{"id":148899,"date":"2019-09-20T07:31:50","date_gmt":"2019-09-20T06:31:50","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=148899"},"modified":"2019-09-20T09:55:13","modified_gmt":"2019-09-20T08:55:13","slug":"148899-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/148899-2\/","title":{"rendered":"O tr\u00e1fico de pessoas \u00e9 uma realidade em muta\u00e7\u00e3o constante \u2013 irm\u00e3 J\u00falia Bacelar"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p>A irm\u00e3 J\u00falia Bacelar, da Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s Adoradoras Escravas do Sant\u00edssimo Sacramento, vai representar Portugal na assembleia geral da \u2018Thalitha Kum\u2019, a Rede Internacional da Vida Consagrada para a Erradica\u00e7\u00e3o do Tr\u00e1fico de Pessoas, que vai decorrer em Roma de 21 a 27 de setembro, e que est\u00e1 a celebrar 10 anos da sua funda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A religiosa tem-se dedicado ao acolhimento de mulheres em situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel e procura sensibilizar a Igreja e a sociedade para estes dramas, que exigem uma aten\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fotos: Paulo Rocha<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_148733\" aria-describedby=\"caption-attachment-148733\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-148733 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1064-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-148733\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/PR, Irm\u00e3 J\u00falia Bacelar<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Vai representar Portugal na Assembleia Geral da \u2018Talitha Kum\u2019, a Rede Internacional de Vida Consagrada para a Erradica\u00e7\u00e3o do Tr\u00e1fico de Pessoas, que vai decorrer em Roma de 21 a 27 setembro, e que est\u00e1 a celebrar 10 anos da sua funda\u00e7\u00e3o. Que rede \u00e9 esta, e quantos pa\u00edses abrange?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma rede mundial da vida consagrada criada pela Uni\u00e3o das Superioras Gerais, em Roma, quando se deram conta de que em diversas partes do mundo &#8211; tamb\u00e9m aqui na Europa, mas sobretudo em \u00c1frica e na \u00c1sia &#8211; estava em crescendo o problema do tr\u00e1fico de pessoas, sobretudo de crian\u00e7as. O problema j\u00e1 vinha de tr\u00e1s, mas as irm\u00e3s s\u00f3 ali por volta dos anos 90 \u00e9 que se deram conta de que este problema estava mesmo a ficar complicado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o sobretudo as congrega\u00e7\u00f5es religiosas femininas que trabalham nesta \u00e1rea?<\/em><\/p>\n<p>Sim, s\u00e3o principalmente as femininas. Foram falando nas reuni\u00f5es que t\u00eam a cada dois anos e foram surgindo relatos de muitas experi\u00eancias, na \u00c1sia e na \u00c1frica, concretamente mais na Nig\u00e9ria, onde v\u00e1rias irm\u00e3s estavam j\u00e1 a trabalhar com raparigas que vinham para Europa enganadas. E ent\u00e3o, as Superioras Gerais come\u00e7aram a pensar \u2018\u00e9 preciso fazer qualquer coisa&#8217;, porque anda cada um no seu pa\u00eds a fazer coisas, era bom se calhar coordenar este trabalho, fazer partilha de experi\u00eancias.<\/p>\n<p>Aqui na Europa n\u00f3s, irm\u00e3s Adoradoras, nos anos 90 j\u00e1 t\u00ednhamos em funcionamento em Madrid um grande projeto, que era o &#8216;Projeto Esperan\u00e7a&#8217;, as irm\u00e3s Oblatas tamb\u00e9m j\u00e1 tinham um trabalho de rua com mulheres imigrantes, como diz\u00edamos na \u00e9poca, porque o tr\u00e1fico ainda n\u00e3o estava muito bem definido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Imigrantes ilegais que vinham sobretudo para redes de prostitui\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, vinham para a explora\u00e7\u00e3o sexual, mas entravam todas no conceito de imigrantes irregulares. Ent\u00e3o, as Superioras acharam por bem, no ano 2008, organizar um grande congresso para partilha de experi\u00eancias. Denunci\u00e1mos