{"id":153922,"date":"2019-11-15T07:00:08","date_gmt":"2019-11-15T07:00:08","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=153922"},"modified":"2019-11-14T17:17:58","modified_gmt":"2019-11-14T17:17:58","slug":"papel-das-empresas-e-determinante-na-mudanca-do-sistema-economico-ricardo-zozimo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/papel-das-empresas-e-determinante-na-mudanca-do-sistema-economico-ricardo-zozimo\/","title":{"rendered":"Papel das empresas \u00e9 determinante na mudan\u00e7a do sistema econ\u00f3mico &#8211; Ricardo Z\u00f3zimo"},"content":{"rendered":"<p>Em v\u00e9speras da Igreja assinalar o III Dia Mundial dos Pobres, conversamos com Ricardo Z\u00f3zimo, professor de Gest\u00e3o da Nova School of Business &amp; Economics, a respeito do encontro mundial \u2018A economia de Francisco\u2019, que o Papa vai promover com estudantes e empres\u00e1rios em mar\u00e7o de 2020, em Assis. O comit\u00e9 organizador conta com peritos de todo o mundo, incluindo respons\u00e1veis da Nova e da Universidade Cat\u00f3lica, em Portugal.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fotos: Tiago Mendes (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-153935 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3735-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>\u00c9 um dos portugueses que est\u00e1 a colaborar na prepara\u00e7\u00e3o do encontro &#8216;A economia de Francisco&#8217;, convocado pelo Papa para mar\u00e7o do pr\u00f3ximo ano, para discutir com jovens de todo o mundo sobre que economia querem para o futuro. Em setembro j\u00e1 participou numa primeira reuni\u00e3o preparat\u00f3ria deste encontro. Correspondeu \u00e0s suas expectativas?<\/em><\/p>\n<p>Foi para al\u00e9m das minhas expectativas, para dizer a verdade, e acho que surpreendeu todos, e em v\u00e1rios aspetos. O primeiro foi o peso das pessoas que l\u00e1 estavam: t\u00ednhamos dois bispos, tr\u00eas ou quatro reitores de Universidades italianas, diretores de faculdades uns sete ou oito, v\u00ea-se que \u00e9 um evento que est\u00e1 a congregar as for\u00e7as da Igreja italianas e do mundo, e portanto surpreendeu-me porque achei que ia para um encontro de acad\u00e9micos, e na realidade cheguei a um encontro de pensadores.<\/p>\n<p>Outra parte que me surpreendeu foi a pr\u00f3pria organiza\u00e7\u00e3o do encontro. Imagine todas estas pessoas, que s\u00e3o super seguras de si pr\u00f3prias, sabem o que querem dizer, t\u00eam muita experi\u00eancia, e juntam-se todos num s\u00edtio, todos a querem dar as suas opini\u00f5es, e de repente vem o professor a quem o Papa pediu que organizasse este encontro, o professor Luigino Bruni (nobel da economia) e vem dizer &#8216;eu gostava de propor aqui uma metodologia um bocadinho diferente, que \u00e9 que voc\u00eas sejam assistentes dos alunos\u2019. Ent\u00e3o, mas eu vim aqui para dar a minha opini\u00e3o e agora est\u00e1-me a pedir que seja assistente dos alunos? \u00c9 mais ou menos isso. Em termos de metodologia pedag\u00f3gica isto \u00e9 muito inovador, mas tamb\u00e9m \u00e9 muito forte para percebermos, desde o primeiro momento, que a nossa miss\u00e3o \u00e9 contribuir para aqueles jovens. O tom era: &#8216;como \u00e9 que tu vais ajudar, como \u00e9 que cada um de voc\u00eas vai contribuir para que estes jovens tenham o melhor encontro poss\u00edvel, com eles pr\u00f3prios e com o Papa?\u2019.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ainda estamos relativamente longe de mar\u00e7o, mas imagino que j\u00e1 haja mais algum encontro de prepara\u00e7\u00e3o marcado?