{"id":14660,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-paixao-de-lisboa\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-paixao-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-paixao-de-lisboa\/","title":{"rendered":"A <i>paix\u00e3o<\/i> de Lisboa"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa nos 250 anos do terramoto de Lisboa <!--more--> \u201cA Bem-Aventuran\u00e7a eterna e os sofrimentos do tempo presente\u201d  Homilia na Solenidade de Todos os Santos, nos 250 anos do Terramoto de Lisboa  1. Esta celebra\u00e7\u00e3o \u00e9 uma evoca\u00e7\u00e3o e uma mem\u00f3ria: evoca\u00e7\u00e3o do sismo que, faz hoje 250 anos, a esta hora, destruiu Lisboa; mem\u00f3ria daqueles que nesse dia pereceram, de quantos sofreram o luto e a perturba\u00e7\u00e3o da vida sempre inerente \u00e0s grandes cat\u00e1strofes. Queremos envolver nesta mem\u00f3ria todas as v\u00edtimas de cat\u00e1strofes naturais, e que se contam por centenas de milhares. Fazemo-lo no horizonte largo da esperan\u00e7a, expresso na nossa ora\u00e7\u00e3o. Celebramos a mesma solenidade lit\u00fargica de h\u00e1 250 anos: a Solenidade de Todos os Santos. A essa hora as igrejas de Lisboa estavam repletas de fi\u00e9is, quando a terra tremeu e as destruiu, transformando em v\u00edtimas aqueles que, at\u00e9 esse momento, eram fi\u00e9is crentes, meditando na Palavra de Deus que lhes abria o esp\u00edrito para os horizontes da eternidade, da \u201cbem-aventurada esperan\u00e7a\u201d da vis\u00e3o de Deus. Esta Solenidade lit\u00fargica \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o por aqueles que, em Cristo, j\u00e1 durante a peregrina\u00e7\u00e3o neste mundo, experimentaram a vida nova e a dignidade de filhos de Deus, da esperan\u00e7a da Sua plenitude, na vida definitiva e o fazem em comunh\u00e3o com os seus irm\u00e3os na f\u00e9, que tendo sofrido a morte, est\u00e3o j\u00e1 na plenitude da Vida. Uma rela\u00e7\u00e3o de continuidade entre a nossa vida neste mundo e a vida definitiva, na eternidade, \u00e9 a mensagem forte desta rela\u00e7\u00e3o. E talvez a morte tenha, h\u00e1 250 anos, surpreendido os nossos irm\u00e3os a fazerem essa medita\u00e7\u00e3o. Hoje, como naquele dia, \u00e9 bom tomarmos consci\u00eancia de que a viv\u00eancia do sofrimento e da morte t\u00eam um sentido ou outro, segundo esperamos ou n\u00e3o esperamos a vida eterna. \u00c9 que s\u00f3 esta d\u00e1 sentido ao sofrimento e resolve o enigma da morte, na qual a vida n\u00e3o acaba, apenas se transforma.  2. Para n\u00f3s crist\u00e3os, esta esperan\u00e7a na vida eterna n\u00e3o \u00e9 apenas um valor natural de quem admite uma outra vida para al\u00e9m da morte; \u00e9 uma virtude teologal, \u00e9 fruto do Esp\u00edrito de Cristo em n\u00f3s, que nos uniu a Ele no baptismo e nos deu a intimidade de \u201cfilhos de Deus\u201d. O desejo da vida eterna \u00e9, no crist\u00e3o, express\u00e3o espont\u00e2nea da vida em Cristo, experimentada neste mundo. As alegrias da f\u00e9, fruto da intimidade com Deus em Cristo, s\u00e3o j\u00e1 as prim\u00edcias da plenitude futura. A viv\u00eancia crist\u00e3 da vida neste mundo \u00e9 j\u00e1 da ordem do mundo futuro. Porque se trata de \u201cprim\u00edcias\u201d, ela gera espontaneamente o desejo da plenitude definitiva, o que leva, por vezes, os santos a desejarem a pr\u00f3pria morte, apenas porque ela \u00e9 a porta necess\u00e1ria para entrar na plenitude da vida. Esta dimens\u00e3o da vida apenas come\u00e7ada, mas ainda n\u00e3o completamente fru\u00edda, diz-nos que a vida crist\u00e3 est\u00e1, necessariamente, marcada de sofrimento. Na vis\u00e3o do Apocalipse, os eleitos que entram na plenitude da vida s\u00e3o apresentados como \u201cos que vieram da grande tribula\u00e7\u00e3o, os que lavaram as t\u00fanicas e as