{"id":14315,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/jesus-cristo-historia-fe-e-igreja\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"jesus-cristo-historia-fe-e-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/jesus-cristo-historia-fe-e-igreja\/","title":{"rendered":"Jesus Cristo: Hist\u00f3ria, F\u00e9 e Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Aula de Jubila\u00e7\u00e3o do Prof. Joaquim Carreira das Neves <!--more--> Neste \u201cAdeus\u201d \u00e0 nossa querida Faculdade de Teologia gostaria de dissertar, uma vez mais, sobre o tema teol\u00f3gico da minha predilec\u00e7\u00e3o ao longo de toda a minha carreira acad\u00e9mica: JESUS CRISTO. Todos reconhecemos que a pessoa de Jesus marcou e continua a marcar a humanidade. A gosto ou a contra-gosto, a pessoa de Jesus une e divide, atrai e afasta. Em tempos de ecumenismo entre as v\u00e1rias igrejas crist\u00e3s, e de di\u00e1logo inter-religioso entre todos os crentes e n\u00e3o crentes, \u00e9 importante que apresentemos a pessoa de Jesus na sua real dimens\u00e3o, de modo que as pessoas possam tomar decis\u00f5es e fazer op\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e existenciais, racionais e supra racionais sobre Jesus Cristo.   JESUS CRISTO E A HIST\u00d3RIA. A n\u00edvel cultural h\u00e1 dezenas de abordagens sobre a pessoa de Jesus. J\u00e1 l\u00e1 v\u00e3o os tempos em que se defendia a tese de Jesus como puro mito. Nos s\u00e9culos XVIII, XIX e XX prevaleceu a abordagem do Jesus da hist\u00f3ria, e, por isso, tanto entre cat\u00f3licos como protestantes, come\u00e7a a sentir-se um certo mal-estar sobre esta abordagem. Jo\u00e3o Paulo II, Bento XVI e, entre n\u00f3s, D. Jos\u00e9 Policarpo, t\u00eam manifestado esse parecer. No entanto, o estudo sobre o Jesus da hist\u00f3ria \u00e9 importante e necess\u00e1rio. H\u00e1 perspectivas de investigadores, exegetas e historiadores, que reduzem Jesus \u00e0 fasquia mais baixa: Jesus foi um grande homem e nada mais do que um homem. Mesmo assim, tudo o que seja realmente s\u00e9rio, em estudo acad\u00e9mico, sobre a real vida hist\u00f3rica de Jesus, \u00e9 sempre uma mais valia. O autor da primeira e segunda carta de S. Jo\u00e3o j\u00e1 afirmava pelos anos oitenta da nossa era: \u201cOuvistes dizer que h\u00e1-de vir um Anticristo; pois bem, j\u00e1 apareceram muitos anticristos\u201d (1Jo 1, 18). O autor exp\u00f5e um pouco mais adiante que estes anticristos s\u00e3o falsos profetas crist\u00e3os do seu tempo, e o crit\u00e9rio apresentado para julgar tais falsos profetas \u00e9 o da hist\u00f3ria: \u201ctodo o esp\u00edrito que confessa que Jesus Cristo veio em carne mortal \u00e9 de Deus; e todo o esp\u00edrito que n\u00e3o faz esta confiss\u00e3o de f\u00e9 acerca de Jesus n\u00e3o \u00e9 de Deus\u201d (1Jo 4, 2-3). Na segunda carta volta ao problema: \u201c\u00c9 que apareceram no mundo muitos sedutores que afirmam que Jesus Cristo n\u00e3o veio em carne mortal. Esse \u00e9 o sedutor e o anticristo!\u201d (2Jo 7). Quem negava a exist\u00eancia de Jesus como homem de carne e sangue eram os docetas e os gn\u00f3sticos. Deste modo, todos os estudos s\u00e9rios sobre a real vida de Jesus em \u201ccarne e sangue\u201d s\u00e3o bem vindos. \u00c9 humanamente compreens\u00edvel que, quem n\u00e3o tem f\u00e9 crist\u00e3, tente reduzir Jesus \u00e0 estatura de simples homem. Mas h\u00e1 que saber distinguir entre a investiga\u00e7\u00e3o s\u00e9ria sobre o Jesus da hist\u00f3ria, com todas as suas consequ\u00eancias, e a investiga\u00e7\u00e3o preconceituada. Nesta \u00faltima al\u00ednea podemos colocar toda a literatura recente \u2013 ali\u00e1s, avassaladora \u2013 em volta do \u201cC\u00f3digo Da Vinci\u201d. A fome cultural pelo esot\u00e9rico e exc\u00eantrico explica o \u201cboom\u201d liter\u00e1rio de Dan Brown. Mesmo assim, estes fen\u00f3menos liter\u00e1rios e culturais devem levar-nos a um estudo calmo e sereno sobre a sua raz\u00e3o de ser. Em meu entender, o grande desafio \u00e0s igrejas crist\u00e3s, nos pr\u00f3ximos tempos, reside na New Age[1]. \u00c9 voltar, uma vez mais, ao tempo dos docetas, gn\u00f3sticos, anticristos e falsos profetas das cartas de Jo\u00e3o. Muda a nomenclatura, mas a subst\u00e2ncia do problema \u00e9 sempre a mesma.   As ci\u00eancias hist\u00f3ricas e sociais t\u00eam sido aplicadas, nestes \u00faltimos tempos, \u00e0 descoberta do Jesus da hist\u00f3ria. Citemos, a t\u00edtulo de exemplo, os estudos de John  P. Meier, nos seus tr\u00eas grandes volumes: A Marginal Jew. Rethinking the Historical Jesus[2], de J. H. Elliott, What is Social-Scientific Criticism?[3], de G. Theissen, Sociologia del movimiento de Jes\u00fas[4], Est\u00fadios de Sociologia  del cristianismo primitivo[5], S. Vidal, Los tres Proyectos de Jes\u00fas y el Cristianismo Naciente[6], Carlos J. Gil Arbiol, Los valores Negados. Ensayo de ex\u00e9gesis socio-cient\u00edfica sobre la autoestigmatizaci\u00f3n en el movimiento de Jes\u00fas[7],  R. Aguirre, Del movimiento de Jes\u00fas a la Iglesia cristiana. Ensayo de ex\u00e9gesis sociol\u00f3gica del cristianismo primitivo[8], Elisa Est\u00e9vez L\u00f3pez, El Poder de una Mujer Creyente. Cuerpo, identidad y discipulado en Mc 5, 24b-34. Un estudio desde las ciencias sociales[9]. N\u00e3o devemos ter medo destas abordagens. As narrativas b\u00edblicas tanto se servem dos m\u00e9todos sincr\u00f3nicos como diacr\u00f3nicos na \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d da pessoa de Jesus. Ao falarmos de \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d, ao jeito de Tolentino de Mendon\u00e7a[10], n\u00e3o falamos de \u201cinven\u00e7\u00e3o\u201d.  Falamos de tudo quanto possa ajudar a compreender a pessoa de Jesus no tempo e espa\u00e7o.   Todos sabemos que as \u00fanicas fontes liter\u00e1rias que possu\u00edmos para compreender a pessoa de Jesus s\u00e3o os quatro evangelhos can\u00f3nicos. Os chamados evangelhos gn\u00f3sticos, t\u00e3o em moda, s\u00e3o importantes para compreendermos as duas linhas paralelas, mas antag\u00f3nicas, do real Jesus dos primeiros quatro s\u00e9culos: a linha da grande Igreja em forma\u00e7\u00e3o, que, depois, resultou na igreja Cat\u00f3lica, Ortodoxa e Protestante, e a das comunidades gn\u00f3sticas, perseguidas pela pr\u00f3pria Igreja depois da liberdade de Constantino e reaparecidas modernamente com as descobertas de Nag Hammadi. \u00c9, pois, com os evangelhos, que devemos trabalhar. Mas os evangelhos n\u00e3o s\u00e3o originalmente uma literatura com fins de historicidade factual. S\u00e3o o que o termo \u201cevangelho\u201d quer significar: Boa Nova. Trata-se de uma Boa Nova de catequese crist\u00e3 sobre o aparecimento hist\u00f3rico de Jesus. Uma vez que h\u00e1 judeus e pag\u00e3os que acreditam que o real Jesus da hist\u00f3ria, homem de carne e sangue como qualquer outro homem, pelo que disse e pelo que fez, \u00e9 o Filho \u00danico de Deus, Messias, Salvador e Redentor e, mais ainda, Emmanuel (Deus connosco), os evangelhos, como resposta a essa cren\u00e7a, surgem como uma literatura de ret\u00f3rica catequ\u00e9tica para que os leitores confirmem a f\u00e9 j\u00e1 recebida ou despertem para essa f\u00e9, radicada no Jesus da hist\u00f3ria, da f\u00e9 e da Igreja.  Desta forma, Jesus tanto pode ser estudado \u00e0 luz da f\u00e9 como \u00e0 luz da hist\u00f3ria. Durante dezoito s\u00e9culos prevaleceu entre cat\u00f3licos, ortodoxos e protestantes o Jesus da f\u00e9. N\u00e3o admira, pois, que com a era do racionalismo e iluminismo, surgisse o desejo de estudar o Jesus da hist\u00f3ria.   