{"id":15318,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-divindade-de-cristo-no-evangelho-de-joao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-divindade-de-cristo-no-evangelho-de-joao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-divindade-de-cristo-no-evangelho-de-joao\/","title":{"rendered":"A divindade de Cristo no Evangelho de Jo\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Segunda prega\u00e7\u00e3o de Advento do Pe. Raniero Cantalamessa na manh\u00e3 desta sexta-feira (9 de Dezembro) junto de Bento XVI e seus colaboradores da C\u00faria. <!--more--> Segunda prega\u00e7\u00e3o de Advento \u00e0 Casa Pontif\u00edcia \u00abVOC\u00ca ACREDITA?\u00bb A divindade de Cristo no Evangelho de Jo\u00e3o  1. \u00abSe n\u00e3o crerdes que Eu Sou&#8230;\u00bb  Um dia eu celebrava a Missa em um mosteiro de clausura. Era tempo pascal. Como passagem evang\u00e9lica estava a p\u00e1gina de Jo\u00e3o na qual Jesus pronuncia repetidamente o seu \u00abEu sou\u00bb: \u00abSe n\u00e3o crerdes que Eu Sou, morrereis em vossos pecados&#8230; Quando tiverdes elevado o Filho do homem, sabereis que Eu Sou&#8230; Antes que Abra\u00e3o existisse, Eu Sou\u00bb (Jo 8, 24.28.58).  O facto de que as palavras \u00abEu Sou\u00bb, contrariamente a toda regra gramatical, foram escritas ambas com letra mai\u00fascula, unido certamente a alguma outra causa mais misteriosa, fez saltar uma centelha. Aquela palavra se iluminou dentro de mim. N\u00e3o era mais s\u00f3 o Cristo de dois mil anos que a pronunciava, mas o Cristo ressuscitado e vivo que proclamava de novo, naquele momento, diante de n\u00f3s, o seu Ego Eimi, \u00abEu Sou\u00bb! A palavra adquiria resson\u00e2ncia c\u00f3smica. N\u00e3o se tratou aqui de uma simples emo\u00e7\u00e3o de f\u00e9, mas daquelas que, passadas, deixam no cora\u00e7\u00e3o uma recorda\u00e7\u00e3o indel\u00e9vel.  Iniciei com esta recorda\u00e7\u00e3o pessoal, porque o tema desta medita\u00e7\u00e3o \u00e9 a f\u00e9 em Cristo no Evangelho de Jo\u00e3o, e o \u00abEu Sou\u00bb de Cristo \u00e9 a express\u00e3o m\u00e1xima de tal f\u00e9. Os coment\u00e1rios modernos sobre o quarto evangelho s\u00e3o un\u00e2nimes em ver naquelas palavras de Jesus uma alus\u00e3o ao nome divino, como ele se apresenta, por exemplo, em Isa\u00edas 43, 10: \u00abPara que saibais e creiais em mim e que possais compreender que Eu sou\u00bb.  Santo Agostinho relacionava esta palavra de Jesus com a revela\u00e7\u00e3o do nome divino do \u00caxodo 3, 14, e conclu\u00eda: \u00abParece-me que o Senhor Jesus Cristo, dizendo: \u201cSe n\u00e3o crerdes que Eu Sou\u201d, n\u00e3o queria dizer nada mais que isto: \u201cSim, se n\u00e3o crerdes que eu sou Deus, morrereis nos vossos pecados\u201d.1  Pode-se objectar que estas s\u00e3o palavras de Jo\u00e3o, desenvolvimentos tardios da f\u00e9, que Jesus n\u00e3o as fez. Mas justamente aqui est\u00e1 o ponto. Elas s\u00e3o, pelo contr\u00e1rio, palavras de Jesus; certamente de Jesus ressuscitado que vive e fala agora \u00abno Esp\u00edrito\u00bb, mas sempre de Jesus, o mesmo Jesus de Nazar\u00e9.  