{"id":15309,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/ultima-sessao-publica-do-concilio-vaticano-ii\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"ultima-sessao-publica-do-concilio-vaticano-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ultima-sessao-publica-do-concilio-vaticano-ii\/","title":{"rendered":"\u00daltima sess\u00e3o p\u00fablica do Conc\u00edlio Vaticano II"},"content":{"rendered":"<p>Discurso do Papa Paulo VI, a 7 de Dezembro de 1965 <!--more--> Vener\u00e1veis Irm\u00e3os  Conclu\u00edmos hoje o Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II e conclu\u00edmo-lo na plenitude do seu vigor e da sua efici\u00eancia. A vossa presen\u00e7a t\u00e3o numerosa demonstra-o, a ordenada estrutura\u00e7\u00e3o desta assembleia atesta-o, o leg\u00edtimo ep\u00edlogo dos trabalhos conciliares confirma-o, e a harmonia de sentimentos e prop\u00f3sitos proclama-o. Se n\u00e3o poucas quest\u00f5es, postas no decorrer do Conc\u00edlio, ainda aguardam uma solu\u00e7\u00e3o conveniente, isto indica sem d\u00favida que o Conc\u00edlio n\u00e3o conclui os seus trabalhos no meio do esgotamento de for\u00e7as mas antes no meio do entusiasmo que despertou; no per\u00edodo p\u00f3s-conciliar, se Deus quiser, ele voltar-se-\u00e1 de novo para estas quest\u00f5es com todo o empenho. Este nosso Conc\u00edlio deixar\u00e1 \u00e0 posteridade a imagem da Igreja que esta Aula representa, assim repleta de Pastores que professam a mesma f\u00e9, e respiram a mesma caridade; que est\u00e3o unidos pela comunh\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o, de disciplina, de entusiasmo; como isto \u00e9 maravilhoso  todos desejarem uma s\u00f3 coisa: oferecer-se como Cristo, nosso mestre e Senhor, pela vida da Igreja e pela salva\u00e7\u00e3o do mundo. O Conc\u00edlio, por\u00e9m, n\u00e3o deixa apenas \u00e0 posteridade a imagem da Igreja, mas tamb\u00e9m o patrim\u00f3nio da sua doutrina e dos seus mandamentos, isto \u00e9, o dep\u00f3sito que Cristo lhe confiou; dep\u00f3sito que no decurso dos tempos os homens sempre meditaram, transformaram, por assim dizer, no pr\u00f3prio sangue e exprimiram de algum modo no seu viver; dep\u00f3sito que agora, aclarado em muitos pontos, foi estabelecido e ordenado na sua integridade. Este dep\u00f3sito, vivo pela divina virtude da verdade e da for\u00e7a que o constituem, deve ser considerado apto para vivificar todo o homem que o acate piedosamente e dele alimente a sua pr\u00f3pria vida.  O que foi este Conc\u00edlio, e o que fez, seria o tema desta nossa medita\u00e7\u00e3o final. Mas isso pediria demasiada aten\u00e7\u00e3o e tempo, e n\u00e3o ousamos nesta hora \u00faltima e solene fazer uma s\u00edntese de t\u00e3o importante mat\u00e9ria. Preferimos perguntar a n\u00f3s mesmos qual foi a import\u00e2ncia religiosa do nosso Conc\u00edlio. Com esta express\u00e3o, entendemos significar as nossas rela\u00e7\u00f5es com. Deus, que bem declaram a exist\u00eancia da Igreja, a sua f\u00e9, a sua esperan\u00e7a, o seu amor, o que ela \u00e9, o que ela faz.  Podemos confessar que demos gl\u00f3ria a Deus, que busc\u00e1mos o seu conhecimento e o seu amor, que adiant\u00e1mos no esfor\u00e7o da sua contempla\u00e7\u00e3o, na \u00e2nsia da sua celebra\u00e7\u00e3o, na arte de o dar a conhecer aos homens que nos olham como Pastores e mestres dos caminhos do Senhor?  