{"id":151761,"date":"2019-10-20T11:01:09","date_gmt":"2019-10-20T10:01:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=151761"},"modified":"2022-02-04T11:32:52","modified_gmt":"2022-02-04T11:32:52","slug":"entrevista-70x7-deixou-de-ser-um-programa-feito-a-porta-da-igreja-para-ir-a-porta-do-mundo-conego-antonio-rego-c-video","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-70x7-deixou-de-ser-um-programa-feito-a-porta-da-igreja-para-ir-a-porta-do-mundo-conego-antonio-rego-c-video\/","title":{"rendered":"Entrevista\/70&#215;7: \u00abDeixou de ser um programa feito \u00e0 porta da igreja para ir \u00e0 porta do mundo\u00bb &#8211; C\u00f3nego Ant\u00f3nio Rego (c\/v\u00eddeo)"},"content":{"rendered":"<p><i>No dia 21 de outubro de 1979, Dia Mundial das Miss\u00f5es nesse ano, foi para o ar o primeiro programa \u00ab70&#215;7\u00bb.\u00a0<\/i><i>H\u00e1 40 anos em emiss\u00e3o na RTP, \u00e9 a \u00abexpress\u00e3o da Igreja na pra\u00e7a p\u00fablica\u00bb, que encontrou na linguagem simb\u00f3lica a ferramenta para traduzir a\u00a0for\u00e7a de muitas mensagens, desde\u00a0logo a que passa pelo nome do programa, \u00ab70&#215;7\u00bb<\/i><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_66452\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0m_jio5-QUU?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista\u00a0conduzida por Paulo Rocha<\/em><\/p>\n<p><em>Voltemos a 1979, ao d<\/em><em>ia 21 de outubro, <\/em><em>quando come\u00e7ou o 70&#215;7. Com que esp\u00edrito?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s and\u00e1vamos \u00e0 procura da express\u00e3o da Igreja na pra\u00e7a p\u00fablica. E a pra\u00e7a mais publica que havia era a televis\u00e3o. Por isso, houve um esfor\u00e7o de tomarmos a linguagem do Evangelho e da Igreja para a colocarmos nesse local teoricamente profano e, da fus\u00e3o desse encontro, fazer uma comunica\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica. Isso n\u00e3o se fazia sem as pessoas, sem os lugares, sem as celebra\u00e7\u00f5es, sem as a\u00e7\u00f5es da vida da Igreja e do mundo. E da rela\u00e7\u00e3o da Igreja com o mundo.<\/p>\n<p>Talvez de uma forma n\u00e3o muito organizada, foi isso que procuramos ativamente, com o apoio da hierarquia, porque era um programa oficial da Igreja Cat\u00f3lica (n\u00e3o posso deixar de lembrar D. Ant\u00f3nio Marcelino pelo grande apoio que nos deu). E a outra parte era a loucura da nossa juventude apost\u00f3lica, que achava que n\u00e3o havia meio que n\u00e3o tivesse obriga\u00e7\u00e3o de falar do Evangelho.<\/p>\n<p>N\u00f3s demos a cara, as m\u00e3os e os bra\u00e7os para percorrermos este pa\u00eds e um bocado do mundo para dizermos que a Igreja n\u00e3o est\u00e1 fechada nem no ermit\u00e9rio nem o cemit\u00e9rio, mas viva na cidade.<\/p>\n<p>Poderia ter-se chamado \u2018Igreja na cidade\u2019. Chamou-se \u201870&#215;7\u2019, por causa da medida incapaz de se fechar num circuito, mas de se abrir a todas as circunst\u00e2ncias, a todas as pessoas e dar lugar a todas as vozes.<\/p>\n<p>Penso que foi um lugar plural na Igreja e no mundo, o que se deveu a muita gente. Eu dava muitas vezes a cara, as pessoas relacionavam comigo, mas havia muita gente: a que fazia o programa e a que recebia a resson\u00e2ncia e devolvia o que deveria ser a sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Queria recordar a participa\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, as pessoas do norte, do centro, do sul, das ilhas. Elas pr\u00f3prias intervieram muito e interessaram-se muito porque sabiam que eram Igreja, que poderiam dizer \u00e0s outras igrejas e ao mundo o melhor que tinham e faziam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>70&#215;7 inaugurou uma nova forma de fazer televis\u00e3o, fora do est\u00fadio?