Hoje se costuma distinguir as falas de Jesus nos evangelhos em palavras \u00abaut\u00eanticas\u00bb e em palavras \u00abn\u00e3o aut\u00eanticas\u00bb, isto \u00e9, em palavras pronunciadas verdadeiramente por ele durante a sua vida e em palavras atribu\u00eddas a ele pelos ap\u00f3stolos depois de sua morte. Mas esta distin\u00e7\u00e3o \u00e9 muito amb\u00edgua e n\u00e3o vale no caso de Cristo, como no caso de um autor humano comum.  N\u00e3o se trata, evidentemente, de colocar em d\u00favida o car\u00e1cter plenamente humano e hist\u00f3rico dos escritos do Novo Testamento, a diversidade dos g\u00e9neros liter\u00e1rios e das \u00abformas\u00bb, tanto menos de voltar \u00e0 velha ideia de inspira\u00e7\u00f5es verbais e quase mec\u00e2nicas da Escritura. Trata-se somente de saber se a inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica tem ainda algum sentido para os crist\u00e3os ou n\u00e3o; se, quando ao t\u00e9rmino de uma leitura b\u00edblica, exclamamos: \u00abPalavra do Senhor!\u00bb, acreditamos ou n\u00e3o naquilo que dizemos.   2. \u00abA obra de Deus \u00e9 crer naquele que ele enviou\u00bb  Cristo \u00e9 o objecto espec\u00edfico e prim\u00e1rio do crer segundo Jo\u00e3o. \u00abCrer\u00bb, sem outra especifica\u00e7\u00e3o, significa j\u00e1 crer em Cristo. Pode tamb\u00e9m significar crer em Deus, mas enquanto \u00e9 o Deus que mandou seu Filho ao mundo. Jesus se volta a pessoas que cr\u00eaem j\u00e1 no verdadeiro Deus; toda a insist\u00eancia sobre a f\u00e9 traz j\u00e1 esta coisa nova, que \u00e9 a sua vinda no mundo, o seu falar em nome de Deus. Em uma palavra, o seu ser o Filho unig\u00e9nito de Deus, \u00abuma coisa s\u00f3 com o Pai\u00bb.  Jo\u00e3o fez da divindade de Cristo e de sua filia\u00e7\u00e3o divina o objecto prim\u00e1rio de seu evangelho, o tema que tudo unifica. Ele conclui seu Evangelho dizendo: \u00abEstes [sinais] foram escritos para crerdes que Jesus \u00e9 o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome\u00bb (Jo 20, 31), e conclui sua Primeira carta quase com as mesmas palavras: \u00abIsto vos escrevo para saberdes que tendes a vida eterna, v\u00f3s que credes no nome do Filho de Deus\u00bb (1 Jo 5, 13).  Uma r\u00e1pida passada pelo Quarto evangelho mostra como a f\u00e9 na origem divina de Cristo constitui, por sua vez, seu tear e trama. Crer naquele que o Pai enviou \u00e9 visto como \u00abobra de Deus\u00bb, o que agrada a Deus, absolutamente (cf. Jo 6, 29). N\u00e3o crer \u00e9 visto, consequentemente, como \u00abo pecado\u00bb por excel\u00eancia: \u00abO consolador \u2013 foi dito \u2013 convencer\u00e1 o mundo quanto ao pecado\u00bb, e o pecado \u00e9 n\u00e3o haver acreditado nele (Jo 16, 8-9). Jesus pede para si o mesmo tipo de f\u00e9 que se pedia para Deus no Antigo Testamento: \u00abCredes em Deus, crede tamb\u00e9m em mim\u00bb (Jo 14, 1).  Tamb\u00e9m depois de sua partida, a f\u00e9 nele restar\u00e1 como grande separador de \u00e1guas no seio da humanidade: de um lado estar\u00e3o aqueles que, sem haver visto, crer\u00e3o (cf. Jo 20,29), e do outro lado estar\u00e1 o mundo que rejeitar\u00e1 crer. Diante desta distin\u00e7\u00e3o, todas as outras, conhecidas primeiramente, inclu\u00edda aquela entre judeus e gentios, passam a um segundo plano.  