{"id":14582,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/para-entender-as-reliquias\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"para-entender-as-reliquias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/para-entender-as-reliquias\/","title":{"rendered":"Para entender as Rel\u00edquias"},"content":{"rendered":"<p>D. Carlos Azevedo, coordenador da Equipa da Vinda das rel\u00edquias de Santa Teresinha a Portugal <!--more--> Por rel\u00edquias entende-se o \u201cresto\u201d material dos corpos dos santos, bem como, em sentido mais lato, objectos pertencentes e usados por santos: vestes, livros, objectos de devo\u00e7\u00e3o, instrumentos de penit\u00eancia. Com o decorrer do tempo o conceito estendeu-se a tecidos ou objectos que tocaram o sepulcro de um santo. Tamb\u00e9m se concede o t\u00edtulo de rel\u00edquias a objectos relativos \u00e0 mem\u00f3ria da vida de Jesus, de Maria ou dos ap\u00f3stolos (p. ex. Coluna da flagela\u00e7\u00e3o, v\u00e9u da Ver\u00f3nica, etc.). Entram ainda no conceito as rel\u00edquias de sangue de alguns m\u00e1rtires. Podemos considerar que o primeiro acto crist\u00e3o de venera\u00e7\u00e3o das rel\u00edquias se deve a Jos\u00e9 de Arimateia, quando pediu a Pilatos o corpo de Jesus. Os romanos, apesar de execu\u00e7\u00f5es cru\u00e9is, depois da morte dos condenados entregavam facilmente o seu corpo a quem o solicitasse. Tamb\u00e9m do protom\u00e1rtir Est\u00eav\u00e3o se afirma que os crist\u00e3os o depuseram em lugar honrado (Act.8,2) e em 415 \u00e9 trasladado para dentro da cidade em ordem a levantar uma bas\u00edlica. Quando os crist\u00e3os come\u00e7aram a possuir cemit\u00e9rios pr\u00f3prios inumavam os seus defuntos na periferia da cidade. Estas \u00e1reas subterr\u00e2neas amplas foram chamadas catacumbas. A\u00ed os t\u00famulos dos m\u00e1rtires assumiam caracter\u00edsticas especiais, com arcos\u00f3lios decorados para sobre eles se celebrar a eucaristia. No Oriente, ap\u00f3s o fim das persegui\u00e7\u00f5es, teve in\u00edcio o costume de partilhar partes do corpo dos santos com outras comunidades crist\u00e3s, onde eram acolhidas com muita venera\u00e7\u00e3o, dadas as gra\u00e7as obtidas. Em Roma, n\u00e3o se multiplicou este costume, mas antes o de tocar os t\u00famulos de m\u00e1rtires com tecidos (brandea), depois distribu\u00eddos a bispos, mosteiros, governantes. Outras vezes este uso ficava \u00e0 iniciativa dos fi\u00e9is que a\u00ed se deslocavam. Assim se honrava a Deus  e se assegurava a protec\u00e7\u00e3o e intercess\u00e3o dos m\u00e1rtires. Os tecidos como que absorviam a energia e tornavam-se aut\u00eanticas rel\u00edquias. No Ocidente incrementou-se a difus\u00e3o de rel\u00edquias e relic\u00e1rios em tecas facilmente transport\u00e1veis. Encontram-se em cabe\u00e7as-relic\u00e1rio, m\u00e3os-relic\u00e1rio, bra\u00e7os-relic\u00e1rio etc. S\u00e3o modos de criar objectos ornados de beleza, capazes de suscitar admira\u00e7\u00e3o pela virtude das figuras que evocam e contribuir para a adora\u00e7\u00e3o a Deus que a sua vida demonstra. Com a territorializa\u00e7\u00e3o ou regionaliza\u00e7\u00e3o do culto crist\u00e3o no tempo de Carlos Magno, ocorre uma procura desmesurada de rel\u00edquias como justifica\u00e7\u00e3o de prest\u00edgio e honra do lugar. O incremento \u00e9 alimentado pelas cruzadas e narra\u00e7\u00f5es dos lugares santos da Palestina. O perigo das sarracenos motivou a desloca\u00e7\u00e3o de muitas rel\u00edquias pelas vias romanas nos s\u00e9culos VIII a XI. As catedrais e igrejas mon\u00e1sticas atraiam os fi\u00e9is pela gl\u00f3ria das suas rel\u00edquias. A dedica\u00e7\u00e3o das igrejas, das cidades, dos of\u00edcios,  \u00e0 protec\u00e7\u00e3o de um santo ou m\u00e1rtir tornou-se habitual: o santo patrono. As legendas hagiogr\u00e1ficas elaboram e re-elaboram, no \u00e2mbito local, a ades\u00e3o das cidades aos seus santos e m\u00e1rtires e repetem