Acreditamos sinceramente que sim, at\u00e9 porque foi esta a inten\u00e7\u00e3o inicial e fundamental donde nasceu o prop\u00f3sito de celebrar o Conc\u00edlio. Ressoam ainda, nesta Bas\u00edlica de S. Pedro, as palavras pronunciadas no discurso inaugural do mesmo Conc\u00edlio, pelo nosso predecessor de feliz mem\u00f3ria, Jo\u00e3o XXIII, em quem, com toda a raz\u00e3o, podemos ver o autor deste Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico. Dizia ent\u00e3o aquele Pont\u00edfice: \u00abO que mais importa ao Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico \u00e9 o seguinte: que o dep\u00f3sito sagrado da doutrina crist\u00e3 seja guardado e ensinado de forma mais eficaz&#8230; O Senhor disse: \u00abProcurai primeiro o reino de Deus e a sua justi\u00e7a\u00bb. Esta palavra \u00abprimeiro\u00bb exprime, antes de mais, em que direc\u00e7\u00e3o devem mover-se os nossos pensamentos e as nossas for\u00e7as\u00bb (1).  E o acontecimento correspondeu exactamente \u00e0quela ideia. Para o apreciarmos devidamente, \u00e9 necess\u00e1rio recordar o tempo em que se levou a cabo este acontecimento: foi num tempo em que, como todos reconhecem, os homens est\u00e3o voltados mais para a conquista da terra do que para o reino de Deus; foi num tempo em que o esquecimento de Deus se torna habitual, como se os progressos da ci\u00eancia o aconselhassem; foi num tempo em que o acto fundamental da pessoa humana, mais consciente de si e da sua liberdade, tende a exigir uma liberdade total, livre de todas as leis que transcendam a ordem natural das coisas; foi num tempo em que os princ\u00edpios do laicismo aparecem como a consequ\u00eancia leg\u00edtima do pensamento moderno e s\u00e3o tidos quase como norma sapient\u00edssima segundo a qual a sociedade humana deve ser ordenada; foi num tempo em que a raz\u00e3o humana pretende exprimir o que \u00e9 absurdo e tira toda a esperan\u00e7a; foi num tempo, finalmente, em que as religi\u00f5es \u00e9tnicas est\u00e3o sujeitas a perturba\u00e7\u00f5es e transforma\u00e7\u00f5es jamais experimentadas. Foi neste tempo que se celebrou o nosso Conc\u00edlio para gl\u00f3ria de Deus, em nome de Cristo, com a inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo que \u00abtudo perscruta\u00bb e que continua a ser a alma da Igreja, \u00abpara que conhe\u00e7amos os dons de Deus\u00bb, (2) quer dizer, fazendo com que a Igreja conhe\u00e7a profundamente sob todos os aspectos a vida humana e o mundo. Merc\u00ea deste Conc\u00edlio, a doutrina teoc\u00eantrica e teol\u00f3gica sobre a natureza humana e sobre o mundo atrai a si a aten\u00e7\u00e3o dos homens, como se desafiasse aqueles que a julgam anacr\u00f3nica e estranha; e tais coisas se arroga que o mundo qualificar\u00e1, de in\u00edcio, como absurdas, mas que depois, assim o esperamos, reconhecer\u00e1 espontaneamente como humanas, como prudentes e salutares, a saber: Deus existe. Sim, Deus existe; realmente existe; vive; \u00e9 pessoal; \u00e9 providente, dotado de infinita bondade, n\u00e3o s\u00f3 bom em si mesmo mas imensamente bom para n\u00f3s; \u00e9 o nosso criador, a nossa verdade, a nossa felicidade, de tal modo que o homem, quando procura fixar em Deus a sua mente e o seu cora\u00e7\u00e3o, entregando-se \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o, realiza o acto que deve ser considerado o mais alto e mais perfeito; acto, que mesmo hoje pode e deve hierarquizar a imensa pir\u00e2mide da actividade humana.  