{"id":15041,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-cidade-como-convivencia-responsavel\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-cidade-como-convivencia-responsavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-cidade-como-convivencia-responsavel\/","title":{"rendered":"A Cidade Como Conviv\u00eancia Respons\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Encerramento das Comemora\u00e7\u00f5es do V Centen\u00e1rio de D. Diogo de Sousa <!--more--> Quisemos, numa articula\u00e7\u00e3o louv\u00e1vel de sinergias de diversas institui\u00e7\u00f5es, fazer mem\u00f3ria dum dos maiores Arcebispos de Braga. Entre outros ep\u00edtetos que sintetizam a sua passagem pelo minist\u00e9rio episcopal, muitos recordam-no como o reconstrutor da cidade de Braga. J\u00e1 ultrapassamos a \u00e9poca em que os Arcebispos eram verdadeiros \u201cSenhores\u201d de Braga e, como tal, delinearam projectos materiais, abriram ruas e estradas, edificaram e constitu\u00edram servi\u00e7os sociais, estruturaram uma forma\u00e7\u00e3o educativa diversificada. Ultrapassada esta \u00e9poca, estamos, aqui e agora, numa coincid\u00eancia feliz a recordar essa grande personalidade colocando-nos perante a mesma finalidade de conduzir e orientar a Igreja. Queremos que Cristo seja Rei, tornando-se \u201ctudo em todos\u201d e, para isso, teremos de ser criativas na pastoral que desenvolvemos. Este grande objectivo, n\u00e3o passando pela dimens\u00e3o construtiva das cidades, atinge-se atrav\u00e9s duma tarefa que nunca poderemos desconsiderar. A realidade do urbanismo diz-nos que a \u201curbe\u201d se encontra nos lugares mais rec\u00f4nditos da nossa diocese e o contributo insubstitu\u00edvel que nos est\u00e1 confiado consiste num educar para uma cidadania respons\u00e1vel, em todos os lugares e atrav\u00e9s de todas as inst\u00e2ncias. Os movimentos cat\u00f3licos desempenham um papel insubstitu\u00edvel neste propor e estimular uma conviv\u00eancia democr\u00e1tica e na promo\u00e7\u00e3o dum humanismo integral. Somos deposit\u00e1rios duma doutrina social que se desenvolve e articula por c\u00edrculos conc\u00eantricos. No centro da nossa aten\u00e7\u00e3o e considera\u00e7\u00e3o colocamos a pessoa humana numa dignidade de direitos e deveres. Da\u00ed aparecem outros \u00e2mbitos onde esta doutrina se vivencia nas rela\u00e7\u00f5es humanas, sociais e pol\u00edticas, partindo da fam\u00edlia para chegar \u00e0 comunidade civil com a variedade grande de agrega\u00e7\u00e3o e num espa\u00e7o nacional e internacional. Trata-se de assumir a pessoa, \u201ctoda\u201d a pessoa e \u201ctodas\u201d as pessoas. O ponto de partida ser\u00e1 sempre o primado da pessoa e da sua dignidade desde o momento da concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte natural. Daqui chegamos \u00e0 considera\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria de todas as dimens\u00f5es (espirituais e corp\u00f3reas) para um humanismo integral e chegamos a todas as pessoas recusando qualquer forma de exclus\u00e3o nunca nos fechando em grupos, classes, partidos, na\u00e7\u00f5es, religi\u00f5es. A \u00fanica possibilidade de privil\u00e9gio ou aten\u00e7\u00e3o particular dirige-se aos mais d\u00e9beis e necessitados. Um dos grandes problemas da humanidade reside na fragmenta\u00e7\u00e3o do rosto humano em peda\u00e7os para escolher um aspecto e negligenciar outros. Este risco, grave e frequente, acontece nas diversas vis\u00f5es antropol\u00f3gicas que reduzem o homem ou s\u00f3 a corpo, ou s\u00f3 a esp\u00edrito, ou s\u00f3 a trabalho, ou s\u00f3 a sexualidade\u2026 assim como nas interpreta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas fundamentalistas de olhar s\u00f3 para um partido, um grupo, uma ra\u00e7a, ou etnia como se a\u00ed estivesse toda a realidade, eliminando a alteridade, a complementaridade, a diferen\u00e7a. Reconhecer este primado \u00e0 pessoa \u00e9 a base duma educa\u00e7\u00e3o para uma cidadania respons\u00e1vel: respons\u00e1vel como dever comum de encontrar resposta e cidadania como arte de conviver. Como crentes e crist\u00e3os teremos de ser capazes de construir as estradas que unem as pessoas e criam a esperan\u00e7a dum mundo