{"id":152490,"date":"2019-10-28T12:23:00","date_gmt":"2019-10-28T12:23:00","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=152490"},"modified":"2019-10-29T10:16:34","modified_gmt":"2019-10-29T10:16:34","slug":"o-segredo-da-falta-de-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-segredo-da-falta-de-tempo\/","title":{"rendered":"O segredo da falta de tempo"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Penso ter percebido um pouco melhor a raz\u00e3o de tantas pessoas se queixarem da falta de tempo: <em>o tempo que lhes falta n\u00e3o existe.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-152491\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime.jpg\" alt=\"\" width=\"1296\" height=\"371\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime.jpg 1296w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime-400x115.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime-768x220.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime-1024x293.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime-1080x309.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime-1280x366.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime-980x281.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/NoTime-480x137.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1296px) 100vw, 1296px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote><p>\u00abChegar a Deus ou \u00e0 Felicidade pelos meus atalhos, mais depressa e sem ter de dar contas a ningu\u00e9m foi, e \u00e9 a primeira tenta\u00e7\u00e3o em que facilmente se cai.\u00bb (Vasco Pinto de Magalh\u00e3es, s.j., \u201cS\u00f3 avan\u00e7a quem descansa, Tenacitas, 6\u00aaEd., 2017)<\/p><\/blockquote>\n<p>Quando os cientistas quiseram medir, pela primeira vez na hist\u00f3ria, uma velocidade precisavam de duas coisas, o espa\u00e7o percorrido e o tempo que demorou a percorrer. Mas como contabilizar esse tempo? Foi gra\u00e7as \u00e0 ci\u00eancia moderna que surgiu o <em>tempo cronol\u00f3gico<\/em>, que vem da palavra grega <em>chronos<\/em>, um tempo sequencial, medido, logo, fomos n\u00f3s que invent\u00e1mos o dia, a hora, o segundo, e usamos este tempo para sincronizar os nossos ritmos. Na pr\u00e1tica, \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o nossa. N\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, ver as horas e estar sistematicamente a orientar a nossa vida pelo rel\u00f3gio, significa sermos controlados por algo que n\u00e3o existe! Talvez por esse motivo vivamos o drama da falta de tempo. Estamos fora do tempo e corremos atr\u00e1s do que n\u00e3o existe, ou \u00e0 frente do tempo que n\u00e3o existe, fugindo dele. Vivemos a correr para n\u00e3o perder o comboio do tempo cronol\u00f3gico por n\u00f3s criado. Como lidar com este drama?<\/p>\n<figure id=\"attachment_152492\" aria-describedby=\"caption-attachment-152492\" style=\"width: 404px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lightman_Camboja.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-152492\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lightman_Camboja.jpg\" alt=\"\" width=\"404\" height=\"303\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lightman_Camboja.jpg 404w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/Lightman_Camboja-347x260.jpg 347w\" sizes=\"(max-width: 404px) 100vw, 404px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-152492\" class=\"wp-caption-text\">Alan Lightman com os Cambojanos de Tramung Chrum<\/figcaption><\/figure>\n<p>Reencontrar outro tempo.<\/p>\n<p>Alan Lightman \u00e9 um f\u00edsico divulgador de ci\u00eancia que realiza trabalho humanit\u00e1rio em zonas remotas onde n\u00e3o existem muitos dos confortos da vida tecnol\u00f3gica moderna. H\u00e1 alguns anos encontrava-se numa pequena aldeia do Camboja, Tramung Chrum, onde n\u00e3o h\u00e1 rede de electricidade ou \u00e1gua.