{"id":14656,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/mes-de-novembro-mes-das-almas\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"mes-de-novembro-mes-das-almas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mes-de-novembro-mes-das-almas\/","title":{"rendered":"M\u00eas de Novembro  &#8211;  M\u00eas das almas"},"content":{"rendered":"<p>\u201cBem-aventurados os que morrem no Senhor, que repousem dos seus trabalhos, porque as suas obras os acompanham (Ap 14,13)\u201d No m\u00eas de Novembro encontramo-nos em pleno Outono, esta esta\u00e7\u00e3o do ano que tanto me fascina, pelo encanto da natureza que se recolhe para o Inverno, das folhas que se revestem dos mais belos tons antes de ca\u00edrem, como a mostrar a nobreza do entardecer da vida, que se recolhe e se despede serenamente antes de repousar no sil\u00eancio do mist\u00e9rio!&#8230; E mesmo o nevoeiro denso que em muitos dias de Outono  nos envolve, tamb\u00e9m isso \u00e9 um convite ao recolhimento, mesmo ao mist\u00e9rio que diz a nossa exist\u00eancia. Talvez tenha sido por isso que a Igreja, na sua admir\u00e1vel pedagogia da f\u00e9 que respeita os ritmos da natureza, tenha escolhido o m\u00eas de Novembro para nos recordar o mist\u00e9rio da morte, com a celebra\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is defuntos logo no in\u00edcio, a 2 de Novembro, e dedicando todo o m\u00eas \u00e0 medita\u00e7\u00e3o da morte e \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do purgat\u00f3rio. Novembro \u00e9 o m\u00eas das almas! \u00c9 assim que o recordo, desde a minha inf\u00e2ncia: \u2018m\u00eas das almas\u2019. A missa era muito cedo, l\u00e1 pelas quatro ou cinco da manh\u00e3, para que tamb\u00e9m os lavradores pudessem participar antes de irem para o leite.  Meditava-se na vida eterna. Era tema de conversas ao ser\u00e3o. As almas do Purgat\u00f3rio!&#8230; Recordo-me da minha tia muito velhinha que, mais tarde, quando j\u00e1 estava no semin\u00e1rio, me ia visitar sempre, e dela aprendi o que nunca esqueci sobre o que ela dizia com aquela f\u00e9 e aquela convic\u00e7\u00e3o que vinham do fundo do tempo: \u00abEu tenho uma grande devo\u00e7\u00e3o pelas almas do purgat\u00f3rio!&#8230; E tu quando fores Padre nunca deixes de rezar por elas!&#8230; Elas conseguem-nos muitas gra\u00e7as!&#8230;\u00bb E aqui estava toda aquela teologia simples da minha tia Alexandrina sobre aquilo que a teologia designa como escatologia interm\u00e9dia. E esta teologia ainda me recorda a minha M\u00e3e, com os seus noventa e sete anos, repetindo-me vezes sem conta aquelas coisas de que nunca se esqueceu: \u00abIsto nunca mais me esqueceu!&#8230;\u00bb. E, segurando-me pela m\u00e3o, aquela m\u00e3ozinha terna que a sinto sempre e que me quer levar com ela neste regresso ao Futuro&#8230; : \u00abA gente n\u00e3o deve esquecer nunca o que os nossos pais nos ensinaram&#8230;\u00bb, e daquelas coisas que ela tamb\u00e9m nunca se esqueceu, foi a \u2018devo\u00e7\u00e3o \u00e0s almas do Purgat\u00f3rio\u2019. A esta devo\u00e7\u00e3o volto, quando a cr\u00edtica teol\u00f3gica me insinua alguma hesita\u00e7\u00e3o.  \u00c9 bom rezar pelos defuntos, pelas almas do purgat\u00f3rio, esse espa\u00e7o de derradeira purifica\u00e7\u00e3o antes da vis\u00e3o de Deus. E faz parte da nossa tradi\u00e7\u00e3o crente a convic\u00e7\u00e3o da f\u00e9 de que ningu\u00e9m vai directo ao para\u00edso, se antes n\u00e3o passar por esta purifica\u00e7\u00e3o pelo fogo do amor divino, aquilo que os m\u00edsticos j\u00e1 intu\u00edam como a purifica\u00e7\u00e3o passiva do esp\u00edrito, desses restos de apego de si a si mesmo, para que ent\u00e3o finalmente Deus seja Deus em n\u00f3s mesmos. O Purgat\u00f3rio \u00e9 ent\u00e3o o \u2018lugar\u2019 de purifica\u00e7\u00e3o dos restos de pecado, deste apego \u00faltimo \u00e0s criaturas e que impede o mergulho no fundo oce\u00e2nico e abissal do mist\u00e9rio de Deus. Porque s\u00f3 o amor purifica, ent\u00e3o o Purgat\u00f3rio ser\u00e1 esse espa\u00e7o de tempo sem tempo e mesmo assim distinto da vis\u00e3o beat\u00edfica em que o fogo do amor divino purifica o nosso ser e, neste caso, o nosso cora\u00e7\u00e3o e o nosso olhar para a vis\u00e3o da Trindade.  