o tr\u00e1fico de seres humanos, e foi quando junt\u00e1mos imensa gente, e surgiu este nome &#8216;Talitha Kum&#8217;, que significa &#8216;ergue-te&#8217;. Criou-se, ent\u00e3o, esta rede, nessa \u00e9poca \u00e9ramos s\u00f3 47 irm\u00e3s, mas isto depois foi-se alargando e neste momento somos 80 de 50 pa\u00edses, e as redes s\u00e3o todas muito diferentes. Na \u00c1sia h\u00e1 redes que s\u00e3o nacionais e outras que s\u00e3o regionais, por exemplo nas Filipinas trabalham com pa\u00edses ali \u00e0 volta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quando fala em 80 irm\u00e3s, refere-se a congrega\u00e7\u00f5es religiosas?<\/em><\/p>\n<p>Sim, 80 congrega\u00e7\u00f5es. A \u2018Talitha Kum\u2019 faz, mais do que integra\u00e7\u00e3o, a coordena\u00e7\u00e3o de todos os trabalhos a n\u00edvel global. Isto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Em 10 anos, desde o congresso e depois da cria\u00e7\u00e3o da \u2018Talitha\u2019, nunca mais se fez um encontro. Quer dizer, a nossa coordenadora geral desloca-se constantemente por todos os pa\u00edses a ver como \u00e9 que est\u00e3o as redes, j\u00e1 veio c\u00e1 a Portugal v\u00e1rias vezes, porque tamb\u00e9m temos a nossa rede, mas h\u00e1 outros pa\u00edses, por exemplo a Espanha trabalha imenso no tr\u00e1fico de pessoas e n\u00e3o tem rede, a Fran\u00e7a tamb\u00e9m n\u00e3o tem. H\u00e1 v\u00e1rios pa\u00edses que n\u00e3o quiseram fazer rede, nem querem integrar a \u2018Talitha Kum\u2019. Por isso, ao dizer-se que h\u00e1 tantas irm\u00e3s, n\u00e3o quer dizer que esteja tudo feito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que a rede funciona na pr\u00e1tica? Como \u00e9 que atuam, onde j\u00e1 atuam?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s temos a sede em Roma, que coincide com a sede da Uni\u00e3o das Superioras Gerais, perto da Pra\u00e7a de S. Pedro. E esta irm\u00e3 tem a sua equipa que vai divulgando a\u00e7\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o, e \u00a0informa que em determinado pa\u00eds est\u00e1-se a fazer assim, para ver se as irm\u00e3s de l\u00e1 est\u00e3o atentas a esse pormenor. Quando foi a venda de crian\u00e7as, h\u00e1 uns 15, quase 20 anos, no Nepal, foi a \u2018Talitha Kum\u2019 que deu o alerta. E as irm\u00e3s Adoradoras, que t\u00ednhamos uma casa ali ao p\u00e9, ach\u00e1mos por bem abrir uma comunidade mesmo na fronteira com o Nepal, porque estavam a ser vendidas crian\u00e7as assim, ao Deus dar\u00e1. Isto para dizer que a \u2018Thalitha\u2019 tamb\u00e9m tem este aspeto de alertar os outros pa\u00edses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Neste momento quais s\u00e3o as principais dificuldades? H\u00e1 algum pa\u00eds onde a situa\u00e7\u00e3o seja mais dif\u00edcil?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s pomos sempre os olhos na \u00c1sia, por causa do turismo sexual e da prostitui\u00e7\u00e3o infantil, e nesta reuni\u00e3o que vamos ter em Roma a \u00c1sia \u00e9 o continente que est\u00e1 mais representado. Tamb\u00e9m de \u00c1frica, por causa das nigerianas, cujo tr\u00e1fico aumentou exponencialmente, v\u00e3o estar bastantes. A zona da Nig\u00e9ria e ali \u00e0 volta, na Eritreia por exemplo, saem v\u00e1rias mulheres.<\/p>\n<p>O fen\u00f3meno do tr\u00e1fico vai oscilando. Nos anos 80, 90 eram mais as mulheres que vinham da Europa de Leste, basta recordar tudo o que aconteceu aqui em Portugal, para n\u00e3o ir mais longe.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Este \u00e9 um tema que o Papa Francisco trouxe para a atualidade.<\/em><\/p>\n<p>Sim, sobretudo ele. Tem sido bastante din\u00e2mico na aten\u00e7\u00e3o que quer que a Igreja cat\u00f3lica d\u00ea a este problema, e at\u00e9 instituiu um Dia de Ora\u00e7\u00e3o contra o Tr\u00e1fico Humano, que se assinala a 8 fevereiro&#8230; dia de Santa\u00a0Josefina\u00a0Bakhita\u00a0(religiosa sudanesa), uma escrava que se libertou&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_148731\" aria-describedby=\"caption-attachment-148731\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-148731 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1141.