{"id":15183,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/memorias-do-concilio-vaticano-ii\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"memorias-do-concilio-vaticano-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/memorias-do-concilio-vaticano-ii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do Conc\u00edlio Vaticano II"},"content":{"rendered":"<p>Pedem-me umas breves linhas sobre o Conc\u00edlio Vaticano II. Fa\u00e7o-o, come\u00e7ando por anotar que, 62 anos antes, se tinha realizado o Conc\u00edlio Vaticano I. Estava-se no tempo de Pio IX. Este Conc\u00edlio durou apenas tr\u00eas meses, durante o Ver\u00e3o de 1870. Porque, no dia 20 de Setembro desse ano, as tropas italianas invadiram Roma. Esta cidade que, durante s\u00e9culos, pertenceu \u00e0 Santa S\u00e9, passou a pertencer ao Rei de It\u00e1lia. O Papa deixou o Quirinal e teve de refugiar-se no Vaticano. Muita gente pensou ter sido uma trag\u00e9dia. Pelo contr\u00e1rio &#8211; podemos agora diz\u00ea-lo &#8211; foi uma b\u00ean\u00e7\u00e3o de Deus! Sucederam a Pio IX os seguintes Papas: Le\u00e3o XIII, Pio X, Bento XV, Pio XI e Pio XII. Estes dois \u00faltimos Papas pensaram em convocar um Conc\u00edlio. Todavia as circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas &#8211; de modo particular as duas guerras mundiais, a primeira de 1914 a 1918, a segunda de 1939 a 1945 &#8211; n\u00e3o permitiram que se realizasse o projecto do Papa. Ap\u00f3s a morte de Pio XII, em 1958, foi eleito Papa \u00c2ngelo Roncalli, que tomou o nome de Jo\u00e3o XXIII. Apesar da idade avan\u00e7ada &#8211; tinha 78 anos &#8211; tr\u00eas meses depois de ter assumido as suas fun\u00e7\u00f5es, resolveu convocar um Conc\u00edlio. Dessa decis\u00e3o poucas pessoas tiveram conhecimento, mas, logo que ela foi conhecida, n\u00e3o faltaram aplausos ao Papa pela sua coragem. O Conc\u00edlio iniciou-se no dia 11 de Outubro de 1962. Os dias anteriores foram passados na redac\u00e7\u00e3o dos projectos dos textos conciliares, feito por um grupo de bispos assistidos por peritos em assuntos relacionados com o tema em causa. Esses peritos &#8211; cerca de quinhentos &#8211; acompanharam depois os debates conciliares. \u00c9 evidente que n\u00e3o tinham palavra na aula conciliar, mas estiveram na redac\u00e7\u00e3o dos textos e ajudaram os Bispos na elabora\u00e7\u00e3o das interven\u00e7\u00f5es a que s\u00f3 estes tinham direito. Os bispos que tomaram parte no Conc\u00edlio eram cerca de dois mil e duzentos; no encerramento do Vaticano II eram 2391. Entre estes estavam 50 bispos portugueses (da Metr\u00f3pole e das Col\u00f3nias, como ent\u00e3o se dizia). Destes 50 est\u00e3o vivos apenas 9. Havia Comiss\u00f5es Episcopais constitu\u00eddas por 25 membros, 16 deles designados por elei\u00e7\u00e3o de bispos e 9 por designa\u00e7\u00e3o do Papa. Aos Bispos de Portugal coube pertencerem a tr\u00eas dessas comiss\u00f5es. E s\u00f3 D. Manuel Trindade Salgueiro foi eleito pelos outros bispos; os restantes membros (D. Manuel Gon\u00e7alves Cerejeira e D. Ernesto Sena de Oliveira) por escolha do Papa. O Conc\u00edlio come\u00e7ou por um cortejo que, partindo dos Museus do Vaticano e passando pela Pra\u00e7a de S\u00e3o Pedro, entrava na Bas\u00edlica do mesmo nome. Os bispos levavam capa de asperges e mitra na cabe\u00e7a. Esta s\u00f3 para os que j\u00e1 tivessem recebido a ordena\u00e7\u00e3o episcopal. Eu, que tinha sido eleito tr\u00eas semanas antes e n\u00e3o tinha sido ordenado bispo, fui \u201ccondenado!