H\u00e1 que se permanecer estupefacto diante da empreitada que o Esp\u00edrito de Jesus permitiu a Jo\u00e3o levar a termo. Ele abra\u00e7ou os temas, os s\u00edmbolos, as expectativas, tudo isto que havia de religiosamente vivo, seja no mundo judaico como no helen\u00edstico, fazendo servir tudo isto a uma \u00fanica ideia, ou melhor, a uma \u00fanica pessoa: Jesus Cristo Filho de Deus, salvador do mundo.  Ao ler os livros de certos estudiosos, dependentes da \u00abEscola de hist\u00f3ria comparada das religi\u00f5es\u00bb, o mist\u00e9rio crist\u00e3o apresentado por Jo\u00e3o n\u00e3o se distingue sen\u00e3o em coisas de pouca import\u00e2ncia do mito religioso gn\u00f3stico e mandeu, ou da filosofia religiosa helen\u00edstica e herm\u00e9tica. Os limites se perdem, os paralelismos se multiplicam. A f\u00e9 crist\u00e3 converte-se em uma das variantes desta mitologia variada e desta religiosidade difusa.  Mas o que significa isto? Significa somente que se prescinde da coisa essencial: da vida e da for\u00e7a hist\u00f3rica que est\u00e1 por detr\u00e1s dos sistemas e das representa\u00e7\u00f5es. As pessoas vivas s\u00e3o diversas umas das outras, mas os esqueletos se assemelham todos. Uma vez reduzido a esqueleto, isolado da vida que produziu, isto \u00e9, da Igreja e dos santos, a mensagem crist\u00e3 corre o risco de sempre se confundir com outras propostas religiosas, enquanto isso \u00e9 \u00abinconfund\u00edvel\u00bb.  Jo\u00e3o n\u00e3o nos deixou um conjunto de doutrinas religiosas antigas, mas um potente kerygma. Aprendeu a l\u00edngua dos homens de seu tempo, para gritar nela, com todas suas for\u00e7as, a \u00fanica verdade que salva, a Palavra por excel\u00eancia, \u00abo Verbo\u00bb.  Uma empreitada como esta n\u00e3o se realiza no escrit\u00f3rio. A s\u00edntese joanina da f\u00e9 em Cristo \u00e9 colocada \u201cno foco\u201d, sob o influxo daquela un\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo que ensina toda coisa\u00bb, da qual ele mesmo, certamente por experi\u00eancia pessoal, fala na Primeira Carta (cf. 1 Jo 2, 20.27). Justamente por causa desta sua origem, o Evangelho de Jo\u00e3o, tamb\u00e9m hoje, n\u00e3o se compreende estudando em um escrit\u00f3rio, com quatro ou cinco dicion\u00e1rios abertos em frente para consultar.  S\u00f3 uma certeza revelada, que tem dentro de si a autoridade e a pr\u00f3pria for\u00e7a de Deus, pode desdobrar-se em um livro com tal insist\u00eancia e coer\u00eancia, chegando, de milhares de pontos diversos, sempre \u00e0 mesma conclus\u00e3o: Jesus de Nazar\u00e9 \u00e9 o Filho de Deus e o salvador do mundo.   3. \u00abBem-aventurado quem n\u00e3o se escandaliza de mim\u00bb  A divindade de Cristo \u00e9 o pico mais alto, o Everest, da f\u00e9. Muito mais dif\u00edcil que crer simplesmente em Deus. Esta dificuldade est\u00e1 ligada \u00e0 possibilidade e, assim, \u00e0 inevitabilidade do \u00abesc\u00e2ndalo\u00bb: \u00abBem-aventurado \u2013 disse Jesus \u2013 quem n\u00e3o se escandaliza de mim!\u00bb (Mt 11, 6). O esc\u00e2ndalo depende do fato que o que se proclama \u00abDeus\u00bb \u00e9 um homem do qual se sabe tudo: \u00abEste sabemos de onde \u00e9\u00bb, dizem os fariseus (Jo 7, 27).  