Dir\u00e1 algu\u00e9m que o Conc\u00edlio, mais do que das verdades divinas, se ocupou principalmente da Igreja, da sua natureza, da sua estrutura, da sua voca\u00e7\u00e3o ecum\u00e9nica, da sua actividade apost\u00f3lica e mission\u00e1ria. Esta secular sociedade religiosa que \u00e9 a Igreja esfor\u00e7ou-se por pensar sobre si mesma, para melhor se conhecer, melhor se definir e, consequentemente, melhor dispor os seus sentimentos e os seus preceitos. Isto \u00e9 verdade. Mas esta introspec\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi o \u00fanico fim que teve em vista, n\u00e3o foi uma ostenta\u00e7\u00e3o de pura cultura terrena. A Igreja, com efeito, entrando em si mesma, penetrou no \u00edntimo da sua consci\u00eancia n\u00e3o para se comprazer em eruditas an\u00e1lises sobre a psicologia religiosa ou a hist\u00f3ria das suas coisas, ou para intencionalmente reafirmar os seus direitos ou formular as suas leis; fez isto para encontrar em si a palavra de Cristo, viva e operante no Esp\u00edrito Santo, e para sondar mais profundamente o mist\u00e9rio, ou seja, o des\u00edgnio e a presen\u00e7a de Deus fora e dentro de si, e para reavivar em si o fogo da f\u00e9, que \u00e9 o segredo da sua seguran\u00e7a e da sua sabedoria, e reavivar o fogo do amor, que a obriga a cantar sem descanso os louvores de Deus, porque, como diz Santo Agostinho: \u00abCantar \u00e9 pr\u00f3prio do amante\u00bb (3). Os documentos conciliares, principalmente os que tratam da Revela\u00e7\u00e3o divina, da liturgia, da Igreja, dos sacerdotes, dos religiosos, dos leigos, permitem ver directamente esta primordial inten\u00e7\u00e3o religiosa e demonstram qu\u00e3o l\u00edmpida, fresca e rica \u00e9 a veia espiritual que o vivo contacto com Deus vivo faz brotar no seio da Igreja e correr sobre as \u00e1ridas glebas da nossa terra.  Mas n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito omitir algo que \u00e9 da maior import\u00e2ncia quando examinarmos o significado religioso deste Conc\u00edlio: isto teve ele a peito perscrutar o mundo deste nosso tempo. Nunca talvez como no tempo deste Conc\u00edlio a Igreja se sentiu na necessidade de conhecer, avizinhar, julgar rectamente, penetrar, servir e transmitir a mensagem evang\u00e9lica, e, por assim dizer, atingir a sociedade humana que a rodeia, seguindo-a na sua r\u00e1pida e cont\u00ednua mudan\u00e7a. Esta atitude, nascida pelo facto de a Igreja, no passado e sobretudo neste s\u00e9culo, ter estado ausente e afastada da civiliza\u00e7\u00e3o profana, esta atitude, sempre inspirada pela essencial miss\u00e3o salvadora da Igreja, esteve presente eficaz e continuamente no Conc\u00edlio. Por isso \u00e9 que alguns suspeitaram que nos homens e nos actos do Conc\u00edlio tinha dominado mais do que era justo e com demasiada indulg\u00eancia a doutrina do relativismo que se encontra no mundo externo, nas coisas que passam fugazmente, nas novas modas, nas necessidades contingentes, nos pensamentos dos outros; e isto \u00e0 custa da fidelidade devida \u00e0 doutrina tradicional e com preju\u00edzo da orienta\u00e7\u00e3o religiosa que necessariamente \u00e9 pr\u00f3pria dum Conc\u00edlio. Julgamos que n\u00e3o lhe deve ser atribu\u00edda esta atitude perniciosa, se bem atendermos \u00e0s suas verdadeiras e misteriosas inten\u00e7\u00f5es e \u00e0s suas aut\u00eanticas manifesta\u00e7\u00f5es.  