<\/em><\/p>\n<p>A experi\u00eancia que nos deu D. Ant\u00f3nio Marcelino, na sua linguagem pr\u00f3xima, \u00e9 para n\u00f3s um est\u00edmulo. Indiretamente, \u00e9 nele que o programa est\u00e1 inspirado. O passo seguinte que demos foi ir para a rua, ouvir a Igreja na rua, os crist\u00e3os na a\u00e7\u00e3o e surpreende-los mais a fazer do que a dizer. Isso foi uma certa originalidade, que n\u00e3o foi por inspira\u00e7\u00e3o especial, mas porque as circunst\u00e2ncias, as pessoas, a comunidades, a variedade de a\u00e7\u00f5es e interven\u00e7\u00f5es, os v\u00e1rios grupos na Igreja, as crian\u00e7as, jovens, adultos, padres leigos, leigos, bispos (n\u00f3s nunca expurgamos os bispos do 70&#215;7), tudo fazia com que esta palavra \u201cEcclesia\u201d, Igreja, pudesse caber dentro deste projeto de a revelar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E com que linguagem televisiva o foram fazendo?<\/em><\/p>\n<p>Esse foi o nosso problema, a nossa procura constante! Isto \u00e9: t\u00ednhamos coisas bonitas para dizer, mas n\u00e3o basta isso em televis\u00e3o. \u00c9 preciso transmitir de forma que as pessoas entendem, adiram sensorialmente, que as pessoas sintam o programa. Sem sentirem o programa, n\u00e3o chegam a ouvi-lo.<\/p>\n<p>Em cada domingo, numa hora discreta, onde as pessoas estavam em casa ou pelos caf\u00e9s, nos apercebemo-nos que havia muita gente que achava que estava dentro desses espa\u00e7o. E penso que \u00e9 o esp\u00edrito que hoje continua e presta um excelente servi\u00e7o \u00e0 Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>At\u00e9 ao 70&#215;7 havia presen\u00e7as pessoais, de alguns sacerdotes, na televis\u00e3o. A partir deste programa passou a existir uma presen\u00e7a institucional?<\/em><\/p>\n<p>Houve de facto presen\u00e7as \u2013 recordo D. Ant\u00f3nio Ribeiro, que abriu, D. Ant\u00f3nio Marcelino, que nos estimulou e inspirou muito \u2013 e depois o 70&#215;7 ganhou o uma autonomia de linguagem, de localiza\u00e7\u00e3o: deixou de ser um programa feito num p\u00falpito ou \u00e0 porta da igreja para ir \u00e0 porta do mundo, onde as pessoas estavam, ouvir o que diziam. N\u00e3o apenas os cl\u00e9rigos, os s\u00e1bios, os te\u00f3logos e os moralistas, mas essa moral e essa teologia estava no cora\u00e7\u00e3o do povo. Era uma preocupa\u00e7\u00e3o nossa! E penso que foi das coisas interessantes que se foram fazendo e vai fazendo. Quase tudo o que eu digo do passado continua no presente. E quero felicitar-vos por essa fidelidade n\u00e3o apenas \u00e0 hist\u00f3ria do 70&#215;7, mas tamb\u00e9m \u00e0 hist\u00f3ria da vossa evangeliza\u00e7\u00e3o em televis\u00e3o, que \u00e9 um marco rico da nossa Igreja em Portugal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nessa hist\u00f3ria fica tamb\u00e9m um modo de fazer que o padre Rego tinha e que passava por deitar m\u00e3o ao que fosse necess\u00e1rio: filmar, editar, iluminar&#8230; A arte tocava todos esses aspetos&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Isso j\u00e1 era um pouco atrevimento meu. Eu tive alguma prepara\u00e7\u00e3o nessa mat\u00e9ria, mas gostava eu de construir a linguagem como um pianista gosta de dominar as teclas de um piano. Gostava de construir a linguagem quer da palavra, quer da ilustra\u00e7\u00e3o, da imagem, dos ambientes que se criavam, dos lugares que procur\u00e1vamos, das pessoas que ouv\u00edamos de forma que isso se tornasse algo vivo e envolvesse a comunidade ouvinte que tamb\u00e9m t\u00ednhamos o cuidado de fazer presente no 70&#215;7.