<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1, para janeiro. E at\u00e9 janeiro os 25 jovens que est\u00e3o neste comit\u00e9 est\u00e3o a organizar a agenda, que depois n\u00f3s vamos participar e ajudar a construir melhor.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>De Portugal quem mais participa mais nestes encontros preparat\u00f3rios?<\/em><\/p>\n<p>O professor Am\u00e9rico Mendes e o professor Tommaso Ramus, ambos da Universidade Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O que \u00e9 que j\u00e1 nos pode dizer de concreto sobre o encontro de mar\u00e7o? O Papa quer, de facto, propor um novo modelo econ\u00f3mico?<\/em><\/p>\n<p>Sim, e n\u00e3o. O Papa n\u00e3o quer propor um novo modelo econ\u00f3mico \u00e0 maneira de Davos. O Papa quer ouvir o que os jovens t\u00eam a dizer sobre este modelo econ\u00f3mico. E voltamos outra vez \u00e0quilo que me surpreendeu, \u00e9 que tudo vai acontecer nesta dimens\u00e3o: ouvir os jovens e sobretudo criar um espa\u00e7o de compromisso, para que os jovens possam n\u00e3o s\u00f3 dizer o que querem, mas com o que \u00e9 que se querem comprometer. A nossa miss\u00e3o \u00e9 depois ajudar os jovens a fazerem aquilo com que se comprometeram.<\/p>\n<p>Muita da energia que em Portugal estamos a dar a este encontro \u00e9 pensar j\u00e1 no pr\u00f3ximo encontro de Assis, o que \u00e9 que vamos fazer a seguir a mar\u00e7o de 2020.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Porque n\u00e3o pode encerrar a\u00ed&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Claro, o pr\u00f3prio Luigino Bruni dizia-nos isso: &#8216;se encerrar a\u00ed, ent\u00e3o n\u00e3o valeu a pena&#8217;. Temos de conseguir desde j\u00e1 encontrar esta plataforma com os jovens, que nos permita lan\u00e7ar as bases de um novo olhar para a economia. Depois de lan\u00e7ar essas bases acho que podem acontecer coisas incr\u00edveis, mas ainda n\u00e3o estamos l\u00e1, temos primeiro de olhar a economia de uma maneira um bocadinho diferente antes de propor novos modelos econ\u00f3micos. \u00c9 top down, como n\u00f3s costumamos chamar, de cima para baixo, \u00e9 aquilo que o Papa nos est\u00e1 a convidar a n\u00e3o fazer.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A figura do Papa certamente ser\u00e1 muito inspiradora. Ele teve express\u00f5es fortes desde o in\u00edcio do pontificado, como \u2018esta economia mata\u2019, que ficou c\u00e9lebre, mas que tamb\u00e9m gera anticorpos. Como \u00e9 que v\u00ea as cr\u00edticas de quem desvaloriza as posi\u00e7\u00f5es do Papa sobre o sistema econ\u00f3mico, o sistema financeiro e a globaliza\u00e7\u00e3o, e considera que o seu pensamento \u00e9 muito vago e pouco definido?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma grande quest\u00e3o. Essa frase, tal como outras do Papa Francisco, \u00e9 uma frase que marcou, mas o oposto dessa frase tamb\u00e9m \u00e9 verdade &#8211; a economia que mata tamb\u00e9m \u00e9 a economia que salva e que faz viver.<\/p>\n<p>Esta economia est\u00e1 a matar muita gente, est\u00e1 a fazer com que muita gente trabalhe muitas horas, n\u00e3o tenha vida, a concilia\u00e7\u00e3o vida e trabalho est\u00e1 dific\u00edlima. Mas, o que o Papa nos pede, e na carta o que diz \u00e9: &#8216;como \u00e9 que vamos olhar para isto de maneira a que possa viver?&#8217;. Portanto, eu gosto mais do oposto dessa frase, porque choca, mas choca para nos fazer pensar: ent\u00e3o que caracter\u00edsticas tem uma economia que \u00e9 inclusiva e n\u00e3o \u00e9 exclusiva?