os esquemas de uns para outros, com lugares comuns clar\u00edssimos. Nem autores, nem leitores t\u00eam preocupa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, mas visam glorificar o santo o mais poss\u00edvel. Qualquer d\u00favida sobre tamanha fantasia de milagres e apari\u00e7\u00f5es significaria n\u00e3o confiar em Deus e nos seus santos. A dedica\u00e7\u00e3o do altar-mor a um santo titular obrigava a conseguir rel\u00edquias de qualquer modo, a qualquer custo, a ponto da autoridade papal ter de intervir com penas para os abusos. O frenesim espantoso e a pressa de encontrar rel\u00edquias desenvolveu um culto popular sem crit\u00e9rios de autenticidade. Esta corrida deu azo a credulidades ligeiras, rivalidades sem fundamento, erros e falsas atribui\u00e7\u00f5es. A defesa das rel\u00edquias equivalia \u00e0 defesa dos s\u00edmbolos de uma identidade, sinais de fisionomia social e do rosto cultural de um local. Geralmente eram objecto de doa\u00e7\u00e3o de benem\u00e9ritos em agradecimento de favores obtidos. Os cardeais romanos ofereciam corpos das catacumbas, considerados santos sem nenhuma base. Para orienta\u00e7\u00e3o do povo crist\u00e3o deve ter-se em conta o rigor terminol\u00f3gico. Nos documentos dos primeiros s\u00e9culos n\u00e3o se fazia distin\u00e7\u00e3o entre o corpo todo e uma parte. O termo corpus indica os ossos do santo, seja de uma parte do bra\u00e7o (brachium) seja da cabe\u00e7a (caput). Nos s\u00e9culos posteriores a linguagem torna-se mais exacta e rigorosa, referindo ex corpore, ex bracchio, ex capite. A forma medieval levou a pensar em v\u00e1rios corpos ou v\u00e1rias cabe\u00e7as do mesmo santo. Trata-se por\u00e9m de \u201cfragmentos \u00f3sseos\u201d da cabe\u00e7a ou do corpo.  Outra confus\u00e3o vulgar tem origem nas representa\u00e7\u00f5es medievais que antecediam a celebra\u00e7\u00e3o da eucaristia nas festas e mem\u00f3rias de Cristo, de Maria e dos santos. Chamavam-se mist\u00e9rios, como ainda acontece com os mist\u00e9rios do Ros\u00e1rio. Ora os objectos e as vestes necess\u00e1rias para estas representa\u00e7\u00f5es eram conservadas em caixas com indica\u00e7\u00f5es: \u201cveste da Beata Virgem\u201d, \u201cp\u00e1lio de S. Jos\u00e9\u201d, manto de Jesus\u201d etc. Passados s\u00e9culos, encontrados estes dados, acabaram por transformar-se, por ignor\u00e2ncia, em rel\u00edquias, com respectiva venera\u00e7\u00e3o. A Igreja aprovou e acalentou o culto e a devo\u00e7\u00e3o \u00e0s santas rel\u00edquias, mas sempre atenta para conduzir a uma recta actua\u00e7\u00e3o do culto em esp\u00edrito e verdade e referido a Deus. A devo\u00e7\u00e3o \u00e0s rel\u00edquias n\u00e3o faz parte constitutiva da f\u00e9 e n\u00e3o h\u00e1 obriga\u00e7\u00e3o de as venerar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito desprezar ou acusar de supersti\u00e7\u00e3o as v\u00e1rias formas de devo\u00e7\u00e3o. S\u00e3o relativas a Deus e s\u00f3 a Ele o culto de adora\u00e7\u00e3o absoluta em esp\u00edrito e verdade \u00e9 devido. H\u00e1 vantagens na vida crist\u00e3 para a venera\u00e7\u00e3o das rel\u00edquias, com usos para-lit\u00fargicos e formas equilibradas de devo\u00e7\u00e3o pessoal. Compete aos pastores e aos estudiosos averiguar o car\u00e1cter aut\u00eantico das rel\u00edquias e se for provada a n\u00e3o autenticidade n\u00e3o devem mais ser expostas \u00e0 venera\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is, mas apenas conservadas como recorda\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. A hist\u00f3ria das rel\u00edquias est\u00e1 envolvida por maravilhas de f\u00e9, de convers\u00f5es e de hero\u00edsmos. As rel\u00edquias, sob o olhar de f\u00e9 em Deus, s\u00e3o sinais da vida de quem recordam e a sua visibilidade e proximidade podem ser fonte de gra\u00e7a e rio de fervor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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