{"id":138147,"date":"2019-05-26T02:38:38","date_gmt":"2019-05-26T01:38:38","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=138147"},"modified":"2019-05-26T10:56:43","modified_gmt":"2019-05-26T09:56:43","slug":"a-biblioteca-do-vaticano-e-um-local-para-frequentar-o-futuro-d-jose-tolentino-mendonca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-biblioteca-do-vaticano-e-um-local-para-frequentar-o-futuro-d-jose-tolentino-mendonca\/","title":{"rendered":"A Biblioteca do Vaticano \u00e9 um local para \u00abfrequentar o futuro\u00bb &#8211; D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em>O bibliotec\u00e1rio e arquivista da Santa S\u00e9 disse em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA como s\u00e3o os seus dias de trabalho, no Vaticano, referiu-se \u00e0 import\u00e2ncia do patrim\u00f3nio documental que est\u00e1 em 50 quil\u00f3metros de prateleiras para conhecer os saberes do cristianismo e contou como colabora com o programa deste pontificado atrav\u00e9s do trabalho das duas equipas que lidera, na Biblioteca e no Arquivo Secreto.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_138162\" aria-describedby=\"caption-attachment-138162\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/tolentino_mendonca_maio2019a.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-138162 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/tolentino_mendonca_maio2019a.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/tolentino_mendonca_maio2019a.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/tolentino_mendonca_maio2019a-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/tolentino_mendonca_maio2019a-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/tolentino_mendonca_maio2019a-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/tolentino_mendonca_maio2019a-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-138162\" class=\"wp-caption-text\">Foto Ag\u00eancia Ecclesia\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Paulo Rocha<\/em><\/p>\n<p><em>Ag\u00eancia Ecclesia \u2013 O que faz da Biblioteca Apost\u00f3lica do Vaticano um grande tesouro da humanidade?<\/em><\/p>\n<p><em>D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a (JTM) \u2013<\/em>Uma biblioteca \u00e9 uma esp\u00e9cie de grande patrim\u00f3nio, de hist\u00f3ria de fam\u00edlia, de lugar de identidade. Os livros documentam, contam uma hist\u00f3ria. A nossa hist\u00f3ria vem de longe, s\u00e3o dois mil anos de hist\u00f3ria. \u00c9 evidente que os primeir\u00edssimos documentos, hoje conservados na Biblioteca Apost\u00f3lica, s\u00e3o do final do s\u00e9culo II. Mas remontam a uma tradi\u00e7\u00e3o que pretende conservar as palavras, os ditos, os gestos do pr\u00f3prio Jesus.<\/p>\n<p>Aquela passagem de S\u00e3o Lucas que diz que Maria conservava no seu cora\u00e7\u00e3o aquilo que a Jesus dizia respeito \u2013 o esfor\u00e7o \u00e9 esse, que a Igreja sempre fez e \u00e9 um esfor\u00e7o que se liga \u00e0 Eucaristia, onde se diz \u00abFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u00bb. A conserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria foi sempre algo muito importante para as comunidades crist\u00e3s. Ao longo dos s\u00e9culos a conserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria teve formas muito diferentes. Esta, de que a Biblioteca Apost\u00f3lica do Vaticano \u00e9 diretamente herdeira, tem cinco s\u00e9culos, nasce no meio de uma grande cultura humanista, onde o interesse pela teologia e as ci\u00eancias sagradas se alia ao interesse por tudo o que \u00e9 humano. \u00c9 uma biblioteca 360\u00ba, tem uma latitude desde o saber teol\u00f3gico, \u00e0 astronomia, matem\u00e1tica, arquitetura, medicina\u2026 Tudo o que \u00e9 humano est\u00e1 dentro desta biblioteca e, neste sentido, \u00e9 um espelho muito fiel daquilo da paix\u00e3o do cristianismo pela pessoa humana e pela Hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Cada dia \u00e9 uma descoberta de um pouco da Biblioteca Apost\u00f3lica do Vaticano onde trabalha. O que lhe foi causando mais surpresa ao longo desses 50 quil\u00f3metros de prateleiras?