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda esta semana, numa audi\u00eancia no Vaticano, o Papa Francisco pediu um capitalismo inclusivo, que rejeite o desperd\u00edcio e o descarte, de recursos e de pessoas. Estas preocupa\u00e7\u00f5es \u00e9ticas s\u00e3o necess\u00e1rias para o sucesso do sistema econ\u00f3mico e financeiro?<\/em><\/p>\n<p>Completamente. E acho que nisso o Papa Francisco tem aquela intelig\u00eancia e intui\u00e7\u00e3o ligada \u00e0 terra.<\/p>\n<p>O Papa fez uma coisa que todos sabemos, tirou a Igreja de dentro das igrejas, levou a Igreja para dentro da vida das pessoas, e este cap\u00edtulo econ\u00f3mico \u00e9 s\u00f3 mais um passo que o Papa est\u00e1 a dar. E h\u00e1 aqui uma coisa realmente incr\u00edvel que o Papa est\u00e1 a fazer &#8211; est\u00e1 a celebrar uma s\u00e9rie de movimentos que existem no mundo, de empreendedorismo social, de respostas sociais que a pr\u00f3pria Igreja d\u00e1, de ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel), a pr\u00f3pria maneira como as Na\u00e7\u00f5es Unidas est\u00e3o a desenvolver os objetivos do desenvolvimento sustent\u00e1vel, o Papa diz que a Igreja tem de estar aqui, neste movimento mundial, para fazer melhor pelo mundo. \u00c9 este o grande convite que o Papa faz, e faz n\u00e3o aos que j\u00e1 est\u00e3o, mas a estes jovens. Ele tem esta intui\u00e7\u00e3o que \u00e9 maravilhosa.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-153937 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3731.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>O Papa tem sido um defensor ac\u00e9rrimo do trabalho digno e com um pensamento que ultrapassa uma vis\u00e3o utilitarista da m\u00e3o-de-obra. Estamos a falar do encontro 2020 com jovens\u2026 como conciliar esta proposta do trabalho digno com uma crescente precariza\u00e7\u00e3o do mundo laboral?<\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma das raz\u00f5es pelas quais eu s\u00f3 acredito que o sistema econ\u00f3mico v\u00e1 mudar quando as empresas tiverem realmente um papel determinante no sistema econ\u00f3mico. Por isso eu trabalho, e estamos a fazer este curso com jovens 25-40, em parceria com a ACEGE, a Associa\u00e7\u00e3o dos Empres\u00e1rios Crist\u00e3os, porque nada pode mudar se n\u00e3o trouxemos as empresas aqui para o meio desta conversa<em>.<\/em><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas, eu e uns colegas, o Allan Discua Cruz (Lancaster University) e a Angela Carradus (Manchester Metropolitan University), fizemos agora um grande estudo sobre empresas que s\u00e3o objetivamente crist\u00e3s, isto \u00e9, que no seu site dizem &#8216;n\u00f3s existimos em primeiro lugar para servir a Deus&#8217;. E a nossa pergunta de investiga\u00e7\u00e3o era: &#8216;mas, ser\u00e1 que as empresas que s\u00e3o abertamente crist\u00e3s t\u00eam pr\u00e1ticas diferentes de tratar os seus trabalhadores?&#8217;. E descobrimos, por exemplo &#8211; e isto dava para outra conversa, de mais de uma hora! &#8211; que v\u00e1rias empresas para al\u00e9m de terem departamentos de recursos humanos, tamb\u00e9m t\u00eam pessoas, como capel\u00e3es, que tratam dos recursos humanos. E a fun\u00e7\u00e3o dos capel\u00e3es n\u00e3o \u00e9 ser justo, \u00e9 tratar das pessoas. E quando se consegue ter uma empresa que tem lucro &#8211; n\u00e3o \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o cultural, social, \u00e9 uma empresa, d\u00e1 lucro -, mas que consegue tratar da dignidade das pessoas, acho que \u00e9 este tipo de exemplos que o Papa espera ver nascer de um encontro destes. E isto existe no mundo e o Papa tamb\u00e9m quer celebrar isto.