A possibilidade do esc\u00e2ndalo deve ser especialmente forte para um jovem judeu como o autor do IV Evangelho, habituado a pensar em Deus como o tr\u00eas vezes Santo, aquele que n\u00e3o se pode ver e tocar com vida. Mas o contraste entre a universalidade do Logos e a conting\u00eancia do homem Jesus de Nazar\u00e9 parecia sumamente estridente tamb\u00e9m para a mentalidade filos\u00f3fica do tempo. \u00abFilho de Deus &#8211;  exclamava Celso \u2013 um homem que viveu poucos anos atr\u00e1s? Um de ontem ou anteontem?\u00bb, um homem \u00abnascido em um vilarejo da Jud\u00e9ia, de uma pobre fiandeira?\u00bb2. Esta reac\u00e7\u00e3o escandalizada \u00e9 a prova mais evidente que a f\u00e9 na divindade de Cristo n\u00e3o \u00e9 fruto da heleniza\u00e7\u00e3o do cristianismo, mas, em todo caso, da cristianiza\u00e7\u00e3o do helenismo.  Tamb\u00e9m com este prop\u00f3sito se l\u00eaem observa\u00e7\u00f5es iluminadoras na Introdu\u00e7\u00e3o ao cristianismo do atual Sumo Pont\u00edfice: \u00abCom o segundo artigo do \u201cCredo\u201d estamos diante de um aut\u00eantico esc\u00e2ndalo do cristianismo. Ele \u00e9 constitu\u00eddo pela confiss\u00e3o de que o homem-Jesus, um indiv\u00edduo injusti\u00e7ado por volta do ano 30 na Palestina, seja o \u201cCristo\u201d (o ungido, o eleito) de Deus, nada menos que o pr\u00f3prio Filho de Deus, portanto, centro focal, o fulcro determinante de toda hist\u00f3ria humana&#8230; \u00c9-nos verdadeiramente l\u00edcito abra\u00e7ar o fr\u00e1gil acontecimento de um simples evento hist\u00f3rico? Podemos correr o risco de confiar toda nossa exist\u00eancia, ou seja, toda hist\u00f3ria, a este fio de palha de um acontecimento qualquer, flutuante no infinito oceano da vicissitude c\u00f3smica?\u00bb3.  Sabe-se quanto esta ideia, j\u00e1 por si inaceit\u00e1vel ao pensamento antigo e ao asi\u00e1tico, encontra resist\u00eancia no contexto actual do di\u00e1logo inter-religioso. \u00abUm evento particular \u2013 faz-se observar \u2013, limitado no tempo e no espa\u00e7o, como \u00e9 a pessoa hist\u00f3rica de Cristo, n\u00e3o pode exaurir a infinita potencialidade de salva\u00e7\u00e3o de Deus e de seu Verbo\u00bb. Deve-se por isso admitir caminhos diversos de salva\u00e7\u00e3o, independente do Cristo hist\u00f3rico, Ainda que n\u00e3o do Verbo eterno de Deus.  A raz\u00e3o pode nos ajudar a dar uma primeira resposta a esta objec\u00e7\u00e3o. Se \u00e9 verdade de fato que nenhum evento particular possa exaurir, por si s\u00f3, a infinita potencialidade de salva\u00e7\u00e3o de Deus e de seu Verbo eterno, \u00e9 tamb\u00e9m verdade que esse possa realizar, com tal potencialidade, quanto basta para a salva\u00e7\u00e3o do mundo, sendo tamb\u00e9m ele finito!  Mas, em \u00faltima an\u00e1lise, o esc\u00e2ndalo se supera s\u00f3 com a f\u00e9. N\u00e3o basta eliminar as provas hist\u00f3ricas da divindade de Cristo e do cristianismo. N\u00e3o se pode crer verdadeiramente \u2013 escreveu Kierkegaard \u2013 sen\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de contemporaneidade, fazendo-se, isto \u00e9, contempor\u00e2neo de Cristo e dos ap\u00f3stolos. Mas a hist\u00f3ria, o passado, n\u00e3o nos ajuda a crer? N\u00e3o fazem agora dois mil anos que Cristo viveu? Seu nome n\u00e3o \u00e9 anunciado e acreditado no mundo inteiro? A sua doutrina n\u00e3o mudou a face do mundo, n\u00e3o penetrou vitoriosamente em todo ambiente? E a hist\u00f3ria n\u00e3o estabeleceu de maneira mais que suficiente que ele era Deus?  