{"id":140392,"date":"2019-06-17T10:31:02","date_gmt":"2019-06-17T09:31:02","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=140392"},"modified":"2019-06-18T13:00:31","modified_gmt":"2019-06-18T12:00:31","slug":"a-cruz-escondida-58","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-cruz-escondida-58\/","title":{"rendered":"A cruz escondida"},"content":{"rendered":"<p>Padre Teresito recorda o tempo de cativeiro em Marawi, nas Filipinas<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h3><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/PadreTeresit.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-140396 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/PadreTeresit-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/PadreTeresit-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/PadreTeresit-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/PadreTeresit.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Cento e dezasseis dias<\/h3>\n<p>Foi h\u00e1 dois anos. Em Maio de 2017, a cidade de Marawi, no sul das Filipinas, caiu nas m\u00e3os de um grupo jihadista. A Catedral foi um dos primeiros alvos dos terroristas. L\u00e1 dentro estavam 6 crist\u00e3os. Foram todos feitos ref\u00e9ns. Um deles, o padre Teresito, contou agora \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o AIS como foi viver 116 dias praticamente com uma arma sempre apontada \u00e0 cabe\u00e7a\u2026<\/p>\n<p>Dia 23 de Maio de 2017. Fez agora dois anos. Era j\u00e1 quase de noite quando se escutaram os primeiros tiros na cidade. Foi em p\u00e2nico que o padre Teresito e os cinco fi\u00e9is que com ele rezavam na Catedral de Marawi viram alguns homens de metralhadora em punho e com cara de poucos amigos junto \u00e0 porta de entrada. Um deles, segurando um megafone, ordenava-lhes que sa\u00edssem do edif\u00edcio. A cidade era j\u00e1 um campo de batalha. Enfiados numa carrinha, passaram algumas horas de um lado para o outro, como se os captores estivessem a tentar enganar os soldados que, por certo, j\u00e1 estariam no encal\u00e7o do grupo de crist\u00e3os. \u201cEles ordenaram-nos que contact\u00e1ssemos o governo para pararem de lutar contra os rebeldes\u201d, descreveu o Padre Soganub recordando essas primeiras horas traum\u00e1ticas. E assim fez. O padre Teresito ligou para o seu bispo, D. Edwin de la Pe\u00f1a, e a outras autoridades, dizendo sempre a mesma mensagem: avisem o Presidente Duterte para mandar retirar as tropas, para n\u00e3o perseguir os jihadistas ou, caso contr\u00e1rio, os ref\u00e9ns ser\u00e3o todos mortos. Um a um. Nos dias seguintes, foram obrigados a mudar de esconderijo vezes sem conta. Em cada novo local para onde eram enviados, juntavam-se sempre mais e mais ref\u00e9ns. Numa altura, j\u00e1 em Junho, lembra agora o padre Teresito Soganub, chegaram a ser mais de uma centena. Alguns eram mulheres e crian\u00e7as. Todos, por\u00e9m, tinham uma coisa em comum: o medo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Pensar a miss\u00e3o<\/h3>\n<p>O padre Teresito pensou vezes sem fim na sua miss\u00e3o, na fragilidade da pr\u00f3pria vida, na incerteza de tudo. Cada dia podia ser o \u00faltimo. \u201cAprendi novamente a rezar\u2026\u201d, diz, revendo todos os momentos que passou desde essa tarde na Catedral de Marawi em 23 de Maio de 2017. \u201cNingu\u00e9m quer experimentar algo assim. Durante esses meses, vivi constantemente com a certeza da minha pr\u00f3pria morte.\u201d Foram dias de permanente ora\u00e7\u00e3o. E de aprendizagem. A f\u00e9 transfigurou o medo em for\u00e7a, em certezas. Pelo menos, na certeza de que Deus n\u00e3o abandona. \u201cIsso ensinou-me humildade e respeito.\u201d<\/p>\n<p>A liberdade \u00e9 o desejo maior de quem est\u00e1 preso. Todos os dias o padre Teresito desejava voltar a n\u00e3o ser atormentado com a amea\u00e7a dos jihadistas que lhe apontavam as metralhadoras, lembrando que a fuga era um sonho imposs\u00edvel. Mas aconteceu. No dia 17 de Setembro de 2017, 116 dias depois de ter sido sequestrado na Catedral de Marawi, o padre Teresito pressentiu que as for\u00e7as do governo estavam muito perto. Era de noite mas as luzes dos far\u00f3is dos blindados, dos carros da pol\u00edcia mostravam que o acampamento dos jihadistas estaria de alguma forma cercado pelo ex\u00e9rcito. Era o momento para tentar a sorte. \u201cEnt\u00e3o eu disse a Deus e a mim mesmo: tenho que tentar agora. Deus me ajude!\u201d E um pequeno milagre aconteceu: durante longos 14 minutos, quando o padre Teresito e outro ref\u00e9m aproveitando um momento de desaten\u00e7\u00e3o sa\u00edram a correr do acampamento, nenhum tiro foi disparado. Dois anos depois, Marawi \u00e9 ainda uma cidade esventrada, em ru\u00ednas. Na maior parte dos bairros n\u00e3o vive ningu\u00e9m. \u00c9 uma cidade fantasma. Dois anos depois, num balan\u00e7o incompleto, \u00e9 poss\u00edvel dizer que a guerra de Marawi causou 1300 mortos, que 40 por cento da cidade ficou destru\u00edda \u2013 incluindo a Catedral \u2013 e que 98 % da popula\u00e7\u00e3o continua deslocada, sem poder regressar a casa, pois os bairros est\u00e3o quase todos por reconstruir\u2026 Para o padre Teresito, ficaram 116 dias de cativeiro em que aprendeu novamente a rezar.<\/p>\n<p><em>Paulo Aido<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Teresito recorda o tempo de cativeiro em Marawi, nas Filipinas<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":95189,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-140392","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140392","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=140392"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/140392\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/95189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=140392"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=140392"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=140392"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}