{"id":15184,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/memoria-do-concilio\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"memoria-do-concilio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/memoria-do-concilio\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria do Conc\u00edlio"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o senti o chamamento do Episcopado como resultado de uma carreira onde iria ter, e foi com surpresa que recebi a convocat\u00f3ria do Papa Paulo VI, por meio da Nunciatura Apost\u00f3lica, em Lisboa, no m\u00eas de Setembro de 1965: \u201cO Santo Padre designou-o Bispo de Faro. Responda no prazo de tr\u00eas dias, ou pode mandar a resposta pelo portador\u201d. Fiquei siderado e tamb\u00e9m um pouco baralhado. Logo a seguir recebi outra carta: que fosse imediatamente para o Conc\u00edlio, para a \u00faltima Sess\u00e3o. Fui. A\u00ed senti, juntamente com as humanidades dos bispos, o mist\u00e9rio da Igreja, a presen\u00e7a do Esp\u00edrito de Deus e ia-me dando conta do que estava a acontecer. Naquele contexto achei que um bispo devia ser ou tentar ser sens\u00edvel, eficaz e flex\u00edvel. E chegar ao volume das grandes coisas com a humildade dos pequenos passos. O Conc\u00edlio marcou-me profundamente. A conviv\u00eancia com o Papa, os outros bispos e o Esp\u00edrito Santo, nas sess\u00f5es di\u00e1rias daqueles \u00faltimos meses, a densidade e uma pressa de aprovar constitui\u00e7\u00f5es, decretos e declara\u00e7\u00f5es fizeram-me participar nos votos e aprova\u00e7\u00f5es da maior parte dos documentos conciliares: &#8211; \u201cDei Verbum\u201d em 18.11.1965; \u201cGaudium et Spes\u201d em 07.12.1965; \u201cChristus Dominus\u201d, em 27.10.1965; \u201cPresbiterorum Ordinis\u201d em 07.12.1965; \u201cPerfectae Caritatis\u201d, em 28.10.1965; \u201cOptatam Lotius\u201d, em 28.10.1965; \u201cApostolicam Actuoritatam\u201d, em 18.11.1965; \u201cAd Gentes\u201d, em 01.12.1965; \u201cDignitatis Humanae\u201d, em 07.12.1965; \u201cGravissimum Educationis\u201d, em 28.10.1965; \u201cNostra Aetate\u201d, em 28.10.1965. Certamente que o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o estava \u00e0 espera de mim para aprova\u00e7\u00e3o da maior parte dos documentos conciliares. O caso \u00e9 que, indo s\u00f3 no fim, na \u00faltima hora, votei quase todos, evangelicamente, como os que tinham ido na primeira hora. Lembro-me dos momentos e at\u00e9 de algumas circunst\u00e2ncias. E do encerramento, ao ar livre, na Pra\u00e7a de S. Pedro, das mensagens ao mundo, da pressa dos bispos para ocupar os primeiros lugares, que j\u00e1 n\u00e3o era tanta. Tamb\u00e9m a n\u00f3s o Esp\u00edrito Santo converte. E foi o regresso no dia 9 de Dezembro. Logo a seguir a ordena\u00e7\u00e3o episcopal no dia 26 de Dezembro, no est\u00e1dio municipal de \u00cdlhavo. Depois, o Algarve. L\u00e1 servi sete anos. Ainda hoje gosto de l\u00e1 passar. Depois Lisboa, cinco anos, porque Deus quis. Depois Viana, a bela Viana da Foz do Lima, diocese nova, tudo por fazer e fez-se muita coisa em quatro anos. Depois vim ter ao Porto, uma esp\u00e9cie de regresso \u00e0s origens. Com certo receio, com humildade, com a calma de quem se apaga, mas enquanto tem vida \u00e9 para servir at\u00e9 ao fim. E tudo, porque os anos da minha vida, foram como se fossem os \u00faltimos, como se fossem para toda a vida. Tudo, na raiz, porque Deus me chamou pelo nome, me viu debaixo da figueira, em certo dia, em certa hora, como acontece a toda a gente que se disponha. As viagens s\u00e3o diferentes em todos, cada um tem as suas miss\u00f5es, as suas diversidades, as suas alternativas. Cada um \u00e9 diferente. A vida \u00e9 para cada um de n\u00f3s um segredo, \u00e9 um mist\u00e9rio. O Conc\u00edlio foi para mim uma riqueza de dons gratuitos e tamb\u00e9m \u00e9 um mist\u00e9rio. Podia contar muitas coisas mas \u00e9 melhor ficarem guardadas na alma, embora se possam revelar. Para mim, foi um deslumbramento, foi uma superabund\u00e2ncia que espero dure at\u00e9 ao fim da minha vida terrena. E para al\u00e9m, em novos c\u00e9us e nova terra do mundo que h\u00e1-de vir. Agora vivemos na f\u00e9 e na esperan\u00e7a, depois viveremos na caridade, na luz de Deus, olhos nos olhos e tudo ser\u00e1 revelado. Para mim e certamente para todos valeu a pena. Foi verdadeiramente um agiornamento, um p\u00f4r em dia e actualizar a Igreja de Jesus Cristo que respondeu \u00e0 pergunta fundamental: &#8211; Igreja, quem \u00e9s tu?