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM \u2013<\/em>Quando cheguei era o mais novo. E ainda sou, penso&#8230; J\u00e1 admitimos mais um colaborador mas ainda sou dos mais novos. No primeiro discurso pedi a todos que me ajudassem nisto: queria tomar cada um deles como meu mestre. Desde a pessoa que est\u00e1 na portaria, ao prefeito, que todos me ajudassem a entender a Biblioteca Apost\u00f3lica. E tenho encontrado em todos um testemunho muito grande.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 S\u00e3o um tesouro a par dos livros?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM \u2013<\/em>S\u00e3o um tesouro a par dos livros. Tem-me impressionado muito a qualidade das pessoas e tem sido uma alegria muito grande poder colaborar com pessoas daquela qualidade. Os tesouros s\u00e3o, de facto, intermin\u00e1veis.<\/p>\n<p>Uma das tarefas da Biblioteca Apost\u00f3lica do Vaticano \u00e9 a cataloga\u00e7\u00e3o, estudar o pr\u00f3prio material. Isso \u00e9 uma tarefa para s\u00e9culos. \u00c9 verdade que sabemos, mais ou menos tudo, o que temos mas as rela\u00e7\u00f5es entre eles, o significado de cada um dos volumes \u00e9 verdadeiramente extraordin\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dou um exemplo para Portugal: na Biblioteca n\u00f3s temos uma quantidade muito significativa de livros de ci\u00eancias e de marinhagem, da arte de navegar, do s\u00e9culo XVI. \u00c9 evidente que, dentro do amplo patrim\u00f3nio da Biblioteca Apost\u00f3lica do Vaticano isto s\u00e3o coisas marginais. Mas, para um portugu\u00eas que percebe que aqueles livros s\u00e3o exemplares rar\u00edssimos, que aqueles livros serviram para a obra da expans\u00e3o mar\u00edtima, que foram impressos em Lisboa ou Chaves, ou em leiria, que t\u00eam nomes que est\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o e na cultura, damos imenso valor \u00e0s obras.<\/p>\n<p>Ver uma obra do Pedro Nunes, uma obra matem\u00e1tica ou ver o tratado de marinhagem, folhe\u00e1-lo ou ver o cancioneiro galaico-portugu\u00eas\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 J\u00e1 fez essa experi\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM \u2013<\/em>J\u00e1 fiz. Tenho tido a grande alegria quando l\u00e1 v\u00e3o portugueses. Vai l\u00e1 um escritor e tenho o prazer de lhe mostrar o nosso cancioneiro do Vaticano e \u00e9 maravilhoso ver a profunda emo\u00e7\u00e3o ao perceber como este interesse pelo humano e a liga\u00e7\u00e3o que a cultura permite, que \u00e9 uma liga\u00e7\u00e3o que toca at\u00e9 \u00e1 alma, est\u00e1 bem patente na Biblioteca Apost\u00f3lica do Vaticano.<\/p>\n<p>Visitou-me um antigo colaborar, j\u00e1 reformado, que me disse: \u00abPenso sobretudo que a Biblioteca \u00e9 um cart\u00e3o de visita \u00f3timo do que \u00e9 o Cristianismo ou do que \u00e9 a Igreja, para um ateu ou para um n\u00e3o crente, porque ele entra aqui e fica em sentido, fica em alerta e cheio de perguntas\u00bb.<\/p>\n<p>Uma pessoa vai \u00e0 Biblioteca e fica cheio de perguntas a pensar sobre o que \u00e9 o Cristianismo ou a Igreja. \u00c9 um projeto t\u00e3o grandioso e tocante, t\u00e3o amplo e abrangente que n\u00e3o deixa ningu\u00e9m indiferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Quem s\u00e3o as fontes da Biblioteca?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM \u2013<\/em>A Biblioteca foi-se construindo no tempo, com muitas doa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Come\u00e7ou com 150 volumes?