{"id":142874,"date":"2019-07-09T17:15:34","date_gmt":"2019-07-09T16:15:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=142874"},"modified":"2019-07-09T17:17:35","modified_gmt":"2019-07-09T16:17:35","slug":"nao-se-esquece-as-pessoas-anonimas-a-quem-chegamos-tarde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-se-esquece-as-pessoas-anonimas-a-quem-chegamos-tarde\/","title":{"rendered":"\u00abN\u00e3o se esquece as pessoas an\u00f3nimas a quem cheg\u00e1mos tarde\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><em>Miguel Duarte, volunt\u00e1rio portugu\u00eas que em 2016 participou em quatro miss\u00f5es de resgate de pessoas no mar Mediterr\u00e2neo, a bordo do navio \u00abIuventa\u00bb fala \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA dos 84 dias que lhe mudaram a vida e que o levam a enfrentar 20 anos de pris\u00e3o por, segundo a lei italiana, aux\u00edlio \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o ilegal. Apesar disso, afirma-se um privilegiado \u00a0porque ao inv\u00e9s das 14 mil pessoas que ele e a tripula\u00e7\u00e3o conseguiram salvar durante um ano, n\u00e3o esquece as pessoas an\u00f3nimas \u00e0s quais, diz, chegaram tarde.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>entrevista conduzida por L\u00edgia Silveira<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_142869\" aria-describedby=\"caption-attachment-142869\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-142869\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/miguel_duarte_ecclesia1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/miguel_duarte_ecclesia1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/miguel_duarte_ecclesia1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/miguel_duarte_ecclesia1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/miguel_duarte_ecclesia1-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/miguel_duarte_ecclesia1.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-142869\" class=\"wp-caption-text\">Ag\u00eancia Ecclesia\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>Ag\u00eancia Ecclesia \u2013 Confrontado com as imagens que tantos viram sobre os refugiados, o que n\u00e3o conseguiste calar em ti, em 2015?<\/p>\n<p>Miguel Duarte &#8211; Em 2015 e 2016 toda a gente na Europa que lesse as not\u00edcias ficava completamente a par desta situa\u00e7\u00e3o e do sofrimento das pessoas nas fronteiras da Europa, tanto no Mediterr\u00e2neo como nos campos de refugiados.<\/p>\n<p>O que senti na altura foi provavelmente indigna\u00e7\u00e3o por viver num continente, numa Uni\u00e3o Europeia (UE) que pregava certos valores de direitos humanos e que nada parecia estar a fazer que efetivamente resulta-se na preserva\u00e7\u00e3o dos direitos destas pessoas. V\u00edamos sofrimento que parecia n\u00e3o acabar, e milhares e milhares de pessoas que tinham de seguir viagem para chegar \u00e0 Europa.<\/p>\n<p>Depois, um sentimento de responsabilidade: Um jovem europeu, de certa forma privilegiado, sem grandes responsabilidades, sem filhos para cuidar, por ai adiante, tinha alguma responsabilidade de fazer alguma coisa, contribuir com o pouco que pudesse e, portanto, foi nesse sentido. Foi com isso em mente que comecei \u00e0 procura de projetos onde pudesse ser \u00fatil.<\/p>\n<p>AE &#8211; J\u00e1 tinhas feito voluntariado em outros contextos, outras a\u00e7\u00f5es, outras pessoas?