{"id":13861,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/expressao-da-paz\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"expressao-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/expressao-da-paz\/","title":{"rendered":"Express\u00e3o da paz"},"content":{"rendered":"<p>Pediram-me um testemunho da minha estadia em Taiz\u00e9, mas j\u00e1 vai longe esse feliz acontecimento. Foi em Agosto de 2002 que, desafiado por um grupo de jovens de Esposende e um Sacerdote, rumei com eles em direc\u00e7\u00e3o \u00e0 aldeia de Taiz\u00e9, l\u00e1 no sul da Borgonha, no Centro Leste da Fran\u00e7a, verdadeiro o\u00e1sis de esperan\u00e7a onde se mata a sede na fonte da Vida e se aprende a celebrar a paz e a reconcilia\u00e7\u00e3o entre todos. Todos os caminhos v\u00e3o dar a Taiz\u00e9, ali bem perto de Cluny, Ars, Parail-le-Monial e L\u00e9on. Se a viagem foi boa no meio daquela saud\u00e1vel traquinice e alegria juvenil, a estadia em Taiz\u00e9 foi experi\u00eancia marcante. E logo pela chegada ao local: milhares de jovens que sa\u00edam, milhares de jovens que chegavam! E tudo em movimenta\u00e7\u00e3o ordenada de alegria contagiante, \u00e0 mistura com camionetas e autom\u00f3veis que aqui aguardavam os atrasados nos abra\u00e7os da despedida, acol\u00e1 arrumavam as mochilas, ali compravam umas \u00faltimas lembran\u00e7as, dacol\u00e1 chegavam os que tinham ido dar uma espreitadela mais &#8211; e j\u00e1 de saudade! &#8211; pelos cantos de Taiz\u00e9\u2026 Enfim, se uns viviam intensamente os momentos da partida, outros deixavam-se interpelar pelo ambiente de Taiz\u00e9, criando curiosidade e expectativa. E tudo isto porque ali vive, desde h\u00e1 anos, uma comunidade de irm\u00e3os de v\u00e1rios pa\u00edses e Igrejas que se comprometeram a viver por toda a vida na partilha de bens materiais e espirituais, no celibato e numa grande simplicidade existencial, vivendo do seu trabalho, aqui, em Taiz\u00e9, ou em pequenas fraternidades no meio dos pobres, partilhando com todos o pouco que t\u00eam na riqueza doada das suas vidas por amor do Reino de Deus. Uma comunidade que logo cativou e cresceu pelo seu estilo de vida e trabalho com os refugiados da segunda guerra mundial que ali acolheu, no princ\u00edpio, e, depois, trabalhando entre os meninos da rua e com toda a esp\u00e9cie de desfavorecidos nas favelas latino-americanas, entre os pobres da \u00c1sia e da \u00c1frica e nos pa\u00edses da Europa de Leste. Uma Comunidade que reza e que partilha a sua ora\u00e7\u00e3o com muitos jovens e menos jovens que v\u00eam \u00e0 procura de um encontro com Deus, consigo mesmos e com os demais, tendo espa\u00e7o para partilhar experi\u00eancias e alimentar a esperan\u00e7a, encontrando em Cristo o sentido para a vida. Uma Comunidade simples enraizada no cora\u00e7\u00e3o do Evangelho, que promove a conviv\u00eancia pac\u00edfica entre os povos, a reconcilia\u00e7\u00e3o entre os homens atrav\u00e9s do di\u00e1logo, da coexist\u00eancia pac\u00edfica e do amor dos crist\u00e3os; que acredita na juventude e \u201cno ecumenismo da santidade\u201d, que acredita na for\u00e7a do Esp\u00edrito e da Verdade. No fim da primeira ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, \u00e0 noite, num momento esperado e inesquec\u00edvel, cumprimentei o Irm\u00e3o Roger, sempre entre crian\u00e7as e os Irm\u00e3os. Que express\u00e3o marcante de bondade, serenidade e paz, manifestando-se feliz pela presen\u00e7a de tanta juventude, esperan\u00e7a do mundo! Duas vezes fui comer na Comunidade, integrando-me na