{"id":15188,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-leigo-e-a-igreja-pos-conciliar\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-leigo-e-a-igreja-pos-conciliar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-leigo-e-a-igreja-pos-conciliar\/","title":{"rendered":"O \u00ableigo\u00bb e a Igreja p\u00f3s-conciliar"},"content":{"rendered":"<p>1. Como \u00e9 sabido, o texto da Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica do Conc\u00edlio do Vaticano II sobre a Igreja, Lumen Gentium, \u00e9 o primeiro documento do magist\u00e9rio eclesial que dedica um cap\u00edtulo inteiro (o quarto) aos leigos, resumindo as quest\u00f5es relativas \u00e0 sua identidade e ao seu papel na Igreja e no mundo. Quanto \u00e0 quest\u00e3o da identidade, procura-se uma formula\u00e7\u00e3o que n\u00e3o fique pela \u00abnega\u00e7\u00e3o\u00bb do minist\u00e9rio ordenado \u2013 o leigo como n\u00e3o-cl\u00e9rigo \u2013 mas que avance elementos positivos na sua caracteriza\u00e7\u00e3o, tal como j\u00e1 vinham a ser formulados por alguns te\u00f3logos pr\u00e9-conciliares. E o primeiro desses elementos \u00e9, precisamente, o facto de se ser crist\u00e3o. Leigo, em realidade, \u00e9 todo o crist\u00e3o, sendo-o precisamente pelo seu baptismo. Depois, pode vir a ser ordenado, n\u00e3o \u00ababandonando\u00bb ent\u00e3o o seu estatuto de crist\u00e3o nem o facto de, basicamente, ser \u00ableigo\u00bb. Em realidade, contudo, isso continuaria a reduzir este qualificativo ao facto de permanecer como crist\u00e3o n\u00e3o-ordenado, pelo que o documento conciliar prop\u00f5e \u2013 mais uma vez, por inspira\u00e7\u00e3o em muitos contributos teol\u00f3gicos anteriores \u2013 uma caracteriza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria: o leigo \u00e9 aquele crist\u00e3o cuja voca\u00e7\u00e3o se realiza especialmente no trabalho mundano, isto \u00e9, no quotidiano da vida social, cultural, econ\u00f3mica, familiar, etc. O primeiro elemento \u2013 crist\u00e3o de pleno direito e dever \u2013 e o segundo \u2013 crist\u00e3o mergulhado no s\u00e9culo \u2013 constituem, ent\u00e3o, o fundamento para descrever a tarefa do leigo no interior da comunidade eclesial e no interior do mundo seu contempor\u00e2neo.  2. Tamb\u00e9m \u00e9 sabido que essas indica\u00e7\u00f5es provocaram transforma\u00e7\u00f5es de monta na vida quotidiana de muitos crist\u00e3os e de muitas comunidades eclesiais. Paulatinamente, foi-se superando a ideia \u2013 em realidade, sempre incorrecta, mas muitas vezes praticada \u2013 de que a Igreja era primordialmente constitu\u00edda pelos cl\u00e9rigos, respons\u00e1veis pela sua miss\u00e3o, sendo os fi\u00e9is restantes sobretudo \u00abconsumidores\u00bb da \u00aboferta\u00bb clerical, quando muito seus colaboradores. A vida das comunidades eclesiais \u2013 desde a liturgia \u00e0 catequese e a in\u00fameras outras actividades \u2013 conheceu, ent\u00e3o, um sempre crescente envolvimento daqueles crist\u00e3os que foram assumindo consci\u00eancia da sua tarefa como Igreja. Tendo-se aliado \u00e0 quest\u00e3o teol\u00f3gica de fundo o facto s\u00f3cio-cultural da diminui\u00e7\u00e3o acentuada de ministros ordenados, a Igreja passou a depender do compromisso activo e participativo de todos, seja qual for a \u00abqualidade\u00bb do seu minist\u00e9rio. Al\u00e9m disso, os desafios sociais e culturais de uma sociedade secularizada exigiram, cada vez com mais acuidade, uma interven\u00e7\u00e3o nos diversos terrenos do quotidiano, que s\u00f3 os crist\u00e3os a\u00ed presentes poderiam levar a cabo. Assim, a miss\u00e3o da Igreja, na transforma\u00e7\u00e3o progressiva do mundo em espa\u00e7o que acolhe o Reino de Deus, tornou-se primordialmente uma miss\u00e3o \u00ablaical\u00bb, na qual participam tamb\u00e9m, ao seu modo pr\u00f3prio, os ministros ordenados.  