{"id":149114,"date":"2019-09-23T10:53:10","date_gmt":"2019-09-23T09:53:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=149114"},"modified":"2019-09-30T10:25:26","modified_gmt":"2019-09-30T09:25:26","slug":"em-busca-de-uma-linguagem-universal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/em-busca-de-uma-linguagem-universal\/","title":{"rendered":"Em busca de uma Linguagem Universal"},"content":{"rendered":"<p><em>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (<a href=\"http:\/\/www.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Professor<\/a>\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Blog<\/a>\u00a0&amp;\u00a0<a href=\"https:\/\/cienciafe.miguelpanao.com\/livros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Autor<\/a><\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O mundo vive grandes desafios, mas assistimos \u00e0 dificuldade de nos entendermos (entre pessoas), e de nos entendermos com o mundo natural. Para nos entendermos precisamos de uma linguagem. E se os interlocutores s\u00e3o t\u00e3o diferentes quanto um ser humano e uma \u00e1rvore, que linguagem permite um di\u00e1logo que aprofunde uma rela\u00e7\u00e3o aut\u00eantica e s\u00e9ria entre os dois?<\/p>\n<figure id=\"attachment_149115\" aria-describedby=\"caption-attachment-149115\" style=\"width: 900px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Elizabeth_Ordonez.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-149115 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Elizabeth_Ordonez.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"660\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Elizabeth_Ordonez.jpg 900w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Elizabeth_Ordonez-355x260.jpg 355w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Elizabeth_Ordonez-768x563.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Elizabeth_Ordonez-480x352.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-149115\" class=\"wp-caption-text\">Foto de Elizabeth Ordonez<\/figcaption><\/figure>\n<h3>Ci\u00eancia?<\/h3>\n<p>Na revista de divulga\u00e7\u00e3o de ci\u00eancia <em>New Scientist<\/em> lia uma entrevista feita ao bi\u00f3logo Richard Dawkins, sinceramente, mais conhecido pelas provoca\u00e7\u00f5es ate\u00edstas \u00e0 religi\u00e3o, do que por qualquer avan\u00e7o extraordin\u00e1rio do pensamento cient\u00edfico. Mas h\u00e1 uma coisa que Dawkins pensa, e muitas pessoas pensam tamb\u00e9m, independentemente de acreditarem, ou n\u00e3o, em Deus. Pensam que a ci\u00eancia \u00e9 uma linguagem universal.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 simples. Perguntem a um portugu\u00eas, a um japon\u00eas e a um palestiniano o que \u00e9 uma mol\u00e9cula. A resposta ser\u00e1 a mesma. Mas se perguntarem qual o sentido da vida, muito provavelmente, cada um dar\u00e1 uma resposta de acordo com a sua experi\u00eancia religiosa e humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas as plantas e os animais n\u00e3o humanos nada dir\u00e3o. Depois, nem sempre os cientistas usam os mesmos termos para designar a mesma coisa, o que pode gerar alguma confus\u00e3o. Mas se pensarmos na matem\u00e1tica, talvez seja a\u00ed que encontramos uma linguagem universal. Mas o que sabem as cigarras de matem\u00e1tica?<\/p>\n<p>Se pensarmos bem, ainda que me custe admitir, a ci\u00eancia tem sido um paradoxo quanto ao di\u00e1logo que atrav\u00e9s dessa podemos ter com o mundo natural. Tanto serve para o compreender, como para o dominar.<\/p>\n<h3>Fraternidade?<\/h3>\n<p>Quando pensava nas <a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-irmas-arvores\/\">irm\u00e3s \u00e1rvores<\/a>, referia-me \u00e0 no\u00e7\u00e3o de fraternidade universal presente no C\u00e2ntico das Criaturas de S. Francisco. Nada tinha a ver com o gesto de abra\u00e7ar uma \u00e1rvore, apesar de o considerar belo. Tinha antes a ver com a experi\u00eancia de sermos criaturas fruto do amor do mesmo Criador.<\/p>\n<p>Talvez seja a fraternidade a linguagem universal que podemos usar num di\u00e1logo com a natureza. Mas depois proveio a d\u00favida. Houve quem ligasse o facto de usar a express\u00e3o \u201cirm\u00e3o\u201d ou \u201cirm\u00e3\u201d ao que assistimos, actualmente, nas sociedades &#8211; ditas &#8211; modernas. Isto \u00e9, quando vemos pessoas tratar os animais com mais respeito e cuidado do que tratam outras pessoas.<\/p>\n<p>Neste caso, se a fraternidade fosse uma linguagem universal, n\u00e3o trataria um animal abaixo ou acima de outro ser humano. Fico perturbado quando me dou conta de partidos pol\u00edticos que fazem tudo pelos animais e lutam com uma bandeira ecol\u00f3gica na m\u00e3o e, depois, s\u00e3o favor\u00e1veis ao aborto. Quer isso dizer que um ser humano com 24h de vida nem sequer \u00e9 um animal? Estranho.<\/p>\n<p>A fraternidade \u00e9 fundamental para um relacionamento aprofundado com a natureza, mas parece-me ser mais um enquadramento do que uma linguagem.