<\/p>\n<p>Os bolbos de luz s\u00e3o alimentados por baterias de carros, a comida \u00e9 cozinhada em fogueiras, e os habitantes vivem do arroz que cultivam, melancias e pepinos. A vida na aldeia \u00e9 calma, come\u00e7ando com o nascer do sol e terminando pouco depois deste se p\u00f4r. Como n\u00e3o produzem todos os mantimentos que precisam, as mulheres percorrem 16km de bicicleta para ir ao mercado da cidade grande mais pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Um dia, Alan Lightman resolveu perguntar a uma destas mulheres quanto tempo levava a fazer aquela viagem, ao que ela respondeu &#8211; <em>\u201dnunca tinha pensado nisso.\u201d<\/em> &#8211; Prezamos cada minuto do nosso tempo, mas aquela mulher n\u00e3o demonstrou o m\u00ednimo interesse pelo nosso estimado tempo cronol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Os nossos dias est\u00e3o t\u00e3o contados e fragmentados ao minuto que n\u00e3o existem espa\u00e7os livres. Vivemos no sufoco de tanta coisa que temos para fazer, que parece estarmos presos ao tempo que invent\u00e1mos e n\u00e3o existe, e ainda sentimos que o desperdi\u00e7amos. Que tempo vivem as pessoas daquela aldeia?<\/p>\n<blockquote><p>\u00abEles n\u00e3o vivem num mundo de tempo, mas de espa\u00e7o. E o facto em si de criar mais espa\u00e7o, cria <strong>vastid\u00e3o<\/strong>. A reflex\u00e3o, contempla\u00e7\u00e3o, exame de consci\u00eancia, vaguear livre nos pensamentos, e as ideias, desabrocham naturalmente nesse espa\u00e7o. (\u2026) Os ritmos f\u00edsicos e mentais do dia s\u00e3o marcados por eventos, n\u00e3o pelas horas e minutos registados em rel\u00f3gios mec\u00e2nicos ou digitais.\u00bb (Alan Lightman, \u201cIn Praise of Wasting Time\u201d, TED Books, 2018)<\/p><\/blockquote>\n<p>Os habitantes de Tramung Chrum vivem num tempo que se vive mais do que o tempo cronol\u00f3gico, e pouco nos damos conta dele. Vivem no <em>tempo kairol\u00f3gico<\/em>, criado pelos eventos, oportunidades e mem\u00f3rias. Tempo mais para <em>ser<\/em> do que <em>fazer<\/em>.<\/p>\n<p>O tempo cronol\u00f3gico \u00e9 o quantitativo e sequencial que invent\u00e1mos. O tempo kairol\u00f3gico \u00e9 o que nos d\u00e1 uma consci\u00eancia viva do futuro que a n\u00f3s chega, e experimentamos no presente, para pertencer ao passado que reavaliamos atrav\u00e9s da nossa mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>No tempo cronol\u00f3gico somos n\u00f3s que nos movemos com o tempo, quer queiramos, quer n\u00e3o. Por isso, atrasamo-nos, estamos fora do tempo e da\u00ed sentirmos a falta dele. No tempo kairol\u00f3gico \u00e9 o tempo que passa por n\u00f3s, s\u00e3o o tempo e momento certo que n\u00e3o exige planeamento, mas prepara\u00e7\u00e3o. E essa prepara\u00e7\u00e3o envolve a sabedoria das li\u00e7\u00f5es do passado para acolher bem o futuro.<\/p>\n<p>Vivermos cada vez mais o tempo kairol\u00f3gico implica uma abertura ao passado e ao futuro que queremos viver intensamente em cada experi\u00eancia no presente. N\u00e3o conhecemos o futuro no tempo kairol\u00f3gico. Sabemos apenas que um dia chegar\u00e1 ao nosso presente se estivermos atentos.<\/p>\n<p>Diz o fil\u00f3sofo Richard Gault que a nossa sensibilidade ao tempo kairol\u00f3gico est\u00e1 atrofiada pela excessiva viv\u00eancia do tempo cronol\u00f3gico. Assim, \u00e9 preciso cultivar tr\u00eas aspectos para desatrofiar essa viv\u00eancia: f\u00e9, concentra\u00e7\u00e3o e imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<blockquote><p>\u00ab<strong>F\u00e9<\/strong> para esquecer os cron\u00f3metros (\u2026)<\/p>\n<p><strong>concentra\u00e7\u00e3o<\/strong> no presente onde estamos presentes, estar no tempo, em vez de vaguear fora dele (\u2026)<\/p>\n<p><strong>imagina\u00e7\u00e3o<\/strong> porque esta \u00e9 a faculdade misteriosa e mal-compreendida pela qual experimentamos as mensagens do tempo.\u00bb (Richard Gault, \u201cIn and Out of Time, Environmental Values 4 (1995): 149-66)<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o 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