{"id":15186,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/os-40-anos-do-vaticano-ii-recepcao-e-situacao-actual\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"os-40-anos-do-vaticano-ii-recepcao-e-situacao-actual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-40-anos-do-vaticano-ii-recepcao-e-situacao-actual\/","title":{"rendered":"Os 40 anos do Vaticano II &#8211; Recep\u00e7\u00e3o e situa\u00e7\u00e3o actual"},"content":{"rendered":"<p>A data \u00e9 prop\u00edcia para fazer mem\u00f3ria e balan\u00e7o. N\u00e3o posso negar a colabora\u00e7\u00e3o pedida, porque vivi este tempo em pleno empenhamento pastoral e com alguma aten\u00e7\u00e3o ao que se passou e passa, em Portugal, no ap\u00f3s Conc\u00edlio. A not\u00edcia do Conc\u00edlio foi acolhida com muita alegria e muita esperan\u00e7a; a sua realiza\u00e7\u00e3o foi acompanhada de diversas iniciativas, quer para dar a conhecer o que se estava passando, quer para apresentar os documentos que iam chegando; a fase inicial seguinte, deu logo ocasi\u00e3o a actividades v\u00e1lidas, a n\u00edvel nacional e pelas dioceses. Quando os ecos do acontecimento se come\u00e7aram a esfumar e era o tempo de p\u00f4r em pr\u00e1tica, se muitas coisas se foram enraizando e dando frutos, tamb\u00e9m depressa ficaram a descoberto os solavancos, as desilus\u00f5es e as reac\u00e7\u00f5es \u00e0 mudan\u00e7a.  As mudan\u00e7as mais vis\u00edveis, como todos sabemos, foram no campo das celebra\u00e7\u00f5es lit\u00fargicas, n\u00e3o necessariamente no aprofundamento da liturgia, teologia e hist\u00f3ria, e nas implica\u00e7\u00f5es pastorais das mudan\u00e7as rituais em curso.  A eclesiologia conciliar teve avan\u00e7os e recuos. A mentalidade que dominava estava menos aberta e sens\u00edvel ao sentido do mist\u00e9rio, da comunh\u00e3o e do servi\u00e7o, e mais ao da hierarquia e do poder. A riqueza da Constitui\u00e7\u00e3o sobre a Revela\u00e7\u00e3o, Palavra e Tradi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foi facilmente apanhada: multiplicaram-se as actividades no campo b\u00edblico, mais de car\u00e1cter popular que de aprofundamento teol\u00f3gico consequente. Alguns Decretos conciliares, de interesse imediato, foram mais estudados. Assim, sobre a vida e minist\u00e9rio dos presb\u00edteros, vida consagrada, forma\u00e7\u00e3o sacerdotal e voca\u00e7\u00f5es, apos-tolado dos leigos e actividade mission\u00e1ria e, pela novidade, meios de comunica\u00e7\u00e3o social e a Declara\u00e7\u00e3o sobre a educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3. S\u00f3 mais tarde e em meios restritos, se deu pelo Decreto sobre o Ecume-nismo e pelas Declara\u00e7\u00f5es sobre a liberdade religiosa e as rela\u00e7\u00f5es com os n\u00e3o crist\u00e3os. E a Gaudium et Spes? Linguagem nova, por uns ansiada e para outros inc\u00f3moda. Muitos ficaram-se na cita\u00e7\u00e3o repetida do pro\u00e9mio \u201cAs alegrias e esperan\u00e7as, as tristezas e as ang\u00fastias\u2026\u201d e a pensar que, ao falar, com voz erudita dos \u201csinais dos tempos\u201d, estavam realizando o objectivo da Constitui\u00e7\u00e3o. Outros foram mais longe, na linha de caminhos j\u00e1 abertos, mas deixando ainda muito caminho para andar. Como estamos hoje? O Conc\u00edlio \u00e9, para alguns, coisa do passado; para outros, a renova\u00e7\u00e3o conciliar est\u00e1 como que a principiar; em muitos casos j\u00e1 enraizou e v\u00e3o-se vendo frutos; no conjunto, tanto \u00e9 caminho que se vai andando, com convic\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a, como apenas aberto, \u00e0 espera de novo sopro do Esp\u00edrito. As grandes linhas conciliares est\u00e3o, em muitos sectores e espa\u00e7os, em muitas comunidades e grupos, em muitos membros da Igreja, aguardando compreens\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o, sobretudo quando implicam convers\u00e3o de mentalidades e de atitudes. Os \u00f3rg\u00e3os de comunh\u00e3o e de participa\u00e7\u00e3o avan\u00e7am a medo; o reconhecimento do papel do laicado com os seus direitos e deveres, est\u00e1 longe de se generalizar; a compreens\u00e3o da voca\u00e7\u00e3o universal \u00e0 santidade, toca a estranheza de uma linguagem com pouco sentido; a com-plementaridade das voca\u00e7\u00f5es e dos carismas na Igreja n\u00e3o rompeu ainda alguns dos escal\u00f5es das diferen\u00e7as honrosas; a convers\u00e3o \u00e0s novas atitudes de acolhimento e di\u00e1logo com o mundo e as realidades profanas, sendo muito dif\u00edcil. A gra\u00e7a do Conc\u00edlio, por\u00e9m, n\u00e3o se perdeu e entrou no patrim\u00f3nio da Igreja como certeza irrevers\u00edvel e como apelo di\u00e1rio de compromisso e de esperan\u00e7a. Os clamores por um III Conc\u00edlio s\u00e3o, a meu ver, clamores de alguma ligeireza diletante. S\u00f3 cumprindo o que est\u00e1 ao nosso alcance e constitui alicerce seguro e refer\u00eancia indispens\u00e1vel, e tudo isso \u00e9 ainda muito, se poder\u00e1 ver melhor o que falta. Sem fidelidade no presente, os projectos futuros soam a fantasia descomprometida.  D. Ant\u00f3nio Marcelino bispo de Aveiro <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A data \u00e9 prop\u00edcia para fazer mem\u00f3ria e balan\u00e7o. N\u00e3o posso negar a colabora\u00e7\u00e3o pedida, porque vivi este tempo em pleno empenhamento pastoral e com alguma aten\u00e7\u00e3o ao que se passou e passa, em Portugal, no ap\u00f3s Conc\u00edlio. 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