N\u00e3o, responde o mesmo fil\u00f3sofo, a hist\u00f3ria isto n\u00e3o pode fazer em toda a eternidade! N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, dos resultados de uma exist\u00eancia humana, como foi aquela de Jesus, concluir dizendo: Portanto, este homem era Deus! Uma pegada no caminho \u00e9 uma consequ\u00eancia do fato que algu\u00e9m tenha passado por ali. Eu posso enganar-me, crendo, por exemplo, que se trate de um p\u00e1ssaro. Examinando melhor, poderei concluir que n\u00e3o se trata de um p\u00e1ssaro, mas de um outro animal. Mas n\u00e3o posso, por mais que continue a examinar melhor, chegar a conclus\u00e3o de que n\u00e3o se trata nem de um p\u00e1ssaro nem de outro animal, mas de um esp\u00edrito, porque um esp\u00edrito, por sua natureza, n\u00e3o pode deixar rastros sobre a estrada.  Analogamente, n\u00e3o podemos chegar \u00e0 consequ\u00eancia de que Cristo \u00e9 Deus, simplesmente examinando aquilo que conhecemos dele e da sua vida, isto \u00e9, mediante a observa\u00e7\u00e3o directa. Quem quer crer em Cristo \u00e9 obrigado a fazer-se seu contempor\u00e2neo na descida, escutando o \u00abtestemunho interno\u00bb que por si nos d\u00e1 o Esp\u00edrito Santo.  Como cat\u00f3licos temos algumas reservas de fazer desta forma o enfrentar o problema da divindade de Cristo. Falta o devido relevo \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, outro a seu descimento, e n\u00e3o se tem muito em conta o testemunho externo dos ap\u00f3stolos, ou ainda o \u00abtestemunho interno do Esp\u00edrito Santo\u00bb. Mas h\u00e1 nisso um importante elemento de verdade do qual devemos ter em conta para tornar nossa f\u00e9 sempre mais aut\u00eantica e pessoal.  S\u00e3o Paulo diz que \u00abcom o cora\u00e7\u00e3o se cr\u00ea para obter a justi\u00e7a e com a boca se faz a profiss\u00e3o de f\u00e9 para ter a salva\u00e7\u00e3o\u00bb (Rm 10, 10). O segundo momento, a profiss\u00e3o de f\u00e9, \u00e9 importante, mas se n\u00e3o \u00e9 acompanhado do primeiro momento que se desenvolve nas profundezas ocultas do cora\u00e7\u00e3o esse \u00e9 v\u00e3o e vazio. \u00ab\u00c9 das ra\u00edzes do cora\u00e7\u00e3o que sai a f\u00e9\u00bb, exclama Santo Agostinho4, parafraseando o paulino corde creditur, com o cora\u00e7\u00e3o se cr\u00ea.  A dimens\u00e3o social e comunit\u00e1ria \u00e9 certamente essencial \u00e0 f\u00e9 crist\u00e3, mas essa deve ser o resultado de tantos atos de f\u00e9 pessoais, se n\u00e3o quer ser uma f\u00e9 puramente convencional e fict\u00edcia.   4. \u00abEu sou o Caminho, a Verdade e a Vida\u00bb  Esta f\u00e9 \u00abdo cora\u00e7\u00e3o\u00bb \u00e9 fruto de uma especial un\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito. Quando se est\u00e1 sob esta un\u00e7\u00e3o a f\u00e9 cria uma esp\u00e9cie de conhecimento, de vis\u00e3o, de ilumina\u00e7\u00e3o interior: \u00abN\u00f3s cremos e conhecemos\u00bb (Jo 6, 69); \u00abContemplamos o Verbo da vida\u00bb (cf. 1 Jo 1, 1). Ou\u00e7a Jesus afirmar: \u00abEu sou o caminho, a verdade e a vida. Ningu\u00e9m vem ao Pai se n\u00e3o por mim\u00bb (Jo 14, 6) e ou\u00e7a dentro de voc\u00ea, com todo o seu ser, que aquilo que escuta \u00e9 verdadeiro.  