{"id":138644,"date":"2019-05-31T07:00:09","date_gmt":"2019-05-31T06:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=138644"},"modified":"2019-07-04T16:28:46","modified_gmt":"2019-07-04T15:28:46","slug":"a-crise-mais-grave-da-uniao-europeia-e-a-crise-de-confianca-presidente-da-cnjp","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-crise-mais-grave-da-uniao-europeia-e-a-crise-de-confianca-presidente-da-cnjp\/","title":{"rendered":"A crise mais grave da Uni\u00e3o Europeia \u00e9 a \u00abcrise de confian\u00e7a\u00bb &#8211; presidente da CNJP"},"content":{"rendered":"<p>Pedro Vaz Patto comenta n\u00edveis hist\u00f3ricos da absten\u00e7\u00e3o, nas Europeias 2019, em entrevista que aborda temas como a Economia proposta pelo Papa, a viol\u00eancia dom\u00e9stica ou o tratamento dos media a temas como a exporta\u00e7\u00e3o de armas para zonas de conflito<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fotos: Cristina Nascimento (Renascen\u00e7a)<\/em><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vaz_patto-1.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-138645 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vaz_patto-1.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vaz_patto-1.jpg 2048w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vaz_patto-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vaz_patto-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vaz_patto-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vaz_patto-1-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong><em>No rescaldo das europeias, como \u00e9 que leu o resultado destas elei\u00e7\u00f5es, nomeadamente da absten\u00e7\u00e3o que bateu um recorde em Portugal, pelo menos em termos percentuais?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O fen\u00f3meno da absten\u00e7\u00e3o verifica-se tamb\u00e9m noutras elei\u00e7\u00f5es, mas de uma maneira particular nas europeias. H\u00e1, de facto, uma dist\u00e2ncia, um div\u00f3rcio entre o cidad\u00e3o comum e as institui\u00e7\u00f5es europeias. Se calhar os candidatos, e os pol\u00edticos em geral, t\u00eam alguma responsabilidade, na medida em que desviam um pouco as aten\u00e7\u00f5es na campanha eleitoral para temas que n\u00e3o s\u00e3o especificamente europeus, e n\u00e3o exercem um papel que \u00e9 importante, que \u00e9 o de esclarecer as pessoas sobre o impacto que t\u00eam as decis\u00f5es tomadas em Bruxelas, no Parlamento Europeu, na vida quotidiana. Porque isso \u00e9 real, estamos numa economia aberta, num espa\u00e7o de livre circula\u00e7\u00e3o, e h\u00e1 uma s\u00e9rie de instrumentos de regula\u00e7\u00e3o da economia, e de outros \u00e2mbitos, que passam inevitavelmente pela Uni\u00e3o Europeia. E tem de ser mesmo assim, sob pena de a globaliza\u00e7\u00e3o ser desregulada. Uma forma de regular a globaliza\u00e7\u00e3o, a um primeiro n\u00edvel, \u00e9 ao n\u00edvel europeu, da\u00ed a import\u00e2ncia destas normas, que dependem da aprova\u00e7\u00e3o a este n\u00edvel.<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>J\u00e1 no in\u00edcio do ano, na mensagem para o Dia Mundial da Paz, a Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz (CNJP) tinha alertado para o perigo deste desinteresse.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sim. Mas, mais do que a quest\u00e3o da absten\u00e7\u00e3o, ou para al\u00e9m da quest\u00e3o da absten\u00e7\u00e3o, poderemos refletir, a prop\u00f3sito destas elei\u00e7\u00f5es, sobre o que muitos t\u00eam definido com a crise mais grave da Uni\u00e3o Europeia, que \u00e9 a crise de confian\u00e7a no projeto de unidade europeia. Foi contra isso que pretendeu reagir a Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz, e que pretenderam reagir os bispos europeus, que est\u00e3o reunidos num organismo que se chama COMECE, e que se calhar nem todas as pessoas conhecem, mas que vai acompanhando, na perspetiva da Igreja, as pol\u00edticas da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Esta crise de confian\u00e7a manifesta-se de v\u00e1rias formas, desde logo a quest\u00e3o do Brexit. Durante muito tempo a Uni\u00e3o Europeia foi atraindo cada vez maior n\u00famero de pa\u00edses, e cada vez mais nos aproxim\u00e1mos mais de uma situa\u00e7\u00e3o em que as fronteiras da Europa coincidem com as da Uni\u00e3o Europeia, at\u00e9 que temos um pa\u00eds importante que agora quer sair.