{"id":14659,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-cidade-que-nasceu-de-um-terramoto\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-cidade-que-nasceu-de-um-terramoto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-cidade-que-nasceu-de-um-terramoto\/","title":{"rendered":"A cidade que nasceu de um terramoto"},"content":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7ou a 1 de Novembro de 1755 <!--more--> O dia 1 de Novembro de 1755 ficou gravado na Hist\u00f3ria de Lisboa e do mundo pelo violento sismo, seguido de maremoto, que destruiu a cidade e fez milhares de v\u00edtimas. 250 anos depois, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o evocar um acontecimento que mudou o rosto e, pode-se dizer, a alma da capital portuguesa. Aos tr\u00eas abalos que se sucederam em menos de dez minutos seguiu-se um \u201cmaremoto\u201d e um inc\u00eandio que se prolongou por cinco ou seis dias, com efeitos mais devastadores do que o pr\u00f3prio terramoto. Apenas tr\u00eas dias ap\u00f3s a cat\u00e1strofe, o n\u00fancio Filippo Acciaiuoli envia uma carta ao seu irm\u00e3o, no Vaticano, da \u201cdesolada terra que na passada sexta-feira era Lisboa\u201d.  Se os efeitos f\u00edsicos do cataclismo atingiram quase toda a Europa, a discuss\u00e3o filos\u00f3fica e intelectual que se seguiu teve consequ\u00eancias mais duradouras, envolvendo pensadores como Voltaire, que escreveu, sobre o tema, \u201cO Poema sobre o Desastre de Lisboa\u201d e \u201cC\u00e2ndido ou o Optimismo\u201d, Rousseau, Ribeiro Sanches, e Kant.  Teologicamente discutia-se sobre a \u201cculpabilidade particular das v\u00edtimas\u201d, sobre as causas f\u00edsicas e sobre a causa do mal moral. Deus, infinitamente bom, permite o mal por respeito \u00e0 liberdade da sua criatura e, misteriosamente, sabe tirar dele o bem. A Europa sa\u00eda do seu comodismo e enfrentava a trag\u00e9dia, \u201co despertar de um sentimento de inseguran\u00e7a\u201d, como explica ao programa Ecclesia D. Manuel Clemente, especialista em Hist\u00f3ria da Igreja: os fil\u00f3sofos fixavam o seu olhar sobre a incapacidade de fazer face a esta adversidade e, numa outra perspectiva, na esperan\u00e7a de mudan\u00e7a que eclodia desta cat\u00e1strofe, que obrgiou a Europa a questionar-se sobre sistemas filos\u00f3ficos assentes num optimismo demasiado ing\u00e9nuo e mesmo sobre a bondade de Deus. Voltaire contrasta a trag\u00e9dia de Lisboa com a opini\u00e3o optimista que vinha do in\u00edcio desse s\u00e9culo, de que se vivia no \u201cmelhor dos mundos poss\u00edveis\u201d, como defendia Leibniz. Agora, p\u00f5e-se em causa essa convic\u00e7\u00e3o e Voltaire escreve mesmo: \u201cTudo estar\u00e1 bem, um dia: eis a nossa esperan\u00e7a; tudo est\u00e1 bem, hoje, eis a nossa ilus\u00e3o\u201d. Rousseau, por outro lado, defendia que era necess\u00e1rio voltar a um \u201cEstado natural\u201d do homem, pr\u00e9-civilizacional, \u201cem que o homem, de algum modo, se resgatasse dos males que a civiliza\u00e7\u00e3o lhe tinha trazido\u201d, lembra D. Manuel Clemente. Neste contexto, a Baixa Pombalina apresenta-se como um modelo da\u201d reconstru\u00e7\u00e3o iluminada\u201d, pretendendo ser a afirma\u00e7\u00e3o da capacidade racional do Homem contra a adversidade. As igrejas submeteram-se a este plano e foram edificadas em locais \u201capropriados ao projecto geral da cidade\u201d e n\u00e3o necessariamente no mesmo local em que se encontravam antes. Apesar de terem uma decora\u00e7\u00e3o mais ricas do que os outros edif\u00edcios, nenhuma das igrejas pombalinas tem torres&#8230; D. Manuel Clemente lan\u00e7a um desafio ao olhar: \u201ca Lisboa que tinha sobrado da Idade M\u00e9dia era uma cidade de vielas, paralelas ao Tejo. Hoje temos um exemplo de uma cidade feita de novo sobre as ru\u00ednas da antiga\u201d. \u201cQuando chegamos, agora, \u00e0 Baixa pombalina, olhamos para as suas igrejas e reparamos que elas est\u00e3o perfeitamente alinhadas com as novas ruas que se abriram \u2013 e n\u00e3o era ali que elas tinham estado antes. Todas elas foram constru\u00eddas de novo, muitas delas foram do seu s\u00edtio