{"id":143591,"date":"2019-07-12T07:00:22","date_gmt":"2019-07-12T06:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=143591"},"modified":"2019-07-13T14:13:18","modified_gmt":"2019-07-13T13:13:18","slug":"retrocesso-civilizacional-coloca-lei-acima-do-ser-humano-maria-beatriz-rocha-trindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/retrocesso-civilizacional-coloca-lei-acima-do-ser-humano-maria-beatriz-rocha-trindade\/","title":{"rendered":"Retrocesso civilizacional coloca lei acima do ser humano &#8211; Maria Beatriz Rocha Trindade (c\/\u00e1udio)"},"content":{"rendered":"<p><em>A primeira mulher antrop\u00f3loga portuguesa, fundadora h\u00e1 25 anos do Centro de Estudos das Migra\u00e7\u00f5es e das Rela\u00e7\u00f5es Interculturais, destaca que \u00abobriga\u00e7\u00f5es humanas\u00bb ultrapassam as pr\u00f3prias \u00ableis nacionais\u00bb e lamenta criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade que considera um claro \u00abretrocesso civilizacional\u00bb.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Maria Beatriz Rocha Trindade olha para a a\u00e7\u00e3o \u00abpioneira\u00bb da Igreja cat\u00f3lica, \u00abantecedendo o papel do Estado\u00bb no apoio aos emigrantes, sublinha o \u00abpilar\u00bb que \u00e9 a f\u00e9 e a pr\u00e1tica religiosa representam para quem est\u00e1 fora.<\/em><\/p>\n<p><em>A mobilidade hoje \u00e9 outra, reconfiguraram-se os motivos de quem parte e deixou de ser \u00abum drama\u00bb. Sem cair em generaliza\u00e7\u00f5es a investigadora afirma que a emigra\u00e7\u00e3o \u00ablicenciada\u201d \u00e9 uma apenas pequena parte de uma grande fatia \u201cde m\u00e3o-de-obra n\u00e3o qualificada\u201d. <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>\u00a0<\/strong><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e L\u00edgia Silveira (Ag\u00eancia ECCLESIA)<\/em><\/p>\n<p><em><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-143588 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Maria-Beatriz-Rocha-Trindade-Foto-In\u00eas-Rocha-RR.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1262\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Maria-Beatriz-Rocha-Trindade-Foto-In\u00eas-Rocha-RR.jpg 2048w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Maria-Beatriz-Rocha-Trindade-Foto-In\u00eas-Rocha-RR-400x246.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Maria-Beatriz-Rocha-Trindade-Foto-In\u00eas-Rocha-RR-768x473.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Maria-Beatriz-Rocha-Trindade-Foto-In\u00eas-Rocha-RR-1024x631.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Maria-Beatriz-Rocha-Trindade-Foto-In\u00eas-Rocha-RR-1080x666.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/em><\/p>\n<p><em>Conversamos na v\u00e9spera de se realizar o I Congresso Mundial de Redes da Di\u00e1spora Portuguesa, que conhece bem, e um dia depois de conhecidos dados da Pordata, da Funda\u00e7\u00e3o Manuel dos Santos, que indicam que nos \u00faltimos 10 anos aumentou em mais 13 mil o n\u00ba de imigrantes no nosso pa\u00eds e sa\u00edram mais 11 mil portugueses. N\u00fameros comparativos entre 2008 e 2018. Que retrato nos revela esta realidade?