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Para si uma c\u00e2mara de filmar \u00e9 um instrumento pr\u00f3ximo que agrada sempre estar a manobrar?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um instrumento interessante! \u00c9 um novo olhar.<\/p>\n<p>Quando estamos a trabalhar em televis\u00e3o vemos talvez quatro ou cinco vezes a mesma coisa: Vemos primeiro com os nossos olhos; vemos que vale a pena que outra c\u00e2mara veja; depois essa c\u00e2mara v\u00ea com os nossos olhos; depois isso vai para a mesa de montagem e voltamos a ver; vamos recortando o que \u00e9 interessante, voltamos a ver; estamos insatisfeitos at\u00e9 chegar ao produto final onde se conjuga o som, o ambiente, a imagem, a presen\u00e7a das pessoas, os planos muito pr\u00f3ximos que apanham quase s\u00f3 os olhos, as paisagens, os planos abertos, os locais mirabolantes que acabamos por filmar, quer desertos, quer grandes pal\u00e1cios, grandes cidades ou grandes espa\u00e7os, como tamb\u00e9m o micro espa\u00e7o de pequenas coisas, aparentemente insignificantes, mas que no cristianismo tem um aspeto ritual, porque significam sempre alguma coisa. Na pr\u00f3pria liturgia s\u00e3o utilizados objetos maiores e menores. Diria que na liturgia da vida isso tamb\u00e9m acontece e est\u00e1vamos atentos em trazer \u00e0 presen\u00e7a do 70&#215;7 essa realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Recordemos dois programas, desde logo o programa da Cartuxa: que ousadia foi essa de entrar no ambiente de clausura?<\/em><\/p>\n<p>Eu recordo com emo\u00e7\u00e3o o programa da Cartuxa, porque os cartuxos acabaram de sair de l\u00e1 h\u00e1 muito pouco tempo. E, de facto, tive primeiro muito receio em bater \u00e0 porta e perguntar se podia filmar um pouco da Cartuxa. Estava \u00e0 espera de uma resposta do g\u00e9nero: mas voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam vergonha da trazer a televis\u00e3o aqui para dentro? Eu pensei: n\u00e3o, porque vai ser o povo que eu vou trazer para aqui, os olhares do nosso povo sobre voc\u00eas. N\u00e3o v\u00e3o fazer nada para ser filmados, mas o que fazem, o que rezam, o que cantam, o que passeiam, os arcos, as celas&#8230; Cada um. dos vossos espa\u00e7os, desde o mais p\u00fablico aos mais \u00edntimo.<\/p>\n<p>Pegamos numa c\u00e2mara e fomos, muito discretamente. Penso que n\u00e3o falamos&#8230; Era quase tudo sil\u00eancios e sons ambientes que surgiam da pr\u00f3pria comunidade, alguns c\u00e2nticos e ora\u00e7\u00f5es&#8230; E foi com imenso respeito, quase como se fossemos monges, que estivemos dentro do Mosteiro da Cartuxa. E trouxemos um programa que recebeu um pr\u00e9mio pela originalidade do local e a forma delicada como foi tratado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Um outro: \u201cCinza e morte\u201d. Os inc\u00eandios criaram um ambiente para tratar o tema da morte?<\/em><\/p>\n<p>Vi primeiro com os meus pr\u00f3prios olhos. Fui visitar a cinza na regi\u00e3o centro e de facto era desolador olhar para uma paisagem vasta toda negra, plana e negra, composta apenas por areia. E a primeira sensa\u00e7\u00e3o que tive foi esta: isto n\u00e3o tem nada a filmar, \u00e9 s\u00f3 areia e cinza. Areia e cinza? \u00c9 isso que a gente vai filmar. Ent\u00e3o l\u00e1 fomos, com a c\u00e2mara, buscar pormenores, buscar conjuntos, ver o que ainda havia de sinais no meio dessas cinzas e dessa areia e fomos pacientemente, humildemente, muito humildemente construindo um programa, convencidos que as pessoas iam pensar: mas que grande chatice vai estar ali na televis\u00e3o! Acabou por n\u00e3o ser e as pessoas sentiram-se integradas, nos simbolismos que passavam por toda aquela circunst\u00e2ncia.