<\/p>\n<p>MD &#8211; Sim, j\u00e1 tinha participado em alguns projetos sociais em Portugal mas nada propriamente humanit\u00e1rio. Fiz parte da associa\u00e7\u00e3o \u00abGambozinhos\u00bb, nem sei h\u00e1 quantos anos. Fui animador nos campos de f\u00e9rias e participei no trabalho ao longo do ano.<\/p>\n<p>AE &#8211; A miss\u00e3o em setembro de 2016: dizes que mudou a tua vida. Porqu\u00ea?<\/p>\n<p>MD &#8211; N\u00e3o h\u00e1 nada propriamente que nos prepare para o que vamos ver ali, para a emo\u00e7\u00e3o, para o sofrimento humano e para as situa\u00e7\u00f5es que encontramos de facto quando nos vemos frente a frente com essas pessoas. Uma coisa \u00e9 ver os v\u00eddeos e ler as not\u00edcias, outra \u00e9 estar ali, e ser propriamente a ponte que liga estas pessoas \u00e0 vida.<\/p>\n<p>Para muita gente, infelizmente ou felizmente, depende do ponto de vista, n\u00f3s fomos a \u00fanica barreira entre eles e a morte, isso \u00e9 uma responsabilidade enorme e penso que me mudou a vida pelo sentimento de utilidade que tive. Acho que foram as duas semanas, at\u00e9 aquele momento, mais \u00fateis da minha vida. E muito embora tenhamos perdido pessoas, houve pessoas para quem chegamos tarde, conseguimos de qualquer forma salvar muita gente e isso n\u00e3o tem pre\u00e7o.<\/p>\n<p>AE &#8211; Guardas mais as que salvaste ou as que perdeste?<\/p>\n<p>MD &#8211; As que perdi, sem d\u00favida. Marcam, h\u00e1, inevitavelmente, sempre um sentimento de responsabilidade, ficamos sempre a pensar que pod\u00edamos ter sido mais r\u00e1pidos, pod\u00edamos ter feito mais.<\/p>\n<p>AE &#8211; \u00c9 uma an\u00e1lise que n\u00e3o se finda na emo\u00e7\u00e3o, ligas isso a uma responsabilidade?<\/p>\n<p>MD &#8211; Sim, \u00e9 uma responsabilidade moral dos europeus fazer alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o a isto. Primeiramente \u00e9 uma responsabilidade dos Estados Europeus, tem de haver resgate mar\u00edtimo. Resgate mar\u00edtimo \u00e9 uma responsabilidade legal dos Estados Europeus, e, portanto, a responsabilidade moral \u00e9 primeiramente dos governos porque t\u00eam os meios para fazer isso, perante a ina\u00e7\u00e3o governamental a responsabilidade recai sobre a sociedade civil que tem de fazer alguma coisa e tem de se indignar pelo facto dos Estados n\u00e3o estarem a fazer anda.<\/p>\n<p>AE &#8211; E foi isso que n\u00e3o quiseste calar, sentiste que com a tua idade, a tua experi\u00eancia e com as tuas oportunidades n\u00e3o podias calar isso?<\/p>\n<p>MD &#8211; Sim, exatamente. Senti que o pouco que pudesse dar tinha de contribuir para que esta injusti\u00e7a toda diminu\u00edsse ligeiramente.<\/p>\n<p>AE &#8211; O que encontraste nesta organiza\u00e7\u00e3o alem\u00e3 que te acolheu para participares nestas a\u00e7\u00f5es de resgaste das pessoas? Que sentimento \u00e9 que envolve os volunt\u00e1rios que est\u00e3o l\u00e1 durante este tempo de miss\u00e3o: \u00c9 a partilha daquilo com que se confrontam, \u00e9 a vontade de unirem esfor\u00e7os, \u00e9 alguma revolta por aquilo que v\u00e3o percebendo de ina\u00e7\u00e3o de outras pessoas&#8230; Que sentimentos \u00e9 que partilham?<\/p>\n<p>MD &#8211; O maior, h\u00e1 muitas coisas que nos ligam, mas a coisa mais abrangente, e liga toda a gente que ali est\u00e1 \u00e9 um respeito enorme pela vida. Estamos ali porque damos um valor sem pre\u00e7o \u00e0 vida humana, queremos salvar vida. Acaba por ser o primeiro e mais fundamental objetivo das pessoas que fazem o resgate mar\u00edtimo ou qualquer tipo de trabalho humanit\u00e1rio, o objetivo \u00e9 salvar pessoas.