{"id":13857,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/reconciliacao-e-perdao-sempre\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"reconciliacao-e-perdao-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/reconciliacao-e-perdao-sempre\/","title":{"rendered":"Reconcilia\u00e7\u00e3o e perd\u00e3o, sempre"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 preciosa aos olhos de Deus, a morte dos seus amigos\u201d. Foi com estas palavras da B\u00edblia que o irm\u00e3o Fran\u00e7ois come\u00e7ou a ora\u00e7\u00e3o \u00e0 meia-noite, poucas horas depois da tr\u00e1gica morte do irm\u00e3o Roger. Nesta altura nenhum de n\u00f3s conseguia perceber ainda o que se tinha passado, e muito menos porqu\u00ea\u2026 Uma das coisas que nunca conseguiremos apagar da nossa mem\u00f3ria foi o grito de terror que cortou o sil\u00eancio da melodia, e nos colocou o cora\u00e7\u00e3o aos pulos, a tremer, e as l\u00e1grimas a deslizar, ainda sem termos a no\u00e7\u00e3o do que tinha realmente acontecido. Que acto tresloucado tinha sido aquele, que motivos poderia algu\u00e9m ter para tirar assim a vida de forma t\u00e3o desumana a um velhinho de olhos doces e sorriso de crian\u00e7a? Logo ele, que tinha dedicado toda a sua vida ao servi\u00e7o dos outros e cujo horizonte era o entendimento, o reencontro com o outro e a vida em comunh\u00e3o. N\u00e3o entendemos na altura, e agora passadas 3 semanas ainda temos dificuldades em aceitar o que se passou\u2026 No entanto, e apesar de toda a tristeza que sentimos, testemunh\u00e1mos na Igreja da Reconcilia\u00e7\u00e3o aquilo a que podemos chamar o milagre da Ressurrei\u00e7\u00e3o. No meio de uma dor dilacerante, os irm\u00e3os da comunidade continuaram a cantar \u201cLaudate Omnegentes \u201c, em ac\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as ao irm\u00e3o Roger. Naquele momento desceu sobre n\u00f3s a paz de Deus e isso confortou os nossos cora\u00e7\u00f5es. \u201cPor mais radical que seja o mal, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o profundo como a bondade\u201d. \u00c9 aqui que reside a chave de tudo. A viol\u00eancia gratuita, a viol\u00eancia cega, apenas a viol\u00eancia como express\u00e3o do mal n\u00e3o pode fazer-nos esquecer a bondade e o bem\u201d. Foi esta serenidade e for\u00e7a interior demonstrada pelos irm\u00e3os que nos abriu uma janela de esperan\u00e7a e permitiu que n\u00e3o perd\u00eassemos a confian\u00e7a em Taiz\u00e9 e tudo o que aquele lugar significa. Como disse o j\u00e1 saudoso Jo\u00e3o Paulo II: \u201d Passa-se por Taiz\u00e9 como se passa perto de uma fonte. O viajante p\u00e1ra, mata a sede e continua o seu caminho. Os irm\u00e3os da comunidade n\u00e3o querem deter-vos. Querem, na ora\u00e7\u00e3o e no sil\u00eancio, permitir-vos que bebais a \u00e1gua viva prometida por Cristo, que conhe\u00e7ais a sua alegria, que reconhe\u00e7ais a sua presen\u00e7a, que respondais ao seu chamamento, e depois que torneis a partir para dar testemunho do seu amor e servir os vossos irm\u00e3os nas vossas par\u00f3quias, nas vossas cidades e aldeias, escolas, universidades e em todos os vossos locais de trabalho\u201d. \u00c9 com esta responsabilidade que sa\u00edmos de Taiz\u00e9, com a miss\u00e3o de n\u00e3o deixar desaparecer o esp\u00edrito de Taiz\u00e9, de simplicidade e comunh\u00e3o, cultivada ao longo de d\u00e9cadas pelo irm\u00e3o Roger. Nas suas pr\u00f3prias palavras: \u201c\u00e9 preciso n\u00e3o parar no caminho\u201d. Taiz\u00e9 \u00e9, de facto, muito mais do que uma semana com os amigos, \u00e9 um s\u00edtio onde vamos continuamente buscar for\u00e7as para enfrentar as dificuldades de todos os dias e a inspira\u00e7\u00e3o para colocar os dons de Deus ao servi\u00e7o dos outros. \u00c9 uma semana de ora\u00e7\u00e3o em comunidade, que junta pessoas de tantos pa\u00edses e culturas e de fam\u00edlias crist\u00e3s diferentes e ao mesmo tempo t\u00e3o pr\u00f3ximas. Ser\u00e1 dif\u00edcil encontrarmos um outro lugar que comporte tamanha heterogenei-dade e simultaneamente seja t\u00e3o homog\u00e9neo. Vive-se assim o verdadeiro ecumenismo. Taiz\u00e9 sempre foi um lugar de confian\u00e7a, uni\u00e3o e alegria. Agora \u00e9 tamb\u00e9m um lugar de esperan\u00e7a, esperan\u00e7a de que a morte do irm\u00e3o Roger n\u00e3o tenha sido em v\u00e3o, e que o seu legado de reconcilia\u00e7\u00e3o e bondade n\u00e3o seja esquecido. N\u00e3o foi f\u00e1cil viver aquela semana em Taiz\u00e9, fomos diversas vezes assaltados por d\u00favidas, medos e em muitas ocasi\u00f5es vimos a nossa confian\u00e7a fraquejar. Nada que j\u00e1 