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 professor numa das faculdades de refer\u00eancia do pa\u00eds, a Nova SBE, e tem experi\u00eancia internacional. Ao n\u00edvel da academia, da universidade, do que se ensina e como se ensina, j\u00e1 h\u00e1 sensibilidade para estas quest\u00f5es e para a necessidade de se estudar um novo modelo econ\u00f3mico mais amigo do homem?<\/em><\/p>\n<p>Acho que \u00e9 onde esta grande transforma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m est\u00e1 a ser materializada. Eu dou uma cadeira para 400 alunos, todos os alunos de gest\u00e3o e economia da Nova SBE passam pela nossa cadeira, e o meu objetivo e da minha equipa \u00e9 muito f\u00e1cil &#8211; \u00e9 obrigar os alunos a pensar n\u00e3o s\u00f3 numa l\u00f3gica de impacto econ\u00f3mico, mas numa l\u00f3gica de impacto societal (impacto na sociedade) e impacto social. Para isso, o que fazemos com os alunos \u00e9 obrig\u00e1-los a ter uma experi\u00eancia\u2026 a nossa aula n\u00e3o \u00e9 uma aula, muitas destas coisas n\u00e3o se explicam, ent\u00e3o, pedimos aos alunos para terem uma experi\u00eancia: ajudarem organiza\u00e7\u00f5es que existem no mundo a ficarem um bocadinho melhor, a terem melhor impacto. E tem sido incr\u00edvel para os pr\u00f3prios alunos, n\u00e3o s\u00f3 do ponto de vista cognitivo, mas tamb\u00e9m do ponto de vista da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o que eles t\u00eam com os outros agentes de mudan\u00e7a que existem \u00e0 volta deles. Porque, como \u00e9 que eu posso tratar do mundo se estou numa das melhores universidades, vou para o melhor banco e para o melhor pa\u00eds? Eu n\u00e3o consigo tratar do mundo. Mas \u00e9 ao meter-me l\u00e1 no mundo, \u00e9 indo \u00e0 periferia, onde est\u00e3o as pessoas que precisam.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Esse \u00e9 o desafio do Papa. H\u00e1 uma ideia de desfasamento entre o que se estuda e depois a pr\u00e1tica, e de que o ensino da economia ainda \u00e9 demasiado te\u00f3rico, e que s\u00f3 quando se aplicam as teorias \u00e9 que se v\u00ea que n\u00e3o d\u00e3o resultado. Mas j\u00e1 h\u00e1, de facto, esse esfor\u00e7o, em sua opini\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Eu dou aula de impacto, \u00e9-me dif\u00edcil comentar as aulas dos meus colegas de Economia mas a tend\u00eancia que vejo, quer na universidade Nova e nas escolas de topo em Portugal e na Europa, s\u00e3o exemplos que conhe\u00e7o bastante bem, vejo o movimento contr\u00e1rio, que se preocupam com a sustentabilidade, com a quest\u00e3o de recursos, de ensinar isso aos alunos e at\u00e9 porque as empresas do futuro para onde v\u00e3o trabalhar os nossos alunos querem isso, est\u00e3o muitas delas paralisadas sem saber o que h\u00e3o de fazer e precisam que os nossos alunos os ajudem a perceber o que h\u00e1 a fazer e at\u00e9 que ponto t\u00eam que entrar nesta conversa de sustentabilidade e nesta conversa dos recursos que o Papa Francisco fala mas tamb\u00e9m de criar mais valor para a sociedade. Na minha aula o que eles fazem \u00e9 pensar como posso criar mais valor, isto \u00e9 muito importante porque tem a ver com inova\u00e7\u00e3o, digitaliza\u00e7\u00e3o, com tecnologia, com este mundo que \u00e9 deste jovens e que eles t\u00eam uma palavra a dizer no mundo que eles querem. Dou muitas vezes exemplos de transforma\u00e7\u00f5es societais que s\u00e3o ben\u00e9ficas para a sociedade, se pensarmos na luz e noutros, o telefone por exemplo, transformaram a maneira como vivemos, mas ben\u00e9ficas para a pr\u00f3pria sociedade e \u00e9 esse apelo que devemos fazer aos nossos alunos. E eles est\u00e3o superpreparados, os meus alunos fazem coisas incr\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 interesse por estas mat\u00e9rias?