{"id":15373,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-2\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-para-o-dia-mundial-da-paz-2\/","title":{"rendered":"Mensagem para o Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p>\u00abNa Verdade, a Paz\u00bb <!--more--> 1. Com a tradicional Mensagem para o Dia Mundial da Paz, ao in\u00edcio do ano novo, desejo fazer chegar afectuosos votos a todos os homens e mulheres da terra, e de modo particular a quantos sofrem por causa da viol\u00eancia e dos conflitos armados. S\u00e3o votos repletos de esperan\u00e7a por um mundo mais sereno, onde cres\u00e7a o n\u00famero daqueles que, individual ou comunitariamente, se empenham a percorrer os caminhos da justi\u00e7a e da paz.  2. Desde j\u00e1 gostaria de prestar um sincero tributo de gratid\u00e3o a meus predecessores, os grandes Pont\u00edfices Paulo VI e Jo\u00e3o Paulo II, clarividentes obreiros da paz. Animados pelo esp\u00edrito das Bem-aventuran\u00e7as, souberam ler, nos numerosos acontecimentos hist\u00f3ricos que marcaram os respectivos pontificados, a interven\u00e7\u00e3o providencial de Deus que jamais Se esquece da sorte do g\u00e9nero humano. Repetidas vezes, como infatig\u00e1veis mensageiros do Evangelho, convidaram toda a pessoa a recome\u00e7ar de Deus para se conseguir promover uma conviv\u00eancia pac\u00edfica em todas as regi\u00f5es da terra. \u00c9 na esteira deste nobil\u00edssimo ensinamento que se coloca a minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz: atrav\u00e9s dela, desejo uma vez mais reiterar a firme vontade da Santa S\u00e9 de continuar a servir a causa da paz. O pr\u00f3prio nome \u2014 Bento \u2014 que escolhi no dia da elei\u00e7\u00e3o para a C\u00e1tedra de Pedro, pretende indicar o meu convicto empenho a favor da paz. De facto, com ele quis fazer alus\u00e3o seja ao Santo Patrono da Europa, inspirador de uma civiliza\u00e7\u00e3o pacificadora no Continente inteiro, seja ao Papa Bento XV, que condenou a I Guerra Mundial como um \u00ab in\u00fatil massacre \u00bb [1] empenhando-se para que fossem reconhecidas por todos as raz\u00f5es superiores da paz.  3. O tema de reflex\u00e3o deste ano \u2014 \u00ab Na verdade, a paz \u00bb \u2014 exprime esta convic\u00e7\u00e3o: sempre que o homem se deixa iluminar pelo esplendor da verdade, empreende quase naturalmente o caminho da paz. A constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et spes do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, conclu\u00eddo h\u00e1 40 anos, afirma que a humanidade n\u00e3o conseguir\u00e1 \u00ab construir um mundo mais humano para todos os homens, a n\u00e3o ser que todos se orientem com esp\u00edrito renovado para a verdade da paz \u00bb. [2] Mas que significados pretende sugerir a express\u00e3o \u00ab verdade da paz \u00bb? Para se responder de maneira adequada a tal quest\u00e3o, \u00e9 preciso ter em conta que a paz n\u00e3o pode ser reduzida a simples aus\u00eancia de conflitos armados, mas tem de ser entendida como \u00ab um fruto da ordem que o divino Criador estabeleceu para a sociedade humana \u00bb, uma ordem \u00ab que deve ser realizada pelos homens, sempre anelantes por uma mais perfeita justi\u00e7a \u00bb. [3] Enquanto resultado duma ordem planeada e querida pelo amor de Deus, a paz possui uma intr\u00ednseca e irresist\u00edvel verdade pr\u00f3pria e corresponde \u00ab a um anseio e a uma esperan\u00e7a que vivem indestrut\u00edveis em n\u00f3s \u00bb. [4]  4. Assim delineada, a paz configura-se como dom celeste e gra\u00e7a divina, que requer, a todos os n\u00edveis, o exerc\u00edcio da nossa responsabilidade maior que \u00e9 a de conformar \u2014 na verdade, na justi\u00e7a, na liberdade e no amor \u2014 a hist\u00f3ria humana \u00e0 ordem divina. Quando vem a faltar a ades\u00e3o \u00e0 ordem transcendente das coisas, assim como o respeito daquela \u00ab gram\u00e1tica \u00bb do di\u00e1logo