<\/p>\n<p>Depois muitas outras coisas nos ligam, acabamos por viver situa\u00e7\u00f5es muito tristes e situa\u00e7\u00f5es muito felizes juntas, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es de emo\u00e7\u00f5es muito fortes, s\u00e3o situa\u00e7\u00f5es muito intensas, e inevitavelmente isso liga-nos.<\/p>\n<p>AE &#8211; 423 pessoas em duas semanas, este n\u00famero significa uma esperan\u00e7a que se renova dento de ti?<\/p>\n<p>MD &#8211; N\u00f3s resgatamos muitas pessoas ao longo desse ano, a tripula\u00e7\u00e3o do \u2018Iuventa\u2019 participou no resgate de 14 mil pessoas ao longo de um ano. Vejo esse n\u00famero com mais indigna\u00e7\u00e3o do que esperan\u00e7a, na verdade.\u00a0Se uma equipa de 15 volunt\u00e1rios de cada vez consegue resgatar 14 mil pessoas ao longo de um ano alguma coisa est\u00e1 fundamentalmente errada no que est\u00e1 a ser feito para que estas pessoas n\u00e3o percam a vida.<\/p>\n<p>Esse n\u00famero embora seja uma coisa muito boa que tenhamos conseguido garantir que essas pessoas chegam em seguran\u00e7a a terra, isso \u00e9 sintom\u00e1tico de um problema fundamental que n\u00e3o est\u00e1 a ser abordado como devia.<\/p>\n<p>AE \u2013 Tiveste exatamente quanto tempo?<\/p>\n<p>MD \u2013 Fiz quatro miss\u00f5es, de cerca de tr\u00eas semanas cada, ao longo de um ano.<\/p>\n<p>AE &#8211; H\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o que cresce com a crise dos refugiados. Como \u00e9 que olhas para as pessoas da tua gera\u00e7\u00e3o que recebem este apelo tamb\u00e9m?<\/p>\n<p>MD &#8211; Esta crise humanit\u00e1ria \u00e9 a crise da nossa gera\u00e7\u00e3o. Se os nossos av\u00f3s nos anos 70 tiveram de lutar pela liberdade n\u00f3s temos de lutar por isto. Sinto que \u00e9 a grande crise, \u00e9 isto que vai aparecer nos livros de Hist\u00f3ria, est\u00e3o neste momento a acontecer grandes acontecimentos que dependem da nossa ina\u00e7\u00e3o ou da nossa a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um dia mais tarde vamos ter de explicar aos nossos netos como \u00e9 que deixamos morrer dezenas de milhares de pessoas ao longo de cinco, seis ou sete anos e eu sei de que lado \u00e9 que quero estar. E acho que \u00e9 uma responsabilidade que cada um de n\u00f3s tem de aceitar e cada um de n\u00f3s tem de encontrar a melhor forma de contribuir pessoalmente para que isto n\u00e3o se volte a passar, que esta cat\u00e1strofe tenha um fim.<\/p>\n<p>AE &#8211; Como te sentes a ser porta-voz de tudo isto?<\/p>\n<p>MD &#8211; N\u00f3s quer\u00edamos fazer resgate mar\u00edtimo, n\u00e3o quer\u00edamos fazer comunica\u00e7\u00e3o. O que sabemos fazer \u00e9 tirar pessoas de dentro e \u00e1gua, \u00e9 muito simples e foi isso que fizemos. As circunst\u00e2ncias, esta injusti\u00e7a da criminaliza\u00e7\u00e3o da ajuda humanit\u00e1ria e a atitude hostil por parte de v\u00e1rios governos da Uni\u00e3o Europeia, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 solidariedade demonstrada pela sociedade civil, \u00e9 que nos p\u00f4s nesta situa\u00e7\u00e3o em que somos obrigados a ser o porta-voz e temos que aprender a fazer este tipo de trabalho que \u00e9 completamente diferente daquilo que faz\u00edamos antigamente.<\/p>\n<p>Se nos perguntassem se prefer\u00edamos isto ou o que est\u00e1vamos a fazer em 2016 ou 2017, tenho a certeza que nenhum hesitaria em responder que preferia fazer resgate mar\u00edtimo, que isso \u00e9 necess\u00e1rio e \u00e9 importante. \u00c9 preciso tirar as pessoas de uma situa\u00e7\u00e3o de perigo porque elas continuam a vir.