{"id":147378,"date":"2019-09-06T14:38:05","date_gmt":"2019-09-06T13:38:05","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=147378"},"modified":"2019-09-13T18:18:19","modified_gmt":"2019-09-13T17:18:19","slug":"ontem-ouvi-a-morte-a-chorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ontem-ouvi-a-morte-a-chorar\/","title":{"rendered":"Ontem ouvi a morte a chorar"},"content":{"rendered":"<p><em>Jos\u00e9 Lu\u00eds Nunes Martins<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Ontem-ouvi-a-morte-a-chorar.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-147381 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Ontem-ouvi-a-morte-a-chorar.jpg\" alt=\"\" width=\"399\" height=\"257\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Ontem-ouvi-a-morte-a-chorar.jpg 942w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Ontem-ouvi-a-morte-a-chorar-400x257.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Ontem-ouvi-a-morte-a-chorar-768x494.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/Ontem-ouvi-a-morte-a-chorar-480x309.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 399px) 100vw, 399px\" \/><\/a>Na sala de urg\u00eancias estavam tr\u00eas senhoras idosas, uma a dormir numa maca, outra sentada ao lado do marido que a acompanhava em sil\u00eancio na luta contra a natureza. A terceira era a morte e pairava naquele local sem saber o que fazer. Tamb\u00e9m l\u00e1 estava eu.<\/p>\n<p>Acabou por se sentar e chorou. Em paz. Creio que todos a v\u00edamos, mas ningu\u00e9m ousou dirigir-lhe a palavra. Algum tempo depois, a senhora que estava deitada acordou e pediu \u00e0 morte para que n\u00e3o se aproximasse dela.<\/p>\n<p>\u201cQuero viver mais\u201d \u2013 disse. \u201cDetesto esta condi\u00e7\u00e3o de doen\u00e7a, porque amo a vida. Porque a vida que me resta \u00e9 mais bela do que toda a doen\u00e7a que a tenta destruir. A alma que me sustenta ainda quer fazer o bem a outros. Aos da minha fam\u00edlia, por exemplo, que, de t\u00e3o distra\u00eddos, ainda n\u00e3o perceberam sequer que est\u00e3o vivos e que isso \u00e9 o maior dom que podem ter e ser. Quem n\u00e3o desiste de enfrentar a maldade nunca perde. Nunca.\u201d<\/p>\n<p>A morte escutou cada uma daquelas palavras, no meio de uma respira\u00e7\u00e3o cansada, mas decidida. Chorava ao mesmo tempo que admirava aquela mulher.<\/p>\n<p>Olhou ent\u00e3o para o casal e admirou o seu amor concreto e firme. Ela estava doente e ele estava ali com ela. Presente. Em sil\u00eancio. N\u00e3o era m\u00e9dico, mas cumpria a miss\u00e3o de que a solid\u00e3o n\u00e3o tomasse conta do cora\u00e7\u00e3o da mulher que sempre amou, que amava e que amaria at\u00e9 depois do fim. Um dia tinha escolhido ser assim, e era um homem de palavra.<\/p>\n<p>A mulher, sentada, de cabe\u00e7a um pouco reclinada, olhos serenos e olhar calmo, estava atenta ao que se passava e resolveu dizer enquanto suspirava de forma muito suave:<\/p>\n<p>\u201cHoje tamb\u00e9m n\u00e3o! Cada dia do amor \u00e9 um dia diferente. Eu quero viver. Apesar de tudo. Porque amo a minha fam\u00edlia, mesmo aqueles que preferem que eu morra como forma de acabar com este sofrimento. As dores s\u00e3o parte da vida. N\u00e3o h\u00e1 vida sem dor. E gostava que aprendessem a viver melhor, tirando partido de tudo, at\u00e9 dos seus sofrimentos. Passam a vida em rotinas e t\u00e9dios sem fim, sem sentido. Acham a vida uma porcaria porque a desprezam ao ponto de desperdi\u00e7arem dias, meses e anos inteiros&#8230; quando bastava parar um pouco e apreciar o mundo que est\u00e1 \u00e0 sua volta e aquele outro que h\u00e1 dentro do seu peito.