\u201d, com mais tr\u00eas colegas a, em vez de mitra, levarmos na cabe\u00e7a barrete vermelho! As televis\u00f5es focaram esta excep\u00e7\u00e3o. O Papa Jo\u00e3o XXIII, dados os costumes da \u00e9poca, levou tiara na cabe\u00e7a e &#8211; dado o seu estado de sa\u00fade &#8211; ia sentado na sede gestat\u00f3ria. Na C\u00e1tedra, por cima do t\u00famulo de S\u00e3o Pedro, o Papa fez um discurso introdut\u00f3rio. N\u00e3o vou repeti-lo aqui. Fixarei, apenas, a palavra chave de todo o Conc\u00edlio: \u201caggiornamento\u201d. Jo\u00e3o XXIII tinha dado o mote. Pensava-se que, em tr\u00eas meses, se resolveriam os trabalhos do Conc\u00edlio. Ora aconteceu que, no final da primeira sess\u00e3o, dos 72 documentos propostos nem um sequer tinha sido aprovado! Jo\u00e3o XXIII morreu meses depois, em 3 de Junho de 1963. Mas a Provid\u00eancia divina tinha prevista a solu\u00e7\u00e3o. Em Mil\u00e3o estava algu\u00e9m (Montini) que, se fosse Papa, n\u00e3o teria convocado o Conc\u00edlio, n\u00e3o tinha cond\u00e3o para isso. Mas logo que Jo\u00e3o XXIII decidiu a realiza\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio e chegaram \u00e0s m\u00e3os dos bispos os projectos dos textos conciliares, o Cardeal Montini deu conta de que, nesses projectos, faltava um texto org\u00e2nico a lig\u00e1-los entre si. E, em carta dirigida ao Papa, oito dias depois do in\u00edcio do Conc\u00edlio, dizia o seguinte: \u201cParece-me que o Conc\u00edlio n\u00e3o tem um plano de trabalho preestabelecido\u201d. Para Montini o Conc\u00edlio devia ocupar-se de um \u00fanico problema: \u201cA Igreja\u201d. Tinha-se encontrado o caminho do Conc\u00edlio. Se, para Jo\u00e3o XXIII o problema estava no \u201caggiornamento\u201d da Igreja, para Paulo VI o problema central estava em reflectir sobre a ess\u00eancia da Igreja. O projecto conciliar, de 72 documentos passa para 16, deixando aspectos secund\u00e1rios para interven\u00e7\u00f5es futuras do Papa e das Congrega\u00e7\u00f5es Pontif\u00edcias. Entre esses 16 a Igreja ocupa o lugar central. Pareceu-me sempre que os 16 documentos conciliares se podem comparar a uma \u00e1rvore: uma \u00e1rvore tem tronco, ra\u00edzes, seiva e casca. Aqui temos a imagem das quatro Constitui\u00e7\u00f5es: o tronco \u00e9 a Igreja na sua constitui\u00e7\u00e3o essencial: Luz das gentes. As ra\u00edzes s\u00e3o a Sagrada Escritura &#8211; fonte constitutiva &#8211; e as tradi\u00e7\u00f5es &#8211; fonte interpretativa: A Divina Revela\u00e7\u00e3o. A seiva \u00e9 a Ora\u00e7\u00e3o (de modo particular a Liturgia) que mant\u00e9m vivo o tronco: O Sagrado Conc\u00edlio. A casca \u00e9 o contacto da Igreja com o mundo, do qual ela deve constituir a Alegria e a Esperan\u00e7a. Os nove Decretos tratam de assuntos importantes mas que n\u00e3o s\u00e3o fundamentais: s\u00e3o, de algum modo, o resultado das Constitui\u00e7\u00f5es. Das redac\u00e7\u00f5es dos documentos teve particular relevo (e trabalho!) a redac\u00e7\u00e3o sobre a Liberdade Religiosa, dado o sentido que a palavra teve ao longo de s\u00e9culos, sobretudo a partir do Syllabus de Pio IX, cuja interpreta\u00e7\u00e3o provocou certa celeuma. Sobre o tema interveio o bispo de Orl\u00e9ans, D. Felix Dupanloup, num livro que recebeu o aplauso de centenas de bispos e do pr\u00f3prio Papa Pio IX. O tema, como se v\u00ea, n\u00e3o era f\u00e1cil. Da\u00ed o tempo que o texto conciliar levou a ser emendado e, finalmente, (no encerramento do Conc\u00edlio) aprovado. Termino estas linhas com uma palavra de gratid\u00e3o. Quando penso que, entre o Vaticano I e o Vaticano II, houve milhares de bispos que nunca participaram num Conc\u00edlio, eu tive a sorte &#8211; diria a Gra\u00e7a &#8211; de participar no Vaticano II. Estou grato \u00e0 divina Provid\u00eancia!  D. Manuel de Almeida Trindade Bispo Em\u00e9rito de Aveiro <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedem-me umas breves linhas sobre o Conc\u00edlio Vaticano II. Fa\u00e7o-o, come\u00e7ando por anotar que, 62 anos antes, se tinha realizado o Conc\u00edlio Vaticano I. Estava-se no tempo de Pio IX. Este Conc\u00edlio durou apenas tr\u00eas meses, durante o Ver\u00e3o de 1870. Porque, no dia 20 de Setembro desse ano, as tropas italianas invadiram Roma. 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