<\/p>\n<p>Estamos impossibilitados de fazer isso porque n\u00e3o temos navio, eu sinto pessoalmente como uma responsabilidade passar a palavra, ser um bocadinho mais uma voz a falar por estas pessoas.<\/p>\n<p>Quando n\u00f3s falamos sobre este caso legal e esta injusti\u00e7a, n\u00e3o estamos s\u00f3 a tentar garantir a nossa liberdade pessoal, mas a falar pelos verdadeiros desprivilegiados nesta situa\u00e7\u00e3o. Estamos a falar de milhares que pessoas que morrem afogados no Mediterr\u00e2neo sem voz e que depois v\u00e3o parar a listas an\u00f3nimas de estat\u00edsticas de mortes no mediterr\u00e2neo.<\/p>\n<p>AE \u2013 Como \u00e9 que olhas para aquele mar?<\/p>\n<p>MD &#8211; Traz-me muitas recorda\u00e7\u00f5es, acho que vivi o melhor e o pior da vida no mar mediterr\u00e2neo. Tive muito em contacto com o desespero das pessoas, mas tamb\u00e9m com a esperan\u00e7a e entreajuda e vi atos de hero\u00edsmo que n\u00e3o pensei que fossem poss\u00edveis. Vi pessoas a por em risco a sua pr\u00f3pria vida para salvar outras e isso j\u00e1 ningu\u00e9m me tira.<\/p>\n<p>AE \u2013 O que dizias \u00e0s pessoas quando as puxavas para o navio?<\/p>\n<p>MD &#8211; O que tent\u00e1vamos fazer era acalm\u00e1-las, em geral as pessoas vem numa situa\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico, s\u00f3 querem seguran\u00e7a para si e para os seus filhos. E o que \u00e9 preciso dizer nesse momento \u00e9, est\u00e1 tudo bem, somos uma equipa de resgate e o nosso objetivo \u00e9 tirar-vos desta situa\u00e7\u00e3o e p\u00f4r-vos em seguran\u00e7a. \u00c9 esse o nosso papel, \u00e9 ser a primeira plataforma onde as pessoas podem descansar numa situa\u00e7\u00e3o de meses e meses, ou anos a fio, em ten\u00e7\u00e3o constante.<\/p>\n<p>AE \u2013 Alguns criticam dizendo que n\u00e3o est\u00e1 em causa a tua a\u00e7\u00e3o mas o local onde aportaste as pessoas. Como respondes a isso?<\/p>\n<p>MD &#8211; Por lei internacional, quando se resgata pessoas em \u00e1guas internacionais, para j\u00e1 somos obrigados por lei a resgat\u00e1-las e por lei a lev\u00e1-las a um porto seguro. A L\u00edbia, n\u00e3o \u00e9 preciso argumentar, n\u00e3o \u00e9 um porto seguro. Podia-se argumentar que se poderia trazer as pessoas para a Tun\u00edsia, mas n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o assinou a conven\u00e7\u00e3o de Genebra nos anos 50, em que se definia refugiado e, como se sabe, as pessoas que foram no passado entregues \u00e0 Tun\u00edsia, foram depois devolvidas pelas autoridades \u00e0 L\u00edbia, e isso constitui uma viola\u00e7\u00e3o da lei internacional e n\u00e3o podemos deixar que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>Na verdade todo o nosso trabalho era feito em coordena\u00e7\u00e3o com as autoridades italianas, e a esmagadora maioria dos casos que atendemos, as pessoas eram passadas para bordo de navios italianos, que os levavam depois a terra italiana, n\u00e3o \u00e9ramos n\u00f3s que faz\u00edamos essa decis\u00e3o, a decis\u00e3o era das autoridades italianas que tinha a responsabilidade de coordenar o resgate mar\u00edtimo.<\/p>\n<p>AE \u2013 Esta a\u00e7\u00e3o judicial foi uma surpresa?<\/p>\n<p>MD &#8211; Sim, sab\u00edamos na altura que havia vozes influentes que n\u00e3o gostavam daquilo que faz\u00edamos e represent\u00e1vamos, mas nunca pens\u00e1mos que fosse poss\u00edvel utilizar meios legais para criminalizar a ajuda humanit\u00e1ria que \u00e9, n\u00e3o s\u00f3 protegida por lei como \u00e9 um direito fundamental das pessoas.