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-148731\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/PR, Irm\u00e3 J\u00falia Bacelar<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Em Fevereiro deste ano a inten\u00e7\u00e3o de ora\u00e7\u00e3o do Papa foi exatamente sobre a escravatura, as v\u00edtimas de tr\u00e1fico e a prostitui\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, e a Via Sacra no Coliseu, na sexta-feira Santa, tamb\u00e9m foi dedicada a este tema\u2026<\/em><\/p>\n<p>E as\u00a0medita\u00e7\u00f5es foram feitas pela irm\u00e3 Eug\u00e9nia Bonetti, que foi a primeira religiosa que come\u00e7ou a trabalhar na Nig\u00e9ria, para a\u00ed h\u00e1 uns 20 anos, ou mais. Era a pessoa indicada\u00a0para fazer a Via Sacra, e ela e o Papa d\u00e3o-se muito bem, t\u00eam muita cumplicidade os dois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta aten\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do Papa Francisco, que import\u00e2ncia \u00e9 que tem para quem j\u00e1 est\u00e1 no terreno?<\/em><\/p>\n<p>Tem muita. Eu, como irm\u00e3 Adoradora, sei que ele quando era arcebispo de Buenos Aires ia aos bairros com as nossas irm\u00e3s, conheceu o problema localmente. Uma coisa \u00e9 dizer &#8216;as prostitutas est\u00e3o ali, foram traficadas, foram vendidas, est\u00e3o ali porque querem\u2019, outra coisa \u00e9 ir l\u00e1 falar com elas. O Papa tem essa experi\u00eancia do terreno, e isso d\u00e1-lhe uma sensibilidade completamente diferente de pessoas que n\u00e3o saem de gabinetes. Ele tem mesmo aquilo nas entranhas, porque ele mesmo viu.<\/p>\n<p>As nossas irm\u00e3s contam coisas dele impressionantes, l\u00e1 de Buenos Aires. As raparigas, que nem sabiam que ele era arcebispo, pediam-lhe &#8216;senhor padre ajude-me, quero sair desta vida, mas n\u00e3o posso&#8217;. Ele levava os nossos cart\u00f5es, nossos e de outras congrega\u00e7\u00f5es, mas ele est\u00e1 muito ligado \u00e0s nossas equipas de rua. Entregava-lhes os cart\u00f5es e depois ia l\u00e1 a casa perguntar &#8216;ent\u00e3o, aquela rapariga que eu encontrei naquele dia, onde \u00e9 que ela est\u00e1?&#8217;. E isto estamos a falar de h\u00e1 v\u00e1rios anos atr\u00e1s, portanto, agora que \u00e9 Papa tem isto muito presente, tem muita sensibilidade para isto e chama os bois pelos nomes.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E sendo muito atento \u00e0 realidade est\u00e1 sempre a alertar para este fen\u00f3meno, que se interliga com o das migra\u00e7\u00f5es. Hoje em dia quase que se confundem, isso tamb\u00e9m dificulta o trabalho?<\/em><\/p>\n<p>Pois, mas cada vez mais est\u00e1 a ficar mais claro que estamos a falar de coisas muito\u00a0diferentes. Uma pessoa traficada, crian\u00e7a, homem ou mulher, \u00e0 partida foi recrutada de uma maneira diferente do imigrante. A forma de transporte, a gente diz &#8216;pronto, aqueles que est\u00e3o ali na fronteira na L\u00edbia, que depois v\u00eam nos barcos&#8217;&#8230; mas, o\u00a0recrutamento, o transporte, a pr\u00f3pria integra\u00e7\u00e3o aqui no meio da explora\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 completamente diferente dos imigrantes. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es diferentes, tanto assim que o tr\u00e1fico \u00e9 crime, e a imigra\u00e7\u00e3o ilegal tem outra legisla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas, o fen\u00f3meno das migra\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m traz riscos, nomeadamente para as crian\u00e7as, que v\u00eam sozinhas e acabam muitas delas traficadas\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Faz sentido que o Manual que o Vaticano publicou em janeiro deste ano chame tanto a aten\u00e7\u00e3o para esses temas?