original, e n\u00e3o se destacam muito do conjunto da arquitectura\u201d, assinala. Para D. Manuel Clemente, h\u00e1 ainda um outro facto muito significativo: \u201cA Lisboa nova n\u00e3o tem uma Catedral nova nem um Pal\u00e1cio novo\u201d. \u201cTodas as grandes cidades do s\u00e9culo XVIII tinham a sua Catedral nova, mas a Lisboa pombalina n\u00e3o a tem: o novo estilo de cidade nem \u00e9 t\u00e3o sacral, nem \u00e9 t\u00e3o r\u00e9gio como as outras cidades \u2013 \u00e9 uma outra mentalidade, comercial, mercantil, burguesa\u201d, acrescenta. Em mem\u00f3ria das v\u00edtimas de ent\u00e3o, e pensando em todas as v\u00edtimas de cat\u00e1strofes naturais, o Cardeal-Patriarca de Lisboa endere\u00e7ou uma carta ao Clero de Lisboa, propondo que nas Igrejas da Diocese, de modo particular nas da cidade, se evoque esta data em sentido de prece e de comunh\u00e3o com todos os que sofrem. \u00c0 Celebra\u00e7\u00e3o da Missa, \u00e0s 9h30m, hora do terramoto, pelo Cardeal-Patriarca nas Ru\u00ednas do Convento do Carmo, juntou-se o pedido de que os sinos das igrejas toquem a essa hora, \u201cexprimindo, com o seu som, a mem\u00f3ria de toda uma Cidade\u201d.  <b>Outras iniciativas<\/b> \u201cLisboa antes do terramoto de 1755\u201d e \u201cO Terramoto cultural Pombalino\u201d s\u00e3o os temas de duas confer\u00eancias promovidas pelo Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano, a realizar dia 31 de Outubro e 2 de Novembro respectivamente e que ter\u00e3o como oradores Pedro Picoito e Jos\u00e9 Eduardo Franco. No dia 1 de Novembro, Dia de Todos os Santos, nos 250 anos do terramoto, haver\u00e1 na Igreja da Madalena, \u00e0s 16 horas, um concerto e apresenta\u00e7\u00e3o do restauro em curso na Igreja da Madalena. Tr\u00eas horas depois, na Igreja de S. Nicolau, D. Manuel Clemente, Bispo auxiliar de Lisboa celebrar\u00e1 a Eucaristia e haver\u00e1 a apresenta\u00e7\u00e3o da nova fase do restauro na Igreja de S. Nicolau. No dia 2 de Novembro, Dia de Fi\u00e9is Defuntos, na Igreja da Encarna\u00e7\u00e3o haver\u00e1 um concerto Requiem de Mozart. Dia 5 de Novembro, na Igreja da Concei\u00e7\u00e3o Velha haver\u00e1 uma missa na inaugura\u00e7\u00e3o do restauro da capela-mor da Igreja da Concei\u00e7\u00e3o Velha. \u00c0s 21h 30 do mesmo dia ser\u00e1 a Inaugura\u00e7\u00e3o do restauro da Bas\u00edlica dos M\u00e1rtires e apresenta\u00e7\u00e3o da Missa in\u00e9dita de Nossa Senhora dos M\u00e1rtires, composta por Jo\u00e3o Jos\u00e9 Baldi, pela Capela de Santa Cruz (coro e orquestra). O programa para assinalar os 250 anos da cat\u00e1strofe inclui ainda iniciativas como o lan\u00e7amento de livros, debates, col\u00f3quios, exposi\u00e7\u00f5es, missas, visitas guiadas e \u201cateliers\u201d dedicados \u00e0s crian\u00e7as, fam\u00edlias e escolas, que se prolongam at\u00e9 ao pr\u00f3ximo ano.  <b>No Programa Ecclesia<\/b> No programa Ecclesia, D. Manuel Clemente recorda o terramoto de Lisboa,  na rubrica em antena em cada quinta-feira \u201cO Passado do Presente\u201d. A partir do dia 3, pr\u00f3xima quinta-feira, e durante seis semanas, o Bispo Auxiliar de Lisboa recorda a hist\u00f3ria, o que aconteceu h\u00e1 250 anos e o modelo de constru\u00e7\u00e3o de uma nova cidade adoptado. As consqu\u00eancias filos\u00f3ficas do acontecimento e o novo enquadramento do elemento religioso, na sua defini\u00e7\u00e3o territorial e vivencial s\u00e3o abordados com especial relevo. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tudo come\u00e7ou a 1 de Novembro de 1755<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[154,203,206,221],"class_list":["post-14659","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-crianca","tag-europa","tag-familia","tag-historia-da-igreja"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14659","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14659"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14659\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14659"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14659"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14659"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}