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m disso, tamb\u00e9m h\u00e1 uma s\u00e9rie de for\u00e7as pol\u00edticas que v\u00e3o ganhando cada vez mais express\u00e3o, n\u00e3o em Portugal, mas noutros pa\u00edses, e que se op\u00f5em ao projeto da Uni\u00e3o Europeia. \u00c9 preciso pensar como contrariar isto. Foi esse o objetivo da CNJP.<\/p>\n<p>Penso que h\u00e1 que criar nas pessoas um sentimento de perten\u00e7a a uma comunidade europeia. O sentimento nacional continua a existir, e o projeto europeu n\u00e3o deve ser visto como oposto a este sentimento nacional, mas deve ser alargado a um \u00e2mbito mais vasto. E para isso \u00e9 preciso ter esta consci\u00eancia de que somos uma comunidade europeia, temos valores e uma hist\u00f3ria comum, e \u00e9 importante p\u00f4r isto em relevo.<\/p>\n<p>Aquilo que acontece noutros pa\u00edses europeus ainda n\u00e3o \u00e9 sentido pelas pessoas como pr\u00f3prio, seja no sentido positivo, seja negativo. Mas, recentemente, com o inc\u00eandio na catedral de Notre-Dame (Paris) \u2013 um monumento que, mais do que qualquer outro, \u00e9 um s\u00edmbolo de uma cultura europeia comum, que tamb\u00e9m tem a ver com as ra\u00edzes crist\u00e3s -, de alguma maneira todos nos sentimos um pouco atingidos, de uma forma simb\u00f3lica, mas que \u00e9 significativa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A absten\u00e7\u00e3o revela falta de interesse, ou desilus\u00e3o com a classe pol\u00edtica? O que \u00e9 que pode justificar a falta de mobiliza\u00e7\u00e3o das pessoas?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A n\u00edvel europeu at\u00e9 houve um aumento da participa\u00e7\u00e3o, e houve v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es que se mobilizaram no sentido de apelar a essa participa\u00e7\u00e3o. Se virmos esta quest\u00e3o numa perspetiva hist\u00f3rica, vemos que a hist\u00f3ria da Europa \u00e9 feita de divis\u00f5es, e o projeto europeu, que deu passos importantes nestes 50 anos, n\u00e3o se constr\u00f3i assim de um dia para o outro, nesta perspetiva de um sentimento comum.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 &#8211; e isso nota-se de uma forma particular em Portugal, mas n\u00e3o s\u00f3 em Portugal -, que muitas vezes os governos t\u00eam uma perspetiva um pouco estreita da defesa dos interesses nacionais. Claro que a sua miss\u00e3o \u00e9 defender os interesses nacionais, mas o projeto europeu tem de ser visto numa perspetiva do bem comum europeu, n\u00e3o s\u00f3 do bem nacional.<\/p>\n<p>O princ\u00edpio do bem comum \u00e9 um dos temas da Carta Pastoral dos bispos portugueses &#8216;Um Olhar sobre Portugal e a Europa \u00e0 Luz da Doutrina Social da Igreja&#8221;. Esta perspetiva do bem comum europeu leva a superar a vis\u00e3o estreita, de curto prazo, imediata, do interesse nacional.