disciplina conventual que \u00e9 praxe das suas refei\u00e7\u00f5es: ora\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio, palavra do Irm\u00e3o Roger e de alguns convidados: jovens, dignit\u00e1rios de Igrejas ou outros, coisa que acontecia todos os dias. A seu pedido, presidi \u00e0 Eucaristia final, no Domingo, e tive a oportunidade de participar na reuni\u00e3o que os Irm\u00e3os de Taiz\u00e9 organizaram com o grupo de portugueses que l\u00e1 estiveram naquela semana: cerca de quatrocentos, do Minho ao Algarve. Participei de Domingo a Domingo, como conv\u00e9m a quem l\u00e1 vai. Os que entr\u00e1mos naquele domingo calculavam-se entre os seis e sete mil pessoas de cerca de setenta pa\u00edses. Logo surgiram os volunt\u00e1rios de todas as l\u00ednguas e culturas, para formar a diversidade das equipas que ao longo da semana iriam garantir a qualidade de vida de todos: a limpeza dos espa\u00e7os, a lavagem da lou\u00e7a, a organiza\u00e7\u00e3o da refei\u00e7\u00e3o, o servi\u00e7o no bar, tudo, tudo que era preciso para que nada faltasse e fosse bom. E foi, de facto, muito bom. A organiza\u00e7\u00e3o, a responsabilidade das equipas de servi\u00e7o, a alegria dos jovens, a simplicidade e verdade existente entre todos, a pontualidade e seriedade nos tr\u00eas momentos de ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, sendo de real\u00e7ar a de sexta-feira \u00e0 noite, com adora\u00e7\u00e3o da Cruz; a participa\u00e7\u00e3o nos variados Workshop, a ora\u00e7\u00e3o pessoal, a delicadeza m\u00fatua, o respeito de todos por cada um e de cada um por todos, o esfor\u00e7o por gerar amizade no meio da confus\u00e3o das l\u00ednguas, culturas e feitios, o testemunho atento, alegre e feliz dos Irm\u00e3os da comunidade sempre prontos a escutar e ajudar, foi tudo lindo e li\u00e7\u00e3o de vida a gerar esperan\u00e7a de um futuro de paz e fraternidade, de reconcilia\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o. Entre aquela juventude jovem n\u00e3o se percebiam preconceitos, nem fronteiras, nem muros que pudessem dividir a capacidade de comunicar, amar ou perturbar a alegria de estar, servir e partilhar. Ningu\u00e9m andava atr\u00e1s de ningu\u00e9m e todos eram de uma exig\u00eancia impressionante na assiduidade \u00e0 ora\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria e \u00e0s outras iniciativas. Mais de seis mil jovens, sentados no ch\u00e3o, num sil\u00eancio profundo de escuta e de reflex\u00e3o pessoal, explodia com serenidade, beleza e arte, nos c\u00e2nticos em v\u00e1rias l\u00ednguas, cheios de mensagem e harmonia. Que encanto! Que pequenez pessoal perante a riqueza do momento! Deus interpelava pelo sil\u00eancio, pela multid\u00e3o de pessoas, pela entrada solene e serena dos Monges, pelo realce dado ao amb\u00e3o e \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o da Palavra Deus, pela palavra vivida e oportuna do Irm\u00e3o Roger, pela organiza\u00e7\u00e3o simples mas eficiente, pela disposi\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o lit\u00fargico, por aquelas velas e s\u00edmbolos, por todo o ambiente da Igreja da Reconcilia\u00e7\u00e3o, com sabor a mist\u00e9rio e sempre capaz de se alargar mais para acolher e abra\u00e7ar a todos num verdadeiro esp\u00edrito de fam\u00edlia reconciliada consigo mesma e com Deus.  <i>D. Antonino Dias<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pediram-me um testemunho da minha estadia em Taiz\u00e9, mas j\u00e1 vai longe esse feliz acontecimento. 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