que \u00e9 a lei moral universal escrita no cora\u00e7\u00e3o do homem, [5] quando fica obstaculizado e impedido o progresso integral da pessoa e a tutela dos seus direitos fundamentais, quando muitos povos s\u00e3o obrigados a suportar injusti\u00e7as e desigualdades intoler\u00e1veis, como se pode esperar na consecu\u00e7\u00e3o do bem da paz? De facto, faltam aqueles elementos essenciais que d\u00e3o forma \u00e0 verdade deste bem. Santo Agostinho descreveu a paz como \u00ab tranquillitas ordinis \u00bb, [6] a tranquilidade da ordem, ou seja, aquela situa\u00e7\u00e3o que, em \u00faltima an\u00e1lise, permite respeitar e realizar cabalmente a verdade do homem.  5. E, ent\u00e3o, quem e que coisa pode impedir a realiza\u00e7\u00e3o da paz? A este respeito, a Sagrada Escritura p\u00f5e em evid\u00eancia, no seu primeiro livro \u2014 o G\u00e9nesis \u2014, a mentira, pronunciada ao in\u00edcio da hist\u00f3ria pelo ser de l\u00edngua b\u00edfida que o evangelista Jo\u00e3o designa como \u00ab pai da mentira \u00bb (Jo 8, 44). E a mentira \u00e9 tamb\u00e9m um dos pecados que lembra a B\u00edblia no \u00faltimo cap\u00edtulo do seu \u00faltimo livro \u2014 o Apocalipse \u2014, ao referir a exclus\u00e3o dos mentirosos da Jerusal\u00e9m Celeste: \u00ab Ficar\u00e3o de fora (&#8230;) todos os que amam e praticam a mentira \u00bb (22, 15). Com a mentira, est\u00e1 ligado o drama do pecado com as suas consequ\u00eancias perversas, que causaram, e continuam a causar, efeitos devastadores na vida dos indiv\u00edduos e das na\u00e7\u00f5es. Basta pensar naquilo que aconteceu no s\u00e9culo passado, quando aberrantes sistemas ideol\u00f3gicos e pol\u00edticos mistificaram de forma programada a verdade, levando \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 supress\u00e3o de um n\u00famero impressionante de homens e mulheres, exterminando mesmo fam\u00edlias e comunidades inteiras. Depois destas experi\u00eancias, como n\u00e3o sentir-se seriamente preocupado diante das mentiras do nosso tempo, que enquadram cen\u00e1rios amea\u00e7adores de morte em n\u00e3o poucas regi\u00f5es do mundo? A busca aut\u00eantica da paz deve partir da consci\u00eancia de que o problema da verdade e da mentira diz respeito a cada homem e mulher e aparece como decisivo para um futuro pac\u00edfico do nosso planeta.  6. A paz \u00e9 anseio irreprim\u00edvel presente no cora\u00e7\u00e3o de cada pessoa, independentemente das suas identidades culturais espec\u00edficas. Por isso mesmo, cada um deve colocar-se ao servi\u00e7o de um bem t\u00e3o precioso, trabalhando para que n\u00e3o se insinue qualquer forma de falsidade que venha contaminar a conviv\u00eancia. Todos os homens pertencem a uma \u00fanica e mesma fam\u00edlia. A excessiva exalta\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias diferen\u00e7as contrasta com esta verdade basilar. \u00c9 preciso recuperar a consci\u00eancia de estarmos irmanados num mesmo e, em \u00faltima an\u00e1lise, transcendente destino, para se poder valorizar da melhor forma as pr\u00f3prias diferen\u00e7as hist\u00f3ricas e culturais sem as contrapor mas, antes, harmonizando-as com os que pertencem a outras culturas. S\u00e3o estas verdades simples que tornam poss\u00edvel a paz; e s\u00e3o facilmente compreens\u00edveis quando se escuta o pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o com pureza de inten\u00e7\u00e3o. A paz apresenta-se ent\u00e3o de um modo novo: n\u00e3o como simples aus\u00eancia de guerra, mas como conviv\u00eancia dos diversos cidad\u00e3os numa sociedade governada pela justi\u00e7a, na qual se realiza tamb\u00e9m, na medida do poss\u00edvel, o bem de cada um deles. A verdade da paz chama todos a cultivarem rela\u00e7\u00f5es fecundas e sinceras, estimula a procurarem e a percorrerem os caminhos do perd\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o, a serem transparentes nas conversa\u00e7\u00f5es e