{"id":15047,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/esvaziamento-do-pensamento-na-sociedade-portuguesa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"esvaziamento-do-pensamento-na-sociedade-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/esvaziamento-do-pensamento-na-sociedade-portuguesa\/","title":{"rendered":"Esvaziamento do pensamento na sociedade portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>Marcelo Rebelo de Sousa sustenta que nos \u00faltimos anos tem havido um esvaziamento do pensamento na sociedade portuguesa que tamb\u00e9m afecta a classe pol\u00edtica do pa\u00eds. A ideia foi apresentada pelo professor na Faculdade de Filosofia de Braga da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa na sexta-feira \u00e0 noite, durante a sess\u00e3o comemorativa dos 60 anos da Revista Portuguesa de Filosofia, inserida no programa do Congresso Internacional de Filosofia.  Questionado pelo Di\u00e1rio do Minho sobre esta sua percep\u00e7\u00e3o, Marcelo Rebelo de Sousa come\u00e7ou por lembrar que h\u00e1 cerca de 30 anos, aquando do 25 de Abril e da feitura da Constitui\u00e7\u00e3o, havia v\u00e1rios modelos para Portugal que tinham pensamentos subjacentes. \u00abO que se passou \u00e9 que a vida pol\u00edtica e social \u00e9 uma vida muito pr\u00e1tica e gerida no dia \u00e0 dia e em que se trata \u00e9 de conquistar votos ou de p\u00f4r de p\u00e9 certos projectos sociais e as pessoas acabam por perder o tempo para apresentar e debater ideias novas\u00bb, disse.  Para o professor, este esvaziamento, de que muitos se queixam estar a afectar os partidos, tamb\u00e9m se reflecte, na sua opini\u00e3o, nos sindicatos, nas escolas e at\u00e9 na comunica\u00e7\u00e3o social. \u00abVeja-se quantos debates pol\u00edticos h\u00e1 na televis\u00e3o, quantos programas h\u00e1 de pensamento pol\u00edtico ou de ideias, ou sobre livros ou sobre cultura. E, os que h\u00e1, com raras excep\u00e7\u00f5es, que audi\u00eancias \u00e9 que t\u00eam. Este empobrecimento \u00e9 mau porque uma sociedade sem pensamento, sem cultura e sem ideias \u00e9 um moinho que m\u00f3i sem gr\u00e3os e n\u00e3o vai a s\u00edtio nenhum\u00bb, real\u00e7ou.  Perante a assist\u00eancia que praticamente encheu a Aula Magna da Facfil, Marcelo Rebelo de Sousa confessou mesmo que, se h\u00e1 lamento que o persegue \u00e9 o da demiss\u00e3o das elites, da falta de causas e do esvaziamento de princ\u00edpios e de modelos relativos ao ser, ao existir, \u00e0 vida, \u00e0 sociedade, substitu\u00eddos pela anemia, o relativismo e o casu\u00edsmo da gest\u00e3o do quotidiano. \u00abQue saudades dos afrontamentos doutrin\u00e1rios de h\u00e1 40, 30 ou 20 anos. Que terr\u00edvel vazio este de pensamento, vector de ac\u00e7\u00e3o. Que felicidade haver uma institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se demite de cumprir a sua miss\u00e3o\u00bb, disse, referindo- se \u00e0 Revista Portuguesa de Filosofia, que celebra os seus 60 anos de exist\u00eancia, e \u00e0 Faculdade de Filosofia de Braga.  <b>Testemunho de coragem intelectual<\/b> Depois de tra\u00e7ar a evolu\u00e7\u00e3o da Revista Portuguesa da Filosofia, desde o seu nascimento at\u00e9 aos dias de hoje, falando dos temas que tratou e daqueles que se empenharam na sua publica\u00e7\u00e3o, o professor considerou que, h\u00e1 60 anos, \u00abo dif\u00edcil era come\u00e7ar contra alguns ventos nacionalistas tacanhos, convivendo com o vento autorit\u00e1rio dominante \u00bb.  \u00abDepois, o dif\u00edcil foi ir vivendo com fidelidade \u00e0s ra\u00edzes, mas com permanente aten\u00e7\u00e3o aos sinais dos tempos. Hoje, o dif\u00edcil \u00e9 persistir em filosofar, em n\u00e3o ceder ao f\u00e1cil, ao imediato, ao modismo. Ao continuar igual a si pr\u00f3pria 60 anos depois e ao resistir \u00e0s diversas tenta\u00e7\u00f5es deste tempo avesso \u00e0 seriedade filos\u00f3fica, a Revista Portuguesa de Filosofia d\u00e1-nos um testemunho daquilo que \u00e9 coragem intelectual\u00bb, salientou.  Por fim, na sua alocu\u00e7\u00e3o, Marcelo Rebelo de Sousa deixou ainda um desafio aos fil\u00f3sofos presentes na Aula Magna da Facfil. \u00abA pobreza da reflex\u00e3o filos\u00f3fica sobre o Direito, o div\u00f3rcio entre escolas jur\u00eddicas e filos\u00f3ficas e, mais em particular, o relativismo que se confronta com a ess\u00eancia do personalismo, este, por sinal, com acolhimento na Constitui\u00e7\u00e3o, s\u00e3o mat\u00e9ria a pedir a aten\u00e7\u00e3o e o empenhamento de todos e, naturalmente, de forma especial dos acad\u00e9micos, das sociedades cient\u00edficas das institui\u00e7\u00f5es de inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00bb, salientou, acrescentando ainda que \u00ab\u00e9 \u00e0 luz dessa preocupa\u00e7\u00e3o fundamental, com o esvaziamento do personalismo, que devem ser equacionadas as grandes quest\u00f5es jur\u00eddicas deste tempo\u00bb.  <b>Sociedade sem Deus<\/b> Manfredo Oliveira, professor da Universidade Federal do Cear\u00e1, no Brasil, considerou ontem que \u00abvivemos numa sociedade onde a pessoa praticamente perdeu a sua dignidade\u00bb. Falando \u00e0 margem do Congresso Internacional de Filosofia, que decorreu na Facfil, em Braga, sob o tema \u201cPessoa e Sociedade\u201d, Manfredo Oliveira defendeu que \u00abos problemas que marcam hoje o mundo v\u00e3o na direc\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de uma sociabilidade a n\u00edvel internacional que destr\u00f3i e amea\u00e7a a dignidade humana\u00bb.  \u00abN\u00f3s temos, n\u00e3o s\u00f3 cat\u00e1strofes naturais, que s\u00e3o em grande parte resultado da sistem\u00e1tica destrui\u00e7\u00e3o da natureza que \u00e9 feita pelo grande projecto moderno de domina\u00e7\u00e3o do mundo, mas tamb\u00e9m quest\u00f5es b\u00e1sicas que surgem ao n\u00edvel da constitui\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociabilidade, isto \u00e9, as rela\u00e7\u00f5es entre pessoas nos Estados nacionais. E, as rela\u00e7\u00f5es entre estados Nacionais levam na direc\u00e7\u00e3o de excluir uma grande parte da humanidade, n\u00e3o s\u00f3 dos benef\u00edcios da civiliza\u00e7\u00e3o, mas da pr\u00f3pria dignidade porque falta a uma boa parte da humanidade de hoje aquelas condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas, elementares e necess\u00e1rias para uma vida decente\u00bb, salientou.  Segundo o professor, que veio ao congresso apresentar uma comunica\u00e7\u00e3o intitulada \u201cSubjectividade e Totalidade: um confronto com as antropologias contempor\u00e2neas\u201d, \u00e9 poss\u00edvel mesmo falar de uma auto-destrui\u00e7\u00e3o da humanidade.  