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>As migra\u00e7\u00f5es t\u00eam sido tema de estudo e de trabalho de toda a minha vida e d\u00e1-me sempre um grande prazer refletir e falar sobre o que sinceramente penso sobre a mobilidade f\u00edsica, que n\u00e3o pode ser traduzida por n\u00fameros mas que tem de ser olhada numa perspetiva de solidariedade e de fraternidade \u2013 um olhar de homem para homem, de mulher para mulher, dirigido com uma compreens\u00e3o que n\u00e3o se pode limitar a analisar unicamente a desloca\u00e7\u00e3o mas antes situ\u00e1-la num contexto econ\u00f3mico e social, naturalmente, por ela respons\u00e1vel.<\/p>\n<p>Como todos se recordam, em especial os mais velhos, os da minha idade, quando se referia emigra\u00e7\u00e3o falava-se em \u00abex-migration\u00bb, os que sa\u00edam \u2013 um tema pouco abordado na altura \u2013 quando se mencionava \u00abin-migration\u00bb, indicava-se os que entravam.<\/p>\n<p>Se olharmos, retrospetivamente, para a nossa Hist\u00f3ria e para toda a movimenta\u00e7\u00e3o dos seres humanos que tem ocorrido desde a expans\u00e3o, teremos que lembrar os muitos que sa\u00edram, desde sempre, normalmente sempre pelas mesmas raz\u00f5es: melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida ou integrar empreendimentos com melhores perspetivas laborais.<\/p>\n<p>Os que povoaram Portugal vieram, muitos deles, justamente do exterior e podemos localizar em registos e na mente origens muito diferentes, por exemplo os africanos. Porque n\u00e3o cit\u00e1-los com todo o respeito? A cor da pele \u00e9 diferente, mas n\u00e3o constitui indicador que possa ser apontado como classificador da diferen\u00e7a dos \u00abpretos\u00bb que se instalaram no pa\u00eds, na regi\u00e3o do Sado, Set\u00fabal, Alc\u00e1cer do Sal. Sempre houve cruzamento entre povos.<\/p>\n<p><em>Relativamente ao fen\u00f3meno hoje designado por migra\u00e7\u00f5es, que engloba um \u00abtodo\u00bb, houve mudan\u00e7as tanto na sa\u00edda dos portugueses como nos estrangeiros que t\u00eam entrado no pa\u00eds, fruto de um espa\u00e7o e de um tempo diferentes e de uma conjetura econ\u00f3mica, social e pol\u00edtica que se alterou.<\/em><\/p>\n<p>Os sonhos da d\u00e9cada de 60, que levaram as pessoas para fora\u2026 j\u00e1 n\u00e3o correspondem aos de hoje.<\/p>\n<p><em>Muitos dos que agora saem, fazem-no porque apesar da melhor forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica que det\u00eam n\u00e3o conseguem trilhar caminhos profissionais em Portugal. Os sonhos poder\u00e3o ou n\u00e3o ser os mesmos mas pergunto-lhe: as condi\u00e7\u00f5es mudaram? O que mudou ent\u00e3o no atual retrato do migrante?<\/em><\/p>\n<p>Nada pode ser generalizado, seria um grande erro, porque como se sabe as pessoas s\u00e3o diferentes e h\u00e1 duas vari\u00e1veis que contam sempre e se tornam indispens\u00e1veis em qualquer an\u00e1lise: o tempo em que se realizaram e o espa\u00e7o e o local geogr\u00e1fico onde existem.<\/p>\n<p>A din\u00e2mica social provoca essas mudan\u00e7as e quando se diz que as pessoas querem melhorar de vida, eu digo, que essa altera\u00e7\u00e3o pode ter muitos aspetos: pode considerar-se estritamente o factor econ\u00f3mico que vai desde uma sobreviv\u00eancia associada \u00e0 fome, aos desejos de viver melhor, de conseguir amealhar algum dinheiro, de possibilitar um espa\u00e7o de estudo para os filhos, de tentar alcan\u00e7ar uma ascens\u00e3o social ou pode ter, tamb\u00e9m, a ver com a procura de uma realiza\u00e7\u00e3o pessoal diferente.