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes os pol\u00edticos portugueses s\u00e3o vistos \u2013 o ju\u00edzo sobre a sua atua\u00e7\u00e3o &#8211; na medida em que obt\u00eam mais fundos&#8230;\u00a0 \u00e9 sua miss\u00e3o faz\u00ea-lo, mas temos de ver que a coes\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aquela que beneficia Portugal, \u00e9 tamb\u00e9m a que beneficia eventualmente outros pa\u00edses at\u00e9 mais pobres, agora com o alargamento aos pa\u00edses de leste. Portanto, h\u00e1 que alargar um pouco esta vis\u00e3o, porque n\u00e3o se constr\u00f3i esta coes\u00e3o europeia, e o sentimento de perten\u00e7a a uma comunidade, com esta perspetiva de cada um puxar a brasa \u00e0 sua sardinha, que vale para Portugal e vale para os pa\u00edses ricos, que muitas vezes s\u00e3o reticentes em rela\u00e7\u00e3o ao esfor\u00e7o de solidariedade que, necessariamente, exige a supera\u00e7\u00e3o de diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Um dos aspetos que quisemos p\u00f4r em relevo na nota da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz, foi em rela\u00e7\u00e3o ao refor\u00e7o da pol\u00edtica de desenvolvimento regional, porque h\u00e1 uma diferen\u00e7a muito grande entre regi\u00f5es mais pobres e mais ricas na Uni\u00e3o Europeia. Durante um tempo foi-se atenuando esta diferen\u00e7a, mas atualmente j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 tanto assim.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Falou h\u00e1 pouco da interven\u00e7\u00e3o da COMECE, o organismo que re\u00fane os bispos das Confer\u00eancias Episcopais dos pa\u00edses que integram a Uni\u00e3o Europeia. Em Portugal v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es e organismos ligados \u00e0 Igreja alertaram para a import\u00e2ncia da participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es. Foi importante tem tomado posi\u00e7\u00e3o?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Acho que sim, porque este sentido de participa\u00e7\u00e3o na vida comunit\u00e1ria come\u00e7a por a\u00ed. N\u00e3o votar por indiferen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 conforme \u00e0 exig\u00eancia crist\u00e3 de servi\u00e7o ao pr\u00f3ximo, que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o servi\u00e7o \u00e0quela pessoa que est\u00e1 ao meu lado, \u00e9 \u00e0 comunidade em geral, e o voto deve ser visto nesta perspetiva, como um contributo para o bem comum, o bem da comunidade. Foram v\u00e1rias as institui\u00e7\u00f5es que se pronunciaram, n\u00e3o s\u00f3 apelando ao voto, mas tamb\u00e9m pondo em relevo alguns aspetos que est\u00e3o na agenda do Parlamento, para as pessoas terem aten\u00e7\u00e3o aos programas eleitorais, que eventualmente nem falavam dessas quest\u00f5es. Como o JRS, com a quest\u00e3o dos refugiados. A Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz levantou quest\u00f5es relativas \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o de armas por parte de pa\u00edses europeus, o desperd\u00edcio alimentar, a quest\u00e3o das empresas multinacionais e o respeito pelos direitos humanos nas empresas que t\u00eam a sua sede da Uni\u00e3o Europeia. Portanto, estas institui\u00e7\u00f5es quiseram p\u00f4r em relevo alguns aspetos numa perspetiva de apelo, n\u00e3o s\u00f3 aos candidatos, mas tamb\u00e9m aos deputados que agora foram eleitos. Portanto, estes apelos n\u00e3o perderam atualidade, pelo contr\u00e1rio, agora \u00e9 importante manter esta aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho dos deputados que foram eleitos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vpatto2-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-138647 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vpatto2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"2048\" height=\"1365\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vpatto2-1.jpg 2048w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vpatto2-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vpatto2-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vpatto2-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/vpatto2-1-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong><em>Esse \u00e9 tamb\u00e9m trabalho para os jornalistas. Nesta semana em que a Igreja assinala o Dia Mundial das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais. A forma como os media acompanharam a campanha eleitoral, e estes temas, pode ter contribu\u00eddo para a absten\u00e7\u00e3o? H\u00e1 alguma coisa a mudar no olhar da comunica\u00e7\u00e3o sobre a Europa, sobre a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, para que isto n\u00e3o seja um \u2018reality show\u2019, mas um debate esclarecedor?