<\/em><\/p>\n<p>Mais que interesse h\u00e1 vontade de deixar uma marca, \u00e9 um dos gestos dos millennials \u00e9 deixar a sua marca, mais do que interesse, h\u00e1 um desejo internos, um prop\u00f3sito interno de deixar a marca deles e a fun\u00e7\u00e3o de um professor \u00e9 ajudar os alunos a ser o melhor que eles possam ser\u2026 que bom seria se eles fossem todos melhores do que eu, que a bondade deles ultrapassasse em milh\u00f5es a minha bondade, seria sinal que eu tinha feito a minha fun\u00e7\u00e3o. Acho que nisso a minha equipa de investiga\u00e7\u00e3o e de ensino essa \u00e9 a nossa posi\u00e7\u00e3o, deixar os alunos com o que eles t\u00eam, ajud\u00e1-los, mas deix\u00e1-los que eles florescem e conseguiram ser o melhor que eles s\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este encontro de 2020 \u00e9 um ato de confian\u00e7a do Papa \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m? Pode ser lido dessa maneira, de que maneira \u00e9 que entre os alunos, entre os mais novos foi recebido a enc\u00edclica Laudato Si, porque o Papa faz quest\u00e3o de dizer que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 ecol\u00f3gica, mas que \u00e9 social, questiona modelos de produ\u00e7\u00e3o, modelos de consumo\u2026 estas propostas podem ser assimiladas no que \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o desta nova gera\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim e n\u00e3o. A proposta claramente, o formato, a Igreja tem muito a fazer e voc\u00eas est\u00e3o todos a fazer um trabalho incr\u00edvel, mas a Igreja tem um trajeto longu\u00edssimo e o Papa ainda a semana passada acabou com o arquivo secreto, aqui n\u00e3o h\u00e1 nada de secreto, mas este aproximar\u00a0 das pessoas e fazer a caminhada at\u00e9 onde elas est\u00e3o em vez de gritar \u201caqui \u00e9 \u00f3timo, venham ter at\u00e9 mim\u201d, \u00e9 encontrar as pessoas onde est\u00e3o e fazer a caminhada com elas, e isso \u00e9 a forma que n\u00f3s temos. A Laudato Si, que li e reli v\u00e1rias vezes, \u00e9 densa e n\u00e3o est\u00e1 escrita para ser lida como um livro de romance e sobretudo tem um dos cap\u00edtulos centrais, bastante teol\u00f3gico, que \u00e9 fundamental para se perceber os quatro ou cinco cap\u00edtulos que v\u00eam a seguir, mas que fala muito para dentro. Se estou ali incerto, se sou crist\u00e3o superficial e, de repente, leio aquele cap\u00edtulo, tenho ali alguma resist\u00eancia, mas sem aquele cap\u00edtulo n\u00e3o percebemos o que vem a seguir e eu percebo perfeitamente o que aquele cap\u00edtulo est\u00e1 a fazer. O trabalho de um professor como eu \u00e9 transformar a Laudato Si, n\u00e3o tirar conte\u00fado mas mudar a forma, e posso confidenciar uma coisa: estamos a fazer este curso para 50 jovens, da Acege Next e com a Universidade Cat\u00f3lica e AESE e na primeira sess\u00e3o fiz uma atividade com a Laudato Si que foi ouvir e mexer na Laudato Si de maneira diferente, em pares, tinha uma maneira e o seu par tinha outra, tinham de comunicar em sil\u00eancio. Havia de ver que as pessoas mexeram na Laudato Si, escreveram e deixaram a marca delas ali. Eu n\u00e3o mudei nada da mensagem do Papa, mas mudei a forma, isso \u00e9 um professor, \u00e9 o nosso papel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 a referir-se a este curso