Sobre o lugar do nascimento de Jesus, data e circunst\u00e2ncia, nada sabemos de hist\u00f3ria factual. Os dois primeiros cap\u00edtulos de Mateus e Lucas, que descrevem o nascimento de Jesus em Bel\u00e9m com todas as suas circunst\u00e2ncias, n\u00e3o t\u00eam por fim apresentar um relato de hist\u00f3ria factual, mas de hist\u00f3ria teol\u00f3gica, ou, mais concretamente, de hist\u00f3ria cristol\u00f3gica. Quando os quatro evangelhos (Marcos, Lucas, Mateus e Jo\u00e3o) foram escritos, Jesus j\u00e1 era acreditado por milhares de judeus e n\u00e3o-judeus como o Messias de Deus, Filho \u00danico de Deus e Emmanuel (o Deus-connosco), Salvador e Redentor. As esperan\u00e7as messi\u00e2nicas das Escrituras Hebraicas, na f\u00e9 dos crist\u00e3os, haviam-se realizado e, com esta realiza\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram os tempos escatol\u00f3gicos. E o tempo escatol\u00f3gico deriva n\u00e3o tanto do messianismo, filia\u00e7\u00e3o divina, media\u00e7\u00e3o salvadora e redentora de Jesus, mas da sua ressurrei\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 f\u00e9 crist\u00e3 sem a centralidade da ressurrei\u00e7\u00e3o. Semelhante acontecimento, s\u00f3 reconhecido pela f\u00e9 testemunhal de homens e mulheres, faz de Jesus uma personagem \u00fanica na hist\u00f3ria das religi\u00f5es, de modo que qualquer historiador e exegeta se confronta com textos sobre Jesus em perspectiva da hist\u00f3ria e da f\u00e9. Assim, as narrativas dos dois primeiros cap\u00edtulos de Mateus e Lucas sobre o seu nascimento e inf\u00e2ncia apresentam, em forma narrativa, este Jesus total. A sua grandeza \u201cdivina\u201d manifesta-se j\u00e1 a partir da pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o \u201cvirginal\u201d, sem paralelo com qualquer outra figura hist\u00f3rica.  A exegese moderna leva-nos a concluir que o Jesus da hist\u00f3ria s\u00f3 come\u00e7a quando este decide abandonar, pelos seus vinte e sete anos, a sua fam\u00edlia de Nazar\u00e9, viajar de Nazar\u00e9 para o rio Jord\u00e3o e juntar-se ao movimento de Jo\u00e3o Baptista. De facto, o primeiro evangelho a ser escrito, o de Marcos, por volta do ano setenta, \u00e9 assim que apresenta Jesus a entrar na cena da hist\u00f3ria. Marcos n\u00e3o nos fornece nenhum \u201cevangelho da inf\u00e2ncia\u201d. Esta geografia hist\u00f3rica tamb\u00e9m  \u00e9 defendida por tra\u00e7os biogr\u00e1ficos nos Actos dos Ap\u00f3stolos em 1, 21-22: \u201cPortanto, de entre os homens que nos acompanharam durante todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu no meio de n\u00f3s, a partir do baptismo de Jo\u00e3o at\u00e9 ao dia em que nos foi arrebatado para o Alto\u2026\u201d. (ver Ac 1, 22; 13, 24). Isto significa que a \u201cBoa Nova\u201d (evangelho) da prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3 mais primitiva come\u00e7ava com a hist\u00f3ria de Jesus e Jo\u00e3o Baptista. Os evangelhos da inf\u00e2ncia de Lucas e Mateus s\u00e3o uma constru\u00e7\u00e3o normal onde predomina o Jesus da hist\u00f3ria-da-salva\u00e7\u00e3o,  \u00e0 maneira das hist\u00f3rias hal\u00e1quicas ou hag\u00e1dicas, tamb\u00e9m chamadas midraches, dos rabinos de ent\u00e3o sobre os Patriarcas, Mois\u00e9s e outras grandes figuras b\u00edblicas. O salvamento de Mois\u00e9s das \u00e1guas do rio Nilo pela princesa eg\u00edpcia \u00e9 uma destas narrativas \u201chal\u00e1quicas\u201d ou \u201cmidr\u00e1chicas\u201d, que classificamos de \u201cest\u00f3rias\u201d ou \u201clendas\u201d. No entanto, estas \u201cest\u00f3rias\u201d t\u00eam o mesmo valor evang\u00e9lico, isto \u00e9, de Boa Nova, para quem acredita em Jesus, que qualquer outra narrativa hist\u00f3rica.   S\u00f3 os evangelhos da inf\u00e2ncia nos apresentam a concep\u00e7\u00e3o virginal. Mais tarde, s\u00f3 o quarto evangelho apresenta a pr\u00e9-hist\u00f3ria eterna de Jesus (Jo 1, 1: \u201cNo princ\u00edpio era o Verbo; \/ o Verbo estava em Deus; e o Verbo era Deus\u201d; v. 14: \u201cE o Verbo fez-se homem \/ e veio habitar connosco\u201d). A concep\u00e7\u00e3o virginal, a ressurrei\u00e7\u00e3o e a pr\u00e9-exist\u00eancia eterna de Jesus, s\u00f3 se compreendem em intelig\u00eancia de f\u00e9. N\u00e3o h\u00e1 qualquer prova de hist\u00f3ria factual para estas tr\u00eas \u201cverdades da f\u00e9\u201d crist\u00e3. Se fosse doutra maneira, Jesus seria um \u201cnovo\u201d Mois\u00e9s, um \u201cnovo\u201d profeta, inclusivamente o \u201cMessias\u201d, mas nunca o Senhor Deus (Jo 20, 28: \u201cTom\u00e9 respondeu-lhes: \u2018Meu Senhor e meu Deus!\u2019\u201d).  Voltando aos evangelhos da inf\u00e2ncia de Lucas e Mateus n\u00e3o nos \u00e9 permitido estabelecer qualquer concordismo interno. No evangelho da inf\u00e2ncia de Mateus, a figura central, a seguir a Jesus, \u00e9  Jos\u00e9. \u00c9 a Jos\u00e9 que o \u201canjo do Senhor lhe apareceu em sonhos e lhe disse: \u2018Jos\u00e9, filho de David, n\u00e3o temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu \u00e9 obra do Esp\u00edrito\u201d (1, 20). A que se segue uma longa narrativa que tem por centro de ac\u00e7\u00e3o o verbo activo plero\u00f4 (cumprir). Deus determina uma ac\u00e7\u00e3o a realizar ou a cumprir, atrav\u00e9s dos anjos (anjo) e sonhos, dirigida a Jos\u00e9. O emissor (Deus) fala ao emiss\u00e1rio (Jos\u00e9) pelo anjo\/sonho para realizar uma ac\u00e7\u00e3o-mensagem, previamente determinada por um profeta. Determinara em Is 7, 14 que o Messias nasceria de uma virgem (na tradu\u00e7\u00e3o grega dos LXX) (1, 22). Determinara em Mq 5, 1-2 que o Messias havia de nascer em Bel\u00e9m (2, 6). Determinara em Os 11, 1 que o seu povo havia de nascer duma ac\u00e7\u00e3o divina de liberta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e religiosa, levada a efeito por Mois\u00e9s e repetida, agora, de modo total, em Jesus. Assim sendo, Jesus tinha que passar profeticamente (hist\u00f3ria prof\u00e9tica e n\u00e3o factual) pelo Egipto (2, 15). Determinara em Jr 31, 15 que as tribos do Norte, descendentes da matriarca Raquel, a partir de Rama, seriam chacinadas pelos ass\u00edrios e levadas para o ex\u00edlio. A profecia serve de pano de fundo para a persegui\u00e7\u00e3o de Herodes contra as crian\u00e7as inocentes de Bel\u00e9m e arredores (2, 17-18). Determinara, finalmente, que o Messias havia de viver em terras de Nazar\u00e9 (3, 23), mas em nenhum lugar do AT se profetiza semelhante identifica\u00e7\u00e3o. Mateus, servindo-se da hermen\u00eautica b\u00edblica do seu tempo, utiliza a asson\u00e2ncia hebraica entre \u201cnazareno\u201d, \u201cnazoreu\u201d e \u201cnazireu\u201d para identificar Jesus como o \u201cconsagrado\u201d por excel\u00eancia (ver Jz 13, 5). A vinda dos magos do oriente, a ac\u00e7\u00e3o da estrela, a conversa dos magos com Herodes, que \u201cp\u00f4s em alvoro\u00e7o toda a cidade de Jerusal\u00e9m\u201d (2, 3), a adora\u00e7\u00e3o dos magos, o prazo de dois anos entre a vinda dos magos e a matan\u00e7a dos inocentes, a ida de Jesus, Maria e Jos\u00e9 para o ex\u00edlio no Egipto, onde permanecem dois anos, \u00e9 uma narrativa \u201cmidr\u00e1chica\u201d, artificial, que mexe com toda a hist\u00f3ria do povo de Israel em perspectiva hist\u00f3rico-prof\u00e9tica. O Jesus de Mateus percorre de maneira anal\u00e9ptica o mesmo caminho em espa\u00e7o e tempo de salva\u00e7\u00e3o do povo de Israel. Mois\u00e9s foi maltratado pelo Fara\u00f3 como Jesus pelos respons\u00e1veis pol\u00edticos e religiosos de Jerusal\u00e9m. O povo sofreu o ex\u00edlio como as comunidades crist\u00e3s primitivas. Mateus apresenta a sua \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d a partir de analepses. Jesus n\u00e3o \u00e9 tanto o \u201cnovo\u201d Mois\u00e9s, como muitos exegetas defendem[11], mas o \u201cverdadeiro\u201d Mois\u00e9s e os crist\u00e3os n\u00e3o s\u00e3o o \u201cnovo\u201d povo de Deus, mas o \u201cverdadeiro\u201d povo de Deus. A oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o reside no adjectivo \u201cantigo\u201d versus \u201cnovo\u201d, mas \u201cimperfeito\u201d ou \u201cinacabado\u201d versus \u201cverdadeiro\u201d ou \u201cconsumado\u201d[12]. Os magos e a estrela, na cultura oriental, como os anjos e os sonhos, s\u00e3o \u201csinais\u201d divinos (ver Is 60, 6 e o Sl 72, 10. 11. 15). O texto de Mateus parte do \u201cpr\u00e9-texto\u201d e \u201ccontexto\u201d da hist\u00f3ria b\u00edblica do Antigo Testamento. Dificilmente encontramos em toda a literatura um texto como o do evangelho da inf\u00e2ncia de Mateus para legitimar a tese de que qualquer \u201cleitura\u201d \u00e9 uma \u201creleitura\u201d. Por outro lado, em hist\u00f3ria factual, \u00e9 anti-racional que Herodes tenha mandado matar as crian\u00e7as de Bel\u00e9m e arredores, precisamente dois anos depois do aparecimento dos magos. A ser verdade, e n\u00e3o obstante crimes do rei, Fl\u00e1vio Josefo n\u00e3o deixaria de apresentar este crime como o maior de todos os crimes.  