Desejamos antes notar que a religi\u00e3o do nosso Conc\u00edlio foi, antes de mais, a caridade; por esta sua declarada inten\u00e7\u00e3o, o Conc\u00edlio n\u00e3o poder\u00e1 ser acusado por ningu\u00e9m de irreligiosidade, de infidelidade ao Evangelho, se nos lembrarmos que o pr\u00f3prio Cristo nos ensina que todos conhecer\u00e3o que somos seus disc\u00edpulos, se nos amarmos mutuamente (4); se deixarmos igualmente que estas palavras do Ap\u00f3stolo se fa\u00e7am ouvir dentro das nossas almas: \u00ab A religi\u00e3o pura e imaculada junto de Deus Pai \u00e9 esta: visitar os \u00f3rf\u00e3os e as vi\u00favas nas suas tribula\u00e7\u00f5es, e conservar-se imaculado neste mundo\u00bb (5); e mais estas: \u00abQuem&#8230; n\u00e3o ama o seu irm\u00e3o, a quem v\u00ea, como pode amar algu\u00e9m que n\u00e3o v\u00ea? (6)  Na verdade, a Igreja, reunida em Conc\u00edlio, entendeu sobretudo fazer a considera\u00e7\u00e3o sobre si mesma e sobre a rela\u00e7\u00e3o que a une a Deus; e tamb\u00e9m sobre o homem, o homem tal qual ele se mostra realmente no nosso tempo: o homem que vive; o homem que se esfor\u00e7a por cuidar s\u00f3 de si; o homem que n\u00e3o s\u00f3 se julga digno de ser como que o centro dos outros, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se envergonha de afirmar que \u00e9 o princ\u00edpio e a raz\u00e3o de ser de tudo. Todo o homem fenom\u00e9nico  para usarmos o termo moderno  revestido dos seus in\u00fameros h\u00e1bitos, com os quais se revelou e se apresentou diante dos Padres conciliares, que s\u00e3o tamb\u00e9m homens, todos Pastores e irm\u00e3os, e por isso atentos e cheios de amor; o homem que lamenta corajosamente os seus pr\u00f3prios dramas; o homem que n\u00e3o s\u00f3 no passado mas tamb\u00e9m agora julga os outros inferiores, e, por isso, \u00e9 fr\u00e1gil e falso, ego\u00edsta e feroz; o homem que vive descontente de si mesmo, que ri e chora; o homem vers\u00e1til, sempre pronto a representar; o homem r\u00edgido, que cultiva apenas a realidade cient\u00edfica; o homem que como tal pensa, ama, trabalha, sempre espera alguma coisa, \u00e0 semelhan\u00e7a do \u00abfilius accrescens\u00bb (7); o homem sagrado pela inoc\u00eancia da sua inf\u00e2ncia, pelo mist\u00e9rio da sua pobreza, pela piedade da sua dor; o homem individualista, dum lado, e o homem social, do outro; o homem \u00ab laudator temporis acti\u00bb, e o homem que sonha com o futuro; o homem por um lado sujeito a faltas, e por outro adornado de santos costumes; e assim por diante. O humanismo laico e profano apareceu, finalmente, em toda a sua terr\u00edvel estatura, e por assim dizer desafiou o Conc\u00edlio _para a luta. A religi\u00e3o, que \u00e9 o culto de Deus que quis ser homem, e a religi\u00e3o  porque o \u00e9  que \u00e9 o culto do homem que quer ser Deus, encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, an\u00e1tema? Tudo isto poderia ter-se dado, mas de facto n\u00e3o se deu. Aquela antiga hist\u00f3ria do bom samaritano foi exemplo e norma segundo os quais se orientou o nosso Conc\u00edlio. Com efeito, um imenso amor para com os homens penetrou totalmente o Conc\u00edlio. A descoberta e a considera\u00e7\u00e3o renovada das necessidades humanas  que s\u00e3o tanto mais molestas quanto mais se levanta o filho desta terra  absorveram toda a aten\u00e7\u00e3o deste Conc\u00edlio. V\u00f3s, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Conc\u00edlio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: tamb\u00e9m n\u00f3s  e n\u00f3s mais do que ningu\u00e9m somos cultores do homem.  