<\/p>\n<p>Tem-se generalizado muito uma ideia que n\u00e3o \u00e9 inteiramente verdadeira, a de que os sonhos de hoje s\u00e3o desenhados a partir de pessoas licenciadas, com mestrado e doutoramento. Apenas uma pequena parte dos que t\u00eam sa\u00eddo, tem efetivamente essa qualifica\u00e7\u00e3o, continuando a assistir-se \u00e0 sa\u00edda de muita m\u00e3o-de-obra n\u00e3o qualificada.<\/p>\n<p>Todos lembramos o Ministro Mariano Gago (professor universit\u00e1rio, cientista e pol\u00edtico portugu\u00eas j\u00e1 falecido), que fez um grande investimento na prepara\u00e7\u00e3o cient\u00edfica ao n\u00edvel do ensino de p\u00f3s-gradu\u00e7\u00e3o. Infelizmente n\u00e3o tem sido dada continuidade \u00e0 melhoria de qualifica\u00e7\u00e3o de muitos jovens que det\u00eam hoje esses t\u00edtulos acad\u00e9micos. N\u00e3o lhes tem sido possibilitado desenvolver e aplicar na vida pr\u00e1tica e profissional os conhecimentos adquiridos. Na mente de muitos deles, j\u00e1 existir\u00e1 provavelmente essa vontade de regresso \u2013 mas haver\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para o concretizar? Vamos ver o que ir\u00e1 acontecer.<\/p>\n<p>Fazia quest\u00e3o de afirmar, mais uma vez, que tanto a mobilidade interna no pr\u00f3prio pa\u00eds como a internacional, se articulam de forma muito diferente. Tudo est\u00e1 mais perto, as dist\u00e2ncias e o seu conceito mudaram muito, e as pessoas que sa\u00edam por muito tempo e visitavam as suas terras de origem apenas uma vez por ano, atualmente quase podem faz\u00ea-lo todos os fins-de-semana, basta olhar para os nossos deputados europeus e verificar como se deslocam semanalmente.<\/p>\n<p><em>H\u00e1 mais facilidade, at\u00e9 nas formas de comunicar, refira-se as liga\u00e7\u00f5es por Skype em que as pessoas se podem visualizar enquanto estabelecem uma liga\u00e7\u00e3o, e\u00abtudo\u00bb isso acaba por contribuir para mudar o modo como o cidad\u00e3o portugu\u00eas encara a emigra\u00e7\u00e3o e a imigra\u00e7\u00e3o que deixou de constituir um drama.<\/em><\/p>\n<p>Na minha gera\u00e7\u00e3o houve um foco muito grande na emigra\u00e7\u00e3o \u00aba salto\u00bb, como era designada, a emigra\u00e7\u00e3o clandestina atrav\u00e9s dos Piren\u00e9us. Na realidade foi lan\u00e7ado um olhar que se debru\u00e7ou em particular sobre o caso portugu\u00eas quando as migra\u00e7\u00f5es clandestinas dos dec\u00e9nios de 60 e 70 sempre existiram. As sa\u00eddas no fundo dos barcos para o Brasil, constituem disso um bom exemplo, ou de Cabo-Verde para o Senegal. A emigra\u00e7\u00e3o sempre existiu e a via clandestina era n\u00e3o raras vezes a \u00fanica op\u00e7\u00e3o para muitos, recorde-se os que entraram nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, atrav\u00e9s do Brasil.<\/p>\n<p>Infelizmente o lucro dos passadores das emigra\u00e7\u00f5es clandestinas fazem parte deste processo e constituem uma constante \u2013 situa\u00e7\u00e3o que todos acompanhamos e lamentamos profundamente.<\/p>\n<p>Como exemplos recentes, cite-se o Mar Mediterr\u00e2neo e o caso da fronteira do M\u00e9xico. Quem quer migrar \u00e9 assediado por passadores, a quem o lucro infelizmente compensa. H\u00e1 sempre a ilus\u00e3o de melhorar a pr\u00f3pria vida e a dos seus. Fazem-se grandes sacrif\u00edcios e paga-se com o que se tem e com o que n\u00e3o se tem.<\/p>\n<p><em>J\u00e1 falaremos mais \u00e0 frente deste fen\u00f3meno migrat\u00f3rio que est\u00e1 no nosso quintal da Europa, como o estamos a encarar e resolver. O perfil de quem emigra, mudou muito, dos portugueses que sa\u00edram do pa\u00eds. A Igreja Cat\u00f3lica, ao n\u00edvel da Pastoral das Migra\u00e7\u00f5es, tem sabido acompanhar estas mudan\u00e7as no tipo de resposta que d\u00e1, localmente?