Conheci recentemente um caso impressionante desta ilumina\u00e7\u00e3o de f\u00e9 ocorrida justamente gra\u00e7as a esta palavra de Jesus transmitida por Jo\u00e3o. Conheci em Mil\u00e3o um artista su\u00ed\u00e7o que teve amizade com as personalidades filos\u00f3ficas e art\u00edsticas mais conhecidas de seu tempo e organizou mostras pessoais de pintura em v\u00e1rias partes do mundo. (Um quadro seu foi exposto e adquirido pelo Vaticano por ocasi\u00e3o do octog\u00e9simo anivers\u00e1rio de Paulo VI).  Sua apaixonada pesquisa religiosa o tinha levado a aderir ao budismo e ao hindu\u00edsmo. Depois de longas estadas no Tibet, \u00cdndia, Jap\u00e3o, tornou-se um mestre em tais disciplinas. Em Mil\u00e3o, tinha todo um grupo de profissionais e homens de cultura que recorriam \u00e0 sua orienta\u00e7\u00e3o espiritual e praticavam com ele medita\u00e7\u00f5es transcendentais e yoga.  Seu retorno \u00e0 f\u00e9 em Cristo me pareceu imediatamente um testemunho extraordinariamente actual e insisti muito para que colocasse por escrito. Chegou-me justamente neste dia seu manuscrito e quero ler um pequeno trecho. Ajuda, entre outras coisas, a entender o que Saulo viveu no caminho de Damasco, diante da luz que destru\u00eda em um instante todo o seu mundo interior e o substitu\u00eda com outro:  \u00abEncontrava-me s\u00f3, em um bosque espesso, quando veio aquela revolu\u00e7\u00e3o interior que mudou toda a estrutura pensante da minha mente. Conhecia as palavras de Cristo: \u201cEu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ningu\u00e9m chega ao Pai sen\u00e3o por mim\u201d. Mas, no passado, achava um tanto presun\u00e7osas. Agora estas palavras golpeavam o centro de meu ser. Depois de trinta e cinco anos de budismo, hindu\u00edsmo e tao\u00edsmo, eu era atra\u00eddo por \u00abaquele Deus\u00bb. Contudo havia em mim a presen\u00e7a de uma profunda rejei\u00e7\u00e3o por tudo o que se refere ao cristianismo. Lentamente, senti invadir-me uma estranha sensa\u00e7\u00e3o inteiramente nova, como jamais tinha experimentado. Percebi a presen\u00e7a de Algu\u00e9m que emanava uma extraordin\u00e1ria for\u00e7a\u00bb.  \u00abAquelas palavras de Cristo me obcecavam, tornando-se um pesadelo. Resisti, mas o som interior se ampliava e retornava como um eco em minha consci\u00eancia. Cheguei perto do p\u00e2nico, perdi o controle sobre minha mente e isto depois de trinta anos de medita\u00e7\u00e3o profunda era para mim inconceb\u00edvel. \u201cSim, \u00e9 verdade, tem raz\u00e3o, gritava, \u00e9 verdade, \u00e9 verdade, mas cesse, pe\u00e7o-te, pe\u00e7o-te\u201d. Pensei em morrer pela impossibilidade de sair daquela tremenda situa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o via mais as \u00e1rvores, n\u00e3o sentia mais os p\u00e1ssaros, era s\u00f3 a voz interior daquelas palavras que se estamparam no meu ser\u00bb.  \u00abCa\u00ed por terra e perdi a consci\u00eancia. Mas antes que acontecesse, senti-me envolvido por um amor sem limite. Senti liquefazer-se a estrutura que leva meu pensamento, como uma grande explos\u00e3o da minha consci\u00eancia. Morri para um passado no qual era profundamente condicionado, toda verdade se desintegrava. N\u00e3o sei por quanto tempo permaneci l\u00e1, mas quando tomei consci\u00eancia era como renascido. O c\u00e9u da minha mente era limpo e l\u00e1grimas sem fim escorriam e me banhavam o rosto e pesco\u00e7o. Sentia-me o ser mais ingrato que existe sobre toda a terra. Sim, a grande vida existe e n\u00e3o pertence a este mundo. Pela primeira vez descobri o que entendem os crist\u00e3os por \u201cgra\u00e7a\u201d\u00bb.  H\u00e1 vinte e cinco anos este homem, conhecido como Master Bee, junto com a mulher, uma artista tamb\u00e9m, leva uma vida semi-herem\u00edtica no mundo e aos antigos disc\u00edpulos que v\u00e3o consult\u00e1-lo ensina a ora\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e a ora\u00e7\u00e3o do ros\u00e1rio.  N\u00e3o tem sentido a necessidade de renegar suas experi\u00eancias religiosas passadas que prepararam o encontro com Cristo e lhe permitem agora estimar plenamente a novidade. Continua, por outro lado, a ter por essas profundo respeito, mostrando, com os fatos como \u00e9 poss\u00edvel conjugar hoje a mais total ades\u00e3o a Cristo com uma abertura enorme aos valores de outras religi\u00f5es.  A hist\u00f3ria secreta das almas, fora dos reflectores dos \u00abMass media\u00bb, est\u00e1 cheia destes encontros com Cristo que mudam a vida e \u00e9 uma pena que a discuss\u00e3o sobre ele, inclusive entre te\u00f3logos, prescinda completamente daqueles. Estes demonstram que Jesus \u00e9 verdadeiramente \u00abo mesmo, ontem, hoje e sempre\u00bb, capaz de prender o cora\u00e7\u00e3o dos homens de hoje com n\u00e3o menor for\u00e7a que quando \u00abprendeu\u00bb Jo\u00e3o e Paulo.   5. O disc\u00edpulo que Jesus amava (e que amava Jesus!)  Voltamos, para concluir, ao disc\u00edpulo que Jesus amava. Jo\u00e3o oferece-nos um fort\u00edssimo incentivo para redescobrir a pessoa de Jesus e para renovar nosso ato de f\u00e9 nele. \u00c9 um testemunho extraordin\u00e1rio do poder que Jesus pode chegar a ter sobre o cora\u00e7\u00e3o de um homem. Mostra-nos como \u00e9 poss\u00edvel construir em torno a Cristo todo o pr\u00f3prio universo. Consegue fazer perceber \u00aba plenitude \u00fanica, a maravilha inimagin\u00e1vel que \u00e9 a pessoa de Jesus\u00bb [5].  H\u00e1 mais. Os santos, n\u00e3o podendo levar consigo a f\u00e9 ao c\u00e9u, onde esta j\u00e1 n\u00e3o faz falta, s\u00e3o felizes de deix\u00e1-la como heran\u00e7a aos irm\u00e3os que necessitam dela na terra, como Elias deixou seu manto a Eliseu, subindo ao c\u00e9u. Toca-nos recolh\u00ea-lo. Podemos n\u00e3o s\u00f3 contemplar a f\u00e9 ardente de Jo\u00e3o, mas torn\u00e1-la nossa. O dogma da comunh\u00e3o dos santos assegura-nos que \u00e9 poss\u00edvel, e orando se faz a experi\u00eancia disso.  Algu\u00e9m disse que o maior desafio para a evangeliza\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio do terceiro mil\u00e9nio, ser\u00e1 a emerg\u00eancia de um novo tipo de homem e de cultura, o homem cosmopolita que, de Hong Kong a Nova York, e de Roma a Estocolmo, mova-se j\u00e1 em um sistema planet\u00e1rio de interc\u00e2mbios e de informa\u00e7\u00f5es que anula as dist\u00e2ncias e faz passar a um segundo plano as tradicionais distin\u00e7\u00f5es de cultura e de religi\u00e3o.  