{"id":149647,"date":"2019-09-30T10:22:55","date_gmt":"2019-09-30T09:22:55","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=149647"},"modified":"2019-09-30T10:22:55","modified_gmt":"2019-09-30T09:22:55","slug":"diminuidos-substitutos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/diminuidos-substitutos\/","title":{"rendered":"Diminu\u00eddos substitutos"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>N\u00e3o sei ainda bem expressar as raz\u00f5es, mas o modo como vejo as pessoas embrenharem-se cada vez mais no mundo digital, leva-me a crer que experimentam um isolamento sem ter consci\u00eancia disso. Ali\u00e1s, pensam estar cada vez mais ligadas a mais pessoas, mas alienadas do que se passa fora do seu \u00e9cr\u00e3, conseguir\u00e3o ver o outro ao seu lado que estende a m\u00e3o ou abre o cora\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/120914022437-jackson-mobile-phone-story-top.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-149649 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/120914022437-jackson-mobile-phone-story-top.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"225\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/120914022437-jackson-mobile-phone-story-top.jpg 640w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/120914022437-jackson-mobile-phone-story-top-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/120914022437-jackson-mobile-phone-story-top-480x270.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a>O que \u00e9 mais forte? Uma rocha ou \u00e1gua? A rocha, pensamos, mas se a \u00e1gua bate, bate, bate e continua a bater na rocha, essa desgasta-se. Esse \u00e9 o perigo que vejo em certos h\u00e1bitos digitais como estar numa audi\u00eancia a ouvir algu\u00e9m e n\u00e3o resistir em pegar no telem\u00f3vel para ver se tem novas mensagens. S\u00e3o pequenas distrac\u00e7\u00f5es que parecem inofensivas, mas se se tornarem h\u00e1bitos, gradualmente perdemos a capacidade de escutar activamente o outro em profundidade.<\/p>\n<p>Tudo tem de ser t\u00e3o veloz quanto a velocidade com que recebemos uma mensagem e respondemos a essa mensagem, vivendo de gratifica\u00e7\u00f5es instant\u00e2neas, quando a aten\u00e7\u00e3o, como dizia Simone Weil, <em>\u201d\u00e9 a mais rara e pura forma de generosidade.\u201d<\/em> &#8211; <em>\u201dMas responder logo n\u00e3o \u00e9 dar aten\u00e7\u00e3o ao outro?\u201d<\/em> &#8211; at\u00e9 podia ser, mas n\u00e3o estar\u00e1 a substituir o espa\u00e7o real de rela\u00e7\u00e3o com o outro? Cuidado com os <em>diminu\u00eddos substitutos<\/em>.<\/p>\n<h2><\/h2>\n<h3>Invers\u00e3o inesperada<\/h3>\n<p>A maior parte das tecnologias de comunica\u00e7\u00e3o come\u00e7ou como <em>diminu\u00eddos substitutos<\/em> da comunica\u00e7\u00e3o presencial, uma ideia do escritor Jonathan Safran Foer num <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2013\/06\/09\/opinion\/sunday\/how-not-to-be-alone.html\">artigo<\/a>; muito interessante escrito para o <em>New York Times<\/em> e que me inspirou a escrever este. Diz Jonathan Froer que<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201dNem sempre foi poss\u00edvel vermo-nos face a face, por isso, o telefone possibilitou mantermo-nos em contacto \u00e0 dist\u00e2ncia. Nem sempre est\u00e1vamos em casa, logo, a \u2018mensagem de voz\u2019 viabilizou um tipo de interac\u00e7\u00e3o sem que a pessoa estivesse perto do telefone. A comunica\u00e7\u00e3o online surgiu como um substituto da comunica\u00e7\u00e3o telef\u00f3nica, considerada, por alguma raz\u00e3o, demasiado pesada e inconveniente. E depois os SMS, que facilitaram a troca de mensagens mais r\u00e1pida e m\u00f3vel. <strong>Estas inven\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram criadas para serem melhoramentos \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o face-a-face, mas um declinar para, apesar de diminu\u00eddos, serem substitutos dessa.<\/strong>\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Contudo, Froer notou que algo de inesperado aconteceu &#8211; afirma &#8211; <em>&#8220;come\u00e7\u00e1mos a preferir os diminu\u00eddos substitutos.\u201d<\/em> N\u00e3o \u00e9 mais f\u00e1cil fazer uma chamada ou enviar um SMS do que suportar o fardo de ir ter com uma pessoa?<\/p>\n<p>Quantas vezes &#8211; e contra mim falo &#8211; enviamos um email, ou uma mensagem de WhatsApp, em vez de falar directamente com uma pessoa? A desculpa \u00e9 sempre a mesma: n\u00e3o queremos incomodar. Mas n\u00e3o ser\u00e1 isso escondermo-nos por detr\u00e1s do sil\u00eancio vocal, e ficar descansados da vida porque <em>\u201cat\u00e9 envi\u00e1mos um email!?