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM \u2013<\/em>S\u00e3o um milh\u00e3o e seiscentos mil volumes impressos que temos. Adquirimos v\u00e1rios fundos de fam\u00edlia, fundos c\u00e9lebres, como da rainha Cristina da Su\u00e9cia, mas hoje continuamos a acolher. E desde sempre os Papas &#8211; o primeiro Nicolau V &#8211; s\u00e3o os grandes fornecedores, os grandes doadores e benfeitores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E foi o Papa Nicolau V que ofereceu os 150 volumes iniciais\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>JTM \u2013<\/em>Exatamente. Os Papas s\u00e3o os grandes benfeitores de uma Biblioteca que \u00e9 deles, porque, antes de tudo, \u00e9 do Papa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Tendo essa abrang\u00eancia de saber, tamb\u00e9m geogr\u00e1fica, os muitos volumes mostram o interesse, nos v\u00e1rios pontificados, por todos os saberes?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM \u2013<\/em>Isso \u00e9 muito interessante. Eu posso falar sobre os livros que tenho recebido do Papa Francisco: ele tem oferecido coisas muito pessoais, como livros de etnologia da Am\u00e9rica Latina, da Argentina, coisas lingu\u00edsticas que s\u00e3o muito preciosas para aquela zona do mundo de onde prov\u00e9m o Santo Padre. Depois, tamb\u00e9m livros que o apaixonam, ele at\u00e9 contou isso na viagem para a JMJ no Panam\u00e1: antes de partir, tinha enviado uns livros preciosos sobre Santo Ant\u00f3nio de P\u00e1dua e eu, na resposta \u00e0 oferta, disse \u201cagrade\u00e7o muito, Santidade, os livros de Santo Ant\u00f3nio de P\u00e1dua e Lisboa\u201d. Para dizer como os livros que ele oferece \u00e9 aquilo que ele considera como o mais precioso que pode estar na sua Biblioteca, refletindo muito os encontros que ele tem, aquilo que as pessoas sabem que \u00e9 o gosto dele, o que tem mais a ver com o carisma dele, e isso \u00e9 muito interessante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A Biblioteca para o Papa Francisco<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 O Papa visitou a Biblioteca poucos meses depois do seu in\u00edcio de fun\u00e7\u00f5es\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 Foi no dia 4 de dezembro (de 2018, ndr). \u00c9 verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Que encontro foi esse do Papa Francisco com a Biblioteca e que mem\u00f3ria ficou desse encontro, que oferta foi dada?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 A maior oferta foi a visita do Papa ao espa\u00e7o, foi a primeira visita de Francisco ao seu Arquivo, \u00e0 sua Biblioteca. Foi um momento de grande como\u00e7\u00e3o para todos n\u00f3s, que ali trabalhamos. Preparamos uma s\u00e9rie de objetos, andamos pelos espa\u00e7os, mostramos algumas coisas do tesouro da Biblioteca, uma das quais as moedas que aparecem citadas nos Evangelhos. Ele deteve-se, especialmente, sobre duas pequeninas moedinhas, aquelas que se diz que a vi\u00fava pobre ofereceu tudo quanto tinha ao tesouro do Templo. Jesus disse que ela ofereceu mais do que todos os outros.<\/p>\n<p>O Papa, sorrindo, disse que gostou muito de ver aquelas moedas, porque uma das suas curiosidades \u00e9, quando chegar ao C\u00e9u, conhecer aquela vi\u00fava, que \u00e9 para ele uma das personagens mais simp\u00e1ticas dos Evangelhos. Foi um encontro muito cordial, ao mesmo tempo, as palavras que o Papa nos disse foram palavras muito importantes: disse que n\u00f3s, ali, apesar de sermos uma biblioteca patrimonial, onde a dimens\u00e3o do passado e da mem\u00f3ria est\u00e1 muito presente, n\u00f3s ali temos em cada dia de frequentar o futuro. E a Biblioteca tem de estar ligada ao futuro do