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Pois, estas tomadas de posi\u00e7\u00e3o, estes documentos, chamaram a aten\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es que, de facto, passaram um pouco despercebidas \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o social em geral. N\u00e3o me refiro especialmente \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o da Igreja, porque em rela\u00e7\u00e3o a essa n\u00e3o tenho raz\u00e3o de queixa, foi a \u00fanica que deu relevo a estas tomadas de posi\u00e7\u00e3o. Mas nos restantes media n\u00e3o vi grande repercuss\u00e3o, tirando a quest\u00e3o da Carta Pastoral dos bispos, que talvez tenha tido algum eco, mesmo assim parece-me que n\u00e3o suficiente, n\u00e3o com a aten\u00e7\u00e3o que merecia. N\u00e3o digo isto porque tenha interesse em que a Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz, ou outras institui\u00e7\u00f5es, sejam faladas pela comunica\u00e7\u00e3o em geral, mas pelos temas que s\u00e3o abordados. De facto, estas quest\u00f5es que a CNJP p\u00f4s em relevo, como a exporta\u00e7\u00e3o de armas para zonas de conflito b\u00e9lico por parte pa\u00edses europeus, apesar de a Uni\u00e3o Europeia j\u00e1 ter tomado posi\u00e7\u00e3o no sentido de restringir essa exporta\u00e7\u00e3o para onde estas armas podem ser usadas em situa\u00e7\u00f5es de conflito, \u00e9 o que se est\u00e1 a verificar em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o para a Ar\u00e1bia Saudita, que tem tido grande oposi\u00e7\u00e3o da parte de institui\u00e7\u00f5es da Igreja, e n\u00e3o s\u00f3, em It\u00e1lia, de onde partem estas armas&#8230;<\/p>\n<p><strong><em>\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n<p><strong><em>O Papa Francisco tem sido muito cr\u00edtico\u2026<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sim, o Papa tem dito isso, muito claramente. \u00c9 um tema que mereceria mais aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>At\u00e9 porque alimentar conflitos e guerras exportando armas \u00e9 alimentar outros problemas que atingem a Europa, como as migra\u00e7\u00f5es\u2026<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sim, como os refugiados. N\u00e3o digo que a exporta\u00e7\u00e3o de armas seja a \u00fanica raz\u00e3o para estes conflitos, e temos de distinguir a exporta\u00e7\u00e3o que \u00e9 clandestina, e que os estados n\u00e3o controlam. Mas h\u00e1 outra que \u00e9 de direta responsabilidade dos estados, como \u00e9 a que referi em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita.<\/p>\n<p>Mas, isto vinha a prop\u00f3sito do papel da comunica\u00e7\u00e3o social. Acho que \u00e9 importante neste sentido de p\u00f4r em relevo algumas quest\u00f5es que passam um pouco despercebidas, n\u00e3o por n\u00e3o terem import\u00e2ncia, mas porque se calhar n\u00e3o s\u00e3o da atualidade, do momento, do que suscita a aten\u00e7\u00e3o das pessoas hoje e amanh\u00e3, mas depois de amanh\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o. J\u00e1 que vamos assinalar o Dia Mundial da Comunica\u00e7\u00e3o Social, acho que \u00e9 bom sublinhar isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz tem tomando posi\u00e7\u00e3o p\u00fablica sobre os mais variados temas, como as migra\u00e7\u00f5es, as assimetrias salariais entre homens e mulheres, e tamb\u00e9m a quest\u00e3o da viol\u00eancia dom\u00e9stica, que continua a marcar a atualidade. \u00c9 um problema que exige a tomada de novas medidas?