{"id":14750,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-presbitero-vive-a-graca-de-dar-e-de-receber-a-vida\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-presbitero-vive-a-graca-de-dar-e-de-receber-a-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-presbitero-vive-a-graca-de-dar-e-de-receber-a-vida\/","title":{"rendered":"O presb\u00edtero vive a gra\u00e7a de dar e de receber a vida"},"content":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es na Semana dos Semin\u00e1rios <!--more--> A Igreja ausculta de modo mais intenso nesta semana o seu pr\u00f3prio mist\u00e9rio de \u00edcone da Trindade no meio do mundo. Ao longo destes dias ela reflecte o mist\u00e9rio do seu mist\u00e9rio enquanto criatura vocacionada pelo seu Senhor e Esposo ao qual invoca permanentemente para a Ele aceder e para que a Ele advenha (cf. Ap 22,17). O significado etimol\u00f3gico da sua condi\u00e7\u00e3o evoca isso mesmo, a voz que a sust\u00e9m. Nesta condi\u00e7\u00e3o ela \u00e9 passiva, vocacionada, \u00e9 precedida por um amor outro. Logo \u00e9 convocada, \u00e9 chamada no meio de muitas vozes e com pelo menos Tr\u00eas vozes. Esta convoca\u00e7\u00e3o abre a Igreja \u00e0 descoberta da evoca\u00e7\u00e3o de si mesma, daquilo que lhe falta. Esta falta \u00e9 o que busca, e porque falta sacia. Este \u00e9 o mist\u00e9rio do sagrado. Rev\u00ea-se como amada e de novo chamada ao melhor de si mesma. Esta \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o do prot\u00f3tipo do fiel, do filho que \u00e9 o nosso antepassado Abra\u00e3o. \u00c9 desafiado a ir para si mesmo, a \u201clek lek\u00e1\u201d (vai para ti mesmo: Gen 12,1). Abra\u00e3o \u00e9 o primeiro a acreditar como deve ser. Coloca-se na situa\u00e7\u00e3o de filho. Por isso, ele \u00e9 o primeiro dos filhos de Deus dando in\u00edcio a uma grande hist\u00f3ria onde muitos outros entrar\u00e3o. Depois da torre de Babel na constru\u00e7\u00e3o de tijolos (11,3) que erguem muros e individualizam (isto \u00e9, isolam), o patriarca de Ur d\u00e1 in\u00edcio \u00e0 hist\u00f3ria do(s) estrangeiro(s), daquele(s) que tudo recebe(m) e faz(em) pontes dando \u00e0 vida uma dimens\u00e3o sacra. Deste modo, a Igreja, \u00e0 semelhan\u00e7a de Abra\u00e3o, encontra a sua experi\u00eancia origin\u00e1ria e cont\u00ednua \u2013 a da filia\u00e7\u00e3o divina. \u00c9 uma experi\u00eancia de f\u00e9, como n\u00e3o podia deixar de ser. Assim nasce a voca\u00e7\u00e3o sacerdotal, numa experi\u00eancia de f\u00e9. Nela reconhece com a Igreja que \u00e9 provocada a fazer sil\u00eancio, a ir \u201cpara si mesmo\u201d. A provoca\u00e7\u00e3o indica que existe uma voz \u00e0 frente e em favor dela que a voca. Neste quadro, a Semana dos Semin\u00e1rios \u00e9 uma experi\u00eancia de f\u00e9 para a Igreja. Ela invoca dentro de si mesma a f\u00e9 que a anima. Assim a fortifica. Nos nossos Semin\u00e1rios convocamos experi\u00eancias de f\u00e9 ao sacerd\u00f3cio, mas n\u00e3o de forma voluntarista. \u00c9 uma experi\u00eancia fontal e final na medida em que liga \u00e0 profiss\u00e3o da matriz identit\u00e1ria que distingue os disc\u00edpulos de Jesus, e ao mesmo tempo evoca um sentido numa esperan\u00e7a religando ao futuro. O quadro da provoca\u00e7\u00e3o sacerdotal \u00e9 o quadro da f\u00e9. Reconhece a convoca\u00e7\u00e3o fontal que abre \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o final. Assim cresce a invoca\u00e7\u00e3o entre a esperan\u00e7a e a mem\u00f3ria. A voca\u00e7\u00e3o ao sacerd\u00f3cio \u00e0 maneira presbiteral ent\u00e3o evoca um mist\u00e9rio outro. N\u00e3o \u00e9 um convite \u00e0 fun\u00e7\u00e3o sacerdotal, pois a Igreja n\u00e3o \u00e9 redut\u00edvel a um conjunto de fun\u00e7\u00f5es, nem a uma hierarquia de autoridades, como infelizmente foi tempo. \u00c9 muito mais do que isso, muito mais rico e muito mais pertinente mesmo para a cultura contempor\u00e2nea. A voca\u00e7\u00e3o sacerdotal que a Igreja inteira invoca e acarinha \u00e9 antes de mais uma experi\u00eancia de f\u00e9, o mesmo \u00e9 dizer, a experi\u00eancia da constru\u00e7\u00e3o de uma rela\u00e7\u00e3o ao mist\u00e9rio de si mesma que acaba por acrescentar o ser de Deus ao mundo e \u00e0 Igreja. Deste modo, sempre inacabada. A experi\u00eancia de f\u00e9 da Igreja \u00e9 experi\u00eancia de f\u00e9 da voz para o sacerd\u00f3cio. N\u00e3o se compreende uma sem a outra. Como experi\u00eancia de f\u00e9 acredita no que traz e cr\u00ea o que ensina e leva ao mundo. Faz f\u00e9 na evoca\u00e7\u00e3o da voz origin\u00e1ria e na fidelidade da mesma. Esta evoca\u00e7\u00e3o \u00e9 uma experi\u00eancia para o mundo na humanidade do crente. A figura sacerdotal torna-se a\u00ed sinal de uma provoca\u00e7\u00e3o outra que convoca o mundo \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o do amor peregrinando para