fi\u00e9is \u00e0 palavra dada. De modo particular, o disc\u00edpulo de Cristo, que se sente insidiado pelo mal e consequentemente necessitado da interven\u00e7\u00e3o libertadora do divino Mestre, a Ele se dirige com confian\u00e7a por saber que \u00ab Ele n\u00e3o cometeu pecado, e a sua boca n\u00e3o proferiu mentira \u00bb (1 Ped 2, 22; cf. Is 53, 9). Com efeito, Jesus definiu-Se a Verdade em pessoa e, falando em vis\u00e3o ao vidente do Apocalipse, declarou a sua total avers\u00e3o a \u00ab todos os que amam e praticam a mentira \u00bb (Ap 22, 15). \u00c9 Ele que manifesta a verdade total do homem e da hist\u00f3ria. Com a for\u00e7a da sua gra\u00e7a \u00e9 poss\u00edvel estar na verdade e viver de verdade, porque s\u00f3 Ele \u00e9 totalmente sincero e fiel. Jesus \u00e9 a verdade que nos d\u00e1 a paz.  7. A verdade da paz deve valer, e fazer valer o seu resplendor ben\u00e9fico de luz, mesmo quando nos encontramos na tr\u00e1gica situa\u00e7\u00e3o duma guerra. Os Padres do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, na constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et spes, ressaltam que, \u00ab uma vez come\u00e7ada lamentavelmente a guerra, nem tudo se torna l\u00edcito entre as partes beligerantes \u00bb. [7] A Comunidade Internacional dotou-se de um direito internacional humanit\u00e1rio para limitar ao m\u00e1ximo, sobretudo nas popula\u00e7\u00f5es civis, as consequ\u00eancias devastadoras da guerra. Em numerosas circunst\u00e2ncias e com diversas modalidades, a Santa S\u00e9 manifestou o seu apoio a este direito humanit\u00e1rio, encorajando o seu respeito e pronta actua\u00e7\u00e3o, convencida de que existe, mesmo na guerra, a verdade da paz. O direito internacional humanit\u00e1rio deve ser inclu\u00eddo entre as express\u00f5es mais felizes e eficazes das exig\u00eancias que derivam da verdade da paz. Por isso mesmo, o respeito de tal direito imp\u00f5e-se como um dever para todos os povos. H\u00e1 que apreciar o seu valor e garantir a sua correcta aplica\u00e7\u00e3o, actualizando-o com normas pontuais capazes de fazer frente aos mut\u00e1veis cen\u00e1rios dos conflitos armados em curso e tamb\u00e9m ao uso de novos armamentos cada vez mais sofisticados.  8. Penso com gratid\u00e3o \u00e0s Organiza\u00e7\u00f5es Internacionais e a todos os que se esfor\u00e7am quotidianamente pela aplica\u00e7\u00e3o do direito internacional humanit\u00e1rio. Como poderia aqui esquecer tantos soldados empenhados em delicadas opera\u00e7\u00f5es que visam a concilia\u00e7\u00e3o dos conflitos e a restaura\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a realiza\u00e7\u00e3o da paz? A eles desejo recordar tamb\u00e9m estas palavras do Conc\u00edlio Vaticano II: \u00ab Aqueles que se dedicam ao servi\u00e7o da p\u00e1tria no ex\u00e9rcito, considerem-se servidores da seguran\u00e7a e da liberdade dos povos; na medida em que se desempenham como conv\u00e9m desta tarefa, contribuem verdadeiramente para o estabelecimento da paz \u00bb. [8] Neste exigente \u00e2mbito, coloca-se a ac\u00e7\u00e3o pastoral dos Ordinariatos Castrenses da Igreja Cat\u00f3lica: tanto para os Ordin\u00e1rios militares como para os capel\u00e3es militares vai o meu encorajamento para que, em toda a situa\u00e7\u00e3o e ambiente, se mantenham fi\u00e9is evangelizadores da verdade da paz.   9. Hoje em dia, a verdade da paz continua a ser comprometida e negada, de maneira dram\u00e1tica, pelo terrorismo que, com as suas amea\u00e7as e ac\u00e7\u00f5es criminosas, \u00e9 capaz de ter o mundo em estado de ansiedade e inseguran\u00e7a. Os meus predecessores Paulo VI e Jo\u00e3o Paulo II intervieram diversas vezes para denunciar a tremenda responsabilidade dos terroristas e para condenar a insensatez dos seus des\u00edgnios de morte. De facto, tais des\u00edgnios est\u00e3o inspirados por um niilismo tr\u00e1gico e desconcertante, que o Papa Jo\u00e3o Paulo II descrevia