&#8230; \u00c9 claro que n\u00e3o vivemos, agora, em estado de perfei\u00e7\u00e3o, mas queremos alcan\u00e7\u00e1-lo. Tantas coisas que aconteceram, desde ent\u00e3o, tantas que n\u00e3o aconteceriam, sabemos l\u00e1? \u00c9 preciso neste tempo p\u00f4r em dia a face mist\u00e9rica da Igreja e viver confiados na infinita bondade de Deus que \u00e9 nosso Pai e quer a nossa felicidade j\u00e1 neste mundo. \u00c9 claro que o Conc\u00edlio teve conse-qu\u00eancias mais ou menos imediatas, mais ou menos a longo e a m\u00e9dio prazo. Estamos em tempo de Conc\u00edlio e continuaremos a estar por muito tempo. Seja qual for a opini\u00e3o que tenhamos sobre ele, o longo arco da sua influ\u00eancia continua a exercer-se sobre a Igreja, sobre o Mundo e, mais concretamente, sobre as comunidades crist\u00e3s. Talvez o quis\u00e9ssemos mais r\u00e1pido nos seus efeitos, com mais visibilidade, mas \u00e9 preciso ter em conta as leis do poss\u00edvel, e com uma sociedade de componentes humanas, contando sempre com a interven\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, contar com as limita\u00e7\u00f5es que s\u00e3o devidas \u00e0 sua natureza, para n\u00e3o ter que suportar os exageros e as precipita\u00e7\u00f5es que deles podem advir. Como esporadicamente pode ter acontecido. Mas \u00e9 positiva toda a \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d conciliar. E quando se repara, retrospectivamente, na movimenta\u00e7\u00e3o conciliar, enche-nos a sensa\u00e7\u00e3o de um certo conforto, a alegria, apesar de tudo, de uma grande esperan\u00e7a que nos vem do panorama \u201ccosmicamente\u201d eclesial, do Conc\u00edlio do Vaticano II. Valeu a pena. E bendita a Santa Igreja Cat\u00f3lica que nos gerou o Papa Jo\u00e3o XXIII e outros semelhantes, que tornaram poss\u00edvel a grande reforma conciliar para o s\u00e9culo XX, XXI e outros. Ainda uma perip\u00e9cia do Conc\u00edlio, uma circunst\u00e2ncia. Nessa altura, celebravam-se, salvo erro, os quinhentos anos do Dante. O Munic\u00edpio de Floren\u00e7a convidou os Bispos, pondo-lhe autocarros \u00e0 ordem, pagando as viagens aos Bispos. Foi generoso na celebra\u00e7\u00e3o do Dante e estiveram presentes umas largas centenas de bispos, em Floren\u00e7a. Na viagem dos autocarros iam latinos e ortodoxos (gregos). E ia o Senhor Bispo de Portalegre e Castelo Branco, a esse tempo, D. Agostinho de Moura. Falava, como de costume, muito e alto. Sabia muito de Hist\u00f3ria e meteu a contar a hist\u00f3ria dos Papas. Tudo bem. Acompanhavam-nos universit\u00e1rios da Universidade de Floren\u00e7a. Ia na contagem dos Papas Pios, precisamente no segundo. Eis sen\u00e3o quando, um dos bispos gregos, ortodoxos, fartou-se do barulho da contagem e desata: Irra!&#8230; diz o grego. Eles s\u00e3o doze e voc\u00ea ainda vai no segundo!&#8230; Uma gargalhada geral no autocarro. Bispos, alunos universit\u00e1rios.  Aprendemos muito nas conversas particulares. Havia um bispo australiano, muito alto, logo lhe puseram o nome de \u201calt\u00edssimo\u201d. Uma vez dei com ele a tirar uma prova para uma batina, mas, como era muito alto, as freiras andavam com um escadote para lhe chegar \u00e0 altura!!! Havia, na aula conciliar dois \u201cbares\u201d para os bispos se poderem servir, n\u00e3o de bebidas alco\u00f3licas. Um chamava-se \u201cBar Jonas\u201d, outro \u201cBanalas\u201d, etc. etc. Os bispos tamb\u00e9m se riam e \u00e9 bom. Muito teria a dizer, mas fico-me por aqui!&#8230;  D. J\u00falio Tavares Rebimbas Arcebispo Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o senti o chamamento do Episcopado como resultado de uma carreira onde iria ter, e foi com surpresa que recebi a convocat\u00f3ria do Papa Paulo VI, por meio da Nunciatura Apost\u00f3lica, em Lisboa, no m\u00eas de Setembro de 1965: \u201cO Santo Padre designou-o Bispo de Faro. 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