<\/em><\/p>\n<p>Sim. E era muito necess\u00e1rio que se fizesse esse trabalho. N\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos um manual desde o ano 2007, fizemos um primeiro manual de preven\u00e7\u00e3o e de apoio \u00e0s v\u00edtimas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Existe em Portugal, efetivamente, um manual de forma\u00e7\u00e3o \u2018Thalitha Kum\u2019, que j\u00e1 tinha a\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fico de pessoas e assist\u00eancia \u00e0s v\u00edtimas.<\/em><\/p>\n<p>Faltava um para a emigra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o havia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E foi em janeiro que o Dicast\u00e9rio do Vaticano para este setor lan\u00e7ou um documento mais abrangente.<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o as \u2018Orienta\u00e7\u00f5es Pastorais para o Trabalho com Migrantes e Refugiados\u2019. Tem l\u00e1 umas linhas fant\u00e1sticas que se podem aplicar ao tr\u00e1fico, embora quando falamos de tr\u00e1fico estamos a falar de crimes, portanto a abordagem com a v\u00edtima tem de ser de outra maneira. N\u00e3o nos compete a n\u00f3s fazer de pol\u00edcias e ir atr\u00e1s dos traficantes. As nossas equipas, e as irm\u00e3s Oblatas, vamos aos clubes e \u00e0s casas de alterne, mas com uma forma de estar diferente, vamos l\u00e1 para ver a v\u00edtima, motiv\u00e1-la para outra forma de estar&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, depois tamb\u00e9m colaboram com as autoridades civis e policiais?<\/em><\/p>\n<p>Sim. N\u00e3o vamos denunci\u00e1-las, &#8216;olhe que aquela est\u00e1 irregular&#8217;, mas o trabalho que fazemos com elas \u00e9 para que ganhem confian\u00e7a de que outra vida \u00e9 poss\u00edvel, sem ser a explora\u00e7\u00e3o sexual. Porque se antes era mau, nos anos 90 &#8211; e c\u00e1 em Portugal ent\u00e3o h\u00e1 muito para dizer sobre isso, pequenas aldeias tinham l\u00e1 o seu clube de alterne, hoje em dia isso j\u00e1 n\u00e3o acontece tanto, mas as religiosas estamos muito atentas a isto -, hoje \u00e9 mais dif\u00edcil porque elas est\u00e3o em apartamentos. Mas, a pol\u00edcia conhece, e n\u00f3s temos que ir l\u00e1 para as motivar e ajudar, fazer propostas de esperan\u00e7a, mostrar que outra vida \u00e9 poss\u00edvel. Ok, fizeram um itiner\u00e1rio horroroso, infernal, chegaram aqui e foram entregues a isto, t\u00eam uma pessoa que as est\u00e1 a vigiar, t\u00eam uma pessoa que vive do dinheiro delas. porque o dinheiro que fazem nem sequer esse \u00e9 para elas. Portanto, estamos a falar de um crime, as coisas t\u00eam de ser chamadas pelo nome.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Temos estado a falar da situa\u00e7\u00e3o em Portugal olhando um pouco para o passado. No presente a Comiss\u00e3o de Apoio \u00e0s V\u00edtimas do Tr\u00e1fico de Pessoas (CAVITP), criada pela Confer\u00eancia dos Institutos Religiosos de Portugal, integra esta rede \u2018Thalitha Kum\u2019, colabora com Estado e com a sociedade civil\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, o pr\u00f3prio Estado criou uma rede, e n\u00f3s tamb\u00e9m estamos l\u00e1, que \u00e9 a RAFT.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o atual? \u00a0<\/em><\/p>\n<p>Por aquilo que se vai sabendo houve uma grande mudan\u00e7a, a partir de 2005, mais ou menos. Antes eram mais as mulheres, da Europa de Leste e da Am\u00e9rica Latina, aqui falava-se muito das brasileiras e das colombianas, todas as &#8216;calientes&#8217;, dizia-se muito isso, e at\u00e9 houve aquele problema com as \u2018m\u00e3es de Bragan\u00e7a\u2019. Entretanto as coisas mudaram substancialmente. Neste momento em Portugal aumentou muito o tr\u00e1fico de homens de origem asi\u00e1tica, \u00e9 o que dizem os n\u00fameros. Temos um Observat\u00f3rio, que o governo criou, o Observat\u00f3rio do Tr\u00e1fico de Seres Humanos, com as estat\u00edsticas de todos os anos. Ainda n\u00e3o est\u00e1 publicada oficialmente, penso eu, a de 2018, mas os dados apontam para isso, para uma maioria de homens&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Tr\u00e1fico para explora\u00e7\u00e3o laboral?