\u201d<\/p>\n<p>A morte ouviu tudo como se fosse uma melodia bel\u00edssima de m\u00fasica cl\u00e1ssica. As l\u00e1grimas ca\u00edam-lhe pela face, evaporando-se antes que pudessem tocar o ch\u00e3o. Sorria ao mesmo tempo, pela sabedoria daquela senhora que, com o corpo a ceder, mantinha o seu esp\u00edrito fora dessa guerra que n\u00e3o era dele. A morte n\u00e3o parava de chorar&#8230;<\/p>\n<p>O marido esperou que a morte o olhasse para declarar: \u201cLeva-me a mim. Gostava de dar a vida por ela e bem sei que esperarei por ela do outro lado, mas sei tamb\u00e9m que isso \u00e9 um ego\u00edsmo e uma vaidade. Faz o que quiseres, na certeza de que nada podes contra o amor. N\u00e3o sei bem quem \u00e9s, mas sei que cumpres uma das fun\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis do mundo. Separas gente que se h\u00e1 de voltar a ver, mas como nem sempre acredita nisso, sofre&#8230; Tu, amiga morte, levas tantos para o c\u00e9u. Com um crit\u00e9rio que nem tu pr\u00f3pria deves conhecer&#8230; mas cumpres. Admiro-te.\u201d<\/p>\n<p>Aquelas palavras iluminaram a sala, mas fizeram a morte chorar de forma ainda mais profunda.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o a minha vez de dizer o que sentia, tanto \u00e0 morte como aos outros presentes, mas nada me sa\u00eda por estar t\u00e3o surpreso com o que estava a contemplar e a aprender. Por um momento, fiz-me amigo e filho da senhora da maca, depois, do casal&#8230; e at\u00e9 da morte, cujo sofrimento me pareceu convocar o melhor de mim&#8230;<\/p>\n<p>Talvez por inconsci\u00eancia, s\u00f3 depois de muito tempo pensei que a morte pudesse estar ali para me levar&#8230; e ainda o n\u00e3o tinha acabado de pensar, j\u00e1 a morte me olhou e disse: \u201cN\u00e3o. Descansa. Estou aqui por causa de mim mesma\u201d.<\/p>\n<p>E come\u00e7ou, ent\u00e3o, um sublime lamento:<\/p>\n<p>\u201cSou a morte, aquela mesma morte que num momento tem de vos levar para um outro mundo de que este faz parte, mas esse instante n\u00e3o \u00e9 hoje. Depois.<\/p>\n<p>O que mais me d\u00f3i \u00e9 tanto desamor na vida e pela vida. Tanta gente capaz de desistir de si e do valor que tem para os outros. Passam o tempo a acumular coisas que h\u00e3o de ficar por c\u00e1, nas m\u00e3os de algu\u00e9m que tamb\u00e9m um dia as ter\u00e1 de deixar, tudo isto em vez de se esfor\u00e7arem por serem mais e melhores, por inspirarem outros a viver de forma plena. Atrav\u00e9s de uma vida onde ser \u00e9 mil vezes mais importante do que todos os teres. Onde o bem \u00e9 mais importante que todos os bens.<\/p>\n<p>Toda a gente fala da paz e procura-a como se fosse um pr\u00e9mio para os primeiros a conseguirem alcan\u00e7\u00e1-la. N\u00e3o. A paz \u00e9 um privil\u00e9gio para os que escolhem os \u00faltimos lugares. Os humildes que sabem que entrar nas rivalidades deste mundo \u00e9 perder.<\/p>\n<p>Custa-me chamarem por mim. N\u00e3o sabem que basta apenas um passo na dire\u00e7\u00e3o certa, que at\u00e9 pode ser o \u00faltimo que d\u00e3o, para que a sua vida eterna seja outra&#8230;<\/p>\n<p>Aquilo de que importa ter medo \u00e9 de uma vida que se escolheu viver mal. S\u00f3.<\/p>\n<p>Um gesto corajoso de amor \u00e9 tudo quanto basta.<\/p>\n<p>E, lembrem-se, at\u00e9 pode ser o \u00faltimo.\u201d<\/p>\n<p>Assim que a morte acabou de falar descansou no ch\u00e3o como quem, \u00e0 noite, quer contemplar o c\u00e9u estrelado.<\/p>\n<p>A brisa suave da vida entrou pela sala, veio beijar-nos a todos e abra\u00e7ar a morte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Lu\u00eds Nunes Martins<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":103305,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-147378","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147378","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=147378"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/147378\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/103305"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=147378"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=147378"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=147378"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}