Agora, Jo\u00e3o viveu em um contexto cultural que tinha qualquer coisa em comum com este. O mundo ent\u00e3o experimentava, pela primeira vez, um certo cosmopolitismo. O pr\u00f3prio termo kosmopolites, cosmopolita, cidad\u00e3o do mundo, nasce e se afirma precisamente neste momento. Nas grandes cidades helen\u00edsticas, como Alexandria no Egipto, respirava-se um ar de universalismo e de toler\u00e2ncia religiosa.  Pois bem, como se comportou, em uma situa\u00e7\u00e3o assim, o autor do quarto Evangelho? Buscou talvez adaptar Jesus a este clima no qual todas as religi\u00f5es e os cultos eram acolhidos, de tal forma que aceitassem ser partes de um todo maior? Nada disto! N\u00e3o polemizou contra ningu\u00e9m, mais contra os maus crist\u00e3os e os her\u00e9ticos dentro da Igreja; n\u00e3o se lan\u00e7ou contra outras religi\u00f5es e cultos do tempo (sen\u00e3o, no Apocalipse, contra aquele indevido do imperador); simplesmente anunciou Cristo como supremo dom do Pai ao mundo, deixando cada um livre para acolher-lo ou n\u00e3o. Polemizou, \u00e9 verdade, com o juda\u00edsmo, mas isto n\u00e3o era para ele uma \u00aboutra religi\u00e3o\u00bb, era a sua religi\u00e3o!  Como chegou, Jo\u00e3o, a uma admira\u00e7\u00e3o assim total e a uma ideia assim absoluta da pessoa de Jesus? Como se explica que, com o passar dos anos, seu amor por ele, ao inv\u00e9s de debilitar-se, foi aumentando cada vez mais? Creio que, depois do Esp\u00edrito Santo, isso se deve ao fato de que tinha junto a si a M\u00e3e de Jesus, vivia com ela, orava com ela, falava com ela de Jesus. Produz certa impress\u00e3o pensar em que quando concebeu a frase: \u00abE o Verbo se fez carne\u00bb, o evangelista tinha a seu lado, sob o mesmo teto, aquela em cujo seio este mist\u00e9rio se havia realizado.  Or\u00edgenes escreveu: \u00abA flor dos quatro evangelhos \u00e9 o Evangelho de Jo\u00e3o, cujo sentido profundo, contudo, n\u00e3o pode compreender quem n\u00e3o tenha apoiado a cabe\u00e7a no peito de Jesus e n\u00e3o tenha recebido dele a Maria como sua pr\u00f3pria m\u00e3e\u00bb6.  Jesus nasceu \u00abpor obra do Esp\u00edrito Santo de Maria Virgem\u00bb. O Esp\u00edrito Santo e Maria, a t\u00edtulo diferente, s\u00e3o os dois aliados melhores em nosso esfor\u00e7o de aproximarmos de Jesus, de faz\u00ea-lo nascer, por f\u00e9, em nossa vida neste Natal.   1. S. Agostinho, In Ioh. 38, 10 (PL 35, 1680).  2. Or\u00edgenes, Contra Celso, I, 26.28 (SCh 147, pp. 202 ss.).  3. J. Ratzinger, Introdu\u00e7\u00e3o ao cristanismo, cit., p. 149.  4. S. Agostinho, In Ioh, 26, 2(PL 35, 1607).  5. J. Guillet, Jesus, em \u00abDictionnaire de spiritualit\u00e9\u00bb, 8, col. 1098.  6. Or\u00edgenes, Coment\u00e1rio a Jo\u00e3o, I, 6, 23 (SCH 120, pp. 70 s).   [Tradu\u00e7\u00e3o do original italiano realizada por Zenit] <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Segunda prega\u00e7\u00e3o de Advento do Pe. 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