<\/p>\n<h3>Onde menos esperava encontrar<\/h3>\n<p>Num livro do cosm\u00f3logo Brian Swimme e do sacerdote Thomas Berry sobre a hist\u00f3ria do universo (<em><a href=\"https:\/\/www.amazon.com\/Universe-Story-Primordial-Era-Celebration\/dp\/0062508350\/\">The Universe Story<\/a><\/em>) li como a <em>comunh\u00e3o<\/em> \u00e9 considerado o princ\u00edpio cosmol\u00f3gico que impulsiona a evolu\u00e7\u00e3o do mundo, pois, expressa a interrela\u00e7\u00e3o, interdepend\u00eancia, parentesco, mutualidade, relacionalidade, reciprocidade, complementaridade, inter-conectividade que assistimos em todo do lado, desde o nosso interior, ao espa\u00e7o \u00e0 nossa volta, ao planeta, ao universo.<\/p>\n<p>Isso significa que tudo est\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o com tudo, como o Papa Francisco refere v\u00e1rias vezes na <em>Laudato Si\u2019<\/em>. Mas estes relacionamentos n\u00e3o s\u00e3o de um tipo qualquer, mas relacionamentos de amor. Por\u00e9m, tamb\u00e9m o modo de entender o amor n\u00e3o \u00e9 um qualquer, mas como <em>dom-de-si-mesmo<\/em>. A amar \u00e9 dar-se.<\/p>\n<blockquote><p>\u201dOs rios n\u00e3o bebem a sua pr\u00f3pria \u00e1gua; as \u00e1rvores n\u00e3o comem os seus pr\u00f3prios frutos, o Sol n\u00e3o brilha para si mesmo; e as flores n\u00e3o espalham a sua frag\u00e2ncia para si. Viver para os ouros \u00e9 uma regra da natureza.\u201d<br \/>\n(Papa Francisco)<\/p><\/blockquote>\n<p>Ser\u00e1 amar a linguagem universal para dialogar com a natureza?<\/p>\n<p>Quando pensava nisto estava convencido disso, mas amar \u00e9, tamb\u00e9m, o fruto da experi\u00eancia do paradoxo. Pois, \u00e9 infinitamente pequeno e infitamente grande. Amar \u00e9 incrivelmente simples e incrivelmente complexo. Aquilo que no mundo \u00e9 negativo transforma-se em positivo sob o olhar e agir do amor. Amar possui toda a potencialidade de uma linguagem universal, mas ainda estamos a aprender a falar.<\/p>\n<p>Talvez precisemos de crescer um pouco mais na nossa humanidade at\u00e9 estabelecer um di\u00e1logo com o mundo natural atrav\u00e9s da linguagem universal do amor. Sinto que, do mesmo modo que um beb\u00e9 se expressa e dialoga antes de pronunciar palavras, tamb\u00e9m n\u00f3s precisamos de nos expressar com uma linguagem universal mais simples do que o amor e que seja concreta. Mas qual?<\/p>\n<p>Fiz sil\u00eancio enquanto pensava e foi no sil\u00eancio que me dei conta de qual poderia ser essa linguagem.<\/p>\n<p><strong>O sil\u00eancio.<\/strong><\/p>\n<p>Quando era mi\u00fado gostava de fazer jogos de palavras e inventar frases. Recordo-me bem de uma dessas frases ser &#8211; <em>\u201cum s\u00e1bio quando se cala sabe o que est\u00e1 a dizer.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O sil\u00eancio \u00e9 a linguagem universal falada por n\u00f3s que intelectualizamos tudo e mais alguma coisa (mesmo em sil\u00eancio), mas tamb\u00e9m falada pelas \u00e1rvores. Quando estamos imersos num parque e nos calamos, n\u00e3o dialogamos com a natureza no sil\u00eancio?<\/p>\n<p>Sil\u00eancio n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de som, mas de ru\u00eddo exterior e, sobretudo, interior. O sil\u00eancio fala-se atrav\u00e9s de uma escuta atenta. O que ouves da brisa que te refresca a face \u00e9 o seu modo de falar com a linguagem do sil\u00eancio. O agitar das folhas n\u00e3o \u00e9 mais do que um di\u00e1logo entre a brisa e as \u00e1rvores com a linguagem do sil\u00eancio.<\/p>\n<blockquote><p>\u201dV\u00ea como a natureza &#8211; \u00e1rvores, flores, erva &#8211; cresce no sil\u00eancio; v\u00ea as estrelas, a lua e o sol &#8211; como se movem em sil\u00eancio\u2026 N\u00f3s precisamos do sil\u00eancio para sermos capazes de tocar as almas.\u201d (Madre Teresa)<\/p><\/blockquote>\n<p>O sil\u00eancio \u00e9 a linguagem universal que se fala no espa\u00e7o de comunh\u00e3o que partilhamos com o mundo natural. \u00c9 atrav\u00e9s dos di\u00e1logos que podemos ter com o mundo natural, usando a linguagem do sil\u00eancio, que chegaremos \u00e0 consci\u00eancia plena de onde estamos, quem somos e qual o nosso des\u00edgnio. Pois, n\u00e3o \u00e9 o sil\u00eancio a linguagem atrav\u00e9s da qual Deus mais nos fala?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Miguel Oliveira Pan\u00e3o (Professor\u00a0Universit\u00e1rio),\u00a0Blog\u00a0&amp;\u00a0Autor<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":92442,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-149114","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149114","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=149114"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/149114\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/92442"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=149114"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=149114"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=149114"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}