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tendo o conhecimento da legisla\u00e7\u00e3o a respeito da viol\u00eancia dom\u00e9stica, penso que neste aspeto, como noutros, n\u00e3o \u00e9 tanto a falta de legisla\u00e7\u00e3o que est\u00e1 na raiz do problema. Nem tudo depende de uma mudan\u00e7a de legisla\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A ministra da Justi\u00e7a admitiu esta semana alargar o conceito jur\u00eddico de tortura aos crimes de viol\u00eancia dom\u00e9stica, como j\u00e1 acontece noutros pa\u00edses\u2026<\/em><\/strong><\/p>\n<p>O quadro legislativo j\u00e1 prev\u00ea a possibilidade de puni\u00e7\u00e3o destes crimes de uma forma severa. Acho que temos de ir mais fundo. A raiz deste crime, de uma forma particular, est\u00e1 na mentalidade, na cultura. E o que impressiona \u00e9 que, ao contr\u00e1rio do que \u00e0s vezes se pensa, que este \u00e9 um fen\u00f3meno pr\u00f3prio de gera\u00e7\u00f5es mais velhas, menos instru\u00eddas e de zonas rurais, verificamos que n\u00e3o \u00e9 assim. H\u00e1 viol\u00eancia no namoro, entre jovens, o que \u00e9 que leva a que isto aconte\u00e7a? \u00c9 uma conce\u00e7\u00e3o do relacionamento com o outro muito deturpada, de fazer do outro um instrumento, um objeto. Resolver passa por a\u00ed tamb\u00e9m, por alterar este quadro mental, esta cultura.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Apostar mais na educa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 isso que \u00e9 importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>O Papa convocou para 2020, simbolicamente em Assis, um encontro com jovens economistas e empres\u00e1rios para se pensar um novo modelo econ\u00f3mico mais amigo do Homem. Como \u00e9 que v\u00ea esta iniciativa?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Vem na linha daquilo que o Papa tem dito sobre o atual sistema econ\u00f3mico, que n\u00e3o coloca a pessoa humana no centro\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A \u2018economia que mata&#8217;, \u00e9 a express\u00e3o do Papa que todos fixaram<\/em><\/strong>.<\/p>\n<p>Exatamente. N\u00e3o sei qual \u00e9 o programa do encontro, mas o simples facto de se ter escolhido a cidade de Assis, e esta refer\u00eancia a S\u00e3o Francisco, \u00e9 significativa. Podemos pensar &#8211; o que \u00e9 que o Santo da pobreza tem a ver com a economia, que habitualmente associamos \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de riqueza? Bom, se formos ver h\u00e1 franciscanos que desde os in\u00edcios do desenvolvimento econ\u00f3mico e comercial, na Idade M\u00e9dia na Europa, refletiram sobre economia, sobre o mercado&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>Incluindo Santo Ant\u00f3nio\u2026<\/em><\/strong><\/p>\n<p>E n\u00e3o \u00e9 assim uma perspetiva ut\u00f3pica ou fora da realidade de todos os dias. Nesse contexto em que se come\u00e7avam a abrir os mercados, em que se desenvolvia o com\u00e9rcio, os franciscanos estiveram ligados \u00e0s primeiras iniciativas que podemos associar ao mutualismo e ao microcr\u00e9dito. Portanto, penso que a proposta \u00e9 esta de encarar este novo modelo econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>Como algumas pessoas que est\u00e3o ligadas \u00e0 prepara\u00e7\u00e3o deste encontro j\u00e1 disseram, o sistema econ\u00f3mico atual parte do princ\u00edpio de que verdadeiramente aquilo que move as pessoas \u00e9 o interesse pr\u00f3prio, \u00e9 o ego\u00edsmo. Isto poder\u00e1 ter alguma raz\u00e3o de ser, porque \u00e9 esta a realidade, mas tamb\u00e9m pode ser limitador, porque da mesma forma que h\u00e1 pessoas que se guiam pelo seu interesse pr\u00f3prio, tamb\u00e9m sabemos que a pessoa se realiza quando se doa aos outros, quando se estabelecem relacionamentos de comunh\u00e3o, solid\u00e1rios. Isso tamb\u00e9m faz parte da natureza humana. Portanto, o sistema econ\u00f3mico deve abrir a possibilidade, e criar condi\u00e7\u00f5es, para que tamb\u00e9m esta dimens\u00e3o da natureza humana encontre express\u00e3o na vida econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes diz-se &#8216;amigos, amigos, neg\u00f3cios \u00e0 parte&#8217;, como se o mundo da economia e dos neg\u00f3cios fosse separado daquilo que s\u00e3o as virtudes humanas, a vida crist\u00e3 e a vida do Evangelho. P\u00f4r termo a esta divis\u00e3o penso que \u00e9 um dos objetivos deste encontro, e o novo modelo econ\u00f3mico passar\u00e1 um pouco por isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>A iniciativa do Papa Francisco tem inspira\u00e7\u00e3o na &#8216;economia de comunh\u00e3o&#8217;, que \u00e9 proposta pelo movimento dos Focolares, com o qual est\u00e1 familiarizado. Do que \u00e9 que falamos quando falamos de &#8216;economia de comunh\u00e3o&#8217;?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Vem um pouco na linha do que eu dizia, se de facto a pessoa humana se realiza quando se d\u00e1 aos outros, quando se criam estas rela\u00e7\u00f5es de comunh\u00e3o, a economia tamb\u00e9m deve ser assim, e a fundadora do movimento, Chiara Lubich, dizia &#8216;ser\u00e1 ut\u00f3pico pensar assim?&#8217;. N\u00e3o, porque se pensarmos que a pessoa humana \u00e9 criada \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus, e Deus \u00e9 doa\u00e7\u00e3o e \u00e9 amor, tamb\u00e9m se realiza no mundo econ\u00f3mico desta forma. E a experi\u00eancia da economia de comunh\u00e3o &#8211; h\u00e1 v\u00e1rias empresas em Portugal e noutros pa\u00edses-, pretende testemunhar isso mesmo, que a vida de amor rec\u00edproco pode ser vivida no \u00e2mbito econ\u00f3mico. E \u00e9 isto que se procura propor, n\u00e3o s\u00f3 no \u00e2mbito do movimento, mas com outras pessoas, n\u00e3o necessariamente crist\u00e3s, mas que s\u00e3o sens\u00edveis a esta ideia de comunh\u00e3o aplicada \u00e0 vida econ\u00f3mica. Portanto, penso que a iniciativa do Papa vem um pouco nesta linha, embora este tipo de experi\u00eancias, n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 as da economia de comunh\u00e3o, noutros movimentos crist\u00e3os e noutros \u00e2mbitos, at\u00e9 fora do \u00e2mbito da Igreja, em que se procura p\u00f4r em relevo esta dimens\u00e3o da pessoa aplicada \u00e0 vida econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><em>E pode haver outros contributos. O encontro vai reunir cerca 500 jovens economistas e empres\u00e1rios com menos de 35 anos de todo o mundo. Pode ser, de facto, ocasi\u00e3o para mudar alguma coisa?<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Sim. E \u00e9 significativo que sejam participantes com menos de 35 anos. N\u00e3o tanto pela idade, \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 a idade que \u00e9 relevante, mas o facto de serem estudantes e jovens abertos a esta possibilidade de mudan\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel mudar alguma coisa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Vaz Patto comenta n\u00edveis hist\u00f3ricos da absten\u00e7\u00e3o, nas Europeias 2019, em entrevista que aborda temas como a Economia proposta pelo Papa, a viol\u00eancia dom\u00e9stica ou o tratamento dos media a temas como a exporta\u00e7\u00e3o de armas para zonas de conflito<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":138647,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[630],"tags":[134,191,203,575],"class_list":["post-138644","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-cnjp","tag-economia","tag-europa","tag-violencia-domestica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138644","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138644"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138644\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/138647"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138644"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138644"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138644"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}