{"id":13801,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-igreja-na-cidade\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-igreja-na-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-igreja-na-cidade\/","title":{"rendered":"A Igreja na Cidade"},"content":{"rendered":"<p>Carta Pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. Jos\u00e9 Policarpo <!--more--> <b>I \u2013 A IGREJA E A CIDADE<\/b> \t1. A \u201cmiss\u00e3o na cidade\u201d situa-se no contexto das rela\u00e7\u00f5es da Igreja com a Cidade. Sendo express\u00e3o da sua obedi\u00eancia a Jesus Cristo, Seu Senhor, o an\u00fancio do Evangelho \u00e9 uma express\u00e3o do amor da Igreja por todos os homens e mulheres que sofrem e lutam para edificar uma sociedade de rosto humano. A Igreja evangeliza porque est\u00e1 convencida de que o an\u00fancio de Jesus Cristo \u00e9 o an\u00fancio da esperan\u00e7a, e que a f\u00e9 introduz na realidade humana uma for\u00e7a que potencia quanto de bom existe no cora\u00e7\u00e3o humano, para a edifica\u00e7\u00e3o de uma cidade justa e fraterna. \t\u00c9 bom esclarecer, desde o in\u00edcio, o sentido em que usamos as palavras \u201cIgreja\u201d e \u201cCidade\u201d. Por Igreja entendemos toda a comunidade dos crentes, que entraram nela pelo baptismo e se re\u00fanem ao domingo para celebrar o memorial da P\u00e1scoa de Jesus. Se o baptismo consagra o crente, unindo a sua vida \u00e0 de Cristo ressuscitado, a celebra\u00e7\u00e3o dominical sublinha e afirma a visibilidade hist\u00f3rica e social da Igreja. Na linguagem corrente h\u00e1 tend\u00eancia simplificadora de falar da Igreja referindo-se apenas \u00e0 sua Hierarquia. Quando for esse o sentido das nossas afirma\u00e7\u00f5es, referi-lo-emos explicitamente. Em geral falaremos da Igreja como Povo de Deus, totalidade dos fi\u00e9is, verdadeiro sujeito social da miss\u00e3o e da presen\u00e7a da Igreja na cidade. \tA Igreja \u00e9 uma realidade complexa, que dificilmente se compreende a partir da simples observa\u00e7\u00e3o exterior. Aproximamo-nos mais da percep\u00e7\u00e3o da sua realidade atrav\u00e9s da viv\u00eancia dos crist\u00e3os, que s\u00e3o chamados a fazer das suas ac\u00e7\u00f5es o reflexo do mist\u00e9rio em que acreditam. A dimens\u00e3o mais decisiva e fundamental da realidade da Igreja \u00e9 invis\u00edvel, silenciosa, guardada e sentida no mais \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o humano. A uni\u00e3o vital a Jesus Cristo, que est\u00e1 vivo na Sua Igreja e a participa\u00e7\u00e3o na comunh\u00e3o de vida e de amor das pr\u00f3prias pessoas divinas, o Pai, o Filho Jesus Cristo e o Esp\u00edrito Santo, s\u00e3o dimens\u00f5es decisivas na vida crist\u00e3, que s\u00f3 se adivinham e pressentem no reflexo que t\u00eam na vida dos crist\u00e3os. Mas, por outro lado, devido \u00e0 for\u00e7a comunit\u00e1ria da sua express\u00e3o, a Igreja tem uma forte visibilidade hist\u00f3rica e social, \u201c\u00e9 t\u00e3o vis\u00edvel como a Rep\u00fablica de Veneza\u201d, dizia S\u00e3o Roberto de Belarmino. \u00c9 verdadeiramente uma comunidade vis\u00edvel, estruturada e hierarquizada; \u00e9 vis\u00edvel no seu n\u00famero, na for\u00e7a da comunidade reunida, na express\u00e3o da sua f\u00e9 na cidade, na maneira como se organiza para a miss\u00e3o. Na sua visibilidade, ela interpenetra-se e interpela a cidade. \tA for\u00e7a da Igreja reside na unidade entre esta visibilidade e a sua dimens\u00e3o misteriosa e invis\u00edvel. Tamb\u00e9m aqui ela imita Jesus Cristo, Seu Senhor, que na visibilidade da Sua natureza humana nos torna presente o mist\u00e9rio insond\u00e1vel do mist\u00e9rio de Deus . Ali\u00e1s acontece algo de semelhante com o homem, que exprime a dimens\u00e3o espiritual que o define e distingue, atrav\u00e9s da sua corporeidade. Um corpo sem alma n\u00e3o \u00e9 humano. Esta variada riqueza da realidade da Igreja est\u00e1 toda presente na sua presen\u00e7a e ac\u00e7\u00e3o na Cidade.  \t2. Damos \u00e0 palavra Cidade o sentido abrangente de comunidade humana, quase sin\u00f3nimo de sociedade, que encontra nas cidades a sua concretiza\u00e7\u00e3o estruturada e paradigm\u00e1tica. O homem \u00e9 um ser social, chamado a conviver. A cidade \u00e9 o lugar da conviv\u00eancia dos homens, onde nenhum ser humano pode viver a sua vida desligado da vida dos seus irm\u00e3os. Edificar a cidade \u00e9 encontrar a converg\u00eancia e a harmonia entre o bem pessoal e o bem comum. Viver na cidade \u00e9 sinal de conviv\u00eancia e corresponsabilidade. A cidade \u00e9 o rosto vis\u00edvel da comunidade humana, onde cada homem \u00e9 respons\u00e1vel pelos outros homens. \tAo falar de Igreja na Cidade, olhamos particularmente para a nossa cidade de Lisboa, para todas as cidades da nossa diocese, a quem queremos proclamar o Evangelho da esperan\u00e7a. Mas o que dissermos aplica-se \u00e0 miss\u00e3o da Igreja na sociedade, vista como um todo, pois nenhuma cidade se pode isolar da sociedade mais vasta em que est\u00e1 inserida.  <b>A Igreja faz parte da Cidade<\/b> \t3. A express\u00e3o \u201cmiss\u00e3o na cidade\u201d n\u00e3o pode ser entendida no sentido dos mission\u00e1rios que v\u00eaem de longe anunciar o Evangelho \u00e0 cidade, como Jonas foi enviado a Ninive ou como S\u00e3o Francisco Xavier que percorreu todo o Oriente a proclamar, pela primeira vez, o Evangelho de Jesus Cristo. N\u00e3o. Entre n\u00f3s, a Igreja est\u00e1 na cidade, ela faz parte da cidade, da sua hist\u00f3ria, das suas mais enraizadas tradi\u00e7\u00f5es, da sua cultura; \u00e9 inspiradora dos valores que prossegue. Entre a Igreja e a nossa cidade h\u00e1 um longo caminho percorrido em conjunto e queremos continuar a percorr\u00ea-lo, para que seja mais humana, justa e acolhedora. \tA Igreja na sua fisionomia de Povo de crentes e na sua estrutura\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, apresenta-se com a visibilidade de uma cidade, a Cidade de Deus, lhe chamou Santo Agostinho. Mas isso n\u00e3o a separa, nem isola, da cidade dos homens. Quando muito diremos, com o Conc\u00edlio Vaticano II, que o crist\u00e3o \u00e9 cidad\u00e3o de duas cidades. Os valores de comunh\u00e3o e de fraternidade que devem caracterizar a Igreja como comunidade, s\u00e3o os mesmos valores com que os crist\u00e3os devem contribuir para o progresso da cidade dos homens. \u00c9 por isso que todo o esfor\u00e7o para construir uma sociedade mais fraterna e mais digna do homem, \u00e9 miss\u00e3o dos crist\u00e3os e pode ser express\u00e3o da sua f\u00e9. E o seu reconhecimento na cidade passa tamb\u00e9m pela evid\u00eancia do seu contributo espec\u00edfico para o bem comum, quando se torna claro que a sua f\u00e9 e o dinamismo que dela brota, se transformam em mais valia para a cidade. \tA f\u00e9 crist\u00e3 inspira uma maneira de viver, fundamentada na dimens\u00e3o teologal de participa\u00e7\u00e3o na \u201cvida nova\u201d de Cristo ressuscitado, que deve exprimir-se em todas as dimens\u00f5es do exerc\u00edcio da liberdade, pessoais e sociais. Foi para a liberdade que Cristo vos libertou, escreveu S\u00e3o Paulo aos crist\u00e3os de Roma (cf. VI, 6). \u00c9 no concreto das op\u00e7\u00f5es e das reac\u00e7\u00f5es que o crist\u00e3o \u00e9 chamado a exprimir a novidade vital da sua f\u00e9. A experi\u00eancia religiosa n\u00e3o isola o crist\u00e3o num reduto m\u00edstico que o separa da cidade dos homens. \u00c9 a\u00ed que ele \u00e9 chamado a testemunhar a esperan\u00e7a. O crist\u00e3o n\u00e3o deve fugir da cidade, mesmo quando \u00e9 incompreendido ou mesmo perseguido. E essa \u00e9 a verdadeira \u201cmiss\u00e3o na cidade\u201d: ir anunciando, pelo testemunho de uma exist\u00eancia coerente com a f\u00e9, a novidade libertadora do Evangelho de Jesus Cristo. \u00c9 algo de permanente, que faz parte intr\u00ednseca da miss\u00e3o da Igreja no mundo. Talvez a galopante laiciza\u00e7\u00e3o da nossa sociedade encontre tamb\u00e9m a sua causa nessa falta de testemunho vivo dos crist\u00e3os na cidade. Esconder-se, atemorizados pela dificuldade das circunst\u00e2ncias, ou n\u00e3o perceber que o concreto da vida \u00e9 campo de express\u00e3o da f\u00e9, \u00e9, no fundo, abandonar a cidade.   <b>II \u2013 A NOSSA CIDADE<\/b>  \t4. A miss\u00e3o da Igreja na cidade exige que se conhe\u00e7am as grandes coordenadas da sua problem\u00e1tica humana. As cidades, enquanto grandes aglomerados de popula\u00e7\u00f5es, deveriam ser espa\u00e7o de encontro e de converg\u00eancia, de solidariedade e de partilha da vida, numa palavra, espa\u00e7os abertos \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de comunidades. Esta dimens\u00e3o humana \u00e9 a que mais interpela a Igreja, pois \u00e9 \u00e0s pessoas que ela \u00e9 enviada para as ajudar a serem felizes, construindo, em comunidade, a consci\u00eancia da sua dignidade e o espa\u00e7o da sua liberdade. Como os pr\u00f3prios cientistas reconhecem, esta vis\u00e3o humanista da cidade est\u00e1 por desenvolver e tem sido esquecida no tra\u00e7ar das pol\u00edticas e no gizar de solu\u00e7\u00f5es para a cidade. E, no entanto, ela \u00e9 decisiva para garantir o rosto humano das cidades, concebidas como espa\u00e7o de conviv\u00eancia entre pessoas. A miss\u00e3o da Igreja leva necessariamente \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o de comunidades, enraizadas no mandamento crist\u00e3o do amor fraterno, particularmente atentas aos mais isolados e distantes desse calor da comunh\u00e3o, abertas e acolhedoras de todos os que buscam a partilha fraterna, anunciando-lhes o ideal da comunh\u00e3o crist\u00e3. A miss\u00e3o da Igreja, enquanto dinamismo comunit\u00e1rio, pode ser decisiva na edifica\u00e7\u00e3o de uma cidade de rosto humano. \tEstamos conscientes de que os problemas da sociedade global se espelham na problem\u00e1tica das grandes cidades, n\u00e3o apenas devido ao fen\u00f3meno da \u201curbaniza\u00e7\u00e3o\u201d progressiva das popula\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m porque elas se tornam p\u00f3los de influ\u00eancia no todo da popula\u00e7\u00e3o, por serem centros de decis\u00e3o do poder pol\u00edtico, da actividade econ\u00f3mica e financeira, da express\u00e3o cultural. Ao falarmos da cidade n\u00e3o deixamos de parte o resto da diocese, pois Lisboa \u00e9, hoje, uma realidade envolvente, composta por cidades e bairros perif\u00e9ricos que marcam o ritmo de toda a popula\u00e7\u00e3o.  <B>A alma de Lisboa<\/b> \t5. Lisboa tem alma pr\u00f3pria, que lhe define a sua identidade cultural, e que tem de ser tomada em conta neste projecto de evangeliza\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque as componentes dessa identidade cultural, ou t\u00eam origem no cristianismo, ou s\u00e3o convergentes com ele, constituindo aberturas ao an\u00fancio do Evangelho. \tLisboa nasceu abra\u00e7ada pelo rio. Segundo uma tradi\u00e7\u00e3o remota, Lisboa veio do mar. Aqueles que a fundaram deixaram-se cativar pelo car\u00e1cter acolhedor do estu\u00e1rio do Tejo. A alma de Lisboa \u00e9 incompreens\u00edvel sem a sua rela\u00e7\u00e3o com o rio, que a abre ao horizonte largo do Oceano, desafio de aventura e de universalidade. Do mar vieram os cruzados e as rel\u00edquias de S\u00e3o Vicente; ao Tejo chegaram, certamente, os primeiros evangelizadores, mercadores ou soldados; do Tejo partiram as caravelas, abrindo Lisboa \u00e0 universalidade. \tNa defini\u00e7\u00e3o desta alma de Lisboa ressalta a sua identidade crist\u00e3, que