de forma\u00e7\u00e3o sobre a Economia de Francisco que est\u00e1 a unir as tr\u00eas principais universidades nos cursos de Economia e tamb\u00e9m a ACEGE Next, este n\u00facleo jovem da Associa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 de Empres\u00e1rios e Gestores, tem havido muito interesse por este curso, vai continuar, quando s\u00e3o as pr\u00f3ximas sess\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>As inscri\u00e7\u00f5es j\u00e1 terminaram e temos 52 jovens, dos 25 aos 40 anos, que est\u00e3o a fazer uma caminhada connosco at\u00e9 Assis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-153934 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/IMG_3737.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>V\u00e3o participar em Assis?<\/em><\/p>\n<p>Uns v\u00e3o e outros n\u00e3o, n\u00f3s n\u00e3o aceit\u00e1mos s\u00f3 pessoas que v\u00e3o participar, porque esses t\u00eam a responsabilidade de levar a voz de todos, isso \u00e9 muito patente neste curso. Quem vai tem de levar a voz dos 50. Sabemos que 15 est\u00e3o selecionados para ir, mas h\u00e1 muitos que n\u00e3o disseram ainda e isso \u00e9 a din\u00e2mica de Assis. Aqueles est\u00e3o a representar todos os outros milh\u00f5es que est\u00e3o espalhados pelo mundo e aqui queremos fazer o mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma responsabilidade seguinte que \u00e9 trazer o encontro de volta a realidade?<\/em><\/p>\n<p>O \u00faltimo encontro \u00e9 em abril mesmo por causa disso, acaba em abril para que os que v\u00e3o, venham e fa\u00e7am o compromisso aqui, na rua, na par\u00f3quia, na empresa. Para terem ideia temos pessoas a trabalhar nas maiores empresas de Portugal, temos pessoas que v\u00eam de IPPS, da parte mais social da nossa economia, temos um \u2018mix\u2019 superinteressante, uma diversidade enorme, uma quest\u00e3o de g\u00e9nero quase 50-50, o que nos alegra muito. Temos as condi\u00e7\u00f5es para que a transforma\u00e7\u00e3o de Assis, venha de volta a transforma\u00e7\u00e3o das nossas universidades e que n\u00e3o sabemos, at\u00e9 os jovens nos dizerem o que querem n\u00e3o sabemos, temos de estar flex\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>T\u00eam previstas outras atividade e iniciativas?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e3o previstas bastantes atividades, quer no Norte, quer regi\u00e3o de Lisboa. Uma vai j\u00e1 ser dia 26 novembro ao fim da tarde, para dar possibilidade \u00e0s pessoas que trabalham se possam juntar, organizada pela Universidade Cat\u00f3lica de Lisboa, que se chama \u201cEscutar o impacto\u201d. O esp\u00edrito do encontro de Assis, numa escala mais pequena, onde vamos discutir estas quest\u00f5es que o Papa pede para discutir e dar voz aos jovens que l\u00e1 est\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Conversamos neste intervalo de dois acontecimentos importantes, como a Web Summit, em Lisboa, e no pr\u00f3ximo domingo a Igreja assinala o Dia Mundial dos Pobres, s\u00e3o polos opostos que ainda marcam a sociedade em que vivemos?