<\/em><\/p>\n<p>Entendo que a Igreja tem sido pioneira desde sempre. Tive a sorte de ser convidada para escrever um livro sobre os 50 anos da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa das Migra\u00e7\u00f5es, pelo ent\u00e3o seu Diretor Frei Francisco Sales, e tive a felicidade de a\u00ed conhecer a atual Diretora, hoje uma grande amiga (Eug\u00e9nia Quaresma).<\/p>\n<p>Se n\u00e3o fosse a colabora\u00e7\u00e3o da Dra. Eug\u00e9nia teria sido imposs\u00edvel realizar este trabalho. No nosso encontro regular e semanal, revelou conhecer muito bem os arquivos e todo o conte\u00fado dos processos da OCPM. A frequ\u00eancia e intensidade que tomaram, posteriormente, esses encontros fez-nos perceber que a Igreja sempre tinha procurado atender \u00e0 mobilidade, desde a forma como interpretava e exprimia os conceitos, ao modo como se dirigia ao p\u00fablico-alvo para quem era realizada essa pr\u00e1tica, \u00e0s pessoas cujo enquadramento possibilitou a desloca\u00e7\u00e3o, \u00e0 forma como as recebeu em Portugal, tentando integrar nos locais de origem os padres provenientes das par\u00f3quias onde viviam os nossos migrantes. Todo um conjunto de a\u00e7\u00f5es e interpreta\u00e7\u00f5es que estiveram \u00e0 frente da atua\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Estado.<\/p>\n<p><em>E isso tem acontecido tamb\u00e9m atualmente, nesta reconfigura\u00e7\u00e3o do perfil do emigrante e do imigrante? As miss\u00f5es cat\u00f3licas tiveram um papel muito importante nos anos 60, concretamente nas comunidades portuguesas.<\/em><\/p>\n<p>Muito importante e que antecedeu, repito, o papel do Estado.<\/p>\n<p><em>E isto continua a ser vis\u00edvel, uma pr\u00e1tica constante e coerente, n\u00e3o espor\u00e1dica, mas concertada na Pastoral da Igreja, no seu entender?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o me cabe nem consigo emitir uma opini\u00e3o sem realizar uma an\u00e1lise muito objetiva\u2026<\/p>\n<p><em>Mas visitou muitas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, e esteve v\u00e1rios anos em Fran\u00e7a\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, primeiro vivi cinco anos seguidos em Fran\u00e7a e depois desloquei-me anualmente durante um per\u00edodo de 14 anos, porque tive a sorte de ser convidada para integrar um laborat\u00f3rio de pesquisa e de ensinar durante esse espa\u00e7o de tempo, sob a orienta\u00e7\u00e3o do Professor Fran\u00e7ois Ravaut (m\u00e9dico e antrop\u00f3logo).<\/p>\n<p><em>Esses contactos, que vis\u00f5es \u00e9 que lhe deram deste trabalho que a Igreja ia realizando?<\/em><\/p>\n<p>A Igreja \u00e9 um espa\u00e7o que presta, desde sempre, grande apoio. Simplesmente s\u00e3o poucos os elementos para poder atender um p\u00fablico t\u00e3o vasto.<\/p>\n<p><em>Falta investimento por parte da Igreja Cat\u00f3lica, neste caso concreto portuguesa, em investir em sacerdotes e agentes preparados para atender as comunidades l\u00e1 fora?<\/em><\/p>\n<p>As voca\u00e7\u00f5es mudaram e hoje a dificuldade de assumir o sacerd\u00f3cio \u00e9 muito vis\u00edvel, n\u00e3o \u00e9? H\u00e1 muitos Semin\u00e1rios que fecham. Tenho seguido o que se passa e conhe\u00e7o relativamente bem o assunto.