Cristianismo, isso para n\u00f3s foi um chamamento muito importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Bento XVI, o Papa em\u00e9rito, era um homem dos livros, do estudo, da racionalidade. O Papa Francisco parece que n\u00e3o\u2026 \u00c9 uma impress\u00e3o correta ou \u00e9 tamb\u00e9m um homem do estudo? <\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 Do Papa Bento XVI h\u00e1 at\u00e9 uma hist\u00f3ria, conhecida: a dada altura pediu ao Papa Jo\u00e3o Paulo II, quando era prefeito da Congrega\u00e7\u00e3o para a Doutrina da F\u00e9, para mudar e uma das sugest\u00f5es que fez foi de ser bibliotec\u00e1rio da Biblioteca Apost\u00f3lica. \u00c9 evidente que S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II e ele acabou por ser Papa, n\u00e3o bibliotec\u00e1rio. Isso mostra o grande afeto e a liga\u00e7\u00e3o que Bento XVI tem com o mundo dos livros.<\/p>\n<p>O Papa Francisco tem, de facto, uma rela\u00e7\u00e3o de grande afeto, de grande conhecimento, em rela\u00e7\u00e3o ao mundo dos livros. Por exemplo, quem j\u00e1 visitou Buenos Aires, na Argentina, sabe que \u00e9 mesmo assim: \u00e9 uma das capitais do mundo com mais livrarias por metro quadrado. Uma das coisas que se diz \u00e9 que cada portenho, o habitante de Buenos Aires, tem o seu psicanalista e o seu livreiro. N\u00e3o sei se o Papa tem psicanalista, mas este amor pelos livros \u00e9 muito patente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O trabalho do bibliotec\u00e1rio e arquivista da Santa S\u00e9<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 O que \u00e9 que faz num dia de trabalho o bibliotec\u00e1rio e arquivista da Santa S\u00e9?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 \u00c9 um dia de muito trabalho, de dedica\u00e7\u00e3o. Eu tenho dois governos, o da Biblioteca e o do Arquivo Secreto, que s\u00e3o duas equipas, integrando ambas com cada prefeito e vice-prefeito. Ent\u00e3o, em cada semana, h\u00e1 uma manh\u00e3 dedicada ao governo da Biblioteca e do Arquivo, onde passamos em revista os principais projetos, as quest\u00f5es, a agenda da semana, o que \u00e9 preciso fazer, as programa\u00e7\u00f5es. Uma parte da semana \u00e9 dominada por esse trabalho de equipa.<\/p>\n<p>Depois, o bibliotec\u00e1rio tem o seu gabinete pr\u00f3prio, onde vai acompanhando todas as quest\u00f5es internas que se p\u00f5em a uma grande institui\u00e7\u00e3o, como \u00e9 a Biblioteca Apost\u00f3lica do Vaticano; h\u00e1 todo o trabalho de liga\u00e7\u00e3o da Biblioteca \u00e0 C\u00faria Romana, \u00e0 Secretaria de Estado, \u00e0 pessoa do Santo Padre, e tamb\u00e9m com o exterior. Por exemplo, s\u00f3 em 2019, a Biblioteca emprestou muitos dos seus manuscritos, volumes, para dezenas de exposi\u00e7\u00f5es no mundo. At\u00e9 chegar a isso, tudo come\u00e7a com um encontro com o embaixador dessa na\u00e7\u00e3o, ou seja, todas as semanas um dos meus trabalhos \u00e9 receber um embaixador, perceber a natureza dos projetos, come\u00e7\u00e1-los, acompanhar esse interesse \u2013 muitas vezes, suscitar, aprofundar o interesse pelo nosso mundo -, dar a conhecer a Biblioteca Apost\u00f3lica, para que ela seja verdadeiramente um servi\u00e7o da Igreja Cat\u00f3lica, naquele lugar, aos milhares de estudiosos que, por ano, v\u00e3o ali estudar, mas tamb\u00e9m \u00e0quelas pessoas que nunca entraram na Biblioteca Apost\u00f3lica e que v\u00e3o ver um volume, numa exposi\u00e7\u00e3o, nos seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>\u00c9 um trabalho longo, que \u00e9 muito apaixonante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 H\u00e1 abordagens diferentes \u00e0 Biblioteca e ao Arquivo Secreto do Vaticano? H\u00e1 uma procura mais curiosa, em rela\u00e7\u00e3o a este \u00faltimo, por parte de quem visita?