S\u00f3 os m\u00e1rtires por causa da f\u00e9 ou os santos que viveram a heroicidade das virtudes, que fizeram da vida um aut\u00eantico purgat\u00f3rio, um tempo de purifica\u00e7\u00e3o existencial pela intensidade do amor de Deus acolhido, \u00e9 que a Igreja declara que na morte as suas almas acedem logo \u00e0 vis\u00e3o beat\u00edfica, \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o de Deus face a face, na qual consiste a bem-aventuran\u00e7a eterna. Quanto ao resto, quanto a n\u00f3s que esperamos, como dizia uma das minhas irm\u00e3s j\u00e1 falecida, mas que recordo como se fosse hoje, encontrar um lugarzinho de esperan\u00e7a no purgat\u00f3rio de modo que possamos estar nem que seja ao entrar da porta do Para\u00edso (Deus nos livre da perdi\u00e7\u00e3o eterna!&#8230;), temos todos de passar por essa purifica\u00e7\u00e3o passiva do esp\u00edrito, que poder\u00e1 ser mais intensa e temporalmente atenuada se for apoiada e suportada pela ora\u00e7\u00e3o da Igreja. Todos os dias a Igreja recorda na sua ora\u00e7\u00e3o as almas dos fi\u00e9is defuntos. Mas \u00e9 bom que nenhum de n\u00f3s esque\u00e7a e por isso a Igreja mant\u00e9m o bom costume da celebra\u00e7\u00e3o da missa pelos defuntos: as missas exequiais, do s\u00e9timo, do trig\u00e9simo dia; as missas anivers\u00e1rias, os trint\u00e1rios gregorianos. E o costume de os que as pedem oferecerem um donativo, para ajudar os sacerdotes que as celebram, muitos dos quais, sobretudo em terras de miss\u00e3o, mas mesmo entre n\u00f3s, de pouco mais disp\u00f5em para poderem sustentar as suas vidas e se dedicarem ao servi\u00e7o da Igreja. E assim se juntam duas coisas: a ora\u00e7\u00e3o e a esmola, como exerc\u00edcio da espiritualidade crist\u00e3, numa sadia e t\u00e3o simples viv\u00eancia da comunh\u00e3o dos santos, nas diversas fases em que se encontram: os que vivem ainda na condi\u00e7\u00e3o de peregrinos, entre as persegui\u00e7\u00f5es do mundo e as consola\u00e7\u00f5es de Deus, com os que j\u00e1 se encontram em lugar de esperan\u00e7a, mas que contam com a nossa ora\u00e7\u00e3o; e os que se encontram na gl\u00f3ria a interceder por n\u00f3s, para que assim como eles, mantenhamos, apesar de tudo e em todas as circunst\u00e2ncias, o nosso cora\u00e7\u00e3o em Deus: bem-aventurados os que morrem no Senhor, porque as suas obras os acompanham! Que bom seria que o m\u00eas de Novembro voltasse a ser o que tem sido desde o s\u00e9c. IX: um tempo de medita\u00e7\u00e3o e de pausa, crepuscular, sobre o outono da vida, da qual faz parte a morte e as realidades \u00faltimas que nos esperam. N\u00e3o seria oportuno mobilizar todas as comunidades crist\u00e3s para uma pedagogia pastoral do \u201cm\u00eas das almas\u201d, como tempo oportuno de celebrar a \u2018comunh\u00e3o dos santos\u2019, tamb\u00e9m segundo aquela m\u00e1xima dos antigos de que a medita\u00e7\u00e3o sobre a morte \u2013 \u2018memento mori\u2019-, sobre aquelas coisas que se n\u00e3o devem esquecer, \u00e9 fonte de vida e de sabedoria, daquela que o mundo de hoje tanto precisa?  <i>P. Jos\u00e9 Jacinto Ferreira de Farias, scj<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cBem-aventurados os que morrem no Senhor, que repousem dos seus trabalhos, porque as suas obras os acompanham (Ap 14,13)\u201d No m\u00eas de Novembro encontramo-nos em pleno Outono, esta esta\u00e7\u00e3o do ano que tanto me fascina, pelo encanto da natureza que se recolhe para o Inverno, das folhas que se revestem dos mais belos tons antes [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[199],"class_list":["post-14656","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-espiritualidade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14656","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14656"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14656\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14656"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14656"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14656"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}