{"id":13860,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/irmao-roger-a-confianca-do-coracao\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"irmao-roger-a-confianca-do-coracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/irmao-roger-a-confianca-do-coracao\/","title":{"rendered":"Irm\u00e3o Roger: a confian\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Um rosto luminoso e transparente, um sorriso que falava ainda antes e para l\u00e1 das palavras. Por todo o mundo, muitos milhares de pessoas &#8211; e n\u00e3o apenas crist\u00e3os &#8211; aprenderam com o irm\u00e3o Roger, de Taiz\u00e9, o significado e o valor profundo de palavras como confian\u00e7a, reconcilia\u00e7\u00e3o, esperan\u00e7a, bondade, vida simples, alegria, felicidade. A sua morte  absurdamente violenta, em plena ora\u00e7\u00e3o da noite, dia 16 de Agosto, na Igreja da Reconcilia\u00e7\u00e3o, em Taiz\u00e9, deixou-nos \u00f3rf\u00e3os deste profeta do cora\u00e7\u00e3o.  Em Dezembro \u00faltimo, no primeiro dia do encontro europeu de jovens, promovido pela comunidade de Taiz\u00e9, em Lisboa, o irm\u00e3o Roger dizia, em entrevista ao \u201cP\u00fablico\u201d: \u201cHoje, com os jovens, por vezes interrogamo-nos: existem realidades que tornem a vida bela e das quais possamos dizer que trazem uma plenitude, uma alegria interior? Sim, existem. E uma dessas realidades chama-se precisamente confian\u00e7a.\u201d No in\u00edcio de tudo, est\u00e1 a confian\u00e7a do cora\u00e7\u00e3o, escreveu tamb\u00e9m, por diversas vezes. Em tudo, a paz do cora\u00e7\u00e3o, dizia, numa variante sobre o mesmo tema. \u201cN\u00e3o tenhas medo, pr\u00f3xima est\u00e1 a confian\u00e7a, e com ela uma felicidade. Sim, Deus quer-nos felizes\u201d, insistiu, no final da \u201cPequena Fonte de Taiz\u00e9\u201d, a regra pela qual se orienta a comunidade. Os pr\u00f3prios encontros europeus de jovens, no final de cada ano &#8211; o \u00faltimo dos quais em Lisboa, em 2004 &#8211; inserem-se no que a comunidade designa de \u201cperegrina\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a atrav\u00e9s da terra\u201d.  O seu olhar e o seu sorriso, que falavam muitas vezes antes que as palavras se soltassem, os seus gestos serenos e bondosos faziam do fundador de Taiz\u00e9 uma pessoa marcante para quem o conhecia. Mesmo os que n\u00e3o acreditam ou os que pensavam diferente dele, tinham no seu cora\u00e7\u00e3o um lugar especial. A escuta do outro era, para ele, essencial. O que fazia com que cada palavra por ele dita ou escrita tivesse uma for\u00e7a invulgar &#8211; capaz de mudar vidas ou ideais.  A intensidade da experi\u00eancia humana e religiosa do irm\u00e3o Roger fundava-se na convic\u00e7\u00e3o da superioridade do bem. Um dos seus \u00faltimos escritos foi a carta que dirigiu \u00e0 fam\u00edlia do fil\u00f3sofo Paul Ricoeur, quando este morreu em 20 de Maio.  No texto, escrevia: \u201cDesde h\u00e1 cerca de 50 anos [Ricoeur] veio a Taiz\u00e9 v\u00e1rias vezes. Apreci\u00e1mos muito a sua vasta cultura, e a sua capacidade de exprimir os valores do evangelho nas situa\u00e7\u00f5es de hoje em dia. Ajudou-nos muitas vezes a reflectir. (&#8230;) Um dia, disse-nos estas palavras: \u2018Por mais radical que seja o mal, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o profundo como a bondade\u2019\u201d.  Essa capacidade de procurar no sofrimento oportunidades de reden\u00e7\u00e3o n\u00e3o alienava o irm\u00e3o Roger da realidade do mundo. Ao contr\u00e1rio: fazia-o mergulhar nas realidades mais dram\u00e1ticas &#8211; como os bairros miser\u00e1veis da \u00cdndia ou do Bangladesh -, ou mais tr\u00e1gicas &#8211; como os massacres do Ruanda ou a guerra dos Balc\u00e3s.  \u201cA confian\u00e7a em Deus n\u00e3o ignora os sofrimentos de tantos necessitados atrav\u00e9s do mundo\u201d, afirmava na entrevista citada, de Dezembro passado. \u201cEm vez de fugir das responsabilidades, a confian\u00e7a possibilita manter-se de p\u00e9, onde as sociedades humanas s\u00e3o abaladas. Ela permite avan\u00e7ar mesmo quando surge o fracasso.\u201d Experi\u00eancia \u00fanica no cristianismo mundial que re\u00fane monges cat\u00f3licos e protestantes, Taiz\u00e9 tornou-se tamb\u00e9m uma refer\u00eancia na procura da unidade entre as igrejas crist\u00e3s separadas. Na carta \u201cUm Futuro de Paz\u201d, publicada em Dezembro por ocasi\u00e3o do encontro de Lisboa, escrevia que \u201crestabelecer a comunh\u00e3o\u201d entre cat\u00f3licos, protestantes, anglicanos e ortodoxos \u201c\u00e9 hoje urgente\u201d. A unidade entre crist\u00e3os, acrescentava, \u201cn\u00e3o se pode adiar permanentemente at\u00e9 ao fim dos tempos\u201d. Foi, ali\u00e1s, a vontade do ent\u00e3o pastor calvinista Roger Schutz, que o levou, aos 25 anos, a fundar esta comunidade que antecipa o cristianismo do futuro &#8211; uma \u201cPrimavera da Igreja\u201d, chamou-lhe Jo\u00e3o XXIII. A inspira\u00e7\u00e3o veio-lhe da av\u00f3 que, protestante, frequentava tamb\u00e9m a par\u00f3quia cat\u00f3lica da aldeia, num tempo mais de \u00f3dio que de compreens\u00e3o. A comunidade n\u00e3o quer seguidores nem mosteiros em outros lugares, pretende apenas sugerir que a comunh\u00e3o entre crist\u00e3os \u00e9 poss\u00edvel.  Os apelos \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o entre crist\u00e3os tornaram-se mais fortes nos \u00faltimos anos, quando o irm\u00e3o Roger pressentiu que o ecumenismo arrefecia, apesar dos avan\u00e7os institucionais. Por isso, o fundador de Taiz\u00e9 refor\u00e7a, na mesma carta de Lisboa, a ideia de que j\u00e1 h\u00e1 crist\u00e3os que \u201cdesejam tornar Cristo presente a muitos outros\u201d, pois \u201csabem que a Igreja n\u00e3o existe para ela pr\u00f3pria mas para o mundo, para depositar nele um fermento de paz\u201d. A Igreja, acrescenta, n\u00e3o pode ser um espa\u00e7o de \u201cseveridades rec\u00edprocas, mas s\u00f3 transpar\u00eancia, bondade do cora\u00e7\u00e3o, compaix\u00e3o\u201d. Autor de uma escrita l\u00edmpida, um fogo abrasador para quem a frequenta, o irm\u00e3o Roger fala do cepticismo que atravessa a Europa (\u201c\u00c9 preciso n\u00e3o parar no caminho\u201d), da paz (s\u00e3o \u201cin\u00fameros\u201d os que a ela \u201caspiram\u201d e \u201cprocuram preparar um futuro de paz e n\u00e3o de infelicidade\u201d), da descren\u00e7a (o incr\u00e9dulo \u201ccoexiste\u201d muitas vezes com o crente).  Quando esteve em Taiz\u00e9, h\u00e1 duas d\u00e9cadas, o Papa Jo\u00e3o Paulo II disse que se passava por Taiz\u00e9 como por uma fonte: o caminhante refresca-se e continua o seu caminho. Numa audi\u00eancia com o Papa Paulo VI, este ter-lhe-\u00e0 dado a entender que a comunidade era uma nova Assis. Na carta de Lisboa, escrevia o irm\u00e3o Roger: \u201cDeus n\u00e3o cria o medo nem a inquietude, Deus n\u00e3o pode dar-nos sen\u00e3o o seu amor.\u201d  <i>Ant\u00f3nio Marujo<\/i> (Vers\u00e3o aumentada do texto publicado no \u201cP\u00fablico\u201d de 18 de Agosto)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um rosto luminoso e transparente, um sorriso que falava ainda antes e para l\u00e1 das palavras. Por todo o mundo, muitos milhares de pessoas &#8211; e n\u00e3o apenas crist\u00e3os &#8211; aprenderam com o irm\u00e3o Roger, de Taiz\u00e9, o significado e o valor profundo de palavras como confian\u00e7a, reconcilia\u00e7\u00e3o, esperan\u00e7a, bondade, vida simples, alegria, felicidade. 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