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 H\u00e1 muitas afinidades. De um lado, temos livros; do outro, documentos. De um lado, temos uma amplitude maior de estudiosos (um cientistas pode interessar-se por livros da Biblioteca Apost\u00f3lica, mas tamb\u00e9m um fil\u00f3logo, algu\u00e9m da literatura, um arquiteto, s\u00e3o pessoas muito diferentes), no Arquivo, n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o haja pessoas a fazer pesquisas a partir de outros pontos de vista, mas temos prevalentemente o n\u00edvel da hist\u00f3ria e da escrita da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E permanece uma curiosidade grande, a respeito do Arquivo Secreto?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM <\/em>\u2013 Imensa. E com raz\u00e3o, porque \u00e9 imposs\u00edvel, por exemplo, compreender o que \u00e9 a aventura da modernidade \u2013 porque o Arquivo tem coisas da Idade M\u00e9dia, sobretudo a grande aventura da modernidade, at\u00e9 ao presente &#8211; sem aquele Arquivo. Em particular, a hist\u00f3ria da Europa \u00e9 imposs\u00edvel. Enquanto, muitas vezes, as na\u00e7\u00f5es nem sequer t\u00eam embaixadores em todos os pa\u00edses, ou o percurso dos embaixadores fica muito dependente dos ciclos pol\u00edticos, a Santa S\u00e9 mant\u00e9m uma continuidade com os n\u00fancios, por exemplo, muito marcada. Isso quer dizer que n\u00f3s temos uma documenta\u00e7\u00e3o, um olhar muito constante, muito homog\u00e9neo ao longo dos s\u00e9culos. E temos recolhas fabulosas de informa\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o uma chave fundamental para a hist\u00f3ria, para entender n\u00e3o s\u00f3 o passado mas tamb\u00e9m o presente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O Papa Francisco decidiu abrir os arquivos relativos ao pontificado de Pio XII (1939-1958). H\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o de esclarecer qual foi o papel da Igreja Cat\u00f3lica, durante a II Guerra Mundial, sobretudo na rela\u00e7\u00e3o com o mundo judaico?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM <\/em>\u2013 O Arquivo organiza a sua abertura, n\u00e3o por anos, mas por pontificados. Por isso, n\u00f3s vamos abrir, em mar\u00e7o do pr\u00f3ximo ano, at\u00e9 1958, o outono, a altura da morte do Papa Pio XII. Ele teve um longo pontificado, num dos per\u00edodos cruciais da hist\u00f3ria contempor\u00e2nea, que tem uma riqueza muito grande.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que um momento central \u00e9 o da II Guerra Mundial, da persegui\u00e7\u00e3o aos judeus, mas h\u00e1 toda uma s\u00e9rie de quest\u00f5es, como a prepara\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II (1961-1965), que vai aparecer no pontificado seguinte, de S\u00e3o Jo\u00e3o XXIII: o clima, a rela\u00e7\u00e3o com a teologia, a aspira\u00e7\u00e3o das v\u00e1rias Igrejas, isso tudo aparece j\u00e1 no pontificado do Papa Pio XII, que \u00e9 muito rico, nomeadamente para Portugal. \u00c9 um pontificado muito interessante, quer pela quest\u00e3o de F\u00e1tima quer pela quest\u00e3o do regime pol\u00edtico, por aquilo que se vivia nas v\u00e1rias dioceses.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 uma abertura que \u00e9 muito esperada e que, certamente, atrair\u00e1 muitos historiadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Abertura dos documentos de Pio XII<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 Pio XII \u00e9 alvo de algumas acusa\u00e7\u00f5es. A abertura do Arquivo vai mostrar que n\u00e3o h\u00e1 fundamento para acusa\u00e7\u00f5es, nomeadamente a de falta de prote\u00e7\u00e3o aos judeus?