<\/p>\n<p>AE \u2013 O que \u00e9 que se vai passar a seguir?<\/p>\n<p>MD &#8211; O que se vai passar a seguir n\u00e3o sei, \u00e9 muito importante que haja este tipo de resposta por parte da sociedade civil, estou a falar de Portugal e do resto da Europa. \u00c9 preciso que haja.. em Portugal houve uma resposta mt consensual sobre este problema e isso \u00e9 muito importante, ter tanta gente a proferir declara\u00e7\u00f5es de apoio, t\u00e3o diretamente em rela\u00e7\u00e3o a n\u00f3s e ao nossos trabalho. Mas n\u00e3o pode ficar por ai. J\u00e1 houve v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es governamentais, e n\u00e3o s\u00f3, que declararam publicamente o apoio \u00e0 nossa causa, isso \u00e9 importante mas \u00e9 o m\u00ednimo, que se espera de um estado democr\u00e1tico, que se espera de um pais que respeita da declara\u00e7\u00e3o universal dos direitos humanos, mas \u00e9 preciso fazer mais.<\/p>\n<p>O problema est\u00e1 muito para al\u00e9m de n\u00f3s pr\u00f3prios, o problema das migra\u00e7\u00f5es e da mortes no mediterr\u00e2neo vai continuar a acontecer. As autoridades libanesas, se \u00e9 que podemos chamar de tal coisa, p\u00f5em em risco a vida de milhares de pessoas, com a coniv\u00eancia e o apoio expl\u00edcito da UE e dos estados membros e \u00e9 contra isso que precisamos lutar, n\u00e3o podemos lutar pelas duas coisas. Dizer que respeitamos os direitos humanos e por outro lado, apoiar quem viola os direitos humanos, quem acaba por intercetar estes barcos e lev\u00e1-lo de volta \u00e0 L\u00edbia em condi\u00e7\u00f5es horrorosas em que estas pessoas vivem nos campos de deten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>AE \u2013 O caminho ser\u00e1 uma interven\u00e7\u00e3o da comunidade internacional nos pa\u00edses de origem com vista a uma estabiliza\u00e7\u00e3o para que as pessoas n\u00e3o tenham de fugir?<\/p>\n<p>MD &#8211; Este \u00e9 um problema que est\u00e1 longe de ser simples, n\u00e3o h\u00e1 uma medida que resolva o problema, \u00e9 preciso um conjunto de medidas coordenadas que resolvam um problema. \u00c9 preciso resgate mar\u00edtimos, sistemas de acolhimento eficiente, mais humanit\u00e1rios que consigam trazer estas pessoas de forma segura para a Europa sem terem de se por em barcos sem condi\u00e7\u00f5es nenhumas e pouca probabilidade de sobreviver, s\u00f3 para chegar \u00e0 Europa e pedir asilo. O ideal \u00e9 que n\u00e3o haja resgate mar\u00edtimo, n\u00e3o haja necessidade de resgate, o ideal \u00e9 que as pessoas n\u00e3o tenham de sair dos pa\u00edses e aqui, se calhar, \u00e9 mais urgente do que uma interven\u00e7\u00e3o de estabiliza\u00e7\u00e3o de qualquer situa\u00e7\u00e3o que se passe nos pa\u00edses de origem, eu diria que \u00e9 preciso moderar alguma interven\u00e7\u00e3o que os pa\u00edses ditos ocidentais t\u00eam tido. Os maiores exportadores de armas no mundo s\u00e3o os EUA e v\u00e1rios estados membros europeus.<\/p>\n<p>AE \u2013 Acabar com os discursos d\u00fabios\u2026<\/p>\n<p>MD &#8211; Antes de falar de ajudas para o desenvolvimento temos que conversar sobre a venda de armas em situa\u00e7\u00f5es de conflito. N\u00e3o podemos estar a lucrar com a venda de armas em pa\u00edses. Estas pessoas est\u00e3o a fugir das bombas que s\u00e3o criadas em solo europeu e n\u00e3o podemos fechar-lhes as portas quando est\u00e3o a fugir de armas produzidas por n\u00f3s.<\/p>\n<p>AE \u2013 O que \u00e9 que em Portugal podemos fazer?