{"id":1482,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/dia-da-regiao-autonoma-da-madeira\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"dia-da-regiao-autonoma-da-madeira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dia-da-regiao-autonoma-da-madeira\/","title":{"rendered":"Dia da Regi\u00e3o Aut\u00f3noma da Madeira"},"content":{"rendered":"<p>Homilia de D. Teodoro de Faria <!--more--> D. Teodoro de Faria no dia da Regi\u00e3o  No dia da Regi\u00e3o Aut\u00f3noma da Madeira, celebrado a 1 de Julho, na celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia e Te Deum de Ac\u00e7\u00e3o de Gra\u00e7as na S\u00e9 do Funchal, D. Teodoro de Faria dirigiu uma mensagem a todos os madeirenses residentes nas ilhas e nos pa\u00edses de acolhimento. Eis na \u00edntegra a homilia do Bispo do Funchal  Fundada sobre a Rocha  1 &#8211; \u00c9 costume salutar, no Dia da Regi\u00e3o Aut\u00f3noma da Madeira, reconhecer as nossas ra\u00edzes ancestrais, sem esquecer a heran\u00e7a espiritual e religiosa que faz parte integrante da alma do nosso povo. A celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia na S\u00e9, com a presen\u00e7a das autoridades, \u00e9 um reconhecimento da mem\u00f3ria do nosso passado, e ao mesmo tempo, sinal e continua\u00e7\u00e3o dessa viv\u00eancia no presente que desejamos projectar no futuro. A leitura do Evangelho de S. Mateus, sobre a edifica\u00e7\u00e3o da casa sobre a rocha para ter estabilidade e seguran\u00e7a, e n\u00e3o ser desmoronada pela chuva e vendaval, \u00e9 um texto que nos aponta para o empenhamento na vida crist\u00e3 e social e, ao mesmo tempo, um aviso contra o relaxamento e o quietismo que se insinua na vida dos crentes e da sociedade. Na cidade concreta dos homens, o crist\u00e3o apoia-se sobre um s\u00f3lido fundamento que recebeu do seu Fundador e n\u00e3o teme ser destru\u00eddo com as primeiras adversidades ou provas. A sociedade onde o crente est\u00e1 inserido, n\u00e3o \u00e9 perfeita, &#8211; porque n\u00e3o h\u00e1 sociedades perfeitas, &#8211; ao lado dos construtores s\u00e1bios aparecem outros desprovidos de bom senso, onde o naufr\u00e1gio \u00e9 fatal. Levanta a casa sobre um fundamento s\u00f3lido, o que coloca na base, Deus, os valores humanos, sociais e espirituais, esse homem \u00e9 s\u00e1bio; o que a constr\u00f3i sobre uma base inconsistente, \u00e9 um estulto que prepara a sua pr\u00f3pria ru\u00edna e a alheia.  O empenhamento do crist\u00e3o na pol\u00edtica  2 &#8211; Desde os primeiros s\u00e9culos, os crist\u00e3os, empenharam-se nos diversos campos da cidade dos homens. Um desses empenhamentos foi a ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no sentido nobre e verdadeiro da palavra. Um grande escritor, cujo nome desconhecemos, numa c\u00e9lebre carta a Diogneto, afirmava nos primeiros s\u00e9culos: &#8220;os crist\u00e3os participam na vida pol\u00edtica como cidad\u00e3os&#8221;. Este crit\u00e9rio continua a ser v\u00e1lido para uma solu\u00e7\u00e3o correcta entre a Igreja e o Estado civil. Quando uma parte ou outra o esquece, nascem grandes dificuldades para os dois que podem originar conflitos, por vezes graves, como o demonstra a hist\u00f3ria bimilenar da Igreja. V\u00e1rios santos s\u00e3o venerados pelos fi\u00e9is pelo seu empenhamento generoso nas actividades pol\u00edticas, como S. Tom\u00e1s Moro, padroeiro dos Governantes e dos pol\u00edticos, que derramou o seu sangue para testemunhar &#8220;a dignidade inalien\u00e1vel da sua consci\u00eancia&#8221;, afirmando com a sua vida e a sua morte que &#8220;o homem n\u00e3o se pode separar de Deus, nem a pol\u00edtica da moral&#8221;. Este tema do empenhamento dos cat\u00f3licos na vida pol\u00edtica, levou a Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 a publicar a 21 de Novembro de 2002 uma &#8220;Nota Doutrinal&#8221;, que foi aprovada pelo Papa na Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. As sociedades democr\u00e1ticas actuais exigem &#8220;novas e mais amplas formas de participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica da parte dos cidad\u00e3os, crist\u00e3os e n\u00e3o crist\u00e3os&#8221;. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 atrav\u00e9s do voto que se realiza esta participa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m na forma\u00e7\u00e3o das orienta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e das op\u00e7\u00f5es legislativas, que favorecem o bem comum.  Num sistema pol\u00edtico democr\u00e1tico, necessita-se de um envolvimento activo, respons\u00e1vel e generoso de todos, &#8220;embora em diversidade e complementaridade de formas, meios, fun\u00e7\u00f5es e responsabilidades&#8221;, como afirma o Conc\u00edlio Vaticano II, na Gaudium et Spes (n\u00ba 75).  A consequ\u00eancia deste ensinamento \u00e9 que &#8220;os fi\u00e9is leigos n\u00e3o podem absolutamente abdicar na participa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, ou seja, da m\u00faltipla e variada ac\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, social, legislativa, administrativa e cultural destinada a promover org\u00e2nica e institucionalmente o bem comum&#8221; (Christifideles laici n.\u00ba 42).   Laicidade crist\u00e3  3 &#8211; O fim verdadeiro e \u00fanico de toda a pol\u00edtica \u00e9 o bem comum de todos e, por isso, todos t\u00eam o direito e o dever de participar, de modos diferentes na constru\u00e7\u00e3o da sociedade ou da cidadania. Os crist\u00e3os, porque cidad\u00e3os, podem e devem empenhar-se na pol\u00edtica, n\u00e3o a procurar o bem da Igreja, mas o bem de todos.  A promo\u00e7\u00e3o do bem comum nada tem a ver com o confessionalismo ou a intoler\u00e2ncia religiosa. Para a doutrina moral cat\u00f3lica, a laicidade \u00e9 vista como autonomia das esferas civil e religiosa, mas n\u00e3o autonomia da esfera moral. Posto este princ\u00edpio, o crist\u00e3o que se empenha na pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 para codificar valores estritamente religiosos, mas para os que dizem respeito \u00e0 vida social de todos, crentes ou descrentes. Mas h\u00e1 crit\u00e9rios que s\u00e3o essenciais e indispens\u00e1veis para uma ac\u00e7\u00e3o concreta dos crist\u00e3os na pol\u00edtica. Em primeiro lugar deve distinguir entre pluralismo e relativismo moral. \u00c9 leg\u00edtimo o pluralismo, visto como liberdade de escolha entre as diversas opini\u00f5es pol\u00edticas, quando \u00e9 compat\u00edvel com a lei moral natural, para a realiza\u00e7\u00e3o do bem comum. O relativismo ou pluralismo \u00e9tico, que afirma como v\u00e1lido qualquer tipo de escolha ou concep\u00e7\u00e3o da vida ou sua manipula\u00e7\u00e3o, como fidelidade ou infidelidade conjugal, solidariedade ou opress\u00e3o, paz ou guerra, \u00e9 inaceit\u00e1vel, n\u00e3o por raz\u00f5es religiosas, mas simplesmente humanas. Daqui se segue que n\u00e3o \u00e9 suficiente que uma lei nestas mat\u00e9rias seja aprovada pela maioria, como \u00e9 habitual em democracia, para ser justa. Nem tudo o que \u00e9 legal, ou presumido como tal, \u00e9 por isso mesmo moral. J\u00e1 na antiguidade cl\u00e1ssica grega, o grande escritor Esquilo, admoestava os tiranos com a frase de Ant\u00edgona: &#8220;existem leis n\u00e3o escritas que precedem e superam aquelas escritas&#8221;. Os valores, que a Nota da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9 