<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o polos opostos, mas eu penso que se tocam muitas vezes. O meu grande amigo Andr\u00e9s Barrios fez um estudo sobre os sem abrigo e sobre os seus padr\u00f5es de consumo e o telem\u00f3vel faz parte da vida de muitos sem abrigo. A utiliza\u00e7\u00e3o desse telem\u00f3vel pode ser fator de exclus\u00e3o ou inclus\u00e3o, isso pode ser interessante, porque os padr\u00f5es est\u00e3o a mudar. N\u00e3o podemos dizer q a internet ou a tecnologia \u00e9 m\u00e1, a internet \u00e9 o que quisermos fazer dela, o telefone \u00e9 o que quisermos fazer dele, a tecnologia tem de servir o prop\u00f3sito, pelo menos o nosso, de ser pessoas melhores, de fazermos mais com os dons que tivermos e recebermos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m uma responsabilidade para que n\u00e3o seja um fator suplementar de exclus\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Claro, quando criamos barreiras que s\u00e3o s\u00f3 tecnol\u00f3gicas que os pobres n\u00e3o podem ter acesso, estamos a criar exclus\u00e3o, mas sobretudo tamb\u00e9m instabilidade no futuro. Dou exemplo de um projeto que acompanhei em Mo\u00e7ambique, no Whatsapp, as pessoas ali h\u00e1 diferentes s\u00edtios onde t\u00eam rede e fazem transfer\u00eancia de conhecimento sobre as doen\u00e7as do feij\u00e3o, agricultores pobres, muit\u00edssimo pobres, mas que veem uma larva do feij\u00e3o, tiram foto, mandam para a rede, a rede responde como tratar a praga, aplicam e aquela rede funciona em apoio. Falamos de pessoas que est\u00e3o muito abaixo do limiar de pobreza, pessoas com quem as Na\u00e7\u00f5es Unidas dizem que n\u00f3s temos de as ajudar, elas j\u00e1 sabem ajudar se tiverem as ferramentas certas, e n\u00f3s temos de ajudar a ter acesso a essas ferramentas. Isto \u00e9 um pequeno exemplo que vejo \u00e0 minha volta e que o Papa quer celebrar estes bons exemplos. H\u00e1 um espa\u00e7o em Assis para isso, para celebrar, uma imensa parte tecnol\u00f3gica que ajuda pessoas, a ir \u00e0s periferias, ajuda as pessoas a viver melhor.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m vai participar ou est\u00e1 s\u00f3 nesta fase de prepara\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m vou participar e estou muito confiante no papel que os acad\u00e9micos v\u00e3o ter porque \u00e9 um papel de suporte e essa humildade for\u00e7ada que nos foi pedida pelo professor Bruni, ser assistentes, \u00e9 uma coisa que me tem feito refletir imenso, do alto do meu pedestal, no nosso papel como professores, se queremos mudar realmente o modelo econ\u00f3mico, que haja transforma\u00e7\u00e3o destas pessoas temos que as deixar dizer-nos qual \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o. Passa, por exemplo, por n\u00e3o julgar, e quantas vezes v\u00eam alunos \u00e0 minha sala, batem \u00e0 porta, e 30 segundos depois j\u00e1 estou a julgar? Se tenho tempo, se a ideia \u00e9 boa ou n\u00e3o, a primeira coisa que tenho de desenvolver \u00e9 esta capacidade de entender sem perceber, tem sido um papel muito importante este novo papel que nos deram.<\/p>\n<p>Nos convites que tenho tido sobre a Economia de Francisco, pe\u00e7o um jovem para ir comigo, dando o papel primordial a essa pessoa, \u00e9 isso que o Papa nos pede. Temos de tentar ser coerentes isso \u00e9 o que eu tenho desde esse encontro, transformou-me muito as palavras de um professor a quem o Papa pediu, ele tem uma obra incr\u00edvel, podia fazer uma coisa a medida dele, mas n\u00e3o, disse a 25 jovens isto tem de ser a vossa medida, um professor que est\u00e1 naquele estatuto fez aquilo, todos n\u00f3s podemos fazer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em v\u00e9speras da Igreja assinalar o III Dia Mundial dos Pobres, conversamos com Ricardo Z\u00f3zimo, professor de Gest\u00e3o da Nova School of Business &amp; Economics, a respeito do encontro mundial \u2018A economia de Francisco\u2019, que o Papa vai promover com estudantes e empres\u00e1rios em mar\u00e7o de 2020, em Assis. 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