{"id":151926,"date":"2019-10-21T18:06:44","date_gmt":"2019-10-21T17:06:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=151926"},"modified":"2019-10-22T17:06:32","modified_gmt":"2019-10-22T16:06:32","slug":"d-antonio-ferreira-gomes-o-homem-da-igreja-e-do-povo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/d-antonio-ferreira-gomes-o-homem-da-igreja-e-do-povo\/","title":{"rendered":"D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes &#8211; O Homem da Igreja e do Povo"},"content":{"rendered":"<p><em>D. Manuel Linda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-151644 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/10\/ferreira_gomes_1500.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Quando se contempla o sol, podemos ficar-se pelos seus efeitos ou considerar antes a grandeza desta estrela. Mas mesmo que nos fixemos neste segundo \u00e2mbito, nem todos equacionaremos a sua dimens\u00e3o: para um astr\u00f3nomo ou cientista estar\u00e1 presente a ideia de uma massa at\u00f3mica imensamente maior que a terra; para outros de n\u00f3s, apenas aquele pequeno c\u00edrculo avermelhado e provocante que fotografamos nostalgicamente quando se p\u00f5e, nos dias sem nevoeiro.<\/p>\n<p>Assim acontece com os grandes. Tanto podemos apreci\u00e1-los na sua efetiva grandeza como apouca-los, reduzi-los a uma insignific\u00e2ncia, jugando-os, porventura, fruto do acaso ou de alguma circunst\u00e2ncia que os favoreceu.<\/p>\n<p>D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes n\u00e3o poderia constituir exce\u00e7\u00e3o. Para alguns, embora, certamente, devotando-lhe uma certa simpatia, n\u00e3o passa do bispo pol\u00edtico, do bispo que bateu o p\u00e9 a Salazar. Para outros, encarnar\u00e1 a figura do mal-agradecido, do deselegante em rela\u00e7\u00e3o a quem libertou a Igreja em Portugal das afrontas, das persegui\u00e7\u00f5es e da pilhagem da Primeira Rep\u00fablica. Como sempre, nestes casos, a perspetiva depende mais de quem observa do que de quem \u00e9 observado. Seja como for, \u00e9 sempre uma vis\u00e3o superficial, exterior, que n\u00e3o atinge o n\u00facleo originador de sentido. Mas, ent\u00e3o, onde repousam as raz\u00f5es da grandeza deste bispo?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel desligar D. Ant\u00f3nio da Igreja que foi chamado a servir: a sua Diocese do Porto. No exerc\u00edcio do seu magist\u00e9rio episcopal, deu-se conta de que s\u00f3 a teologia, a doutrina pregada pela Igreja, \u00e9 resposta soteriol\u00f3gica ou salv\u00edfica ao questionamento do real. Observou a realidade e interrogou-se se o fundo \u00e9tico da sociedade e a nova ordem emergente correspondiam ao acontecimento de Cristo que \u201cfaz novas todas as coisas\u201d (Ap 21, 5). Foi, portanto, o homem de Igreja que olhou para o conjunto dos seus fi\u00e9is e, usando o m\u00e9todo tradicional do ver\/julgar\/agir, pregou as atitudes que, como gostava de dizer, lhe impunham a sua \u201cconsci\u00eancia profissional de bispo\u201d. Sempre \u00e0 base de dois pressupostos que definem a pessoa enquanto pessoa: liberdade e autonomia.<\/p>\n<p>Interessa, pois, n\u00e3o perder de vista o homem de Igreja que teve de se relacionar com as estruturas do mundo, mormente com a pol\u00edtica. Porque \u201co crist\u00e3o tem duas p\u00e1trias\u201d, sentiu-se obrigado a intervir na de c\u00e1 de baixo a partir da luz recebida da do alto. Assumiu que o tempo da cristandade, qual simbiose entre as duas, j\u00e1 h\u00e1 muito passou. Por isso, \u00e0 base da mundivid\u00eancia de Pio XII e, muito mais, munido com o \u201cmilagre de novidade\u201d do Conc\u00edlio, deu como inelud\u00edvel que os tempos eram de mudan\u00e7a. Pregou a fidelidade \u00e0s origens \u2013nisto se parece com os crit\u00e9rios de atua\u00e7\u00e3o do Papa Francisco- e reconduziu a \u201cpequena grei\u201d dos seus fi\u00e9is \u00e0 sublime tarefa de ser \u201csal da terra, luz do mundo\u201d, \u201cfermento na massa\u201d. N\u00e3o enjeitou a hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m n\u00e3o a quis repetir nem, muito menos, assumir o que n\u00e3o \u00e9 nosso, dos crist\u00e3os. \u00c9 o caso da Inquisi\u00e7\u00e3o, fen\u00f3meno eminentemente r\u00e9gio e pol\u00edtico, posteriormente colado \u00e0 Igreja de tal forma que hoje (quase) todos a d\u00e3o como se fosse cria\u00e7\u00e3o desta. E a odeiam por isso.