{"id":13978,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/conhecimento-e-possibilidade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"conhecimento-e-possibilidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conhecimento-e-possibilidade\/","title":{"rendered":"Conhecimento e possibilidade"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e9culos e mil\u00e9nios de estudo e de experi\u00eancia n\u00e3o conseguiram ainda resolver o debate sobre o papel da religi\u00e3o na sociedade. Vivemos hoje, tal como ontem e anteontem, um mundo profundamente ferido e esventrado por essa contenda. Fala-se continuadamente da toler\u00e2ncia como panaceia, e do di\u00e1logo como o processo mais prof\u00edcuo para uma poss\u00edvel resolu\u00e7\u00e3o do conflito. Todavia, mesmo para aqueles que se consideram esclarecidos, tolerantes, secularizados at\u00e9 \u00e0 medula, a formula\u00e7\u00e3o aceit\u00e1vel desta realidade n\u00e3o parece de todo um dado adquirido.  Um olhar diacr\u00f3nico desta realidade permite tamb\u00e9m perceber que os tolerantes de ontem s\u00e3o muitas vezes os intransigentes de hoje. O que parece permanecer inalter\u00e1vel \u00e9 o conflito, quantas vezes sangrento e desumanizante, provocado pelas diferentes percep\u00e7\u00f5es do que deve ser a din\u00e2mica religi\u00e3o \u2013 sociedade.  N\u00e3o sei se fundamentalismo \u00e9 a palavra mais adequada para definir fen\u00f3menos de intransig\u00eancia, intoler\u00e2ncia, miopia cultural, incapacidade dial\u00f3gica, justifica\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, totalitarismos ideol\u00f3gicos, e de processos desumanizantes de percep\u00e7\u00e3o do mundo. Fundamentalismos de toda a esp\u00e9cie, todavia, continuam a ser a ordem do dia, quer se trate de religi\u00e3o, pol\u00edtica, sentidos de nacionalidade, ou futebol. E o n\u00famero de ismos e dos seus adeptos, se n\u00e3o est\u00e1 a aumentar, consegue com facilidade impor-se nas agendas dos notici\u00e1rios, alterar profundamente padr\u00f5es do quotidiano, criar estados de ansiedade dif\u00edceis de gerir. Por outro lado, intransig\u00eancias tendem a gerar outras intransig\u00eancias, e num mundo cada vez mais complexo, e, por conseguinte, cada vez mais aberto e imprevis\u00edvel, ideologias e posicionamentos que apregoam certezas e universos contidos n\u00e3o deixam de apelar ao n\u00famero crescente daqueles que se sentem confusos, frustrados, ou mesmo tra\u00eddos nas suas aspira\u00e7\u00f5es. Um mundo de certezas \u00e9 um mundo f\u00e1cil e aparentemente seguro. As certezas, contudo, quando fundamento ideol\u00f3gico, d\u00e3o origem a espa\u00e7os contidos, fabricados, subjugantes, em que a vontade se esgota no seguidismo, a liberdade na escravatura do intelecto, e a esperan\u00e7a na conformidade dos dias sem conte\u00fado.  Tais espa\u00e7os nem s\u00e3o espa\u00e7os de possibilidade, nem espa\u00e7os de f\u00e9. Se bem que a f\u00e9, se alicerce em absolutos &#8211; na certeza do amor incondicional de Deus, por exemplo &#8211; ela afirma-se num questionar constante do que significa a sua viv\u00eancia, e do sentido que essa mesma f\u00e9 pode e deve ter na maneira como perspectivamos horizontes e constru\u00edmos um mundo melhor. \u00c9 esse questionamento que transforma mundos fechados em mundos de possibilidades, mundos que, atrav\u00e9s da nossa ac\u00e7\u00e3o fertilizante, se transformam em ambientes dignos e prenhes de humanidade.  Ora acontece que o mundo das nossas escolas \u00e9 quase sempre um mundo de respostas, geralmente aceites como certezas insofism\u00e1veis. Raramente pedimos \u00e0s nossas crian\u00e7as que se questionem sobre o mundo que as rodeia, que explorem conjuntamente a realidade que as envolve, que proponham hermen\u00eauticas com significado. O mundo da escola \u00e9 gerido por objectivos, conte\u00fados, e resultados estabelecidos por outros, e s\u00f3 excepcionalmente proposto e gerido em di\u00e1logo aberto. Este tipo de educa\u00e7\u00e3o define-se pela esterilidade, pela aliena\u00e7\u00e3o, por um fundamentalismo tecnol\u00f3gico, em que o acto de aprender e de ensinar, de educar e de agir, se pautam quase que unicamente pelo cumprimento de processos administrativos. Uma pedagogia de respostas n\u00e3o permite um mundo de perguntas, de possibilidades, e, por conseguinte, um mundo de f\u00e9. Uma educa\u00e7\u00e3o humanizante tem de ser transcendente, tem de apelar a dimens\u00f5es cada vez mais elevadas de percep\u00e7\u00e3o consciente do mundo, de conhecimento verdadeiramente compreendido, de procura da espiritualidade que nos autentica como homens e mulheres. Talvez seja muito dif\u00edcil, e politicamente incorrecto, mudar paradigmas escolares sustentados por pseudo-pol\u00edticas de liberdade, mas \u00e9 sempre tempo para mudar a educa\u00e7\u00e3o dos nossos filhos.  <i>Ruben de Freitas Cabral, Reitor do Instituto Inter-Universit\u00e1rio de Macau<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e9culos e mil\u00e9nios de estudo e de experi\u00eancia n\u00e3o conseguiram ainda resolver o debate sobre o papel da religi\u00e3o na sociedade. Vivemos hoje, tal como ontem e anteontem, um mundo profundamente ferido e esventrado por essa contenda. 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