outra terra. No fundo, invoca no meio do mundo a reedeniza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia dilacerada pela via da sua reabraamiza\u00e7\u00e3o. Assim se reconstroem as gera\u00e7\u00f5es de Jav\u00e9 (cf. Gen 2,4). A figura presbiteral prefigura ent\u00e3o para si, para o mundo e para a Igreja a abertura \u00e0 gra\u00e7a configurando-se ao mist\u00e9rio. N\u00e3o \u00e9, por isso, nem um funcion\u00e1rio nem um gestor. \u00c9 um invocante. Nesta condi\u00e7\u00e3o essencial pode evocar para si e para os outros o dom que recebeu e recebe permanentemente \u2013 a gra\u00e7a, termo t\u00e3o esquecido na reflex\u00e3o teol\u00f3gica contempor\u00e2nea. A figura presbiteral convoca ent\u00e3o o homem \u00e0 humanidade salva. Deste modo continua a receber a gra\u00e7a de ver acontecer a salva\u00e7\u00e3o ao mundo. O presb\u00edtero, etimologicamente o mais velho, d\u00e1 figura a essa gra\u00e7a com a for\u00e7a da sua juventude e na maturidade da vida adulta. Tradicional e socialmente ainda visto como pai, o padre \u00e9 figura do mist\u00e9rio, mist\u00e9rio que pode acontecer porque vivido. Universaliza o seu amor at\u00e9 que o cora\u00e7\u00e3o fique do tamanho do mundo. Nele todos podem evocar e invocar esse mist\u00e9rio que ele traz como tesouro em vasos de barro (cf. 2 Cor 4,7). A isto chamamos paternidade, sempre muito mais do que biol\u00f3gica, \u00e9 amante pois pulveriza a desfigura\u00e7\u00e3o do eclesi\u00e1stico. Nesta doa\u00e7\u00e3o de si passa a paternidade de Deus e a maternidade da Igreja. Poder viver a vida assim, nesta gratuidade permanente. Isto \u00e9 uma gra\u00e7a. Esta \u00e9 a beleza da vida \u00e0 maneira dos mais crescidos na f\u00e9, dos presb\u00edteros, ser pai e m\u00e3e para os outros e para o mundo. O encanto de uma vida assim continua a fascinar. N\u00e3o pode deixar de o conseguir. Apesar da cr\u00edtica mordaz da modernidade e do olhar de soslaio de alguma mentalidade ser\u00f4dia de car\u00e1cter mesquinho com um horizonte intelectual soez, n\u00e3o obstante a cr\u00edtica cerrada dos mestres da suspeita \u00e0 figura paterna, ela continua a configurar a figura presbiteral. \u00c0 imagem de Jesus, o sacerdote por antonom\u00e1sia, feliz nessa condi\u00e7\u00e3o, o presb\u00edtero vive a gra\u00e7a de dar e de receber a vida. Jesus, o Filho dos filhos, precisamente porque recebe e d\u00e1 a vida aos seus, \u00e9 pai e m\u00e3e. Esta \u00e9 a gra\u00e7a do prolongamento do dom. Por isso, nunca vive sozinho. O mundo e a Igreja s\u00e3o a sua casa. Qualquer homem faz a experi\u00eancia de estar s\u00f3, mas aquele que foi chamado ao sacerd\u00f3cio tem a gra\u00e7a da companhia de Deus garantida no dom indel\u00e9vel e irrevers\u00edvel do selo da ordena\u00e7\u00e3o e prolongada na seara do mundo. Como qualquer m\u00e3e e qualquer pai (dos bons) cria vida e gera rela\u00e7\u00f5es. N\u00e3o fica \u00e0 espera angustiado que outros venham recolher os frutos, mas \u00e9-lhe dada a gra\u00e7a da colheita como ao salmista (cf. Sl 126,1). Fazer a experi\u00eancia de uma vida livre, liberta, \u00e9 outra gra\u00e7a que o Senhor concede aos que s\u00e3o provocados para viver a vida nesta miss\u00e3o sacerdotal de paternidade e de maternidade. Livres para amar e ser amados, amantes e amadores, pois n\u00e3o s\u00e3o profissionais. Libertos de preocupa\u00e7\u00f5es menores, t\u00eam a oportunidade, a gra\u00e7a de viver a vida com qualidade de acordo com a medida alta de Jesus. Ser chamado a isto \u00e9 um privil\u00e9gio. Ter a coragem de, pelo menos, perguntar porqu\u00ea \u00e9 um acto de honestidade intelectual. N\u00e3o \u00e9 uma provoca\u00e7\u00e3o desumana. Antes, absolutamente humana e humanizante. Projecta, provoca a condi\u00e7\u00e3o humana ao melhor de si mesma, a ir para si mesma. Voca\u00e7\u00e3o grande, voca\u00e7\u00e3o nobre, voca\u00e7\u00e3o santa. Felizes os convidados. Nestes dias olhamos para a encarna\u00e7\u00e3o da maternidade e da paternidade num dos seus momentos prefiguradores mais l\u00eddimos que \u00e9 o da voca\u00e7\u00e3o sacerdotal. Invocamos ao Senhor muitas e boas encarna\u00e7\u00f5es do nosso Deus agraciante, voca\u00e7\u00f5es gratas.  <i>Jos\u00e9 Carlos Carvalho, professor UCP<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reflex\u00f5es na Semana dos Semin\u00e1rios<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[321],"class_list":["post-14750","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14750","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14750"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14750\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14750"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14750"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14750"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}