No evangelho da inf\u00e2ncia segundo Lucas, os tempos, os espa\u00e7os e as personagens s\u00e3o diferentes, exceptuando Jos\u00e9, Maria e Jesus. Aqui a constru\u00e7\u00e3o narrativa centra-se em Maria de Nazar\u00e9 e n\u00e3o em Jos\u00e9. O di\u00e1logo divino d\u00e1-se entre o Anjo Gabriel, enviado por Deus (1, 26) e Maria. Em nenhuma parte dos quatro evangelhos Maria, m\u00e3e de Jesus, assume um papel t\u00e3o determinante. Ela discute com o anjo (1, 28-38), visita a sua parente Isabel e recebe dela o maior de todos os elogios (1, 42-43: \u201cBendita \u00e9s tu entre as mulheres e bendito \u00e9 o fruto do teu ventre. E donde me \u00e9 dado que venha ter comigo a m\u00e3e do meu Senhor?\u201d). J\u00e1 sabemos que a palavra Kyrios (Senhor), no Antigo Testamento grego traduz o tetagrama divino YAHWEH (Deus e Senhor). Nenhum crist\u00e3o pode ir mais longe que Isabel ao pronunciar este enunciado: \u201cE donde me \u00e9 dado que venha ter comigo a m\u00e3e do meu Senhor?\u201d A cristologia mais alta funde-se com a mariologia mais alta. Os primeiros conc\u00edlios sobre Maria como \u201cTheotokos\u201d (m\u00e3e de Deus) e sobre Jesus relacionado com o Pai e com o Esp\u00edrito, ou, ent\u00e3o, debru\u00e7ados nas lutas cristol\u00f3gicas sobre a natureza humana e divina de Jesus, nada mais fazem do que explicitar em linguagem poss\u00edvel, funcional e ontol\u00f3gica, o que Lucas p\u00f5e na boca de Isabel.  Ao contr\u00e1rio de Mateus, Lucas constr\u00f3i a sua narrativa da inf\u00e2ncia de Jesus a partir do d\u00edptico familiar contrastante &#8211; fam\u00edlia de Jo\u00e3o Baptista e  fam\u00edlia de Jesus. Ao contr\u00e1rio dos pais biol\u00f3gicos de Jo\u00e3o, Jesus nasce de uma virgem. Ao contr\u00e1rio de Zacarias, sacerdote do Templo de Jerusal\u00e9m, Jesus \u00e9 senhor do pr\u00f3prio Templo (2, 49: \u201cN\u00e3o sab\u00edeis que devia estar em casa de meu Pai?\u201d). Jo\u00e3o Baptista \u00e9 um asceta \u201cnazireu\u201d (consagrado) (1, 15), enquanto que Jesus \u201cser\u00e1 grande e vai chamar-se Filho do Alt\u00edssimo\u2026Por isso, aquele que vai nascer \u00e9 Santo e ser\u00e1 chamado Filho de Deus\u201d(1, 32). Em Lucas n\u00e3o h\u00e1 magos, estrela, fuga para o Egipto, matan\u00e7a de inocentes, mas nem por isso deixa de apresentar o menino Jesus bem enquadrado no contexto judaico de ent\u00e3o. \u00c9 circuncidado ao oitavo dia (2, 21), consagrado a Deus por ser o primog\u00e9nito (2, 22-24), em tudo sujeito \u00e0 \u201cLei do Senhor\u201d (2, 22. 23. 24. 27. 39). Por outro lado, Lucas apresenta os pais de Jesus, com todo o realismo, como qualquer pai e m\u00e3e biol\u00f3gicos (2, 32: \u201cSeu pai e sua m\u00e3e estavam admirados com o que se dizia dele\u201d; 2, 43: \u201csem que os pais o soubessem\u201d; 2, 48: \u201cOlha que teu pai e eu and\u00e1vamos aflitos\u201d). Para Lucas n\u00e3o existe nenhuma incompatibilidade entre a carne e o Esp\u00edrito. Os pais de Jesus funcionam de modo diferente dos pais biol\u00f3gicos de Jo\u00e3o Baptista, mas sem oposi\u00e7\u00e3o dualista ou manique\u00edsta porque o \u201cEsp\u00edrito Santo\u201d que vem sobre Maria (1, 34) e a \u201cfor\u00e7a do Alt\u00edssimo\u201d que se estende sobre ela (1, 35) pertence \u00e0 ordem da gra\u00e7a sem contradizer a da natureza. Lucas conjuga a gram\u00e1tica da gra\u00e7a, da natureza, da Lei e do Esp\u00edrito com um \u00e0 vontade total.  Lucas diz o mesmo que Mateus, embora as personagens envolvidas, criadas adrede pelos dois evangelistas, sejam distintas. \u00c9 sempre a hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em jogo. Nem Lucas conhecia o evangelho de Mateus, nem Mateus o de Lucas, mas ambos conheciam a hist\u00f3ria final de Jesus. Os evangelhos da inf\u00e2ncia dos dois evangelistas s\u00e3o uma retro-projec\u00e7\u00e3o deste Jesus final e total. Mesmo assim, o Jesus dos evangelhos da inf\u00e2ncia de Mateus e Lucas nada tem a ver com o Jesus dos evangelhos ap\u00f3crifos, sobretudo com o do Proto Evangelho de Tiago, que tanta influ\u00eancia desempenhou na hist\u00f3ria da Igreja, cheio de lendas e milagres mirabolantes do menino Jesus. N\u00e3o admira que, como vimos, em Mateus a historicidade factual da estrela, magos, fuga para o Egipto, matan\u00e7a dos inocentes d\u00ea lugar \u00e0 historicidade do significado e n\u00e3o do significante, como em Lucas acontece com Isabel, os anjos, Sime\u00e3o e Ana. Se em Lucas, Jesus \u00e9 circuncidado ao oitavo dia e depois segue para Nazar\u00e9, como \u00e9 poss\u00edvel conciliar este tempo, espa\u00e7o e circunst\u00e2ncias com os dois anos passados no Egipto, segundo a narrativa de Mateus? Ningu\u00e9m pode conciliar o inconcili\u00e1vel. O concordismo b\u00edblico seria um absurdo. E assim como, em Mateus, a matan\u00e7a dos inocentes, a ser hist\u00f3rica, tinha que aparecer nos escritos de Fl\u00e1vio Josefo, tamb\u00e9m em Lucas o \u00e9dito de C\u00e9sar Augusto (2, 1-17), que leva Jos\u00e9 e Maria a Bel\u00e9m, devia fazer parte dos Anais do imp\u00e9rio romano. A verdade \u00e9 que n\u00e3o conhecemos nenhum outro documento hist\u00f3rico sobre este recenseamento do imperador C\u00e9sar Augusto. E mesmo que o documento evang\u00e9lico de Lucas se devesse tomar como hist\u00f3rico contradiz o que a hist\u00f3ria afirma acerca de Quirino como Governador da S\u00edria. Foi Governador da S\u00edria apenas a partir do ano sexto depois de Cristo. Mas quando Lucas escreveu o seu evangelho toda a gente, na Palestina, conhecia este recenseamento e as perturba\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que desencadeara entre os \u201czelotas\u201d judeus contra Roma. Lucas n\u00e3o foi consultar as bibliotecas para se precaver da possibilidade de algum \u201cerro\u201d hist\u00f3rico. Apanhou o dado hist\u00f3rico do recenseamento posterior de Quirino e achou por bem colocar o nascimento de Jesus neste enquadramento universal da hist\u00f3ria do imp\u00e9rio romano (2, 1: \u201cPor aqueles dias saiu um \u00e9dito da parte de C\u00e9sar Augusto para ser recenseada toda a terra\u201d). A narrativa n\u00e3o tem em vista a veracidade hist\u00f3rica de um determinado recenseamento, mas a veracidade hist\u00f3rica do nascimento de Jesus no universo do imp\u00e9rio romano, senhor absoluto da hist\u00f3ria do mundo de ent\u00e3o. Lucas apenas quer apresentar o \u201cnovo Senhor\u201d da hist\u00f3ria \u2013 Jesus \u2013 na contextualidade hist\u00f3rica e cultural do seu tempo.  Como conclus\u00e3o, os evangelhos da inf\u00e2ncia de Jesus n\u00e3o s\u00e3o hist\u00f3ria factual, mas funcional. Da sua inf\u00e2ncia, a come\u00e7ar pelo lugar do nascimento, modo e circunst\u00e2ncias, nada sabemos. Qualquer leitor, historiador, exegeta, com f\u00e9 ou sem f\u00e9, tem todo o direito de falar de erros hist\u00f3ricos entre Lucas e Mateus, se ler os dois evangelhos da inf\u00e2ncia como fonte hist\u00f3rica de historicismo factual. Simplesmente, n\u00e3o \u00e9 isto o que os evangelistas nos querem apresentar, mas apenas a f\u00e9 crist\u00e3 sobre Jesus, Filho \u00danico de Deus, Messias e Salvador, nascido de Deus e de uma virgem, atrav\u00e9s de uma catequese de narrativa b\u00edblica, chamemos-lhe \u201cmidrache\u201d, \u201csaga\u201d, \u201clenda\u201d ou, at\u00e9, \u201cmito\u201d.   O que mais escandaliza os leitores modernos, filhos da ci\u00eancia biol\u00f3gica, \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o constante de Jesus nascer de uma virgem. Mateus afirma-o de v\u00e1rias maneiras (1, 20: \u201cJos\u00e9, filho de David, n\u00e3o temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu \u00e9 obra do Esp\u00edrito Santo\u201d; 1, 13: \u201cO anjo do Senhor apareceu em sonhos a Jos\u00e9 e disse-lhe: \u2018Levanta-te, toma o menino e sua m\u00e3e, foge para o Egipto\u2019\u201d, em vez de: \u201ctoma o teu filho, e foge para o Egipto\u201d; ver 1, 14. 