<\/p>\n<p>Fui para Fran\u00e7a em 1965, estamos em 2019, portanto, desde a\u00ed at\u00e9 agora vejam quanto tudo mudou\u2026 A Igreja n\u00e3o poder\u00e1 fazer muito mais do que se esfor\u00e7a objetivamente por fazer, tentando dar apoio aos cat\u00f3licos e aos n\u00e3o cat\u00f3licos. Trata-se de um apoio prestado com base na solidariedade, procurando ouvir mais do que impor. Considero tratar-se, insisto, de uma atitude de abertura e de di\u00e1logo, e n\u00e3o de exig\u00eancia ou de imposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso tamb\u00e9m lan\u00e7ar um olhar de justi\u00e7a e n\u00e3o adotar um permanente olhar de cr\u00edtica, como \u00e9 h\u00e1bito fazer-se.<\/p>\n<p><em>De qualquer modo relativamente \u00e0 assist\u00eancia espiritual ela \u00e9 importante? Estamos no ver\u00e3o, \u00e9 uma \u00e9poca em que muitos emigrantes regressam ao pa\u00eds, e n\u00e3o dispensam participar nas festas religiosas das suas terras natal. A f\u00e9, podemos dizer, continua a ser um pilar na liga\u00e7\u00e3o dos emigrantes a Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Como foi dito a f\u00e9 constitui um pilar, mas tamb\u00e9m atua como for\u00e7a catalisadora de reencontros e de reapropria\u00e7\u00e3o de \u00abtudo\u00bb o que \u00e9 sentido como seu, um sentimento que assim permanece vivo. Por outro lado pode tamb\u00e9m servir como ponte para uma necess\u00e1ria adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que n\u00e3o fa\u00e7o uma sociologia, nem uma antropologia de gabinete e poderei ser criticada por isso, mas gosto muito do contacto direto. Acho que quem gosta do terreno, de falar com as pessoas e tenta despir-se das pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es, de apreender as dos outros e de tentar compreend\u00ea-las e interpret\u00e1-las, ganha muito com essas estadias.<\/p>\n<p>A \u00abminha\u00bb aldeia de refer\u00eancia, conhecida como \u00abaldeia francesa\u00bb, fica no concelho de Vila Nova de Paiva, em Viseu, e chama-se Queiriga. Considerada como a aldeia mais francesa de Portugal tive a sorte de a conhecer nos anos 60, por interm\u00e9dio do padre Donato de Almeida e Cunha.<\/p>\n<p>Os ouvintes n\u00e3o poder\u00e3o imaginar a criatividade deste senhor que ainda perdura na mem\u00f3ria de todos. Na aldeia tirava fotografias, slides ou diapositivos (como quiser design\u00e1-los) e projetava-os posteriormente em Fran\u00e7a, na zona de Orsay-Limours (onde eu me encontrava). Antes de regressar fazia grava\u00e7\u00f5es \u00e1udio dos emigrantes ali residentes, que transmitia depois atrav\u00e9s de um altifalante que instalara para o efeito na torre da Igreja de Queiriga. Toda a aldeia ouvia emocionada as vozes dos que estavam longe e cujas mensagens transmitiam saudade e permitiam proximidade. Isto nos anos 60\u2026 \u00e9 quase inacredit\u00e1vel imaginar\u2026<\/p>\n<p>No entanto, sem cr\u00edtica mas como registo de observa\u00e7\u00e3o, o padre Donato n\u00e3o queria que a festa profana se misturasse com a festa religiosa. Isto foi nesse tempo, depois tudo foi superado, porque os pr\u00f3prios agentes da Igreja, os padres, tamb\u00e9m t\u00eam a sua pr\u00f3pria din\u00e2mica e t\u00eam regras que evocam quase inconscientemente\u2026<\/p>\n<p><em>E no profano tamb\u00e9m se encontram sinais do religioso.<\/em><\/p>\n<p>Claro. Se for agora \u00e0 Queiriga e se tivesse ido nos anos 60 veria as diferen\u00e7as, a postura, as prefer\u00eancias pessoais e a pr\u00f3pria maneira de vestir das pessoas s\u00e3o totalmente diferentes.