apresentou como n\u00e3o negoci\u00e1veis, podem resumir-se no respeito da pessoa humana que comporta a intangibilidade da sua vida f\u00edsica desde a concep\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 conclus\u00e3o natural, a tutela e a promo\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia fundada sobre o matrim\u00f3nio entre pessoas de sexo diferente, a garantia da liberdade de educa\u00e7\u00e3o dos pais, o direito \u00e0 liberdade religiosa e a uma economia ao servi\u00e7o do bem comum, activando a solidariedade e a subsidiariedade, enfim a promo\u00e7\u00e3o da paz como fruto da justi\u00e7a e da caridade, que exige a recusa da viol\u00eancia e do terrorismo de qualquer g\u00e9nero.  Contributo na constru\u00e7\u00e3o da sociedade  4 &#8211; O crist\u00e3o que se pronuncia e empenha seriamente neste campo para que a vida social do seu pa\u00eds ou Regi\u00e3o seja inspirada, mesmo no plano legislativo, nestes valores, n\u00e3o est\u00e1 a ingerir-se indevidamente num campo que n\u00e3o lhe compete, mas procura simplesmente como cidad\u00e3o dar o seu contributo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade que respeita verdadeiramente a todos. Este empenhamento n\u00e3o \u00e9 secund\u00e1rio na vida dos que t\u00eam f\u00e9 em Deus e rege-se pela fidelidade absoluta \u00e0 sua consci\u00eancia &#8220;que \u00e9 \u00fanica e unit\u00e1ria, pelo que n\u00e3o pode haver duas vidas paralelas&#8221;. \u00c9 verdade que na intrincada realidade da vida pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para os pol\u00edticos crist\u00e3os cumprir os seus deveres principalmente no campo legislativo, em perfeita coer\u00eancia com a sua consci\u00eancia. O Papa Jo\u00e3o Paulo II no &#8220;Evangelho da Vida&#8221;, reconhece a liceidade de uma interven\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel a limitar os danos de uma lei inaceit\u00e1vel, quando n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer mais, sabendo que as leis humanas s\u00e3o imperfeitas por sua pr\u00f3pria natureza. A comunidade crist\u00e3 deve, por seu lado, ajudar, orar e votar nos seus leigos empenhados, para que eles n\u00e3o recusem intervir corajosamente na dura luta pol\u00edtica, quando est\u00e3o em causa os valores irrenunci\u00e1veis do bem comum. Jesus, no Serm\u00e3o program\u00e1tico do Reino de Deus, chama a esta atitude s\u00e1bia e corajosa, construir a sociedade sobre a rocha firme e n\u00e3o sobre a areia. Desde h\u00e1 mais de quinhentos anos que a comunidade humana que se estabeleceu nesta Diocese conheceu esta p\u00e1gina do Evangelho e, de muitas e diversas formas a aplicou \u00e0 sua vida; quando a esqueceu surgiu o sofrimento humano, a opress\u00e3o f\u00edsica e moral das consci\u00eancias. Pedimos \u00e0 Senhora do Monte, nossa Padroeira, e S. Tiago, que do alto da montanha vela sobre n\u00f3s, que nos proteja e livre das tempestades f\u00edsicas e morais, como a do aluvi\u00e3o que nos atingiu h\u00e1 200 anos e que no pr\u00f3ximo m\u00eas de Outubro, nos dias 8 e 9, vamos recordar o sofrimento humano e o patroc\u00ednio de Deus.  Com a Autonomia, come\u00e7ou a levantar-se de novo um arco-\u00edris de esperan\u00e7a, liberdade e paz que, hoje, nesta Catedral agradecemos a Deus, pedindo-lhe que a casa dos madeirenses constru\u00edda sobre a rocha, cres\u00e7a, aumente e se torne fonte inspiradora de palavras e ac\u00e7\u00f5es para o bem comum da nossa sociedade.  Funchal, 01 de Julho de 2003 Dia da Regi\u00e3o e das Comunidades Madeirenses +Teodoro, Bispo do Funchal  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia de D. 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