19). O mesmo acontece com a genealogia em 1, 16: \u201cJacob gerou Jos\u00e9, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo\u201d, em vez de dizer, na sequ\u00eancia de todas as demais genealogias: \u201cJacob gerou Jos\u00e9, Jos\u00e9 gerou Jesus\u2026\u201d. \u00c9 absolutamente normal e racional que o leitor moderno se interrogue sobre o nascimento \u201cvirginal\u201d de Jesus, tamb\u00e9m a partir do g\u00e9nero liter\u00e1rio dos evangelhos da inf\u00e2ncia, isto \u00e9, que veja nestes evangelhos um \u201cmitema\u201d ou um \u201cteologoumenon\u201d (narrativa divina para explicar o mist\u00e9rio da incarna\u00e7\u00e3o de Jesus Filho de Deus). O crente cat\u00f3lico, ortodoxo ou protestante, que acredita no nascimento virginal de Jesus, apenas pode responder com a sua proposta de f\u00e9 crist\u00e3 e tradi\u00e7\u00e3o da Igreja porque a tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 apost\u00f3lica subjacente a Mateus e Lucas assim acreditava. Ser\u00e1 sempre uma quest\u00e3o de f\u00e9 (como a ressurrei\u00e7\u00e3o ou a pr\u00e9-exist\u00eancia eterna de Jesus) e n\u00e3o de hist\u00f3ria factual.      O facto de nos demorarmos tanto tempo nos evangelhos da inf\u00e2ncia \u00e9 um acto consciente por causa dos problemas de f\u00e9 e hist\u00f3ria que os evangelhos suscitam. A f\u00e9, a Hist\u00f3ria e a Igreja interagem continuamente nestas narrativas. F\u00e9, Hist\u00f3ria e Igreja s\u00e3o tr\u00eas sinergias complementares ao longo da macronarrativa dos evangelhos. \u00c9 a Igreja com a sua f\u00e9, isto \u00e9, a f\u00e9 de comunidades crist\u00e3s apost\u00f3licas primitivas que imp\u00f5e o g\u00e9nero liter\u00e1rio dos evangelhos da inf\u00e2ncia e n\u00e3o o g\u00e9nero liter\u00e1rio que se imp\u00f5e \u00e0 Igreja na constru\u00e7\u00e3o da pessoa de Jesus.   Mas quando passamos ao Jesus da hist\u00f3ria, sobretudo nos evangelhos sin\u00f3pticos, a partir da decis\u00e3o de Jesus em deixar a fam\u00edlia, conviver com Jo\u00e3o Baptista, pregar a Boa Nova do Reino de Deus, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 nem a f\u00e9 nem o g\u00e9nero liter\u00e1rio das par\u00e1bolas, milagres, discursos de doutrina\u00e7\u00e3o, que apresentam e constroem a pessoa de Jesus, mas a hist\u00f3ria concreta e factual, embora, aqui e al\u00e9m, as narrativas s\u00f3 se entendam, na sua redac\u00e7\u00e3o final, dentro dos par\u00e2metros da f\u00e9 e da Igreja, ou, melhor ainda, da f\u00e9 da Igreja. Em nosso entender, nunca ser\u00e1 poss\u00edvel poder distinguir com precis\u00e3o total o que \u00e9 que pertence \u00e0 f\u00e9, \u00e0 hist\u00f3ria e \u00e0 Igreja, como querem os paladinos americanos do Jesus Seminar[13]. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o podemos cair em exclusivismos de m\u00e9todos, os hist\u00f3rico-cr\u00edticos por um lado e os sincr\u00f3nicos por outro. No fim de tudo, \u00e9 o texto que nos interessa e n\u00e3o tanto a sua g\u00e9nese e hist\u00f3ria. Mas tudo quanto possa iluminar o texto a partir do seu pr\u00e9-texto e contexto \u00e9 bom para o pr\u00f3prio texto que chegou at\u00e9 n\u00f3s.    Tudo o que a cultura hist\u00f3rica \u00e0 volta da cultura mediterr\u00e2nica,  judaica e n\u00e3o-judaica, nos apresenta, tem a ver com a macronarrativa do texto evang\u00e9lico e seu her\u00f3i \u2013 Jesus de Nazar\u00e9. Como eram os c\u00f3digos de honra das fam\u00edlias judias e n\u00e3o-judias mediterr\u00e2nicas? Se o c\u00f3digo fundamental de honra consistia na honra e propriedade da fam\u00edlia, Jesus, segundo os evangelhos, fugiu a este c\u00f3digo de honra ao deixar a sua fam\u00edlia de sangue para pregar e construir uma outra fam\u00edlia centrada naquilo a que ele chamou Reino de Deus. As dezenas de livros e centenas de artigos sobre este pormenor s\u00e3o fundamentais. Lembremos, a t\u00edtulo de exemplo, alguns exegetas muito motivados nesta al\u00ednea: Ram\u00f3n Trevijano[14], Xabier Pikaza[15], Sen\u00e9n Vidal[16], Halvor Moxnes[17], Carlos J. Gil Arbiol[18]. As descobertas arqueol\u00f3gicas na Galileia t\u00eam trazido \u00e0 luz do dia a vida real daqueles campesinos subjugados pelos latifundi\u00e1rios que viviam em Jerusal\u00e9m, Tiber\u00edades e S\u00e9foris. Tais descobertas iluminam algumas par\u00e1bolas de Jesus sobre o banquete oferecido por ricos e reis, cujos convidados ricos, ao rejeitarem o convite, cedem o lugar aos pobres e marginalizados, estabelecendo-se assim a lei evang\u00e9lica da salva\u00e7\u00e3o em pura gratuidade e dom versus salva\u00e7\u00e3o pela Lei.  A promessa do Reino de Deus, central na prega\u00e7\u00e3o de Jesus, \u00e9 tamb\u00e9m iluminada por tudo quanto os exegetas v\u00e3o descobrindo sobre tal promessa nos ambientes rab\u00ednicos de ent\u00e3o, e, sobretudo, na literatura extra-b\u00edblica de Qumr\u00e2n e nos demais movimentos apocal\u00edpticos. O sintagma Reino de Deus foi, \u00e9, e continuar\u00e1 a ser um enigma no mundo de Jesus e da exegese dos evangelhos. Basta lembrar que este sintagma e respectivo mundo sem\u00e2ntico, com raras excep\u00e7\u00f5es, foi abandonado por Paulo, pelo autor do quarto evangelho e pela demais literatura neo-testament\u00e1ria pela simples raz\u00e3o de que, depois da prega\u00e7\u00e3o de Jesus e depois da queda de Jerusal\u00e9m no ano setenta, esta sem\u00e2ntica perde oportunidade na catequese crist\u00e3 do mundo grego e romano dos crist\u00e3os. Se os ouvintes de Jesus, judeus pobres na sua maioria, esperavam por esse Reino, de significados ambivalentes, como \u00e9 patente nas reac\u00e7\u00f5es dos disc\u00edpulos mais directos de Jesus, os crist\u00e3os das camadas pag\u00e3s s\u00f3 o podiam interpretar, depois da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus, num sentido espiritual e escatol\u00f3gico. E \u00e9 por isso que os exegetas revisitam continuamente esta tem\u00e1tica em perspectivas pol\u00edticas e apocal\u00edpticas. Lembremos E. P. Sanders, t\u00e3o propalado entre n\u00f3s depois da tradu\u00e7\u00e3o da sua obra A Verdadeira Hist\u00f3ria de Jesus[19], as obras j\u00e1 citadas de Xabier Pikaza e Sen\u00e9n Vidal, Gerd Theissen com a obra Biblischer Glaube aus evolution\u00e4rer Sicht, traduzida para espanhol com o t\u00edtulo La fe b\u00edblica. Una perspectiva evolucionista [20], o segundo volume de John P. Meier, nas pp. 237-508.   Respondendo \u00e0s ambiguidades criadas pelo \u201cReino de Deus\u201d, vamos agora ao encontro do Jesus das par\u00e1bolas e dos milagres. O mesmo que, um dia, decidiu subir da Galileia para a Judeia. O que \u00e9 que o distingue dos rabinos judeus, doutrina ess\u00e9nica, farisaica e saduceia, em par\u00e1bolas e milagres e, sobretudo, na sua resolu\u00e7\u00e3o final diante de Pilatos e do Sin\u00e9drio? Como conjugar este final com o sintagma do Reino de Deus? Trata-se de um final livre, querido, consciente ou de um final aceite contra a vontade (Mc 15, 34 e par: \u201cMeu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?\u201d). A ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus pelo Pai, segundo a f\u00f3rmula mais primitiva (Ac 2, 24. 32; 3, 15, 4, 10; 10, 40; 13, 30), \u00e9 uma necessidade teol\u00f3gica do Pai em rela\u00e7\u00e3o ao seu Filho ou o acontecimento escatol\u00f3gico central, livre e absoluto, que determina de uma vez por todas a verdade da pessoa de Jesus de Nazar\u00e9?      Pessoalmente, e de acordo com muitos outros exegetas, encontro na par\u00e1bola dos vinhateiros homicidas (Mc 12, 1-12 e par. Mt 21, 33-46; Lc 20, 9-19) uma das chaves hermen\u00eauticas para solucionar quantum satis ambiguidades, d\u00favidas e interroga\u00e7\u00f5es sobre a auto-consci\u00eancia de Jesus. \u00c9 que, no limite, o que os redactores finais do texto evang\u00e9lico nos querem dar \u00e9 a pintura da pessoa de Jesus, que eles n\u00e3o inventaram, mas que o pr\u00f3prio Jesus lhes forneceu, embora os fios que tecem a tape\u00e7aria de Jesus sejam da hist\u00f3ria, da f\u00e9 e da Igreja.   