branquearam no sangue do Cordeiro\u201d. Embora pare\u00e7a uma refer\u00eancia \u00e0 primeira grande persegui\u00e7\u00e3o sofrida pela Igreja, ela \u00e9 universalmente significativa da vida crist\u00e3 como seguimento de Cristo na sua paix\u00e3o. O sofrimento e a dor n\u00e3o contradizem a esperan\u00e7a crist\u00e3, antes a integram como participa\u00e7\u00e3o no mist\u00e9rio pascal de Jesus Cristo. De todos os que, no momento da sua morte, forem chamados a participar na plenitude da vida, se poder\u00e1 dizer que v\u00eam da \u201cgrande tribula\u00e7\u00e3o\u201d, que eles assumiram e ofereceram sempre que celebraram a Eucaristia.  3. Destes \u201csofrimentos da vida presente\u201d fazem, tamb\u00e9m, parte as \u201ccat\u00e1strofes naturais\u201d, fruto do facto de o homem, destinado \u00e0 plenitude espiritual da vida eterna, viver a primeira parte da sua vida numa exist\u00eancia corp\u00f3rea, inserida no universo c\u00f3smico. Entre o homem e a natureza existe uma partilha de for\u00e7as e de destinos. Tal como das rela\u00e7\u00f5es dos homens com os outros homens surgem os mais dolorosos sofrimentos, como a guerra e outras formas de viol\u00eancia, a par das mais profundas alegrias, o mesmo se passa nas rela\u00e7\u00f5es dos homens com o Universo. O homem n\u00e3o domina essas for\u00e7as gigantescas da natureza o que o faz sentir a sua pequenez desprotegida. O homem, na afirma\u00e7\u00e3o da sua superioridade frente ao cosmos, n\u00e3o pode brincar com a natureza. E quantas vezes os desmandos imprudentes da civiliza\u00e7\u00e3o podem estar na origem destes grandes sofrimentos colectivos infligidos pelas for\u00e7as c\u00f3smicas. Conhecer para prevenir, respeitar a sua harmonia t\u00eam de ser atitudes permanentes da cultura e da civiliza\u00e7\u00e3o. A recente vaga dram\u00e1tica de inc\u00eandios s\u00e3o bem a prova do desrespeito do homem pela natureza, que acaba por se voltar contra o homem, normalmente n\u00e3o contra o \u201cagressor\u201d mas contra v\u00edtimas inocentes. Aprender a respeitar a natureza \u00e9, no fundo, aprender a viver. Mas o nosso pensamento e a nossa ora\u00e7\u00e3o p\u00f5em-nos, hoje, em comunh\u00e3o com aqueles que h\u00e1 250 anos morreram e com todas as v\u00edtimas de cat\u00e1strofes, t\u00e3o abundantes nos \u00faltimos tempos, nos v\u00e1rios continentes. Jesus pensou tamb\u00e9m neles quando, no Serm\u00e3o da Montanha, proclamou: \u201cBem-aventurados os que choram, porque ser\u00e3o consolados\u201d. Porque o mist\u00e9rio da vida, com Deus, \u00e9 o mesmo neste mundo e na Sua plenitude eterna, a \u201ccomunh\u00e3o dos santos\u201d concretiza-se, desde j\u00e1, nos nossos irm\u00e3os que choram. E eles ser\u00e3o consolados tamb\u00e9m pela solicitude da nossa partilha. Cada grande desastre natural \u00e9 sempre um convite \u00e0 solidariedade e \u00e0 fraternidade universal. Que esta mem\u00f3ria da \u201cpaix\u00e3o\u201d de Lisboa nos abra \u00e0 caridade para com os que ainda hoje choram e que a nossa ora\u00e7\u00e3o e a nossa partilha sejam, para eles, consola\u00e7\u00e3o.  Lisboa, Ru\u00ednas do Convento do Carmo, 1 de Novembro de 2005   \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa nos 250 anos do terramoto de Lisboa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[232,314],"class_list":["post-14660","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-incendios","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14660","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14660"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14660\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14660"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14660"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14660"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}