com estas palavras: \u00ab Quem mata, com actos terroristas, cultiva sentimentos de desprezo pela humanidade, manifestando desespero pela vida e pelo futuro: nesta perspectiva, tudo pode ser odiado e destru\u00eddo \u00bb. [9] E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o niilismo; tamb\u00e9m o fanatismo religioso, hoje frequentemente denominado fundamentalismo, pode inspirar e alimentar prop\u00f3sitos e gestos terroristas. Intuindo, desde o in\u00edcio, o perigo dilacerante que representa o fundamentalismo fan\u00e1tico, Jo\u00e3o Paulo II estigmatizou-o duramente, acautelando contra a pretens\u00e3o de impor com a viol\u00eancia, em vez de propor \u00e0 livre aceita\u00e7\u00e3o dos outros, a pr\u00f3pria convic\u00e7\u00e3o acerca da verdade. Assim escrevia ele: \u00ab Pretender impor aos outros com a viol\u00eancia aquela que se presume ser a verdade, significa violar a dignidade do ser humano e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, ultrajar a Deus, de quem ele \u00e9 imagem \u00bb. [10]  10. Bem vistas as coisas, o niilismo e o fundamentalismo relacionam-se de forma errada com a verdade: os niilistas negam a exist\u00eancia de qualquer verdade, os fundamentalistas avan\u00e7am a pretens\u00e3o de poder imp\u00f4-la com a for\u00e7a. Mesmo tendo origens diversas e sendo manifesta\u00e7\u00f5es que se inserem em contextos culturais distintos, o niilismo e o fundamentalismo t\u00eam em comum um perigoso desprezo pelo homem e sua vida e, em \u00faltima an\u00e1lise, pelo pr\u00f3prio Deus. Com efeito, na base deste tr\u00e1gico recurso est\u00e1, em definitivo, a falsifica\u00e7\u00e3o da verdade plena de Deus: o niilismo nega a sua exist\u00eancia e providencial presen\u00e7a na hist\u00f3ria; o fundamentalismo fan\u00e1tico desfigura a sua face amorosa e misericordiosa, substituindo-O por \u00eddolos feitos \u00e0 pr\u00f3pria imagem. Ao analisar as causas do fen\u00f3meno contempor\u00e2neo do terrorismo, \u00e9 desej\u00e1vel que, al\u00e9m das raz\u00f5es de car\u00e1cter pol\u00edtico e social, se tenham em conta tamb\u00e9m as mais profundas motiva\u00e7\u00f5es culturais, religiosas e ideol\u00f3gicas.  11. Perante os riscos que a humanidade vive em nossa \u00e9poca, \u00e9 dever de todos os cat\u00f3licos intensificar, em todas as partes do mundo, o an\u00fancio e o testemunho do \u00ab Evangelho da paz \u00bb, proclamando que o reconhecimento da verdade plena de Deus \u00e9 condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via e indispens\u00e1vel para a consolida\u00e7\u00e3o da verdade da paz. Deus \u00e9 amor que salva, Pai amoroso que deseja ver os seus filhos reconhecerem-se mutuamente como irm\u00e3os, procurando responsavelmente p\u00f4r os seus v\u00e1rios talentos ao servi\u00e7o do bem comum da fam\u00edlia humana. Deus \u00e9 fonte inesgot\u00e1vel da esperan\u00e7a que d\u00e1 sentido \u00e0 vida pessoal e colectiva. Deus, e s\u00f3 Ele, torna eficaz qualquer obra de bem e de paz. A hist\u00f3ria demonstrou amplamente que, fazer guerra a Deus para extirp\u00e1-Lo do cora\u00e7\u00e3o dos homens, leva a humanidade, assustada e empobrecida, para decis\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam futuro. Isto deve impelir os crentes em Cristo a fazerem-se testemunhas convictas de um Deus que \u00e9 inseparavelmente verdade e amor, colocando-se ao servi\u00e7o da paz numa ampla colabora\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica e com as outras religi\u00f5es e ainda com todos os homens de boa vontade.  