<\/p>\n<p>MD \u2013 O que \u00e9 preciso fazer neste momento, na minha opini\u00e3o, \u00e9 continuar a indignar-se. Informar-se criticamente sobre esta situa\u00e7\u00e3o, sobre as migra\u00e7\u00f5es e n\u00e3o s\u00f3, e \u00e9 preciso fazer press\u00e3o sobre as entidades que t\u00eam poder para fazer alguma coisa em rela\u00e7\u00e3o a isto. \u00c9 preciso garantir que os nossos representantes sabem que estamos atentos e que a forma como a UE est\u00e1 a tratar os migrantes e refugiados n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel, e n\u00f3s n\u00e3o aceitamos isso num estado democr\u00e1tico.<\/p>\n<p>AE \u2013 Em que fase do processo estamos?<\/p>\n<p>MD \u2013 Fomos constitu\u00eddos arguidos h\u00e1 um ano e estamos \u00e0 espera de uma acusa\u00e7\u00e3o formal ou que o caso seja arquivado. Qualquer um pode acontecer e neste momento n\u00e3o conseguimos prever.<\/p>\n<p>AE \u2013 Se pudesses voltavas ao Mediterr\u00e2neo?<\/p>\n<p>MD &#8211; Voltava amanh\u00e3 se pudesse.<\/p>\n<p>AE \u2013 O que te ocupa nestes dias em Portugal?<\/p>\n<p>MD &#8211; Neste momento o trabalho que tenho feito \u00e9 maioritariamente este trabalho de comunica\u00e7\u00e3o, dar voz a este problema, trazer aten\u00e7\u00e3o para isto, nunca esquecendo que o foco \u00e9 num problema muito maior, nunca esquecendo que n\u00f3s que enfrentamos uma possibilidade de 20 anos na pris\u00e3o por ajuda humanit\u00e1ria ainda conseguimos ser os privilegiados no meio desta situa\u00e7\u00e3o, porque h\u00e1 pessoas que todos os dias arriscam a vida simplesmente \u00e0 procura de seguran\u00e7a e \u00e9 nessas pessoas e situa\u00e7\u00e3o que temos de focar. E \u00e9 com isso que temos de nos indignar mais.<\/p>\n<p>AE \u2013 Dizias numa entrevista que \u00abum processo mexe com vidas mas n\u00e3o com princ\u00edpios\u00bb.<\/p>\n<p>MD &#8211; O processo legal aumenta a nossa indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o nos faz questionar no que acreditamos. Acreditamos que a vida humana tem um valor incalcul\u00e1vel e \u00e9 isso que tentamos defender e vai ser isso que vamos continuar a defender. Se a nossa luta \u00e9 a comunica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o o resgate mar\u00edtimo ent\u00e3o vamos lutar.<\/p>\n<p>AE \u2013 Com que \u00e9 que sonhas?<\/p>\n<p>MD &#8211; Sonho com uma Europa mais humana que permita que as pessoas vivam com dignidade, todas as pessoas, n\u00e3o s\u00f3 os europeus.<\/p>\n<p>AE \u2013 Sentes-te um cidad\u00e3o europeu?<\/p>\n<p>MD &#8211; Sinto-me um cidad\u00e3o do mundo, n\u00e3o estabele\u00e7o ordens de prioridades entre nacionais de v\u00e1rios pa\u00edses e continentes. N\u00e3o h\u00e1 vidas mais valiosas do que outras e \u00e9 isso que temos de ter em mente quando falamos de migra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":9,"featured_media":142869,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[203,291],"class_list":["post-142874","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-europa","tag-refugiados"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/142874","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=142874"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/142874\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/142869"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=142874"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=142874"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=142874"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}