Que h\u00e1 visto na humanidade este augusto senado? que se prop\u00f4s ele estudar \u00e0 luz da divindade? Quis considerar profundamente a sua dupla fisionomia: a mis\u00e9ria e a grandeza do homem, o seu mal profundo, mal sem d\u00favida incur\u00e1vel, e o seu bem, que permanece, sempre marcado de misteriosa beleza e singular poder. Precisamos de reconhecer que este nosso Conc\u00edlio deteve-se mais nos aspectos felizes do homem que nos desditosos. Nisto ele tomou uma. atitude claramente optimista. Uma corrente de interesse e de admira\u00e7\u00e3o saiu do Conc\u00edlio sobre o mundo actual. Rejeitaram-se os erros, como a pr\u00f3pria caridade e verdade exigiam, mas os homens, salvaguardado sempre o preceito do respeito e do amor, foram apenas advertidos do erro. Assim se fez, para que em vez de diagn\u00f3sticos desalentadores, se dessem rem\u00e9dios cheios de esperan\u00e7a; para que o Conc\u00edlio falasse ao mundo actual n\u00e3o com pres\u00e1gios funestos mas com mensagens de esperan\u00e7a e palavras de confian\u00e7a. N\u00e3o s\u00f3 respeitou mas tamb\u00e9m honrou os valores humanos, apoiou todas as suas iniciativas, e depois de os purificar, aprovou todos os seus esfor\u00e7os.  Vede por exemplo: como inumer\u00e1veis l\u00ednguas foram admitidas para exprimir lit\u00f9rgicamente a palavra dos homens a Deus e a palavra de Deus aos homens; como foi reconhecida ao homem enquanto homem a sua voca\u00e7\u00e3o fundamental a tantos direitos e a um destino transcendente; como as suas supremas aspira\u00e7\u00f5es \u00e0 vida, \u00e0 dignidade da pessoa, \u00e0 honrada liberdade, \u00e0 cultura, \u00e0 renova\u00e7\u00e3o da ordem social, \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 paz, foram purificadas e estimuladas; como a todos os homens foi dirigido o convite pastoral e mission\u00e1rio para receberem em si a luz do Evangelho. Tocamos muito de corrida tantos e t\u00e3o complicados problemas relativos ao bem-estar humano, de que o Conc\u00edlio se ocupou; nem o Conc\u00edlio pretendeu resolver todas as quest\u00f5es mais urgentes da vida actual; algumas ficaram reservadas para estudos mais profundos, que a Igreja levar\u00e1 depois a cabo; muitas outras foram tratadas em termos demasiado breves e gerais, e por isso admitem explica\u00e7\u00f5es mais profundas e aplica\u00e7\u00f5es diversas.  Mas conv\u00e9m notar uma coisa: o magist\u00e9rio da Igreja, embora n\u00e3o tenha querido pronunciar-se com senten\u00e7as dogm\u00e1ticas extraordin\u00e1rias sobre nenhum cap\u00edtulo doutrinal, prop\u00f4s, todavia, o seu ensinamento autorizado acerca de muitas quest\u00f5es que hoje comprometem a consci\u00eancia e a actividade do homem. Por assim dizer, a Igreja baixou a dialogar com o homem; e conservando sempre a sua autoridade e a sua virtude, adoptou a maneira de falar acess\u00edvel e amiga que \u00e9 pr\u00f3pria da caridade pastoral. Quis ser ouvida e entendida pelos homens. Por isso, n\u00e3o se preocupou s\u00f3 com falar \u00e0 intelig\u00eancia do homem, mas exprimiu-se no modo hoje usado na conversa\u00e7\u00e3o corrente, em que o recurso \u00e0 experi\u00eancia da vida e o emprego dos sentimentos cordiais d\u00e3o mais for\u00e7a para atrair e para convencer. Isto \u00e9, a Igreja falou aos homens de hoje, tais quais eles s\u00e3o.  