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 A nossa posi\u00e7\u00e3o, no Arquivo, \u00e9 abrir os documentos. Foram 13 anos de trabalho, eu cheguei h\u00e1 meses, mas existe uma larga equipa a trabalhar todos os documentos. Eles ser\u00e3o abertos, tornados acess\u00edveis, as pessoas poder\u00e3o ler e tirar as suas conclus\u00f5es.<\/p>\n<p>Deste trabalho, digamos, de primeiro contacto com os documentos, h\u00e1 notas muito impressionantes, que s\u00e3o algumas j\u00e1 conhecidas, mas que ali ganham uma liga\u00e7\u00e3o documental muito forte. Duas delas, para referir: uma, a grande ajuda do Papa e da Santa S\u00e9 aos prisioneiros de guerra, \u00e9 um trabalho incr\u00edvel. No Arquivo Secreto temos uma quantidade de documenta\u00e7\u00e3o verdadeiramente extraordin\u00e1ria.<\/p>\n<p>Outra, que ser\u00e1 assombrosa contactar com ela, \u00e9 a dimens\u00e3o da caridade do Papa. O que o Papa Pio XII fez, em termos de caridade, \u00e9 verdadeiramente assombroso: das milhares e milhares e milhares de pessoas que escreviam ao Papa, a pedir uma ajuda, uma ajuda material, n\u00e3o houve nenhuma que n\u00e3o fosse atendida. E o registo desse trabalho, muitas vezes silencioso, que se calhar o grande p\u00fablico n\u00e3o sabia, porque \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o pessoal, que se estabelece com o Papa, \u00e9 uma coisa verdadeiramente impressionante.<\/p>\n<p>O Papa Francisco disse, quando nos recebeu e fez o an\u00fancio da abertura do Arquivo de pontificado de Pio XII, que a Igreja n\u00e3o tem medo da hist\u00f3ria. E \u00e9, no fundo, com essa atitude que o Papa decidiu abrir este pontificado, porque n\u00e3o tem medo da hist\u00f3ria e temos submeter-nos tamb\u00e9m, com humildade, ao ju\u00edzo da pr\u00f3prio hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Recentemente, numa confer\u00eancia em Lisboa, disse que uma biblioteca \u00e9 uma \u201cfarm\u00e1cia da alma\u201d. De que forma \u00e9 que, para a Igreja Cat\u00f3lica, a Biblioteca Apost\u00f3lica tem esse poder de curar?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 Essa era uma bela tradi\u00e7\u00e3o do antigo Egito. Quando os fara\u00f3s abriam bibliotecas nas partes mais remotas do reino, colocavam no p\u00f3rtico da biblioteca essa bela frase: \u201cFarm\u00e1cia da alma\u201d. Uma biblioteca \u00e9, de facto, uma farm\u00e1cia da alma: por um lado, porque uma biblioteca com a dimens\u00e3o da Biblioteca Apost\u00f3lica, d\u00e1-nos uma no\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. \u00c0s vezes n\u00f3s pensamos que um problema ou uma quest\u00e3o \u00e9 apenas do presente e lidamos com isso com o dramatismo de ser um caso \u00fanico, mas uma biblioteca d\u00e1-nos uma profundidade de olhar, mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da Igreja.<\/p>\n<p>Depois, uma biblioteca como a Biblioteca Vaticana mostra esta amplitude: o Cristianismo, digamos, n\u00e3o se interessa s\u00f3 por religi\u00e3o, interessa-se por tudo aquilo que \u00e9 humano, \u00e9 uma polifonia, n\u00e3o \u00e9 uma monodia. N\u00f3s temos ali uma diversidade polif\u00f3nica, de vozes, de estilos, de endere\u00e7os, de correspond\u00eancias, que acaba por ser uma grande riqueza.<\/p>\n<p>O Papa diz muitas vezes que o drama da Igreja, o seu pecado, \u00e9 a autorreferencialidade. Uma biblioteca desta natureza recentra a Igreja na sua miss\u00e3o fundamental: ser um servi\u00e7o, em nome de Deus, \u00e0 pessoa humana. Essa vontade de servir a humanidade, a humanidade de todos, est\u00e1 ali bem patente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ser colaborador do Papa<\/strong><\/p>\n<p><em>AE \u2013 O Papa quis que D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a fosse o bibliotec\u00e1rio e arquivista da Santa S\u00e9, neste momento. \u00c9 para fazer com que a Biblioteca do Vaticano tenha esse poder curativo, tamb\u00e9m no processo de renova\u00e7\u00e3o em curso, que seja inspiradora para esse processo?