tiv\u00e9ssemos vivido na vida nos poderia preparar para aquilo que vimos, sentimos e continuamos a sentir. De certa forma, entr\u00e1mos na Hist\u00f3ria, pois Deus deu-nos a oportunidade de testemunhar este acto hediondo, comprometendo-nos ao mesmo tempo a n\u00e3o deixar que Taiz\u00e9 seja esquecido. \u00c9 esta a nossa miss\u00e3o que temos de saber potenciar ao servi\u00e7o dos outros, na nossa comunidade. Da maneira mais dif\u00edcil, Deus deu-nos uma li\u00e7\u00e3o de humildade e entrega total a uma causa. Naquele momento vislumbramos algo parecido com o que Jesus Cristo passou. O irm\u00e3o Roger morreu, no seio da sua bem amada comunidade, em ora\u00e7\u00e3o e rodeado por muitos jovens em quem sempre depositou a sua confian\u00e7a. No seu \u00faltimo livro publicado h\u00e1 apenas um m\u00eas, diz: \u201cQuanto a mim iria at\u00e9 ao fim do mundo se pudesse faz\u00ea-lo, para afirmar e voltar a afirmar a minha confian\u00e7a nas jovens gera\u00e7\u00f5es\u201d. \u00c9 por isso que sabemos que Taiz\u00e9 n\u00e3o termina aqui. Nos nossos cora\u00e7\u00f5es e de todos aqueles que partilharam \u00e0 dist\u00e2ncia a nossa dor fica a certeza de que h\u00e1 ainda muito caminho por percorrer. E percorr\u00ea-lo-emos juntos, empenhados e iluminados pela presen\u00e7a do irm\u00e3o Roger. Deix\u00e1mos Taiz\u00e9 tranquilamente, como ali\u00e1s tent\u00e1mos viver toda a semana depois do que aconteceu. Seria assim que o irm\u00e3o Roger teria querido. Depois da sempre comovente ora\u00e7\u00e3o da luz na v\u00e9spera da nossa partida, conseguimo-nos reconciliar connosco pr\u00f3prios, com o lugar e em gestos t\u00e3o simb\u00f3licos como \u201cpassar a luz\u201d a quem est\u00e1 ao nosso lado na ora\u00e7\u00e3o, percebemos que a nossa confian\u00e7a se vai fortalecendo e que vamos ter a for\u00e7a necess\u00e1ria para enfrentar novas etapas da nossa caminhada. Nunca saberemos por que tudo isto aconteceu, mas com o passar do tempo saberemos por que quis Deus que presenci\u00e1ssemos tal coisa. O primeiro passo para podermos recome\u00e7ar \u00e9 perdoar a autora deste acto tresloucado. Foi isso mesmo que, nas palavras do irm\u00e3o Alois, fizeram os irm\u00e3os da comunidade no discurso tocante na despedida ao irm\u00e3o Roger: \u201cEm face do mal a bondade do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 uma realidade vulner\u00e1vel. Uma vez que o irm\u00e3o Roger n\u00e3o desejava que se pronunciassem muitas palavras nas igrejas, gostava de terminar com uma ora\u00e7\u00e3o.: \u201dDeus de bondade, n\u00f3s confiamos ao teu perd\u00e3o Luminita Solcan que, num acto doente, p\u00f4s fim \u00e0 vida do nosso irm\u00e3o Roger. Com Cristo sobre a cruz dizemos-te: perdoa-lhe Pai por que ela n\u00e3o sabe o que fez \u201c. \u00c9 esta a primeira li\u00e7\u00e3o que devemos retirar daqui: A li\u00e7\u00e3o da reconcilia\u00e7\u00e3o e do perd\u00e3o. O irm\u00e3o Roger estar\u00e1 sempre presente nas nossas ora\u00e7\u00f5es e pedimos que atrav\u00e9s dele tenhamos a for\u00e7a para que as nossas aspira\u00e7\u00f5es  \u00e0 paz e \u00e0 confian\u00e7a sejam como as estrelas, pequenas luzes a iluminar a noite. \u201cAtrav\u00e9s de uma ora\u00e7\u00e3o muito simples podemos pressentir que nunca estamos s\u00f3s: o Esp\u00edrito Santo \u00e9 em n\u00f3s o amparo de uma comunh\u00e3o com Deus, n\u00e3o apenas por um instante, mas at\u00e9 \u00e0 vida que n\u00e3o tem fim\u201d.  Rita Cardoso  (do Grupo de Jovens de Coimbra, presente em Taiz\u00e9)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 preciosa aos olhos de Deus, a morte dos seus amigos\u201d. Foi com estas palavras da B\u00edblia que o irm\u00e3o Fran\u00e7ois come\u00e7ou a ora\u00e7\u00e3o \u00e0 meia-noite, poucas horas depois da tr\u00e1gica morte do irm\u00e3o Roger. Nesta altura nenhum de n\u00f3s conseguia perceber ainda o que se tinha passado, e muito menos porqu\u00ea\u2026 Uma das coisas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[154,174,192,206,237,315],"class_list":["post-13857","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-crianca","tag-diocese-de-coimbra","tag-ecumenismo","tag-familia","tag-joao-paulo-ii","tag-taize"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13857","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13857"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13857\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13857"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13857"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13857"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}