\u201d<\/em><\/p>\n<p>Cada passo em frente na tecnologia (redes sociais, servi\u00e7os de mensagem como o WhatsApp e outros) <em>parece<\/em> facilitar um pouco mais o modo como comunicamos, mas o que tenho notado \u00e9 que se t\u00eam tornado numa forma de evitar o trabalho emocional de estar presente diante do outro, preferindo a transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o em vez de humanidade. Apesar de simples, faz-me pensar na experi\u00eancia que actualmente vivo com os SMS.<\/p>\n<p>Quantas vezes n\u00e3o recebi um SMS de algu\u00e9m a dizer que quer falar comigo, mas n\u00e3o refere o assunto, deixando-me em suspens\u00e3o, sob uma estranha \u201cpress\u00e3o\u201d que me leva a pensar sobre o que querer\u00e1 falar, distraindo-me daquilo em que deveria pensar, como seria uma express\u00e3o matem\u00e1tica para generalizar os comprimentos de canais construtais numa geometria radial (desculpem os jarg\u00f5es).<\/p>\n<p>\u00c9 uma press\u00e3o que me deixa perturbado. Por esse motivo, as pessoas que me conhecem sabem que, por n\u00e3o atenderem uma chamada minha, ou tendo consci\u00eancia de estarem no per\u00edodo de trabalho, quando recebem um SMS da minha parte, v\u00eaem expl\u00edcito o motivo pelo qual quero falar-lhes. Fa\u00e7o o que gostaria que me fizessem e, acreditem, d\u00e1 bem mais trabalho escrever esse SMS do que insistir numa chamada vocal, mas considero um esfor\u00e7o que faz parte do trabalho duro de construir relacionamentos profundos.<\/p>\n<blockquote><p>\u201d<strong>O problema<\/strong> em aceitar &#8211; em preferir &#8211; diminu\u00eddos substitutos \u00e9 o de que, ao longo do tempo, n\u00f3s, tamb\u00e9m, <strong>tornamo-nos diminu\u00eddos substitutos<\/strong>. Pessoas acostumadas a dizer pouco, acostumam-se a sentir pouco.\u201d (Jonathan Froer)<\/p><\/blockquote>\n<p>Esta \u00e9 uma percep\u00e7\u00e3o de Froer que me leva a reflectir e fazer um exame de consci\u00eancia. Usamos a tecnologia para poupar tempo, mas essa est\u00e1 a <em>consumir<\/em> o nosso tempo e a fazer do tempo que poupamos menos presente, \u00edntimo, e relacionalmente rico. Nunca foi t\u00e3o importante como agora um verso de uma m\u00fasica feita por um amigo da minha m\u00e3e que dizia <em>\u201co meu presente \u00e9 estar presente.\u201d <\/em><\/p>\n<h2><\/h2>\n<h3>Comunicar Equitecnologicamente<\/h3>\n<p>Comunicar \u00e9 um acto fundamental na constru\u00e7\u00e3o de relacionamentos aut\u00eanticos. Mas o modo como a vida digital est\u00e1 a transformar a forma como comunicamos, leva-nos a pensar em express\u00f5es como \u201chabitar no mundo digital\u201d como boas e reais. Mas\u2026 ser\u00e3o boas?<\/p>\n<p>\u00c9 que, quanto mais pr\u00f3ximo o mundo fica dos dedos, mais parece afastar-se do cora\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que se soluciona com uma postura <em>anti-tecnol\u00f3gica<\/em>, mas antes no equil\u00edbrio entre a vida real e a digital, ou seja, <em>equitecnol\u00f3gica<\/em>. O desafio est\u00e1 naquilo que se equilibra. O tempo? A aten\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>A empatia que leva a colocarmo-nos na pele do outro \u00e9 uma capacidade essencial na era digital. S\u00f3 a desenvolvemos a partir das interac\u00e7\u00f5es que temos no mundo real, com pessoas diante de n\u00f3s, na escuta atenta e sincera, ou na palavra dada com um tom que transmite seguran\u00e7a, confian\u00e7a e amor fraterno. Nada disso \u00e9 poss\u00edvel com um emoji, mensagem ou Imagens-Com-Letras-Grandes.<\/p>\n<p>Vivemos num mundo de hist\u00f3ria, n\u00e3o de esc\u00f3ria. Somos criaturas feitas de mem\u00f3ria, n\u00e3o de lembretes. Mais importante do que reagir com um <em>like<\/em> \u00e9 agir com amor. Estar atento \u00e0s necessidades, anseios, dramas do outro pode n\u00e3o ser o prop\u00f3sito da nossa vida, mas \u00e9, seguramente, o trabalho de uma vida porque as rela\u00e7\u00f5es aut\u00eanticas s\u00e3o confusas, dolorosas, e com dificuldades quase imposs\u00edveis de superar. Mas se n\u00e3o estamos prontos a morrer nas pequenas coisas pelo outro, como poderemos construir os relacionamentos que transformam, realmente, as nossas vidas?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":92442,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-149647","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149647","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=149647"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149647\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=149647"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=149647"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=149647"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}