12. Contemplando o actual contexto mundial, podemos com satisfa\u00e7\u00e3o registar alguns sinais promissores no caminho da constru\u00e7\u00e3o da paz. Penso, por exemplo, na diminui\u00e7\u00e3o num\u00e9rica dos conflitos armados. Trata-se certamente de passos ainda muito t\u00edmidos na senda da paz, mas capazes j\u00e1 de perspectivar um futuro de maior serenidade, particularmente para as aflitas popula\u00e7\u00f5es da Palestina, a Terra de Jesus, e para os habitantes de algumas regi\u00f5es da \u00c1frica e da \u00c1sia, que h\u00e1 v\u00e1rios anos esperam a conclus\u00e3o positiva dos percursos iniciados de pacifica\u00e7\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o. S\u00e3o sinais consoladores que requerem, para ser confirmados e consolidados, uma ac\u00e7\u00e3o concorde e diligente por parte sobretudo da Comunidade Internacional e dos seus \u00d3rg\u00e3os institu\u00eddos para prevenir os conflitos e dar solu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica aos que ainda perduram.  13. Mas, tudo isto n\u00e3o deve induzir a um ing\u00e9nuo optimismo. De facto, n\u00e3o se podem esquecer os sangrentos conflitos fratricidas e as guerras devastadoras que ainda continuam, infelizmente, semeando l\u00e1grimas e morte em vastas zonas da terra. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es onde o conflito, que est\u00e1 latente como o fogo debaixo das cinzas, pode novamente alastrar causando destrui\u00e7\u00f5es de alcance incalcul\u00e1vel. As autoridades que, em vez de realizarem quanto est\u00e1 ao seu alcance para promoverem eficazmente a paz, fomentam nos cidad\u00e3os sentimentos de hostilidade contra outras na\u00e7\u00f5es, arcam com uma grav\u00edssima responsabilidade: colocam em perigo, em regi\u00f5es de alto risco, os delicados equil\u00edbrios alcan\u00e7ados \u00e0 custa de \u00e1rduas negocia\u00e7\u00f5es, contribuindo assim para tornar mais inseguro e nebuloso o futuro da humanidade. Al\u00e9m disso, que dizer dos governos que contam com as armas nucleares para garantir a seguran\u00e7a dos seus pa\u00edses? Juntamente com in\u00fameras pessoas de boa vontade, pode afirmar-se que tal perspectiva, al\u00e9m de ser funesta, \u00e9 totalmente falaz. Numa guerra nuclear, n\u00e3o haveria realmente vencedores, mas apenas v\u00edtimas. A verdade da paz requer que todos \u2014 tanto os governos que de forma expl\u00edcita ou t\u00e1cita possuem armas nucleares, como os que pretendem consegui-las \u2014 invertam conjuntamente a marcha mediante op\u00e7\u00f5es claras e decididas, orientando-se para um progressivo e concordado desarmamento nuclear. Os recursos assim poupados poder\u00e3o ser destinados para projectos de desenvolvimento em benef\u00edcio de todos os habitantes e, em primeiro lugar, dos mais pobres.   14. A este respeito, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel deixar de registar com pena os dados de um aumento preocupante dos gastos militares e do com\u00e9rcio sempre pr\u00f3spero das armas, enquanto permanece atolado no p\u00e2ntano duma indiferen\u00e7a quase geral o processo pol\u00edtico e jur\u00eddico actuado pela Comunidade Internacional para consolidar o caminho do desarmamento. Se se continua a investir na produ\u00e7\u00e3o de armas e na pesquisa para criar novas, que futuro de paz ser\u00e1 poss\u00edvel? Os votos que me v\u00eam do fundo do cora\u00e7\u00e3o s\u00e3o de que a Comunidade Internacional saiba reencontrar a coragem e a sabedoria de relan\u00e7ar com convic\u00e7\u00e3o e unidade o desarmamento, dando aplica\u00e7\u00e3o concreta ao direito \u00e0 paz que pertence a todo o homem e povo. Empenhando-se por salvaguardar o bem da paz, os v\u00e1rios Organismos da Comunidade Internacional poder\u00e3o reencontrar aquela autoridade que \u00e9 indispens\u00e1vel para tornar cred\u00edveis e incisivas as suas iniciativas.  15. Os primeiros a beneficiarem duma decisiva op\u00e7\u00e3o pelo desarmamento ser\u00e3o os pa\u00edses pobres, que reclamam justamente, depois de tantas promessas, a actua\u00e7\u00e3o concreta do direito ao desenvolvimento. Tal direito foi reafirmado solenemente ainda na recente Assembleia Geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, que celebrou este ano o 60\u00ba anivers\u00e1rio da sua funda\u00e7\u00e3o. A Igreja Cat\u00f3lica, ao confirmar a pr\u00f3pria confian\u00e7a nesta Organiza\u00e7\u00e3o internacional, deseja-lhe uma renova\u00e7\u00e3o institucional e operativa que a ponha em condi\u00e7\u00f5es de responder \u00e0s novas exig\u00eancias da \u00e9poca actual, marcada pelo vasto fen\u00f3meno da globaliza\u00e7\u00e3o. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas deve tornar-se um instrumento sempre mais eficiente para promover no mundo os valores da justi\u00e7a, da solidariedade e da paz. A Igreja, por sua vez, fiel \u00e0 miss\u00e3o recebida do seu Fundador, n\u00e3o se cansa de proclamar por todo o lado o \u00ab Evangelho da paz \u00bb. Animada como est\u00e1 pela firme persuas\u00e3o de prestar um indispens\u00e1vel servi\u00e7o a quantos se dedicam a promover a paz, ela lembra a todos que a paz, para ser aut\u00eantica e duradoura, deve ser constru\u00edda sobre a rocha da verdade de Deus e da verdade do homem. S\u00f3 esta verdade pode sensibilizar os \u00e2nimos para a justi\u00e7a, abri-los ao amor e \u00e0 solidariedade, encorajar a todos a trabalharem por uma humanidade livre e solid\u00e1ria. Sim, apenas sobre a verdade de Deus e do homem assentam os alicerces de uma paz aut\u00eantica.  16. Na conclus\u00e3o desta mensagem, gostaria agora de dirigir-me particularmente aos que acreditam em Cristo, renovando-lhes o convite para se tornarem disc\u00edpulos do Senhor atentos e dispon\u00edveis. Escutando o Evangelho, queridos irm\u00e3os e irm\u00e3s, aprendemos a fundar a paz sobre a verdade duma exist\u00eancia quotidiana inspirada no mandamento do amor. \u00c9 necess\u00e1rio que cada comunidade se empenhe numa intensa e capilar obra de educa\u00e7\u00e3o e testemunho que fa\u00e7a crescer em cada um a no\u00e7\u00e3o da urg\u00eancia de descobrir sempre mais profundamente a verdade da paz. Ao mesmo tempo pe\u00e7o que se intensifique a ora\u00e7\u00e3o, porque a paz \u00e9 primariamente dom de Deus que se h\u00e1-de implorar incessantemente. Gra\u00e7as \u00e0 ajuda divina, ser\u00e1 certamente mais convincente e iluminador o an\u00fancio e o testemunho da verdade da paz. Com confian\u00e7a e abandono filial, voltemos o olhar para Maria, a M\u00e3e do Pr\u00edncipe da Paz. Ao in\u00edcio deste novo ano, pedimos-Lhe que ajude todo o Povo de Deus a ser, em cada situa\u00e7\u00e3o, agente de paz, deixando-se iluminar pela Verdade que nos torna livres (cf. Jo 8, 32). Pela sua intercess\u00e3o, possa a humanidade crescer no apre\u00e7o por este bem fundamental e comprometer-se na consolida\u00e7\u00e3o da sua presen\u00e7a no mundo, para entregar um futuro mais sereno e seguro \u00e0s gera\u00e7\u00f5es que h\u00e3o-de vir.  Vaticano, 8 de Dezembro de 2005.  <i>BENEDICTUS PP. XVI<\/i>  [1] Apelo aos Chefes dos povos beligerantes (1 de Agosto de 1917): AAS 9 (1917) 423. [2] N. 77. [3] Ibid., n. 78. [4] Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2004, n. 9. [5] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Discurso \u00e0 50a Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (5 de Outubro de 1995) n. 3.  [6] De civitate Dei, XIX, 13.  [7] N. 79.  [8] Ibid.  [9] Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, n. 6.  [10] Ibid.  \u00a9 Copyright 2005 &#8211; Libreria Editrice Vaticana<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abNa Verdade, a Paz\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[101,295,144,165,168,193,203,206,237,266,297,314],"class_list":["post-15373","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-africa","tag-biblia","tag-concilio-vaticano-ii","tag-dia-mundial-da-paz","tag-diocese-da-guarda","tag-educacao","tag-europa","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-nacoes-unidas","tag-santa-se","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15373"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15373\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}