<\/p>\n<p>Nesta linha, bateu-se fundamentalmente em duas dire\u00e7\u00f5es, ambas tendentes a fazer com que a Igreja do Porto falasse a uma s\u00f3 voz: criar uma mentalidade social assente na tal \u201cconstela\u00e7\u00e3o de valores\u201d, t\u00e3o cara ao \u201cBom Papa Jo\u00e3o XXIII\u201d, ou seja, a verdade e a liberdade, a justi\u00e7a e o amor\/fraternidade; e formar l\u00edderes que assumissem a condu\u00e7\u00e3o da coisa p\u00fablica quando chegassem os tempos novos da democracia. V\u00ea-se isto no \u201cpr\u00f3-mem\u00f3ria\u201d a Salazar e nas perguntas inc\u00f3modas que l\u00e1 v\u00e3o, mormente aquela que mais \u00abchocou\u00bb o governante, qual seja a de saber se o homem do poder via inconveniente na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos quadros dirigentes da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>A fidelidade a estes princ\u00edpios orientadores ditaram-lhe as c\u00e9lebres \u201chomilias da paz\u201d, a partir de 1970, logo ap\u00f3s o regresso do ex\u00edlio, e a demarca\u00e7\u00e3o completa da guerra colonial, n\u00e3o se coibindo de chamar a aten\u00e7\u00e3o para as suas consequ\u00eancias dram\u00e1ticas l\u00e1, nas \u00abcol\u00f3nias\u00bb, e c\u00e1, na \u00abmetr\u00f3pole\u00bb. \u00c9 significativa, por exemplo, a homilia do Dia Mundial da Paz de 1973 e, fundamentalmente, a de 1974, quando tudo j\u00e1 apontava para um \u201c25 de Abril\u201d eminente. N\u00e3o \u00e9 de admirar que, depois da \u201crevolu\u00e7\u00e3o dos cravos\u201d, muitos dos pais da nossa democracia fossem origin\u00e1rios do Porto e, quase sempre, das rela\u00e7\u00f5es pessoais de D. Ant\u00f3nio. E quando o \u201cver\u00e3o quente\u201d de 75 substituiu a racionalidade e a \u00e9tica pelo aventureirismo e o atropelo dos direitos humanos, colocando o pa\u00eds \u00e0 beira da guerra civil, mais uma vez, foi determinante a verticalidade de D. Ant\u00f3nio, a par, \u00e9 preciso dizer-se, com a grandeza c\u00edvica de muitos, mormente do Dr. M\u00e1rio Soares. Sabemos que isso lhe valeu a injusti\u00e7a de ser acusado pelos extremistas de se haver \u201cpassado para o outro lado da barricada\u201d, apenas porque n\u00e3o embarcou em leviandades perigosas. Mas foi isso que, mais uma vez, o constituiu como que sinalizador da liberdade democr\u00e1tica e garantia de que, perante a verdade e o bem-comum, pode-se sofrer, mas n\u00e3o se pode mudar de rumo.<\/p>\n<p>Eis, pois, alguns tra\u00e7os da grandeza deste homem da religi\u00e3o, leg\u00edtimo continuar dos Bispos do Porto de todos os tempos, dos \u201cbispos medievais\u201d, por ele t\u00e3o invocados, para quem a liberdade da sua Igreja e a defesa dos direitos do seu povo sempre foram valores inegoci\u00e1veis. Mesmo que tivessem de ser defendidos com a dor da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, o vexame e o ex\u00edlio, como aconteceu, por exemplo, c\u00e1 dentro, com esse \u201cm\u00e1rtir da Rep\u00fablica\u201d, o vener\u00e1vel D. Ant\u00f3nio Barroso e, l\u00e1 fora, com D. Sebasti\u00e3o Soares de Resende, outro ilustre portuense amigo, confidente e \u00abc\u00famplice\u00bb de Mons. Ferreira Gomes.<\/p>\n<p>Tudo isto fez dos meus antecessores verdadeiros \u201csenhores da cidade\u201d. Se, desde h\u00e1 muito, administrativamente, nenhum reclamou essa refer\u00eancia, n\u00e3o lhes fica mal esse t\u00edtulo, pois, pela sua vida e obra, mereceram acolhimento no afeto dos cidad\u00e3os do Porto cidade e Porto regi\u00e3o. Que o diga, por exemplo, o meu direto antecessor, o senhor D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos: algu\u00e9m se plantou tanto no cora\u00e7\u00e3o do povo como ele, a ponto de l\u00e1 despontar um amor que nem a morte conseguiu extinguir?<\/p>\n<p>A heran\u00e7a de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes pode sintetizar-se precisamente nisso: quando todas as institui\u00e7\u00f5es, mormente a pol\u00edtica, a economia e a cultura, se afadigam em cortar com o antecedente ou mesmo demarcarem-se dele na mais hostil oposi\u00e7\u00e3o, esse arauto dos tempos novos encarnou, com a mais ousada valentia, a fidelidade \u00e0 longa tradi\u00e7\u00e3o que caracteriza os Bispos do Porto: defesa ac\u00e9rrima da liberdade da Igreja e n\u00e3o menor preocupa\u00e7\u00e3o com o bem comum da sociedade.<\/p>\n<p>Por isso, a grei tem-no no cora\u00e7\u00e3o. E a liberdade democr\u00e1tica de que hoje gozamos sabe quanto lhe deve. \u00c9 que o povo n\u00e3o se deixa enganar facilmente e distingue bem quem est\u00e1 do seu lado ou quem pretende us\u00e1-lo em seu benef\u00edcio. E D. Ant\u00f3nio esteve do lado do Povo e encarnou o seu mais nobre e profundo sentir.<\/p>\n<p><em>D. Manuel Linda, Bispo do Porto<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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