3. O processo p\u00f3s-conciliar, contudo, n\u00e3o esteve isento de algumas ambi-guidades e algumas desilus\u00f5es, assim como de muitas irrealiza\u00e7\u00f5es. Por um lado, uma incorrecta compreens\u00e3o da valoriza\u00e7\u00e3o do leigo no contexto da comunidade eclesial, mantendo em realidade a anterior mentalidade de diferentes \u00abdignidades\u00bb, identificou essa valoriza\u00e7\u00e3o com a realiza\u00e7\u00e3o, por parte do crist\u00e3o n\u00e3o-ordenado, daquelas tarefas que s\u00e3o espec\u00edficas do ministro ordenado. Assim, um laicado \u00abclericalizado\u00bb acabou por tornar, por vezes, ainda mais complexas as rela\u00e7\u00f5es de poder no interior da comunidade eclesial, com grave preju\u00edzo para a miss\u00e3o de toda a Igreja. Por outro lado, com base numa err\u00f3nea identifica\u00e7\u00e3o de minist\u00e9rio \u2013 servi\u00e7o \u2013 com exerc\u00edcio de poder, alguns cl\u00e9rigos viram-se assaltados pelo medo de perder esse \u00abpoder\u00bb, reagindo de forma muitas vezes agressiva e vedando a participa\u00e7\u00e3o laical na vida da Igreja. E n\u00e3o se trata de um medo que afecte apenas uma gera\u00e7\u00e3o mais velha, que conheceu outro contexto. \u00c9 um perigo constante num processo ainda em curso. Para al\u00e9m disso, encontramos frequentemente uma linguagem \u2013 at\u00e9 na comunica\u00e7\u00e3o social \u2013 que ainda identifica a \u00abIgreja\u00bb com os ministros ordenados, sobretudo com os bispos. N\u00e3o raramente, muitos crist\u00e3os declaram-se \u00abcontra\u00bb a Igreja, sem a percep\u00e7\u00e3o de que est\u00e3o no interior da comunidade que parecem querer recusar. \u00c9, sem d\u00favida, importante o exerc\u00edcio da cr\u00edtica no interior da comunidade eclesial. Mas deveria tratar-se sempre de uma cr\u00edtica na consci\u00eancia de que se pertence \u00e0quilo que se critica. Ali\u00e1s, essa ser\u00e1 a cr\u00edtica mais s\u00e9ria, honesta e eficaz. O maior problema da recep\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica do Conc\u00edlio \u00e9, contudo, o al-heamento de grande parte dos crist\u00e3os relativamente aos seus ensinamentos. N\u00e3o simplesmente por desconhecimento te\u00f3rico, mas porque se colocam muitas dificuldades \u00e0 real aplica\u00e7\u00e3o daquilo que a\u00ed \u00e9 ensinado sobre a miss\u00e3o do leigo. De facto, a pastoral ter\u00e1 que continuar a insistir fortemente no facto de que qualquer crist\u00e3o \u00e9, no interior da comunidade eclesial, sujeito de direitos e \u2013 na mesma medida ou ainda mais \u2013 sujeito de deveres. Na pr\u00e1tica, a corresponsabilidade de todos os crist\u00e3os pela miss\u00e3o da Igreja no mundo continua a s\u00f3 ser aplic\u00e1vel, de facto, a minorias eclesiais.  4. Tendo em conta que o qualificativo \u00ableigo\u00bb possui uma contextualiza\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3pria e n\u00e3o est\u00e1 livre de ambi-guidades, penso ser necess\u00e1rio entrar num caminho que supere mesmo a distin\u00e7\u00e3o entre \u00ableigo\u00bb e \u00abcl\u00e9rigo\u00bb, como \u00abcategorias\u00bb de perten\u00e7a eclesial, mesmo que j\u00e1 n\u00e3o impliquem subalterniza\u00e7\u00e3o. Em realidade, teremos que procurar construir uma Igreja de crist\u00e3os, iguais pelo seu baptismo \u2013 na linha da Igreja dos primeiros s\u00e9culos. Claro que n\u00e3o se trata de uma igualdade uniforme, mas de uma comunidade em que os iguais s\u00e3o diferentes, precisamente por exercerem diferentes minist\u00e9rios. No interior desses minist\u00e9rios, alguns s\u00e3o ordenados, n\u00e3o podendo isso estabelecer uma fissura na estrutura igualit\u00e1ria de base. Assim, a comunidade de crist\u00e3os iguais assume a miss\u00e3o da Igreja na diferen\u00e7a do minist\u00e9rio e do carisma de cada um, na fidelidade ao \u00fanico Esp\u00edrito e para o bem de todos \u2013 da comunidade eclesial e de toda a humanidade.  Jo\u00e3o Duque Professor de Teologia &#8211; UCP <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Como \u00e9 sabido, o texto da Constitui\u00e7\u00e3o Dogm\u00e1tica do Conc\u00edlio do Vaticano II sobre a Igreja, Lumen Gentium, \u00e9 o primeiro documento do magist\u00e9rio eclesial que dedica um cap\u00edtulo inteiro (o quarto) aos leigos, resumindo as quest\u00f5es relativas \u00e0 sua identidade e ao seu papel na Igreja e no mundo. 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