<\/p>\n<p>E, por outro lado, h\u00e1 todo um conjunto de detalhes. Os altares que antigamente eram transportados aos ombros durante as prociss\u00f5es passaram a ser transportados por tratores. H\u00e1 toda uma din\u00e2mica proporcionada pelo avan\u00e7o tecnol\u00f3gico que naturalmente se repercute sobre os modos de pensar e de agir. Todo o espa\u00e7o de conv\u00edvio que tinha lugar no \u00e1trio da Igreja, no fim das Missas, se prolonga agora em caf\u00e9s, conferindo uma anima\u00e7\u00e3o que transfigura as aldeias de todo o pa\u00eds desde o fim do m\u00eas de julho e se prolonga durante todo o m\u00eas de agosto, s\u00f3 retomando a sua reconfigura\u00e7\u00e3o inicial, no in\u00edcio de setembro.<\/p>\n<p><em>O novo s\u00e9culo tem sido marcado por este drama da imigra\u00e7\u00e3o e dos refugiados, tamb\u00e9m por aqueles que arriscam a vida na travessia do Mediterr\u00e2neo para chegar \u00e0 Europa, ou como dizia, recordando tamb\u00e9m os dramas entre a fronteira do M\u00e9xico e dos Estados Unidos da Am\u00e9rica. O Ocidente tem sabido lidar com este fen\u00f3meno?<\/em><\/p>\n<p>Este fen\u00f3meno, relativamente novo, tem chegado at\u00e9 n\u00f3s porque como ainda h\u00e1 pouco diz\u00edamos, todas as formas de comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o agora muito diferentes. N\u00e3o se falava de migra\u00e7\u00e3o no tempo da ditadura, porque revelava uma insufici\u00eancia do governo de ent\u00e3o. Depois, cada vez mais pass\u00e1mos a ter que encarar de frente esta mobilidade, nas duas vertentes que a integram (emigra\u00e7\u00e3o e imigra\u00e7\u00e3o), e agora o que concita principal interesse s\u00e3o os refugiados. Praticamente todos os dias, se visualiza notici\u00e1rios e ouve not\u00edcias dadas sobre este terr\u00edvel fen\u00f3meno de quem pede asilo e, subsequentemente, de quem procura ser designado como refugiado. Existe uma grande diferen\u00e7a entre emigra\u00e7\u00e3o e ref\u00fagio.<\/p>\n<p><em>Entre o emigrante econ\u00f3mico e o que pede asilo, o que pede ref\u00fagio.<\/em><\/p>\n<p>O emigrante pode ter esse estatuto por outras raz\u00f5es que n\u00e3o as econ\u00f3micas. Cada Estado reage de maneira diferente perante as diversas situa\u00e7\u00f5es. Em rela\u00e7\u00e3o ao imigrante rege-se pelas suas pr\u00f3prias leis, e perante o ref\u00fagio s\u00e3o aplicadas leis que ultrapassam as do pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que as pr\u00f3prias leis nacionais, tomemos Portugal como exemplo, t\u00eam sempre uma fronteira que \u00e9 a fronteira das decis\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>No que toca aos refugiados, o assunto foi tomado pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas depois de 1951, ap\u00f3s a II Grande Guerra Mundial, como todos sabem. A obrigatoriedade de prestar um tratamento condigno com humanidade e fraternidade, de receber e de inserir ultrapassa as leis e as decis\u00f5es do pr\u00f3prio pa\u00eds. Constitui uma obriga\u00e7\u00e3o, mas infelizmente assim n\u00e3o \u00e9 na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p><em>Na pr\u00e1tica houve um retrocesso?<\/em><\/p>\n<p>Basta prestar aten\u00e7\u00e3o aos nacionalismos, que ganham cada vez mais suporte gra\u00e7as aos l\u00edderes desses movimentos que atacam injustamente a rece\u00e7\u00e3o dos que procuram asilo, afirmando que o fazem em fun\u00e7\u00e3o da legalidade.