<\/em><\/p>\n<p>Para explora\u00e7\u00e3o laboral, e a origem de muitos deles \u00e9 asi\u00e1tica. As\u00a0mulheres diminu\u00edram\u00a0substancialmente&#8230; quer dizer, no tr\u00e1fico nunca se pode dizer as coisas assim com tanta contund\u00eancia, porque se trata de um fen\u00f3meno que \u00e9 muito oculto.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E qualquer percentagem tem relev\u00e2ncia&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Exato, e n\u00f3s s\u00f3 conhecemos uma pontinha do iceberg. Mas, nas mulheres houve uma mudan\u00e7a, parece-nos, diferente. Diminuiu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s da Am\u00e9rica Latina e da Europa de Leste. Temos agora as mulheres africanas, as da Nig\u00e9ria, que est\u00e3o por toda a Europa, concretamente em It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Espanha e tamb\u00e9m em Portugal, e que est\u00e3o nos apartamentos. Nos homens subiu muito, para explora\u00e7\u00e3o laboral, sobretudo na parte da agricultura. H\u00e1 uns anos era mais para a constru\u00e7\u00e3o civil, mas depois as autoridades, como a ACT (Autoridade para as Condi\u00e7\u00f5es do Trabalho), fizeram o seu trabalho de campo, fiscaliza\u00e7\u00f5es, e segundo o que t\u00eam publicado, agora \u00e9 mais na \u00e1rea da agricultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fiscaliza\u00e7\u00f5es, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Pois, tem de fazer, e ent\u00e3o agora o que se tem notado muito e o que eles t\u00eam publicado \u00e9 que \u00e9 mais na \u00e1rea da agricultura. H\u00e1 uma outra face, que viram aqui h\u00e1 15 dias, tr\u00eas semanas, que encontraram cerca de 30 chineses, presos em Cascais\u2026 S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es novas que v\u00e3o surgindo, constantemente. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil dizer: isto \u00e9 preto no branco. \u00c9 um fen\u00f3meno oculto, \u00e9 um fen\u00f3meno que \u00e9 como um camale\u00e3o, vai mudando de cor, de jeito, de feitio, de forma de estar e de atuar: o que \u00e9 hoje, pode n\u00e3o ser, daqui a um m\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesse sentido, \u00e9 importante que haja uma sensibiliza\u00e7\u00e3o constante e at\u00e9 uma forma\u00e7\u00e3o constante, para que este fen\u00f3meno seja muito rapidamente identific\u00e1vel?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim. O Estado faz isso, n\u00f3s temos dentro desta rede que o Estado criou \u2013 da Igreja estamos tr\u00eas, s\u00f3 \u2013 todo o tipo de organiza\u00e7\u00f5es, neste momento acho que s\u00e3o 30 e tal. Reunimo-nos com frequ\u00eancia e cada um conta a sua experi\u00eancia, o que vai fazendo, at\u00e9 porque como isto vai mudando, o que se vai conhecendo no terreno, ao colocar-se em cima da mesa, vai gerando um conhecimento aproximado da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tentando um trabalho conjunto\u2026 Esta colabora\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es da Igreja e o trabalho que fazem \u00e9 reconhecido, pelas entidades oficiais e do Estado?<\/em><\/p>\n<p>O Estado ao fazer os planos nacionais de preven\u00e7\u00e3o e de luta contra o tr\u00e1fico \u2013 j\u00e1 vamos no quinto, neste momento, que vai at\u00e9 2021 -, cria certos recursos, equipas de rua, etc. N\u00f3s, pela nossa parte, j\u00e1 v\u00ednhamos a fazer esse trabalho, n\u00e3o digo paralelo, mas de outra maneira. Ao integrarmos a rede, fazemos parte, num sentido de colabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu, pessoalmente, sinto que nos valorizam, embora n\u00f3s oficialmente n\u00e3o tenhamos v\u00edtimas de tr\u00e1fico, com essa designa\u00e7\u00e3o. O Estado criou centros de acolhimento espec\u00edficos para esta problem\u00e1tica, porque requer uma aten\u00e7\u00e3o completamente espec\u00edfica.