Uma outra coisa julgamos digna de considera\u00e7\u00e3o: toda esta riqueza doutrinal orienta-se apenas a isto: servir o homem, em todas as circunst\u00e2ncias da sua vida, em todas as suas fraquezas, em todas as suas necessidades. A Igreja declarou-se quase a escrava da humanidade, precisamente no momento em que tanto o seu magist\u00e9rio eclesi\u00e1stico como o seu governo pastoral adquiriram maior esplendor e vigor devido \u00e0 solenidade conciliar; a ideia de servi\u00e7o ocupou o lugar central.  Tudo isto e tudo o mais que poder\u00edamos ainda dizer acerca do Conc\u00edlio, ter\u00e1 porventura desviado a Igreja em Conc\u00edlio para a cultura actual que toda \u00e9 antropoc\u00eantrica? Desviado, n\u00e3o; voltado, sim. Mas quem observa honestamente este interesse prevalente do Conc\u00edlio pelos valores humanos e temporais, n\u00e3o pode negar que tal interesse se deve ao car\u00e1cter pastoral que o Conc\u00edlio escolheu como programa, e dever\u00e1 reconhecer que esse mesmo interesse jamais est\u00e1 separado do interesse religioso mais aut\u00eantico, devido \u00e0 caridade que \u00e9 a \u00fanica a inspir\u00e1-lo (e onde est\u00e1 a caridade, a\u00ed est\u00e1 Deus), ou \u00e0 uni\u00e3o dos valores humanos e temporais com os especificamente espirituais, religiosos e eternos, afirmada e promovida sempre pelo Conc\u00edlio; este debru\u00e7a-se sobre o homem e sobre a terra, mas eleva-se ao reino de Deus.  A mentalidade moderna, habituada a julgar todas as coisas sob o aspecto do valor, isto \u00e9, da utilidade, dever\u00e1 admitir que o valor do Conc\u00edlio \u00e9 grande ao menos por isso: todo ele se orientou \u00e0 utilidade humana. Portanto, ningu\u00e9m chame in\u00fatil a uma religi\u00e3o como a cat\u00f3lica, que, ao exprimir a forma mais consciente e mais eficaz da sua ac\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, ao celebrar um Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico, se declara toda em favor e em servi\u00e7o do homem. A religi\u00e3o cat\u00f3lica e a vida humana reafirmam assim a sua alian\u00e7a, a sua converg\u00eancia para um s\u00f3 bem humano, a saber: a religi\u00e3o cat\u00f3lica \u00e9 para a humanidade, \u00e9, por assim dizer, a vida da humanidade. \u00c9 a vida da humanidade, pela doutrina sublime e de todo perfeita que oferece a respeito do homem (n\u00e3o \u00e9, porventura, o homem, deixado a si mesmo, um mist\u00e9rio para si mesmo?); e oferece-a precisamente em virtude da sua ci\u00eancia a respeito de Deus: para conhecer o homem, o homem verdadeiro, o homem integral, \u00e9 necess\u00e1rio conhecer a Deus; para o provar, basta-nos por agora recordar as palavras inflamadas de S. Catarina de Sena: \u00abNa tua natureza, \u00f3 Deus eterno, conhecerei a minha natureza\u00bb. A religi\u00e3o cat\u00f3lica \u00e9 a vida da humanidade, porque descreve a natureza e o destino do homem, e d\u00e1-lhe o seu verdadeiro sentido. \u00c9 a vida da humanidade, finalmente, porque constitui a lei suprema da vida, e \u00e0 vida infunde a misteriosa energia que faz dela uma vida verdadeiramente divina.  E se recordamos, vener\u00e1veis Irm\u00e3os e amados Filhos, todos v\u00f3s que estais aqui presentes, como no rosto de todo o homem, sobretudo se se tornou transparente pelas l\u00e1grimas ou pelas dores, devemos descobrir o rosto de Cristo (8), o Filho do Homem; e se no rosto de Cristo devemos descobrir o rosto do Pai celestial, segundo aquela palavra: \u00abquem me v\u00ea a mim, v\u00ea tamb\u00e9m o Pai\u00bb (9), o nosso humanismo muda-se em cristianismo, e o nosso cristianismo faz-se teoc\u00eantrico, de tal modo que podemos afirmar: para conhecer a Deus, \u00e9 necess\u00e1rio conhecer o homem.  