<\/p>\n<p><em>Estamos quase perante a criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade?<\/em><\/p>\n<p>Estou completamente de acordo. Se pensarmos que em 2016, o n\u00famero apontado para os refugiados era \u00e0 volta de 362 mil, repartidos pela It\u00e1lia e pela Gr\u00e9cia, com cerca de 175, 180 mil por cada um; e, que logo no primeiro semestre de 2017, superou os 105 mil, tendo morrido ou desaparecido mais de 2.700 pessoas, vemos a gravidade da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>Assistimos a novas formas de olhar todos estes fen\u00f3menos, e a pr\u00f3pria maneira como a sociedade encara a solidariedade e o ajudar o outro.<\/em><\/p>\n<p>Em Portugal, o n\u00famero diminuto e inexpressivo dos que aqui vivem revela que n\u00e3o h\u00e1 apet\u00eancia dos refugiados para aqui se instalarem. N\u00e3o pode deixar de ser citado o caso do Fund\u00e3o, talvez insuficientemente conhecido. Aquele munic\u00edpio recebeu um conjunto de 19 refugiados da Eritreia e 18 encontram-se atualmente integrados. Por acaso estive l\u00e1 h\u00e1 duas semanas, no Semin\u00e1rio onde se encontram instalados e fiquei muito, muito impressionada.<\/p>\n<p>Durante o encontro com um deles, que se chama Mori, vindo da Guin\u00e9 Equatorial, explicou-me que fala franc\u00eas e que todos os outros falam ingl\u00eas, s\u00f3 conseguindo comunicar com o restante grupo em \u00e1rabe. Quando me referiu ser soci\u00f3logo de empresas \u2013 tamb\u00e9m eu sou soci\u00f3loga \u2013 abracei-o de forma muito amiga e disse \u2018est\u00e1 a abra\u00e7ar uma m\u00e3e, melhor dizendo, uma av\u00f3\u2019. Ficou t\u00e3o comovido, que n\u00e3o pode imaginar.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas pessoas que tomam conta deste Semin\u00e1rio que se encontra completamente vazio, um edif\u00edcio enorme onde a pessoa se sente realmente muito sozinha; a senhora que faz a limpeza afirmou \u2018ai, eles s\u00e3o t\u00e3o bons\u2019. As pessoas agora est\u00e3o a modificar a opini\u00e3o, mas inicialmente receberam-nos com algumas retic\u00eancias.<\/p>\n<p><em>Isso leva-me a perguntar-lhe outra coisa, relativamente ao racismo. Por estes dias tamb\u00e9m reacendeu a discuss\u00e3o \u00e0 volta deste tema, depois de um artigo de opini\u00e3o. N\u00e3o temos tempo de falar propriamente do artigo, mas desta quest\u00e3o de fundo, em sua opini\u00e3o h\u00e1, ou n\u00e3o, racismo na sociedade portuguesa? E nomeadamente em rela\u00e7\u00e3o aos imigrantes?<\/em><\/p>\n<p>Quem sou eu, n\u00e3o \u00e9 verdade, para poder exprimir uma opini\u00e3o correta? Acho que h\u00e1. Tudo o que \u00e9 diferente causa rea\u00e7\u00e3o, e por muito que possamos dizer que n\u00e3o h\u00e1 racismo, existem pr\u00e1ticas que mostram que realmente existe.<\/p>\n<p>Por curiosidade tenho tr\u00eas noras de nacionalidades diferentes e nunca me foi feita nenhuma queixa, por qualquer delas. Por observa\u00e7\u00e3o direta cabe-me, no entanto, dizer que efetivamente n\u00e3o h\u00e1 uma rece\u00e7\u00e3o de bra\u00e7os abertos a alguns estrangeiros.