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos, nas nossas institui\u00e7\u00f5es de acolhimento e mesmo no trabalho de atendimento que fazemos, os contactos com as mulheres nas estradas ou nos apartamentos, definimos o tipo de mulher de que nos aproximamos: al\u00e9m de estarem numa situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o sexual, prostitutas ou o que for, nesses contextos, n\u00f3s o que dizemos \u00e9 que essas pessoas t\u00eam uns itiner\u00e1rios pr\u00f3ximos do que faz uma v\u00edtima de tr\u00e1fico.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E o que \u00e9 se faz, nessa circunst\u00e2ncia?<\/em><\/p>\n<p>O que est\u00e1 dito \u00e9 que, quando se deteta este tipo de situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 que se comunique aos \u00f3rg\u00e3os de pol\u00edcia criminal, para que depois fa\u00e7am o estudo da situa\u00e7\u00e3o. Caso a pessoa, homem, mulher ou crian\u00e7a, queira ser apoiada, ir\u00e1 ent\u00e3o para um destes centros. As religiosas n\u00e3o t\u00eam centros espec\u00edficos para o acolhimento de v\u00edtimas de tr\u00e1fico\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_148735\" aria-describedby=\"caption-attachment-148735\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-148735 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Foto-Ag\u00eancia-ECCLESIAPR_Julia_Bacelar_1085.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-148735\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia ECCLESIA\/PR, Irm\u00e3 J\u00falia Bacelar<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>C\u00e1 em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Temos noutros pa\u00edses, sim. Em Portugal, desde o in\u00edcio, outras organiza\u00e7\u00f5es chegaram-se \u00e0 frente, v\u00e1rias, e t\u00eam estes centros de acolhimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A irm\u00e3 J\u00falia pertence \u00e0s Irm\u00e3s Adoradoras, que foi uma congrega\u00e7\u00e3o pioneira, de facto, neste trabalho de luta contra o tr\u00e1fico humano.<\/em><\/p>\n<p>Sobretudo em Espanha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa continua a ser uma prioridade, a n\u00edvel internacional? <\/em><\/p>\n<p>Cada vez mais, cada vez mais. Tivemos um cap\u00edtulo, em 2011, e desde logo se definiu que o nosso trabalho \u00e9 o apoio \u00e0 mulher em situa\u00e7\u00e3o de risco. Isto j\u00e1 vem desde a fundadora [Mar\u00eda Micaela do Sant\u00edssimo Sacramento], que s\u00f3 trabalhava com mulheres prostitutas na rua, em Madrid, em 1850. Estivemos muitos anos s\u00f3 nesta \u00e1rea, depois veio o problema da droga, depois a quest\u00e3o das m\u00e3es adolescentes e n\u00f3s fomos mudando um bocadinho a nossa aten\u00e7\u00e3o, a n\u00edvel internacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foram adaptando os projetos \u00e0s necessidades\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, \u00e0s problem\u00e1ticas que iam surgindo. Nos anos 80 parecia-nos muito importante, porque n\u00e3o havia resposta para isso, estar com as m\u00e3es adolescentes. Era o nosso trabalho, desde o Chile at\u00e9 \u00e0 \u00cdndia, toda a gente fazia o mesmo. Entretanto, come\u00e7amo-nos a aperceber, nos anos 90, deste problema das mulheres que estavam nas estradas e nas ruas\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O trabalho \u00e9 muito reconhecido, do ponto de vista da sociedade e da opini\u00e3o p\u00fablica, por causa desta presen\u00e7a junto das v\u00edtimas da explora\u00e7\u00e3o sexual?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, n\u00e3o temos raz\u00e3o de queixa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas h\u00e1 a ideia, sempre, de apoio \u00e0s mulheres v\u00edtimas das v\u00e1rias viol\u00eancias\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, porque quando de identifica uma pessoa como v\u00edtima de tr\u00e1fico, o Estado tem uma resposta para ela. N\u00f3s n\u00e3o nos candidatamos a nenhuma resposta espec\u00edfica, isso faz sentido, n\u00e3o vamos andar aqui a fazer um trabalho paralelo\u2026. O que fazemos, e trabalhamos bem com a Seguran\u00e7a Social, com as pol\u00edcias, \u00e9 acolhimento, atendimento, acompanhamento, visitas aos clubes, estradas, mas \u00e9 neste sentido de perceber qual a vulnerabilidade de que aquela pessoa est\u00e1 a ser v\u00edtima.