<\/p>\n<p>E queria pegas nesta palavra: o simbolismo foi o mais forte que encontramos. Ou seja: Uma coisa n\u00e3o \u00e9 apenas o que \u00e9, o que se v\u00ea, mas o que simboliza, o mundo que est\u00e1 por tr\u00e1s dela, aquilo que a gerou, aquilo que ela provoca, as imagens que ela cria, as palavras que ela inspira, os poetas que ela toca. Claro que era uma pretens\u00e3o apanhar isso tudo, de uma vez s\u00f3, mas fomos aos poucos habituando-nos a ir descobrindo coisas de apar\u00eancia insignificante, mas que tinham uma realidade perfeita na vida das pessoas e do mundo. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 nada in\u00fatil e sem significado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que relev\u00e2ncia teve o programa, nos primeiros anos?<\/em><\/p>\n<p>Para n\u00f3s, muitas vezes, era dif\u00edcil responder a tantos pedidos que nos chegavam. Por vezes perguntavam: \u201ccomo \u00e9 que o padre Rego arranja temas para tantos programas?\u201d. Eu respondia o contr\u00e1rio: como \u00e9 que eu sou capaz de responder a tantos temas que nos prop\u00f5em para o programa. \u00a0E, de facto, o programa 70&#215;7 teve esse m\u00e9rito catalisador de juntar muitas sensibilidades, em muitos pontos do pa\u00eds e do estrangeiro, e n\u00f3s \u00edamos l\u00e1 com meios tecnicamente fr\u00e1geis ainda (ainda nem o v\u00eddeo havia quando n\u00f3s come\u00e7amos e fazer um programa em filme era um tormento: cont\u00e1vamos os fotogramas, porque t\u00ednhamos uma medida para um programa, e havia coisas interessantes que interessava valorizar e n\u00e3o consegu\u00edamos). Foi dentro dessas conting\u00eancias todas e desse gemido de n\u00e3o ter o quanto se pretendia que n\u00f3s fomos dando um sinal.<\/p>\n<p>70&#215;7 j\u00e1 era um nome atrevido! Homenagem a D. Ant\u00f3nio Marcelino, que penso que esteve tamb\u00e9m no nascimento deste nome (como passaram muitos anos \u2013 j\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o 40! \u2013 j\u00e1 coisas que escapam). Foi assim que apareceu: 70&#215;7! C\u00e1 est\u00e1! Uma coisa que diz tudo, 70&#215;7, n\u00e3o diz nada. S\u00f3 n\u00fameros, que na B\u00edblia ganham uma dimens\u00e3o infinita. \u00c9 isso que a gente quer: ir at\u00e9 ao infinito, trepar at\u00e9 ao infinito. E sei que o 70&#215;7 continua ainda hoje a fazer essa subida na corda que n\u00e3o se sabe onde ir\u00e1 terminar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E \u00e9 um programa que deve ter lugar na televis\u00e3o, nos dias de hoje?<\/em><\/p>\n<p>Todo o lugar! A televis\u00e3o precisa dessa dimens\u00e3o! Precisa do desporto, da informa\u00e7\u00e3o geral, das tem\u00e1ticas da arte, da poesia&#8230; dessas tem\u00e1ticas todas! Mas precisa da tem\u00e1tica religiosa vista nessa perspetiva: n\u00e3o apenas a transmiss\u00e3o lit\u00fargica, mas a experi\u00eancia religiosa comunicada e vivida. N\u00f3s filmamos mais o que as pessoas do que o que as pessoas dizem. De facto, a palavra \u00e9 forte, mas o gesto \u00e9 que arrasta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 21 de outubro de 1979 &#8220;foi para o ar&#8221; o primeiro programa 70&#215;7. 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