\/em>. Podiam pensar aquilo que quisessem. As \u00fanicas regras eram permanecer sentados e acordados. Quando questionados sobre a experi\u00eancias, 49.3% disseram que n\u00e3o gostaram, 57.5% que foi muito dif\u00edcil concentrarem-se nos seus pensamentos e 89% afirmou que a sua mente vagueou. Numa outra experi\u00eancia, os investigadores fizeram algo mais radical. Durante 15 min os participantes deveriam enterter-se com os seus pensamentos, ou, se quisessem, poderiam dar um choque el\u00e9ctrico a si mesmos carregando num bot\u00e3o. O resultado foi inesperado, tendo 67% dos rapazes e 25% das raparigas preferido levar choques el\u00e9ctricos do que ficar a s\u00f3s com os seus pensamentos.<\/p>\n<p>A tecnologia tornou-se um portal para o entertenimento f\u00e1cil. E, enquanto uma bebida alco\u00f3lica custa dinheiro e depende das horas em que o bar\/caf\u00e9 est\u00e1 aberto, a dopamina para combater o t\u00e9dio, recebida atrav\u00e9s dos <em>smartphones<\/em>, \u00e9 um bar aberto e sem limite de tempo. Gradualmente, estamos a perder a capacidade humana de estar junto com os nossos pensamentos e desfrutar do vaguear da mente por aqueles mais ou menos criativos que nos ocorrem. Corremos o s\u00e9rio risco de entrar numa esp\u00e9cie de <em>dorm\u00eancia intelectual<\/em> onde os nossos pensamentos deixaram de estimular a criatividade, o engenho e o simples prazer de pensar.<\/p>\n<p>Recentemente estive a colaborar com a parte t\u00e9cnica de um encontro, onde havia algumas apresenta\u00e7\u00f5es que usavam slides e uma das formas das pessoas poderem controlar a sua apresenta\u00e7\u00e3o foi a de ter o port\u00e1til perto, lig\u00e1-lo por HDMI ao projector e por RGB a um monitor que mostrava o mesmo que viam as pessoas na audi\u00eancia. A ideia parecia genial, e quem apresentou apreciou, mas houve quem na audi\u00eancia se sentisse perturbado por todo o aparato de cabos. Logo, no dia seguinte, talvez fosse de voltar a uma solu\u00e7\u00e3o menos ideal das pessoas fazerem-nos um gesto para mudarmos os slides. N\u00e3o gostava do impasse, mas aceitei a situa\u00e7\u00e3o. De repente, vindo do nada, num momento em que a mente come\u00e7ou a vaguear, lembrei-me de que o iPad poderia servir de comando da apresenta\u00e7\u00e3o, permitindo \u00e0s pessoas passarem os slides e verem qual o pr\u00f3ximo. A solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o envolvia qualquer fio e tudo correu muito, muito bem.<\/p>\n<p>O t\u00e9dio pode ser a porta para deixar que a criatividade, ou a solu\u00e7\u00e3o para um impasse, se manifeste nos momentos em que menos esperamos. Se tivesse pegado no <em>smartphone<\/em>, nada disto teria acontecido.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h3>A quest\u00e3o essencial<\/h3>\n<p>O problema n\u00e3o est\u00e1 no recurso \u00e0s novas tecnologias na vida do dia-a-dia, mas na <em>perda de autonomia<\/em>. Quando algu\u00e9m \u00e9 incapaz de estar com os seus pensamentos enquanto o sacerdote d\u00e1 alguns avisos, n\u00e3o prescindindo de ver se tem algum novo email ou mensagem, sem se dar conta, perdeu a autonomia, deixando de ser o usu\u00e1rio final para ser, afinal, o usu\u00e1rio do conte\u00fado que tem diante do ecr\u00e3. Deixou de ser quem usufrui das Apps, mas de quem as Apps usufruem. E questiono se a perda do valor de estar com os nossos pensamentos n\u00e3o seja um primeiro passo para perder a capacidade de discernimento e de escuta d\u2019Aquela Voz.<\/p>\n<p>Os momentos de t\u00e9dio podem ser verdadeiras oportunidades de ora\u00e7\u00e3o se o quisermos. Ou momentos de parar para respirar um pouco quando a vida n\u00e3o tem qualquer folga e tudo aperta, sobretudo os prazos.<\/p>\n<p>A tecnologia \u00e9 a nossa resposta ao amor de Deus que nos criou, co-criando com Ele. Por isso, os <em>smartphones<\/em> s\u00e3o co-cria\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias atrav\u00e9s das quais podemos comunicar de formas impensadas. Recordo-me da experi\u00eancia de uma amiga cuja sobrinha ficou com paralisia cerebral ap\u00f3s a nascen\u00e7a, o que levou a um atrofio das suas m\u00e3os. Hoje, em idade jovem, os emojis que banalizados tornam as nossas conversas superficiais, s\u00e3o precisamente o meio que ela consegue comunicar com as pessoas, sobretudo, <em>emojivamente<\/em>! Acho extraodin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Penso \u00e9 que devemos estar atentos a n\u00e3o perder o valor de pensar. Simplesmente. E aprender cada vez mais e melhor, a reconhecer Aquela Voz que se manifesta nos momentos mais surpreendentes e nos inspira a agir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":92442,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-154309","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154309","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=154309"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/154309\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=154309"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=154309"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=154309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}