<\/p>\n<p>Da\u00ed que se fale em v\u00e1rias viol\u00eancias, porque geralmente, na explora\u00e7\u00e3o sexual, d\u00e1-se a viol\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 dom\u00e9stica? Pois n\u00e3o, mas \u00e9 pior, porque normalmente na viol\u00eancia dom\u00e9stica identificamos o agressor e a v\u00edtima; num clube de alterne, sabemos que as mulheres s\u00e3o espancadas, elas mesmo nos contam: s\u00e3o espancadas, s\u00e3o drogadas, em vez de fazer um cliente tem de fazer 15, o dinheiro que tinha de receber \u00e9 para outra pessoa que n\u00e3o sabe quem \u00e9\u2026 N\u00f3s chamamos a tudo isso a viol\u00eancia sobre a mulher e quando as acolhemos n\u00e3o lhe pomos o r\u00f3tulo de \u201cv\u00edtima de tr\u00e1fico\u201d, mas dizemos que s\u00e3o v\u00edtimas de situa\u00e7\u00f5es de especial vulnerabilidade.<\/p>\n<p>A pessoa n\u00e3o \u00e9 vulner\u00e1vel, est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, o que est\u00e1 \u00e0 volta dela \u00e9 que a levou ao tr\u00e1fico, n\u00e3o \u00e9? A pessoa, em si, est\u00e1 cheia de potencialidades, de esperan\u00e7a, de sonhos, mas foi v\u00edtima de uma situa\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio do itiner\u00e1rio de tr\u00e1fico, dentro da explora\u00e7\u00e3o sexual ou laboral, que \u00e9 t\u00e3o ou mais terr\u00edvel\u2026 a tudo isso n\u00f3s chamamos v\u00edtimas de especial vulnerabilidade, como est\u00e1 na legisla\u00e7\u00e3o. A\u00ed podemos ter abertos os centros que quisermos, temos aberta uma casa para v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica, porque \u00e9 um problema identificado, espec\u00edfico; tivemos outra para m\u00e3es adolescentes que se fechou; temos agora dois para v\u00e1rias viol\u00eancias: mulheres sequestradas, viol\u00eancia f\u00edsica, outras mulheres que sabemos que foram vendidas \u2013 assim, a dinheiro \u2013 para um familiar e posteriormente obrigada a prostituir-se com elementos da fam\u00edlia. Tudo muito parecido ao tr\u00e1fico, n\u00e3o \u00e9? Mas s\u00f3 a pol\u00edcia \u00e9 que pode dizer que \u00e9 tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em Portugal, al\u00e9m destes centros de acolhimento, mant\u00eam o projeto \u2018Ergue-te\u2019, na zona de Coimbra, que trabalha especificamente nesta \u00e1rea, com mulheres em contexto de prostitui\u00e7\u00e3o. Portanto, tentando resgatar essas mulheres\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, pelo menos faz-se a aproxima\u00e7\u00e3o aos meios onde elas est\u00e3o. Temos as equipas de rua, que agora chamamos \u2018giros\u2019, que v\u00e3o ali \u00e0s estradas na zona Centro, onde h\u00e1 imensas mulheres\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Continua a ser um problema?<\/em><\/p>\n<p>Sim, continuam a ser estrangeiras, irregulares, que est\u00e3o privadas de imensas coisas. \u00c9 o cabo dos trabalhos, porque depois n\u00e3o temos o financiamento para as ajudar. Temos um problema grave de sa\u00fade, com estas mulheres: a parte da vista, a parte oncol\u00f3gica, outras t\u00eam problemas com os dentes, v\u00e1rias coisas, e isso n\u00e3o est\u00e1 financiado.<\/p>\n<p>O nosso projeto em Coimbra \u00e9 exclusivamente para atendimento, mas atende-se a pessoa e depois? Manda-la embora? Pronto, faz-se a ficha, tenta-se ajudar, faz-se um certo projeto de vida, dir\u00edamos, com os poucos recursos que se tem, para as ajudar a mudar esta situa\u00e7\u00e3o. Mas, depois, isto n\u00e3o \u00e9 com boas inten\u00e7\u00f5es\u2026 Estamos a tentar conseguir apoios, j\u00e1 tivermos alguns particulares, para poder auxiliar estas mulheres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Faz sentido ao in\u00edcio da conversa e ao encontro em que vai participar, em Roma. O que \u00e9 que se pode esperar deste