Na par\u00e1bola alegorizada dos vinhateiros \u00e9 f\u00e1cil distinguir o Jesus da hist\u00f3ria do da Igreja. O patr\u00e3o da vinha enviou aos vinhateiros v\u00e1rios servos \u201cpara receber deles parte do fruto que lhe competia\u201d (Mc 12, 2 e par.). Os vinhateiros bateram nuns, maltrataram outros e, inclusivamente, mataram alguns (12, 2-5). Finalmente, o evangelista escreve: \u201cJ\u00e1 s\u00f3 lhe restava um filho. Enviou-o por \u00faltimo, pensando: \u2018H\u00e3o-de respeitar o meu filho\u2019. Mas aqueles vinhateiros disseram uns aos outros: \u2018Este \u00e9 o herdeiro. Vamos mat\u00e1-lo e a heran\u00e7a ser\u00e1 nossa\u2019. Apoderaram-se dele, mataram-no e lan\u00e7aram-no fora da vinha. Que far\u00e1 o dono da vinha?\u201d  A par\u00e1bola hist\u00f3rica, jesu\u00e2nica, terminava aqui. O que se segue na narrativa sobre a \u201cpedra que os construtores rejeitaram\u201d, que nos reenvia para Is 28, 16, Sl 118, 22-23; Zc 4, 7, \u00e9, com certeza, uma explica\u00e7\u00e3o da f\u00e9 da Igreja a partir do mist\u00e9rio da morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, tanto mais que a met\u00e1fora da \u201cpedra rejeitada\u201d \u00e9 amplamente tratada na literatura do Novo Testamento (Rm 9, 33; 10, 11; Gl 2, 18; Ef 2, 20; Ac 4,11-12; 1Pd 2, 6-8). Partimos do princ\u00edpio que as par\u00e1bolas de Jesus eram narrativas simples e \u201cabertas\u201d e que, em algumas delas, a Igreja respondeu de maneira crist\u00e3 \u00e0 pergunta ret\u00f3rica final. De par\u00e1bola aberta e interrogativa, a necessitar de uma resposta consciente do ouvinte ou leitor, como era costume de Jesus, algumas par\u00e1bolas foram fechadas na f\u00e9 da Igreja do Jesus total e final. Assim aconteceu com a par\u00e1bola dos vinhateiros homicidas. O definitivo nesta par\u00e1bola consiste na passagem da identidade dos enviados do dono da vinha. Depois de ter enviado muitos, que foram maltratados e mortos, o dono pensa bem, reflecte e diz: \u201cTenho um filho. H\u00e3o-de respeitar o meu filho!\u201d Esta auto-consci\u00eancia de Jesus ser um Filho \u00fanico e pr\u00f3prio, diferente dos patriarcas e profetas, santos e m\u00e1rtires, pertence \u00e0 camada hist\u00f3rica mais primitiva dos evangelhos. E \u00e9 nesta auto-consci\u00eancia de Jesus que se centra o seu drama humano, hist\u00f3rico, de vida e morte. Jesus apresenta esta auto-consci\u00eancia de muitos modos, envolta em mist\u00e9rio de met\u00e1foras. Nos cap\u00edtulos segundo e terceiro de Marcos, e paralelos sin\u00f3pticos, Jesus apresenta-se em cinco met\u00e1foras, tamb\u00e9m classificadas de \u201capotegmas\u201d, que o identificam de modo \u00fanico (Mc 2, 10 e par.: \u201cPois bem, para que saibas que o Filho do Homem tem na terra poder de perdoar os pecados, Eu te ordeno \u2013 disse ao paral\u00edtico: levanta-te, pega no teu catre e vai para tua casa\u201d; Mc 2, 17 e par.: \u201cN\u00e3o s\u00e3o os que t\u00eam sa\u00fade que precisam de m\u00e9dico, mas sim os enfermos. Eu n\u00e3o vim chamar os justos, mas os pecadores\u201d; Mc 2, 19-20: \u201cJesus respondeu: \u2018Poder\u00e3o os convidados para a boda jejuar enquanto o esposo est\u00e1 com eles? Enquanto t\u00eam consigo o esposo, n\u00e3o podem jejuar.\u201d; Mc 2, 21-22 e par: \u201cningu\u00e9m, deita remendo de pano novo em roupa velha, pois o pano novo puxa o tecido velho e o rasg\u00e3o fica maior. E ningu\u00e9m deita vinho novo em odres velhos; se o fizer, o vinho romper\u00e1 os odres e perde-se o vinho, tal como os odres. Mas vinho novo, em odres novos\u201d; Mc 2, 27-28 e par: \u201cE disse-lhes: \u201cO s\u00e1bado foi feito para o homem e n\u00e3o o homem para o s\u00e1bado. O Filho do Homem at\u00e9 do s\u00e1bado \u00e9 Senhor\u201d; Mc 3, 27 e par.: \u201cNingu\u00e9m consegue entrar em casa de um homem forte  e roubar-lhe os bens sem primeiro o amarrar, s\u00f3 depois poder\u00e1 saquear-lhe a casa\u201d). Todas estas afirma\u00e7\u00f5es, sempre indirectas, da auto-consci\u00eancia de Jesus, acontecem em pequenas narrativas e em ambiente cultural judaico de contraste e oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ortodoxia judaica. Jesus, como o Deus do AT, tem poder de perdoar pecados; \u00e9 o m\u00e9dico que vem para os doentes e n\u00e3o para os justos, isto \u00e9, para os cumpridores da Lei; \u00e9 o esposo do novo povo de Deus, que est\u00e1 por cima de todas as leis de jejum; se \u00e9 o \u201cnoivo\u201d e \u201cesposo\u201d s\u00f3 pode haver festa e n\u00e3o jejum; \u00e9 o vinho novo que vem substituir o vinho velho; est\u00e1 por cima do s\u00e1bado, uma das institui\u00e7\u00f5es mais sagradas do juda\u00edsmo de ent\u00e3o, e, finalmente, sabe que \u00e9  o \u201cmais forte\u201d, com  poder para vencer o \u201cforte\u201d, isto \u00e9, o Satan que, at\u00e9 este momento, comanda a pol\u00edtica hist\u00f3rica e religiosa do mundo. Sabemos que os exegetas continuam a discutir sobre estes \u201capotegmas\u201d ou afirma\u00e7\u00f5es de auto-consci\u00eancia. Para mim, a redac\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser \u201ceclesial\u201d, mas o fundo hist\u00f3rico, de recorte metaf\u00f3rico, em ant\u00edtese com a cultura religiosa judaica de ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 cria\u00e7\u00e3o eclesial porque a Igreja continuava a jejuar, a beber do melhor vinho, o mais velho, a ter medo de dem\u00f3nios, poderes, principados, autoridades e domina\u00e7\u00f5es (ver Ef 1, 21 e passim ) e a pregar uma \u00e9tica crist\u00e3 de santidade e justi\u00e7a diferente da gratuidade criadora e salvadora de Jesus. A Igreja j\u00e1 \u00e9 mediadora, sinal de salva\u00e7\u00e3o, projec\u00e7\u00e3o daquele Jesus primeiro e hist\u00f3rico que est\u00e1 por cima do s\u00e1bado, do templo, do jejum, do \u201cforte\u201d, de Jonas e Salom\u00e3o.          JESUS CRISTO E A F\u00c9 Apresent\u00e1mos o Jesus da hist\u00f3ria, mas n\u00e3o o podemos separar da f\u00e9 e da Igreja. Foi a Igreja que criou os evangelhos da inf\u00e2ncia, que transformou par\u00e1bolas fechadas em abertas, que juntou aos milagres hist\u00f3ricos de Jesus sobre os que sofrem, sejam coxos, cegos, surdos, mudos, endemoninhados, milagres eclesiais, como \u00e9 o caso da multiplica\u00e7\u00e3o do p\u00e3o e do peixe, Jesus caminhar sobre as \u00e1guas, etc. Mas a quest\u00e3o do Jesus da f\u00e9, que come\u00e7a por assentar numa resposta humana \u00e0 auto-consci\u00eancia hist\u00f3rica do pr\u00f3prio Jesus, atinge o seu cl\u00edmax no mist\u00e9rio da ressurrei\u00e7\u00e3o. Pergunt\u00e1vamos se a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u201cpresente\u201d do Pai ao Filho pela sua obedi\u00eancia filial ou se representa o acontecimento escatol\u00f3gico nunca visto, nunca repetido, \u00fanico e fundador.  Falar da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 entrar no campo sem\u00e2ntico da f\u00e9. N\u00e3o se trata de realizar de maneira po\u00e9tica, rom\u00e2ntica, ideal, o desejo de imortalidade de Plat\u00e3o, dos gregos, dos eg\u00edpcios e de todas as religi\u00f5es. Ressurrei\u00e7\u00e3o nada tem a ver com reincarna\u00e7\u00e3o. Nem a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus \u00e9 ontologicamente igual \u00e0 ressurrei\u00e7\u00e3o dos crentes em Jesus. A nossa raz\u00e3o \u00e9 ultrapassada pelo significado do acontecimento. Nem \u00e9 outro o sinal de todas as narrativas da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus como provas hist\u00f3ricas da mesma. A ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se prova como se podem provar as par\u00e1bolas, os milagres, a paix\u00e3o e a morte de Jesus. As contradi\u00e7\u00f5es internas das narrativas e dos enunciados testemunham isso mesmo. N\u00e3o devemos ter medo de falar de contradi\u00e7\u00f5es, a come\u00e7ar pela primeira \u201cprova\u201d, em perspectiva cronol\u00f3gica, descrita na 1Cor  15, 3-8:  \u201cTransmiti-vos, em primeiro lugar, o que eu pr\u00f3prio recebi: Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras; foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras; apareceu a Cefas e depois aos Doze. Em seguida, apareceu a mais de quinhentos irm\u00e3os, de uma s\u00f3 vez, a maior parte dos quais ainda vive, enquanto alguns j\u00e1 morreram. Depois apareceu a Tiago e, a seguir, a todos os Ap\u00f3stolos. Em \u00faltimo lugar, apareceu-me tamb\u00e9m a mim, como a um aborto.