Na sua opini\u00e3o, se continuarmos a levar por diante este tipo de civiliza\u00e7\u00e3o que estamos a construir, ser\u00e1 poss\u00edvel dizer, como v\u00e1rios analistas o t\u00eam dito, que caminhamos para um apocalipse ecol\u00f3gico e social. Ou seja, \u00abn\u00f3s destruiremos cada vez mais as bases naturais e materiais da vida humana e destruiremos a pr\u00f3pria vida humana \u00bb, disse. Convidado a olhar para a Europa, este fil\u00f3sofo e sacerdote sul-americano considerou que a sociedade europeia \u00ab\u00e9 uma sociedade praticamente sem Deus\u00bb. Na sua perspectiva, \u00abas pessoas acostumaram-se a n\u00e3o ter mais a Deus como refer\u00eancia da vida e, do ponto de vista filos\u00f3fico, a Europa \u00e9 marcada ainda hoje por fil\u00f3sofos que negaram a pr\u00f3pria possibilidade da raz\u00e3o humana falar sobre Deus\u00bb.  Segundo explicou, nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, onde esta marca e pr\u00e9-conceito n\u00e3o existiu, h\u00e1 hoje um grupo de fil\u00f3sofos muito forte e importante que retomou a quest\u00e3o de Deus, considerando-a fundamental para entender o universo e o sentido da vida humana, numa sociedade que se esvaziou de valores fundamentais. \u00abAcho que a Europa teria que fazer uma cr\u00edtica da cr\u00edtica, superando este tipo de pensamento que barra a possibilidade da raz\u00e3o humana levantar as quest\u00f5es \u00faltimas\u00bb, acrescentou.  Sendo um especialista em \u00e9tica e pol\u00edtica, Manfredo Oliveira falou ainda ao Di\u00e1rio do Minho dos desafios que se colocam ao seu pa\u00eds. Segundo explicou, a imprensa brasileira tem dado um enfoque muito grande ao problema da corrup\u00e7\u00e3o, mas, no seu entender, a quest\u00e3o fundamental \u00ab\u00e9 que o Brasil \u00e9 um pa\u00eds que se criou, desde as suas origens, marcado por desigualdades fundamentais\u00bb.  \u00abOs portugueses transplantaram, de certa maneira, a civiliza\u00e7\u00e3o europeia para o continente americano mas, para que ela pudesse ir para diante, trouxeram escravos. Em primeiro lugar, os \u00edndios, e depois os africanos, e isso foi criando uma desigualdade hist\u00f3rica que marcou o pa\u00eds h\u00e1 mais de 500 anos. Assim, o problema fundamental do Brasil \u00e9 enfrentar o problema da desigualdade \u00bb, defendeu.  Para Manfredo Oliveira, o governo de Lula da Silva foi eleito com essa grande expectativa \u00abe, o que aconteceu \u00e9 que, uma vez chegado ao poder, ele, orientado por um certo grupo dentro do partido, assumiu a pol\u00edtica econ\u00f3mica exactamente combatida pelo seu partido durante anos\u00bb, acrescentou. Por fim, o professor abordou ainda a quest\u00e3o da emigra\u00e7\u00e3o na Europa, considerando que este fen\u00f3meno pode ser visto de duas formas. Por um lado, disse, esta \u00e9 a oportunidade do europeu abrir-se para o mundo universal. No entanto, sublinhou, isto tamb\u00e9m pode trazer complica\u00e7\u00f5es. Sabendo-se que a emigra\u00e7\u00e3o envolve cada vez mais popula\u00e7\u00f5es de outras culturas, como as africanas e asi\u00e1ticas, isso poder\u00e1 desenvolver conflitos. A quest\u00e3o, sublinhou, ser\u00e1 como integrar verdadeiramente estas popula\u00e7\u00f5es.  \u00abO caso franc\u00eas deve ser paradigm\u00e1tico porque os rapazes que provocaram a rebeli\u00e3o foram integrados culturalmente, mas n\u00e3o foram inclu\u00eddos social e economicamente \u00bb, defendeu. Por isso, Manfredo Oliveira n\u00e3o hesita em afirmar que a Fran\u00e7a foi um aviso para os outros pa\u00edses europeus, onde os mesmos problemas come\u00e7am a emergir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Marcelo Rebelo de Sousa sustenta que nos \u00faltimos anos tem havido um esvaziamento do pensamento na sociedade portuguesa que tamb\u00e9m afecta a classe pol\u00edtica do pa\u00eds. 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