encontro, que inclui uma audi\u00eancia com o Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>Ele chama a si este problema, como o dos imigrantes. Mesmo estas orienta\u00e7\u00f5es pastorais, foi ele mesmo que disse que queria estar a comandar. Ele faz quest\u00e3o de estar, tivemos uma reuni\u00e3o em 2016, fez quest\u00e3o de estar connosco, deu-nos umas palavrinhas muito assertivas, cumprimentou todas as que est\u00e1vamos, uma por uma \u2013 e \u00e9ramos mais de 80. Quis saber de onde \u00e9ramos, o que faz\u00edamos, foi uma coisa espetacular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O encontro \u00e9 dia 26?<\/em><\/p>\n<p>Sim, mas ele mesmo, com o cardeal Peter Turkson, vai celebrar uma Missa, na Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, em a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pelos 10 anos, o que \u00e9 algo que nos d\u00e1 muito \u00e2nimo, assim, logo de in\u00edcio. Depois, toda a semana vai ser trabalho de partilha, porque n\u00e3o tem nada a ver o que acontece no Nepal com o que est\u00e1 a acontecer na Nig\u00e9ria ou o que est\u00e1 a acontecer em Portugal. Todas n\u00f3s temos trabalhos de grupo, \u00e9 uma din\u00e2mica pr\u00f3pria de uma assembleia. Com tudo isso, iremos fazer um documento para apresentar ao Santo Padre no dia 26, nesta audi\u00eancia que vamos ter com ele, uma esp\u00e9cie de rascunho do que se fez nestes 10 anos, uma recolha de experi\u00eancias. O que se quer perceber, sobretudo, dado que o tr\u00e1fico muda constantemente, \u00e9 que h\u00e1 sempre problemas novos, que est\u00e3o a surgir. H\u00e1 pouco estava a dizer, em Portugal eram as mulheres, agora s\u00e3o os homens\u2026 N\u00e3o sei nos outros pa\u00edses, mas iremos saber destes problemas emergentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma das mais-valias deste encontro?<\/em><\/p>\n<p>Um dos assuntos que iremos abordar s\u00e3o os problemas emergente, faremos um documento final, que ser\u00e1 entregue ao Santo Padre. Quem tem dado muito apoio, nesta mat\u00e9ria, tem sido a Organiza\u00e7\u00e3o Internacional das Migra\u00e7\u00f5es (OIM), e depois tamb\u00e9m a Embaixada dos Estados Unidos junto da Santa S\u00e9, que reconhece muito, muito este trabalho. N\u00e3o sei porqu\u00ea, mas a verdade \u00e9 que \u00e9 assim, desde o come\u00e7o, sempre esteve muito pr\u00f3xima da Talitha. Deu um pr\u00e9mio [\u2018Her\u00f3is contra o tr\u00e1fico de pessoas\u2019] \u00e0 presidente [Gabriella Bottani], h\u00e1 pouco tempo, l\u00e1 nos Estados Unidos e eles v\u00e3o estar no \u00faltimo dia, connosco, na confer\u00eancia de imprensa, para dar um bocado mais de visibilidade a todo este trabalho. As pessoas sabem que n\u00e3o s\u00e3o 80 irm\u00e3s que est\u00e3o ali a falar, de coisinhas com \u00e1gua benta, sabemos que estamos a falar de coisas muito graves, muito s\u00e9rias.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos credibilidade por n\u00f3s pr\u00f3prias, cada irm\u00e3 que est\u00e1 a contar o seu trabalho, o que faz no \u00faltimo, nos s\u00edtios mais ocultos do mundo. A\u00ed h\u00e1 uma irm\u00e3, n\u00f3s sabemos disso. E \u00e9 muito valorizado este trabalho, porque as irm\u00e3s v\u00e3o aos s\u00edtios onde quase ningu\u00e9m quer ir\u2026 Algu\u00e9m pode ir por um m\u00eas, mas quem fica l\u00e1 s\u00e3o as irm\u00e3s, e \u00e9 muito importante: n\u00f3s damo-nos a n\u00f3s pr\u00f3prias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":148733,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-148899","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148899","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=148899"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/148899\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/148733"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=148899"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=148899"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=148899"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}