\u201d  Paulo apresenta a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus como o acto fundador do Cristianismo (1Cor 15, 12-14: \u201cOra, se se prega que Cristo ressuscitou dos mortos, como \u00e9 que alguns de entre v\u00f3s dizem que n\u00e3o h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos? Se n\u00e3o h\u00e1 ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos, tamb\u00e9m Cristo n\u00e3o ressuscitou. Mas se Cristo n\u00e3o ressuscitou, \u00e9 v\u00e3 a nossa prega\u00e7\u00e3o, e v\u00e3 \u00e9 tamb\u00e9m a vossa f\u00e9\u201d). N\u00e3o se pode fugir a tais premissas. No entanto, Paulo n\u00e3o apresenta provas hist\u00f3ricas da ressurrei\u00e7\u00e3o: quem \u00e9 que viu Jesus a ressuscitar? Em que dia e hora? Em que forma? Apenas nos apresenta o facto em si atrav\u00e9s de provas de testemunho de f\u00e9 existencial. Segundo Paulo, Jesus morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras. A sua morte foi real e de hist\u00f3ria factual. Mesmo assim, Paulo fala como crente: Jesus morreu pelos nossos pecados e segundo as Escrituras, isto \u00e9, n\u00e3o por causa de um processo de julgamento jur\u00eddico e pol\u00edtico, puramente hist\u00f3rico, mas como cumprimento das Escrituras, ou seja, como cumprimento da vontade de Deus. O mesmo se diga dos outros dois tempos sequenciais \u00e0 morte: foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Quanto \u00e0 sepultura n\u00e3o apresenta nenhuma modalidade, ao contr\u00e1rio dos sin\u00f3pticos com a narrativa das mulheres, de Nicodemos e de Jos\u00e9 de Arimateia. Ao contr\u00e1rio da morte e sepultura, n\u00e3o afirma apenas um enunciado sobre a ressurrei\u00e7\u00e3o, mas apresenta quatro categorias de pessoas como testemunhos: apareceu a tr\u00eas pessoas em particular: Cefas, Tiago e o pr\u00f3prio Paulo e a tr\u00eas grupos de pessoas: os doze, quinhentos irm\u00e3os, todos os ap\u00f3stolos. N\u00e3o vamos aqui discorrer sobre a raz\u00e3o de ser desta enumera\u00e7\u00e3o de pessoas testemunhas da ressurrei\u00e7\u00e3o. Apenas ajuntarei o facto de que Paulo, nas suas cartas, se serve da apari\u00e7\u00e3o do Ressuscitado como prova irrefut\u00e1vel para o seu apostolado, causa de muitos desentendimentos com os judeo-crist\u00e3os de Jerusal\u00e9m e n\u00e3o s\u00f3 (1Cor 9, 1: \u201cN\u00e3o sou eu um homem livre? N\u00e3o sou um Ap\u00f3stolo? N\u00e3o vi Jesus, nosso Senhor?\u201d).   Ao contr\u00e1rio dos sin\u00f3pticos e do quarto evangelho, Paulo n\u00e3o nos apresenta nenhuma narrativa de apari\u00e7\u00e3o. Mas os sin\u00f3pticos s\u00f3 coincidem uns com os outros na afirma\u00e7\u00e3o da ressurrei\u00e7\u00e3o aos Onze (Doze), discordando no tempo, no espa\u00e7o e na modalidade. Marcos, o primeiro a escrever, por volta do ano setenta, termina o seu evangelho em 16, 8, sem qualquer narrativa da ressurrei\u00e7\u00e3o. A narrativa das apari\u00e7\u00f5es em 16, 9-20 \u00e9 posterior ao primeiro Marcos, segundo os dados fornecidos pela cr\u00edtica textual e pela \u00edndole de estilo. Segundo a narrativa, \u201cno primeiro dia da semana\u201d (16, 9), Jesus apareceu em primeiro lugar a Maria de Magdala, de acordo com Jo 20, 11, 18; \u201cdepois apareceu com um aspecto diferente a dois deles que iam a caminho do campo\u201d (16, 12), de acordo com Lc 24, 13-35; \u201capareceu, finalmente, aos pr\u00f3prios Onze quando estavam \u00e0 mesa, e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de cora\u00e7\u00e3o em n\u00e3o acreditarem naqueles que o tinham visto ressuscitado\u201d (16, 14), de acordo com Lc 24, 36-42. O mandato de Jesus: \u201cIde pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura\u201d, lembra o mesmo mandato, embora diferenciado na forma liter\u00e1ria, de Mt 28, 19-20. A segunda parte do mandato: \u201cQuem acreditar e for baptizado ser\u00e1 salvo; mas, quem n\u00e3o acreditar ser\u00e1 condenado\u201d, \u00e9 exclusivo de Marcos. A cr\u00edtica textual, como j\u00e1 afirm\u00e1mos, diz-nos que este final de Marcos, 16, 9-20, n\u00e3o pertence ao primeiro Marcos. Trata-se de uma reflex\u00e3o posterior da Igreja, j\u00e1 com a catequese da exclus\u00e3o: \u201cquem n\u00e3o acreditar ser\u00e1 condenado.\u201d   Este texto de Marcos \u00e9, pois, uma composi\u00e7\u00e3o da Igreja muito posterior \u00e0 redac\u00e7\u00e3o primeira de Marcos, com o fim de resolver o \u201cesc\u00e2ndalo\u201d do final de Marcos em 16, 8. Este exemplo \u00e9 importante, pois significa que a ressurrei\u00e7\u00e3o foi, \u00e9 e ser\u00e1 um acontecimento imposs\u00edvel de relatar com a l\u00f3gica do puramente temporal, espacial e imanencial. Assim se explicam todas as diferen\u00e7as nos relatos dos quatro evangelhos. Querer harmoniz\u00e1-los, como gostam de fazer os historicistas e fundamentalistas do texto, \u00e9 um erro. A variedade de narrativas e a impossibilidade de harmoniza\u00e7\u00e3o, a come\u00e7ar pelo primeiro texto de Paulo em Cor 15, como vimos, escrito apenas uns vinte anos ap\u00f3s a morte de Jesus, prova a verdade do facto da ressurrei\u00e7\u00e3o como algo de \u00fanico, a crer e n\u00e3o a provar.    N\u00e3o \u00e9 esc\u00e2ndalo para ningu\u00e9m afirmar que as palavras do Ressuscitado, nos sin\u00f3pticos e em Jo\u00e3o, s\u00e3o todas redaccionais e catequ\u00e9ticas. Pertencem ao Jesus da Igreja. Isto significa que a f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 isso mesmo &#8211; f\u00e9. N\u00e3o temos provas da ressurrei\u00e7\u00e3o, mas testemunhos vivos da mesma. A f\u00e9 faz parte integrante do campo sem\u00e2ntico do Cristianismo e de todas as religi\u00f5es, mas a novidade crist\u00e3 centra-se, de maneira \u00fanica, no objecto da f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o. Nenhuma outra religi\u00e3o possui este objecto de f\u00e9.   \u00c9 a ressurrei\u00e7\u00e3o que faz com que o sintagma Reino de Deus, centro de toda a vida de Jesus, receba a performatividade de Reino presente e hist\u00f3rico. O Jesus dos milagres, par\u00e1bolas e crucifica\u00e7\u00e3o, pela ressurrei\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas o Messias e o Profeta, mas a \u00faltima palavra. A ambiguidade dos textos sobre o Reino, sobre o Filho do Homem ou sobre a raz\u00e3o de ser daquela morte na cruz, desaparece para reaparecer a nova humanidade na humanidade ressurreccionada de Jesus e em Jesus. Isto n\u00e3o significa que exegetas e historiadores, com f\u00e9 crist\u00e3 ou sem ela, n\u00e3o devam continuar, agora e sempre, a estudar as discord\u00e2ncias sin\u00f3pticas dos textos, suas ambiguidades, situadas no tempo e no espa\u00e7o, isto \u00e9, o estudo do texto com o seu pr\u00e9-texto e contexto. E tamb\u00e9m n\u00e3o significa que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus reinvente a sem\u00e2ntica da vida real de Jesus. Significa apenas que a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 aquele mais significativo que desfaz todas as d\u00favidas do relativo da hist\u00f3ria de Jesus. E ningu\u00e9m como Paulo de Tarso retira todas as consequ\u00eancias para esta f\u00e9 crist\u00e3 na ressurrei\u00e7\u00e3o: (Rm 8, 11: \u201cE se o Esp\u00edrito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em v\u00f3s, Ele, que ressuscitou Cristo de entre os mortos, tamb\u00e9m dar\u00e1 vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Esp\u00edrito que habita em v\u00f3s\u201d). A partir deste texto paulino, o exegeta protestante Gerd Theissen escreve com muita propriedade: \u201cJ\u00e1 que o Esp\u00edrito transcende a finitude da vida humana, vincula-se com ele a promessa da vida eterna. Paulo n\u00e3o conhece nenhum n\u00facleo ou aspecto essencial do ser humano que se encontre para al\u00e9m da morte. N\u00e3o conhece uma alma imortal, apenas espera a ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos. Mas ele n\u00e3o espera numa ressurrei\u00e7\u00e3o que rompa a continuidade entre a vida actual e a vida eterna. Pelo contr\u00e1rio, a vida eterna introduz-se na vida presente, quando o homem se deixa apanhar pelo \u201cEsp\u00edrito de Deus\u201d que lhe \u00e9 alheio: o Esp\u00edrito de Deus que habita no homem supera a morte e confere eternidade \u00e0 exist\u00eancia individual e mortal\u201d[21].  \u00c9 pela ressurrei\u00e7\u00e3o que se desfazem todos os equ\u00edvocos entre hist\u00f3ria e apocalipse. Realmente, a literatura apocal\u00edptica entre o s\u00e9culo II a. C e o s\u00e9culo II d. C., foi uma corrente avassaladora de pensamento e criatividade liter\u00e1ria dentro do juda\u00edsmo. Os crentes fundamentalistas judeus partiam do princ\u00edpio que n\u00e3o havia possibilidade de salva\u00e7\u00e3o, para Israel, dentro da hist\u00f3ria linear da humanidade de ent\u00e3o. O Deus de Israel, que at\u00e9 ao ex\u00edlio era o Deus de um povo, ra\u00e7a e na\u00e7\u00e3o, passou, depois do ex\u00edlio, a ser o Deus de todos os povos. Depois do ex\u00edlio, a viverem na depend\u00eancia pol\u00edtica da P\u00e9rsia, Gr\u00e9cia e Roma, conclu\u00edram que s\u00f3 uma ac\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica divina podia resolver a quest\u00e3o. O cap\u00edtulo s\u00e9timo de Daniel exprime muito bem este problema. Para este tipo de juda\u00edsmo apocal\u00edptico, dualista e manique\u00edsta, s\u00f3 h\u00e1 duas classes de gente: os fi\u00e9is e os infi\u00e9is. O mundo era governado por infi\u00e9is pag\u00e3os, tamb\u00e9m acolitados por judeus paganizados. Os s\u00e9culos de depend\u00eancia pol\u00edtica de imp\u00e9rios pag\u00e3os, por um lado, e a f\u00e9 na verdade un\u00edvoca de um Deus, Senhor e Rei de um povo, que devia governar o mundo pelo simples facto de ser o Deus do povo da revela\u00e7\u00e3o e da verdade, por outro lado, levou-os, em desespero de causa, a concluir que s\u00f3 lhes restava a ac\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo final. Perderam todas as esperan\u00e7as nas media\u00e7\u00f5es da religi\u00e3o e da hist\u00f3ria. E com esta atitude mental, religiosa e teol\u00f3gica, n\u00e3o havia mais raz\u00e3o de ser para a hist\u00f3ria \u2013 a sua hist\u00f3ria, que determina a exist\u00eancia de toda a hist\u00f3ria. Esperavam, portanto, pelo ju\u00edzo apocal\u00edptico porque n\u00e3o era poss\u00edvel que Deus continuasse a ser, ao mesmo tempo, o Deus de fi\u00e9is e infi\u00e9is.  A dila\u00e7\u00e3o e n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o da ac\u00e7\u00e3o apocal\u00edptica divina deixou estes  judeus entregues ao desespero do \u201cnon sense\u201d da hist\u00f3ria e do mundo. Ainda hoje se projectam, em bolsas humanas, dentro do juda\u00edsmo, cristianismo e islamismo. Pois bem, a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus desfaz estas ambiguidades. A ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 um \u201cereigniss\u201d ou acontecimento \u00fanico, universal, c\u00f3smico, final. Por ela passam crentes e n\u00e3o crentes, fi\u00e9is e pecadores. E se Jo\u00e3o Baptista pertencia a esta escola de pensamento, com o Jesus da hist\u00f3ria, da f\u00e9 e da Igreja, passa-se precisamente o contr\u00e1rio. Jesus acolhia os infi\u00e9is e os pecadores no banquete do seu Reino. Perdoava \u00e0s pecadoras, mantinha no seu grupo um publicano e  um zelota, aceitava o trigo e o joio, deu a salva\u00e7\u00e3o aos marginalizados, pobres, doentes f\u00edsicos e possu\u00eddos do dem\u00f3nio. O seu mundo era o do m\u00e9dico que veio para curar e n\u00e3o para matar, o do pastor que veio para todas as ovelhas, a come\u00e7ar pelas fugidas e perdidas, a do Filho que tem um Pai que em vez de condenar com o ju\u00edzo final, perdoa e manda que perdoem a come\u00e7ar pelos inimigos. E \u00e9 desta forma que a ressurrei\u00e7\u00e3o vem dar raz\u00e3o ao Filho, Pastor, Profeta, Messias, que perdoa e ama. Quem perdoa e ama n\u00e3o pensa em ju\u00edzo final de bons contra maus para que o mundo e sua hist\u00f3ria fique exclusivamente na m\u00e3os dos bons e dos fi\u00e9is. Jesus veio para unir e n\u00e3o para dispersar, a come\u00e7ar pela hist\u00f3ria pol\u00edtica e familiar. Se as fam\u00edlias judias e romanas daquele tempo, por causa da honra, da propriedade e demais direitos, marginalizavam os pobres, doentes e pecadores, Jesus inverte o campo sem\u00e2ntico e enche o seu banquete precisamente de pobres, doentes e pecadores, estabelecendo uma \u201cguerra\u201d cultural dentro das pr\u00f3prias fam\u00edlias ao deixar a sua fam\u00edlia de sangue para estabelecer o Reino da fam\u00edlia de Deus. Desta maneira, o Jesus da hist\u00f3ria estabelece a ponte com o Cristo da f\u00e9. N\u00e3o h\u00e1 duas hist\u00f3rias, duas fam\u00edlias, duas sociedades, um Deus para os bons e outro para os maus. H\u00e1 um s\u00f3 Pai, um s\u00f3 Filho e um s\u00f3 Esp\u00edrito. Nem admira que com o desaparecimento hist\u00f3rico de Jesus seja o seu Esp\u00edrito que, como outro Par\u00e1clito, presente no meio da hist\u00f3ria, comprove que Jesus \u00e9 o verdadeiro e \u00fanico Kyrios. Paulo acentua de modo lapidar esta verdade: \u201cPor isso, quero que saibais que ningu\u00e9m, falando sob a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, pode afirmar: \u2018Jesus seja an\u00e1tema\u2019, e ningu\u00e9m pode afirmar: \u2018Jesus \u00e9 o Kyrios\u201d (Senhor)\u2019, sen\u00e3o pelo Esp\u00edrito Santo\u201d (1Cor 12,3). O termo \u201cKyrios\u201d, neste contexto, s\u00f3 pode traduzir o Yahv\u00e9 do AT, como faz a tradu\u00e7\u00e3o grega dos LXX. Trata-se de Jesus com toda a sua natureza e fun\u00e7\u00e3o de Emmanuel ou Deus connosco.  JESUS CRISTO E A IGREJA Penso que pelos exemplos evang\u00e9licos aduzidos \u00e9 f\u00e1cil concluir que a Igreja, isto \u00e9, os crentes em Jesus, baptizados em seu nome, foram formados no querigma crist\u00e3o. Neste querigma, o Jesus da hist\u00f3ria da prega\u00e7\u00e3o de Jesus, centrada no sintagma Reino de Deus, na paix\u00e3o e morte, \u00e9 acreditado, tamb\u00e9m por for\u00e7a das promessas prof\u00e9ticas e messi\u00e2nicas do Antigo Testamento, como o Messias final. Jesus apenas pregou; nada escreveu nem mandou escrever. O Novo Testamento, a come\u00e7ar pelas cartas de Paulo, continuando, depois, nos quatro evangelhos, s\u00e3o fruto de muitos anos de tradi\u00e7\u00e3o oral apost\u00f3lica. A redac\u00e7\u00e3o final dos evangelhos corresponde a este querigma vivo, a este evangelizar cont\u00ednuo com leituras e releituras constantes ao Antigo Testamento, j\u00e1 que o des\u00edgnio final de Deus tinha que passar pela realiza\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica e messi\u00e2nica das Escrituras Hebraicas.   Os evangelhos aparecem por necessidade interna das igrejas, \u00e0 medida que os ap\u00f3stolos e demais testemunhas oculares da pessoa hist\u00f3rica de Jesus iam morrendo. Era preciso conservar essas mem\u00f3rias apost\u00f3licas. Neste particular, o Novo Testamento, como tamb\u00e9m o Antigo Testamento, \u00e9 uma \u201cmem\u00f3ria\u201d da \u201cdi\u00e9gesis\u201d de Jesus e da \u201cdi\u00e9gesis\u201d das tradi\u00e7\u00f5es apost\u00f3licas. No dia em que deixasse de haver f\u00e9 crist\u00e3 sobre a terra, o Novo Testamento n\u00e3o teria qualquer raz\u00e3o de ser.   A \u201cmem\u00f3ria\u201d crist\u00e3 dos evangelhos \u00e9 uma mem\u00f3ria viva, celebrativa, lit\u00fargica, e n\u00e3o uma mem\u00f3ria de cr\u00f3nicas passadas. Esta mem\u00f3ria refere um passado, um presente e um futuro uma vez que a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus marca o evento escatol\u00f3gico,  \u00fanico e definitivo. Deste modo, o querigma crist\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fruto duma catequese biblicista. A realidade da vida crist\u00e3 assenta na realidade de uma pessoa, o Jesus da hist\u00f3ria, da f\u00e9 e da Igreja, e n\u00e3o num livro. O livro \u00e9 um instrumento de media\u00e7\u00e3o \u00fanica para nos lembrar. A lembran\u00e7a \u00e9 mais do que o livro.   