diferente n\u00e3o s\u00f3 como poss\u00edvel mas como obrigat\u00f3rio. N\u00e3o me sinto profeta mas acredito no contributo que daremos para uma cidade nova se dermos prioridade \u00e0 educa\u00e7\u00e3o para a legalidade, sociabilidade e justi\u00e7a. Prolifera a criminalidade e desrespeito pelas normas; importa recuperar a legalidade na observ\u00e2ncia de \u201cregras de conduta\u201d e das leis. Isto n\u00e3o acontece com uma proclama\u00e7\u00e3o ret\u00f3rica. S\u00f3 com actos bem concretos onde \u00e9 recuperada a dimens\u00e3o da cidadania que consiste na consci\u00eancia exigente da perten\u00e7a dum indiv\u00edduo a uma comunidade pol\u00edtica com direitos e deveres. Depois dum per\u00edodo onde superabundou a insist\u00eancia nos direitos deveria chegar a hora da elabora\u00e7\u00e3o duma aut\u00eantica \u201ccarta\u201d dos deveres do cidad\u00e3o, como parte e membro integrante da sociedade. As comunidades crist\u00e3s ocupam aqui um lugar insubstitu\u00edvel que deveria ser de modelo e testemunho de comunh\u00e3o vivida. Aqui n\u00e3o me limito a esperar mas assumo um comportamento activo consciente de que s\u00f3 o contributo de cada um constr\u00f3i a civiliza\u00e7\u00e3o do amor. Nesta perspectiva, a Igreja, e nela as par\u00f3quias, n\u00e3o \u00e9 um templo; tem um templo e da\u00ed que n\u00e3o se exprima s\u00f3 dentro dos edif\u00edcios sagrados e \u00e0 sombra das torres. Ela vive num territ\u00f3rio e a\u00ed tem de \u201cfazer-se carne\u201d nas estradas, nas pra\u00e7as, nos lugares onde as pessoas desenvolvem os seus compromissos quotidianos. Os edif\u00edcios valem como centros catalizadores e provocadores duma subjectividade popular como fermento duma aut\u00eantica conviv\u00eancia humana. As Igrejas, colocadas no meio das casas dos homens, t\u00eam de tornar-se sinal de que a\u00ed se vai formando um \u201csujeito social\u201d que vive e opera profundamente inserido na sociedade humana e intimamente solid\u00e1rio com as suas aspira\u00e7\u00f5es e os seus dramas. A voca\u00e7\u00e3o da Igreja \u00e9 estar dentro da sociedade n\u00e3o s\u00f3 como lugar de comunh\u00e3o dos crentes, mas tamb\u00e9m sinal e instrumento de comunh\u00e3o para todos. Trata-se de investir numa aut\u00eantica promo\u00e7\u00e3o humana por si e tornando-se est\u00edmulo para todas as outras institui\u00e7\u00f5es. A umas exigir\u00e1, como den\u00fancia e como proposta, que se concentrem nas exig\u00eancias pr\u00f3prias do bem comum; com outras interpretar\u00e1 uma rede de solidariedade com todos os homens de boa vontade. Somos \u201cfazedores\u201d, construtores, protagonistas correspons\u00e1veis da hist\u00f3ria e isto com muito empenho, paci\u00eancia, aud\u00e1cia, criatividade e esperan\u00e7a. Os \u00faltimos acontecimentos de Paris e doutras cidades da Europa ser\u00e3o de \u00edndole estritamente religiosa? N\u00e3o acredito. Manifestam a falta da religi\u00e3o interpretada como rela\u00e7\u00e3o com Deus onde me encontro com todos os homens. Onde encontraremos o fim destas destrui\u00e7\u00f5es? S\u00f3 na promo\u00e7\u00e3o dos valores. Eis o legado de D. Diogo de Sousa mostrando que a \u201cSenhoria\u201d do Arcebispo est\u00e1 no servi\u00e7o e a sociedade crescer\u00e1 atrav\u00e9s da inova\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica em todos os dom\u00ednios mas, particularmente, com o compromisso de cada um. Em Igreja somos estas pedras vivas, individualmente ou como apostolado organizado, duma constru\u00e7\u00e3o que delineamos todos os dias. A sociedade ter\u00e1 sempre lacunas se adormecermos ou desistirmos do encargo que nos \u00e9 peculiar. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel o fatalismo que v\u00ea desgra\u00e7a em tudo. Deus quer que a Igreja, e concretamente a Arquidiocese de Braga, simbolize a esperan\u00e7a de quem acredita e luta por um mundo melhor. Os Arcebispos constru\u00edram Braga; hoje continuamos o seu projecto dando-lhe os retoques que a actualidade exige.   + Jorge Ferreira da Costa Ortiga, Arcebispo Primaz <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Encerramento das Comemora\u00e7\u00f5es do V Centen\u00e1rio de D. 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