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 A Biblioteca \u00e9 um tesouro, por si, \u00e9 um patrim\u00f3nio por si s\u00f3. Poder servi\u00e7o esse tesouro e, sem d\u00favida, coloca-lo em sintonia com as linhas-mestras deste pontificado, \u00e9 o trabalho do bibliotec\u00e1rio, com \u00e9 o trabalho de qualquer respons\u00e1vel de uma congrega\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o o governo do Papa para a Igreja universal. Ou seja, expressar nos diversos minist\u00e9rios o que \u00e9 o pensamento deste pontificado. N\u00f3s queremos faz\u00ea-lo ali, tamb\u00e9m de forma humilde, na Biblioteca e no Arquivo, colocando-os como express\u00e3o daquilo que \u00e9 o des\u00edgnio e o programa deste pontificado, que tem sido uma verdadeira primavera para a Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Acontece tudo isso a partir de um perfil, de uma marca de ser de D. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, que \u00e9 sempre de di\u00e1logo com outros saberes, de pontes com outras culturas\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 Ali na Biblioteca \u00e9 muito dif\u00edcil ter outro perfil, porque a Biblioteca por sua natureza \u00e9 dial\u00f3gica, \u00e9 um lugar de di\u00e1logos. De certa, o trabalho de pol\u00edtica cultural \u00e9 suscitar encontros. Para mim, s\u00e3o \u00e1guas que me s\u00e3o muito familiares, de certa forma a minha vida preparou-me para este desafio, muito inesperado, muito surpreendente, que o Papa Francisco me colocou. Sinto tamb\u00e9m que estou a aprender muito, neste lugar, que tamb\u00e9m me desafia muito, me inspira a ir mais longe.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Sente tamb\u00e9m que um dos desafios \u00e9 esta pr\u00f3ximo do Papa, aconselhar o Papa neste setor?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM<\/em>\u2013 Estou completamente ao servi\u00e7o dele, a Biblioteca \u00e9 dele, o Arquivo \u00e9 dele, no fundo tudo aquilo que fazemos \u00e9 para colaborar com ele. Isso \u00e9 muito bonito de ver, porque, no esp\u00edrito de todos n\u00f3s, as duas comunidades que trabalham diariamente nestas institui\u00e7\u00f5es, h\u00e1 esse servi\u00e7o: n\u00f3s somos colaboradores do Papa. Isso d\u00e1 um sentido \u00e0 nossa miss\u00e3o, que n\u00e3o teria se fosse s\u00f3 um projeto individual. Mas, mais importante at\u00e9 do que esta pessoa ou aquela, \u00e9 estarmos todos juntos a colaborar para que o Papa possa governar a Igreja e ser a figura de Pedro, hoje.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O bibliotec\u00e1rio e arquivista da Santa S\u00e9 disse em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA como s\u00e3o os seus dias de trabalho, no Vaticano, referiu-se \u00e0 import\u00e2ncia do patrim\u00f3nio documental que est\u00e1 em 50 quil\u00f3metros de prateleiras para conhecer os saberes do cristianismo e contou como colabora com o programa deste pontificado atrav\u00e9s do trabalho das duas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":138163,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[225,297],"class_list":["post-138147","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-igreja-cultura","tag-santa-se"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138147","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=138147"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/138147\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/138163"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=138147"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=138147"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=138147"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}