E foi precisamente a Igreja, atrav\u00e9s de crit\u00e9rios lit\u00fargicos da vida das comunidades, que determinou o C\u00e2none dessas lembran\u00e7as atrav\u00e9s de alguns livros que julgou can\u00f3nicos. A hist\u00f3ria do C\u00e2none \u00e9 a hist\u00f3ria controversa, din\u00e2mica e viva do querigma crist\u00e3o primitivo[22]. Nele podemos distinguir os tr\u00eas querigmas principais: o das cartas de Paulo, o dos evangelhos sin\u00f3pticos e o do quarto evangelho. Estes tr\u00eas rios desaguam no \u201cmare magnum\u201d do significado final da pessoa de Jesus. Tudo parte do Jesus hist\u00f3rico, de carne e osso, em volta da realiza\u00e7\u00e3o do Reino de Deus, j\u00e1 presente e sempre em realiza\u00e7\u00e3o, cujo cl\u00edmax reside na f\u00e9 da ressurrei\u00e7\u00e3o e no conhecimento da pessoa de Jesus atrav\u00e9s da for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo. \u00c9 importante este \u00faltimo enunciado. N\u00e3o se pode conhecer o Jesus total apenas com a investiga\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, social, cultural, filol\u00f3gica, pol\u00edtica. O Esp\u00edrito do Ressuscitado continua a actuar. Lucas deixa isto claro em Lc 24, 49: \u201cE Eu vou mandar sobre v\u00f3s o que meu Pai prometeu\u201d, bem como Jo\u00e3o nos textos sobre o Par\u00e1clito (Jo 14, 15-17; 14, 25-26; 15, 26-27; 16, 5-15). Se o Esp\u00edrito \u00e9 o \u00faltimo exegeta da pessoa de Jesus, esse mesmo Esp\u00edrito actua nos crentes de maneira eclesial e n\u00e3o de maneira puramente individualista, solipsista, em conformidade com alegrias de salva\u00e7\u00e3o sentimental. Pelo menos \u00e9 assim que Paulo fala dos carismas do Esp\u00edrito com a met\u00e1fora do \u201ccorpo\u201d e sua funcionalidade em 1Cor 12, 12-31 e Rm 12, 3-5, com a met\u00e1fora da \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d em Rm 15, 2: \u201cProcure cada um de n\u00f3s agradar ao pr\u00f3ximo no bem, em ordem \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da comunidade\u201d e, finalmente, com a met\u00e1fora dos instrumentos da m\u00fasica na 1Cor 14, 6-11; ver 12, 12: \u201cAssim tamb\u00e9m v\u00f3s: j\u00e1 que estais \u00e1vidos dos dons do Esp\u00edrito, procurai adquiri-los em abund\u00e2ncia, mas para edifica\u00e7\u00e3o da assembleia\u201d).  Se a Igreja, nas met\u00e1foras da \u201cassembleia\u201d, \u201ccorpo\u201d ou \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 o objecto do querigma crist\u00e3o, dinamizado pela for\u00e7a do Jesus da hist\u00f3ria e do Jesus Ressuscitado e continuado no seu Esp\u00edrito, a t\u00f3nica final, na dial\u00e9ctica entre o Jesus da hist\u00f3ria, da f\u00e9 e da Igreja, deve ser colocada no Jesus da Igreja. \u00c9 para a\u00ed que tudo converge. Assim se explica que o Novo Testamento utilize uma grande quantidade de g\u00e9neros liter\u00e1rios para exprimir a mesma f\u00e9: relatos hist\u00f3ricos, cartas de recomenda\u00e7\u00e3o, mitos, midraches, apocal\u00edptica. A redac\u00e7\u00e3o final dos autores b\u00edblicos, quando comparada entre si, apresenta diferen\u00e7as, contradi\u00e7\u00f5es, multiplicidade de cristologias e eclesiologias. J\u00e1 vimos isso mesmo na compara\u00e7\u00e3o dos evangelhos da inf\u00e2ncia e narrativas da ressurrei\u00e7\u00e3o. Mas os exemplos podem multiplicar-se \u00e0s dezenas. O que \u00e9 que tem a ver a cristologia dos sin\u00f3pticos com a do quarto evangelho? Porque \u00e9 que o quarto evangelho n\u00e3o usa o sintagma  Reino de Deus como centro da prega\u00e7\u00e3o de Jesus? Porque \u00e9 que nunca apresenta um \u00fanico milagre de exorcismo? Porque \u00e9 que n\u00e3o nos lega a narrativa da \u00faltima ceia eucar\u00edstica, \u00e0 maneira dos sin\u00f3pticos? E, nos sin\u00f3pticos, porque \u00e9 que Mateus nos apresenta sete bem-aventuran\u00e7as e Lucas apenas tr\u00eas? Porque \u00e9 que em Mateus o serm\u00e3o da montanha se passa de facto num monte e em Lucas numa plan\u00edcie? Porque \u00e9 que s\u00f3 Lucas descreve a Assun\u00e7\u00e3o do Senhor de maneira t\u00e3o diferente? Em Lc 24, 50-53 acontece no Domingo de ressurrei\u00e7\u00e3o e nos Actos 1, 4-8 ao fim de quarenta dias depois da ressurrei\u00e7\u00e3o? Estas e muitas outras interroga\u00e7\u00f5es levam-nos a concluir que as \u201ccontradi\u00e7\u00f5es\u201d s\u00e3o trabalhos \u201credaccionais\u201d criados pelos respectivos autores com fun\u00e7\u00f5es catequ\u00e9ticas. No fundo, a B\u00edblia \u00e9 um grande mostru\u00e1rio liter\u00e1rio de ret\u00f3rica da f\u00e9 judaica e crist\u00e3. A B\u00edblia n\u00e3o caiu do c\u00e9u. N\u00e3o foi Deus que a escreveu, mas a Igreja judaica e crist\u00e3. N\u00e3o nos devem escandalizar t\u00edtulos de obras como a de Andr\u00e9 Paul, Et l\u00b4homme cr\u00e9a la Bible[23], a de Jean Potin, La Bible rendue \u00e0 l\u2019histoire[24], ou a do exegeta episcopaliano americano L. William Countryman Biblical Authority or Biblical Tyranny?[25]. Infelizmente, a B\u00edblia pode tornar-se numa tirania, \u00e0 maneira do Alcor\u00e3o de certos fundamentalistas isl\u00e2micos. Para que tal n\u00e3o aconte\u00e7a h\u00e1 uma Igreja (igrejas) e dentro dessa Igreja (igrejas) h\u00e1 exegetas cat\u00f3licos, protestantes e ortodoxos, guardi\u00e3es e estudiosos deste livro admir\u00e1vel chamado B\u00edblia \u2013 o Livro dos livros. Perten\u00e7o a este grupo por obra e gra\u00e7a de Deus e da Igreja. Fui muito feliz nesta casa e espero em Deus continuar a s\u00ea-lo. Obrigado.  <i>Joaquim Carreira das Neves, OFM<\/i>  &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211; [1] Ver Douglas GROOTHUIS, Revealiong the New Age Jesus. Challenges to Orthodox Views of Chris (InterVaersity Press, Downers Grove 1990) e John P. NEWPORT, The New Age Movement and the Biblical Worldview. Conflict and Dialogue (William B. Eerdmans  Publishing Company, Grand Rapids, Michigan 1998).  [2] Vol I (Doubleday, New York\/London, Toronto\/Sydney\/Aucklan, 1991), Vol. II 1994; Vol. III 2001  [3] Fortress Press, Minneapolis, 1993.  [4] Sal Terrae, Santander, 1979.  [5] S\u00edgueme, Salamanca, 1985.  [6] S\u00edgueme, Salamanca, 2003.  [7][7] Verbo Divino, Estella, 2003.  [8] Verbo Divino, Estella, 1998.  [9] Verbo Divino,  Estella, 2003.  [10] Jos\u00e9 Tolentino MENDON\u00c7A,  A Constru\u00e7\u00e3o de Jesus. Uma Leitura Narrativa de Lc 7, 36-50  (Ass\u00edrio e Alvim, Lisboa , 2004).  [11] Ver D. C. ALLISON, The New Moses: A Matthean Typology. (T &#038; T Clark, Edinbourg, 1993); M,.-\u00c9 BOISMARD, Mo\u00efse ou Jes\u00fas. Essai de Christologie johannique. (BETL 84 ; University Press, Louvain, 1988).    [12] Sigo os argumentos de Jean-Louis SKA, El camino y la casa. Itinerarios b\u00edblicos  (Verbo Divino, Estella, 2005) 193-213.  [13] R. W. FUNK , The Acts of Jesus. The Search for the Authentic Deeds of Jesus. (Haper San Francisco. San Francisco, 1998).  [14] Or\u00edgenes del Cristianismo. El trasfondo jud\u00edo del cristianismo primitivo  (Universidade Pontificia de Salamanca, 1996).  [15] La nueva figura de Jesus (Verbo Divino, Estella 2003).  [16] Los tres Proyectos de Jesus y el Cristianismo Naciente.o.c.  [17] Putting Jesus in His Place. A Radical Vision of Household and Kingdom (Westminster John Knox Press, Louisville, 2003).  [18] Los Valores Negados. Ensayo de ex\u00e9gesis socio-cient\u00edfica sobre la autoestigmatizaci\u00f3n en el movimiento de Jes\u00fas. o.c.  [19] Ed. Not\u00edcias, Lisboa 2004.  [20] Verbo Divino, Pamplona 2002, pp. 141-195.  [21] Gerd THEISSEN, La fe b\u00edblica.Ibid., 216.   [22] Ver Lee Martin McDONALD e James A. SAMDERS (eds.), The Canon Debate  (Hendrickson Publishes, Peabody) 2002.  [23] Bayard, Paris, 2000.  [24] Bayard, Paris, 2002.  [25] Cowley Publications, Cambridge, Boston, 1994<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aula de Jubila\u00e7\u00e3o do Prof. Joaquim Carreira das Neves<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[93,120,127,154,161,167,192,206,221,237],"class_list":["post-14315","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-aborto","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-crianca","tag-d-jose-policarpo","tag-dialogo-inter-religioso","tag-ecumenismo","tag-familia","tag-historia-da-igreja","tag-joao-paulo-ii"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14315","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=14315"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/14315\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=14315"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=14315"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=14315"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}