<\/p>\n<p>Tenho pena de n\u00e3o poder reproduzir com inteira exatid\u00e3o o relato feita pela nossa atual Ministra da Justi\u00e7a, Francisca Van Dunem, a prop\u00f3sito de algo que o filho partilhou consigo. Achava estranho, que na escola lhe chamassem \u2018Pedro\u2019, quando o seu nome n\u00e3o \u00e9 Pedro. Ela percebeu imediatamente que o chamavam n\u00e3o por \u2018Pedro\u2019 mas por \u2018preto\u2019. Esta declara\u00e7\u00e3o da Ministra ainda hoje me arrepia. Imagine-se para uma crian\u00e7a, o terr\u00edvel que isto deve ser.<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uns anos atr\u00e1s procurou a introdu\u00e7\u00e3o, ou a concretiza\u00e7\u00e3o de uma c\u00e1tedra UNESCO que falava precisamente sobre a mobilidade e os direitos humanos. Em que p\u00e9 \u00e9 que est\u00e1 esse projeto, com viabilidade de ser concretizado?<\/em><\/p>\n<p>Ainda bem que me d\u00e1 oportunidade de falar sobre uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o grave. Efetivamente as c\u00e1tedras UNESCO s\u00f3 podem ser apresentadas \u00e0 Delega\u00e7\u00e3o da UNESCO em Portugal, por interm\u00e9dio do Reitor da Universidade que a prop\u00f5e. \u00c9 evidente que, pela minha idade e experi\u00eancia de vida, sei respeitar as hierarquias, e imediatamente coloquei o assunto superiormente, tendo sido demonstrado interesse em que o processo avan\u00e7asse. Deve ter sido em outubro\/ novembro de 2017, e em janeiro de 2018 foi-me transmitido que tinha sido a primeira C\u00e1tedra aceite entre as candidaturas portuguesas.<\/p>\n<p><em>E neste momento como \u00e9 que est\u00e1 este projeto?<\/em><\/p>\n<p>Foi invalidado, porque o senhor Reitor da Universidade Aberta n\u00e3o procedeu ao seu encaminhamento e n\u00e3o a fez seguir. Numa reuni\u00e3o que teve lugar em janeiro de 2019, um ano depois, fui informada de que j\u00e1 n\u00e3o valeria a pena avan\u00e7ar com o processo e seria melhor fazer uma nova candidatura. Uma coisa inexplic\u00e1vel e revoltante.<\/p>\n<p><em>No seu entender, neste contexto que analisamos, o que \u00e9 que poderia beneficiar? Tamb\u00e9m na reflex\u00e3o que a sociedade portuguesa beneficiaria com estes temas da mobilidade e dos direitos humanos?<\/em><\/p>\n<p>Forma\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios p\u00fablicos-alvo, de que constituem exemplo pol\u00edcias, estudantes de todos os graus de ensino, entre muitos outros. Todo um grande projeto elaborado em colabora\u00e7\u00e3o com o colega Miguel Santos Neves, uma pessoa da \u00e1rea do direito, dedicado essencialmente \u00e0 defesa dos direitos humanos, que tem uma grande proje\u00e7\u00e3o internacional. Foi um projeto que n\u00f3s constru\u00edmos, com o prop\u00f3sito de tentar modificar, tanto quanto poss\u00edvel, n\u00e3o tudo, mas alguns segmentos da sociedade que pudessem ser abrangidos. Um projeto que n\u00e3o foi levado para a frente por motivos que ningu\u00e9m percebe.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-143591-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/MariaBeatrizRochaTrindade.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/MariaBeatrizRochaTrindade.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/MariaBeatrizRochaTrindade.mp3<\/a><\/audio>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira mulher antrop\u00f3loga portuguesa, fundadora h\u00e1 25 anos do Centro de Estudos das Migra\u00e7\u00f5es e das Rela\u00e7\u00f5es Interculturais, destaca que \u00abobriga\u00e7\u00f5es humanas\u00bb ultrapassam as pr\u00f3prias \u00ableis nacionais\u00bb e lamenta criminaliza\u00e7\u00e3o da solidariedade que considera um claro 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