Estaria, ent\u00e3o, destinado este Conc\u00edlio, que dedicou ao homem a sua principal e esfor\u00e7ada aten\u00e7\u00e3o, a propor de novo ao mundo moderno a liberta\u00e7\u00e3o e a consola\u00e7\u00e3o a que gradualmente pode subir? N\u00e3o ser\u00e1, em resumo, um modo simples, novo e solene de ensinar a amar o homem para amar a Deus? Amar o homem, dizemos, n\u00e3o como instrumento, mas como que primeiro fim, que nos leva ao supremo fim transcendente. Por isso, todo este Conc\u00edlio se resume no seu significado religioso, n\u00e3o sendo outra coisa sen\u00e3o um veemente e amistoso convite em que a humanidade \u00e9 chamada a encontrar, pelo caminho do amor fraterno, aquele Deus \u00abde quem afastar-se \u00e9 cair, a quem dirigir-se \u00e9 levantar-se, em quem permanecer \u00e9 estar firme, a quem voltar \u00e9 renascer, em quem habitar \u00e9 viver\u00bb (10).  Assim N\u00f3s o esperamos, no final deste Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, e no in\u00edcio da renova\u00e7\u00e3o humana e religiosa que ele se prop\u00f4s estudar e promover; assim o esperamos para N\u00f3s, Irm\u00e3os e Padres do Conc\u00edlio; assim o esperamos para a humanidade inteira, que aqui aprendemos a amar mais e a servir melhor.  E enquanto para tal invocamos de novo a intercess\u00e3o dos santos Jo\u00e3o Baptista e Jos\u00e9, padroeiros do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico, dos santos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo, fundamentos e colunas da santa Igreja, e com eles a de S. Ambr\u00f3sio, Bispo, cuja festa hoje celebramos, como que juntando por meio dele a Igreja do Oriente e do Ocidente, imploramos igualmente de todo o cora\u00e7\u00e3o a protec\u00e7\u00e3o da bem-aventurada Virgem Maria, m\u00e3e de Cristo, por N\u00f3s chamada tamb\u00e9m m\u00e3e da Igreja, e com uma s\u00f3 voz, um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o, damos gra\u00e7as e glorificamos a Deus vivo e verdadeiro, a Deus \u00fanico e sumo, ao Pai, ao Filho e ao Esp\u00edrito Santo. Am\u00e9m (11).   Notas  1. AAS 54 (1962), p. 790.  2. Cfr. 1 Cor. 2, 10-12.  3. Serm. 336: PL 38, 1472.  4. Cfr. Jo. 13,35.  5. Tia. 1,27.  6. 1 Jo. 4,20.  7. G\u00e9n. 49,22.  8. Cfr. Mt. 25,40. 9 Jo. 14,9.  10. S. Agostinho, Sol. 1, 1,3: PL 32, 870.  11. AAS 58 (1966), p. 51-59.   [Tradu\u00e7\u00e3o distribu\u00edda pela Santa S\u00e9] <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Discurso do Papa Paulo VI, a 7 de Dezembro de 1965<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[144,168,238,246,285,297],"class_list":["post-15309","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-vaticano","tag-concilio-vaticano-ii","tag-diocese-da-guarda","tag-joao-xxiii","tag-liturgia","tag-patrimonio","tag-santa-se"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15309","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15309"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15309\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15309"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15309"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15309"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}