nem o terramoto soterrou, vis\u00edvel nas torres e fachadas das Igrejas, elementos estruturantes do tecido urbano, na beleza do patrim\u00f3nio art\u00edstico religioso que, sem deixar de encher as Igrejas, foi suficiente para enriquecer museus. E como n\u00e3o reconhecer a alma de Lisboa nas grandes tradi\u00e7\u00f5es culturais de natureza religiosa: a prociss\u00e3o da Senhora da Sa\u00fade, de Santo Ant\u00f3nio, do Corpo de Deus? \tLongamente dominada por mu\u00e7ulmanos, nela sempre habitaram crist\u00e3os e judeus, numa experi\u00eancia \u00fanica de conviv\u00eancia e toler\u00e2ncia. Esta tem de continuar a ser uma nota constitutiva da fisionomia cultural de Lisboa, na imensa variedade da sua popula\u00e7\u00e3o actual. S\u00f3 assim se vencer\u00e1 a dificuldade de muitas metr\u00f3poles contempor\u00e2neas: a fragmenta\u00e7\u00e3o em estratos populacionais, incomunic\u00e1veis entre si, anulando aquele que deveria ser o elemento definidor de uma cidade, a comunica\u00e7\u00e3o e inter-ac\u00e7\u00e3o entre as pessoas, as fam\u00edlias, os diversos grupos populacionais. A Igreja, enquanto fen\u00f3meno de comunh\u00e3o, tem de se assumir como proposta de solu\u00e7\u00e3o para este problema. S\u00f3 assim se revitalizar\u00e1 a vertente crist\u00e3 da alma de Lisboa.  <b>A popula\u00e7\u00e3o de Lisboa<\/b> \t6. Lisboa, com atraso em rela\u00e7\u00e3o a id\u00eantico fen\u00f3meno nas grandes metr\u00f3poles europeias, encontrou na imigra\u00e7\u00e3o do campo para a cidade o elemento principal da renova\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica. Ainda hoje, sobretudo nos bairros perif\u00e9ricos, identificamos as popula\u00e7\u00f5es pela zona do pa\u00eds de onde procedem, o que tem as suas consequ\u00eancias na express\u00e3o comunit\u00e1ria das par\u00f3quias, devido \u00e0 variedade dos comportamentos religiosos de Norte a Sul do pa\u00eds. Hoje pode dizer-se que a renova\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica de Lisboa depende, em grande parte, do \u201csaldo fisiol\u00f3gico\u201d, isto \u00e9, o equil\u00edbrio dos factores mortalidade e natalidade. Este elemento tem, hoje, de ser completado com outros fen\u00f3menos, tais como a imigra\u00e7\u00e3o de outros povos, a mobilidade das popula\u00e7\u00f5es actuais e a perman\u00eancia, ainda que em menor grau, da imigra\u00e7\u00e3o procedente de outras zonas do pa\u00eds. \tO tecido demogr\u00e1fico acarreta consigo outras caracter\u00edsticas da popula\u00e7\u00e3o, com particular incid\u00eancia na evangeliza\u00e7\u00e3o e na miss\u00e3o da Igreja. Refiro, a t\u00edtulo de exemplo: a diferen\u00e7a entre a popula\u00e7\u00e3o de origem lisboeta e os grupos populacionais de outras proced\u00eancias \u00e9tnicas ou regionais; a pluralidade cultural e religiosa, de certo modo uma novidade na fisionomia de Lisboa, a desafiar \u00e0 toler\u00e2ncia e ao di\u00e1logo entre culturas e tradi\u00e7\u00f5es religiosas. A tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica continua a ser maiorit\u00e1ria, mas fragilizada na sua capacidade de influ\u00eancia pelo grande n\u00famero de habitantes que n\u00e3o vivem, no concreto da experi\u00eancia, a f\u00e9 religiosa com que ainda se identificam. Temos de perceber em que medida esta \u201cn\u00e3o-pr\u00e1tica\u201d de um t\u00e3o grande grupo de cat\u00f3licos, \u00e9 uma facilidade ou uma dificuldade para a proposta evangelizadora. Nota-se, nesse grupo, a tend\u00eancia de avaliar a import\u00e2ncia da Igreja pela sua interven\u00e7\u00e3o social e de considerar que todas as religi\u00f5es s\u00e3o iguais. A descoberta da especificidade crist\u00e3 tem de constituir objectivo preciso da miss\u00e3o evangelizadora da Igreja. \tTendo em conta a sua variedade plural, h\u00e1 outras caracter\u00edsticas da popula\u00e7\u00e3o de Lisboa, com incid\u00eancias especiais na miss\u00e3o da Igreja, que vale a pena referir aqui, ainda que sucintamente.  <b>A mobilidade<\/b> \t7. Trata-se de uma caracter\u00edstica das grandes cidades, em evolu\u00e7\u00e3o crescente desde h\u00e1 dois s\u00e9culos, mas que deu um salto qualitativo com a civiliza\u00e7\u00e3o do autom\u00f3vel e o alargamento da rede de transportes p\u00fablicos. Tudo isto provocou altera\u00e7\u00f5es sucessivas na concep\u00e7\u00e3o das cidades e na vida das popula\u00e7\u00f5es. A cidade passou a organizar-se a partir das exig\u00eancias dos transportes, e n\u00e3o das pessoas. Os chamados \u201cpe\u00f5es\u201d perderam espa\u00e7o nas grandes cidades, que privilegiaram a desloca\u00e7\u00e3o, de casa para o trabalho, da periferia para o centro e vice-versa, na busca dos m\u00faltiplos centros de interesse das pessoas e das fam\u00edlias, que parecem passageiros em tr\u00e2nsito. \tA mobilidade introduz altera\u00e7\u00f5es profundas na compreens\u00e3o da vida. Antes de mais na defini\u00e7\u00e3o do \u201ctempo humano\u201d, isto \u00e9, a rela\u00e7\u00e3o da vida com a ocupa\u00e7\u00e3o do tempo, ou o tempo concebido como espa\u00e7o para a vida. \u201cPassageiros em tr\u00e2nsito\u201d, n\u00e3o t\u00eam tempo para a leitura, para o conv\u00edvio, para a ora\u00e7\u00e3o e vida religiosa, para o lazer que passa a ser, apenas, e quando o \u00e9, mais um n\u00famero de um programa sobrecarregado. O cristianismo introduz na vida uma dimens\u00e3o contemplativa, o que sup\u00f5e um tempo humano mais pacificador. H\u00e1 dimens\u00f5es essenciais da felicidade humana que, para n\u00e3o as perder, \u00e9 preciso lutar contra o boli\u00e7o da cidade. A Igreja n\u00e3o se pode deixar arrastar para essa voragem do \u201ctempo-sem-tempo\u201d, e oferecer \u00e0s pessoas o espa\u00e7o-tempo da tranquilidade e da paz. \tUma outra consequ\u00eancia da mobilidade nas grandes cidades \u00e9 a relativiza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio como elemento principal da defini\u00e7\u00e3o do \u201csentido de perten\u00e7a\u201d. A cidade est\u00e1 organizada numa base cultural, que se concretiza nos procedimentos e nas leis, segundo a qual a pessoa pertence ao s\u00edtio onde vive. Pertence-se \u00e0 par\u00f3quia-freguesia da sua resid\u00eancia; a\u00ed se vota, a\u00ed se p\u00f5em os filhos na escola-p\u00fablica e a partir desse dado territorial se define o hospital ou centro de sa\u00fade a que se tem acesso, etc. Ora, na cidade marcada pela mobilidade, surgem novos crit\u00e9rios de perten\u00e7a: a comunidade que se elegeu, o grupo a que se pertence, o lugar onde se trabalha, as pr\u00e1ticas de lazer que se cultivam. O cidad\u00e3o da cidade moderna define a sua vida num sistema de \u201cmulti-perten\u00e7a\u201d, que se relativiza e at\u00e9 choca com o sentido de perten\u00e7a definido a partir do territ\u00f3rio. \tNo que \u00e0 cidade de Lisboa diz respeito, e em termos de organiza\u00e7\u00e3o da Igreja, este dado faz-se sentir no sentido de perten\u00e7a a movimentos e comunidades crist\u00e3s que n\u00e3o s\u00e3o as do territ\u00f3rio onde se vive, o que exige uma reflex\u00e3o s\u00e9ria e criativa sobre a par\u00f3quia urbana e a rela\u00e7\u00e3o com ela de outras realidades comunit\u00e1rias, tais como os movimentos eclesiais e as comunidades que se formam \u00e0 volta de um elemento comum congregador, como o podem ser uma escola cat\u00f3lica ou um projecto de interven\u00e7\u00e3o social.  <b>A cidade silenciosa e esquecida<\/b> \t8. Quando procuramos tipificar a popula\u00e7\u00e3o de Lisboa, n\u00e3o podemos ignorar um estrato numeroso dessa popula\u00e7\u00e3o: os idosos, os que vivem sozinhos, os pobres. Eles ocupam um lugar privilegiado no cora\u00e7\u00e3o da Igreja. \u00c9 urgente aperfei\u00e7oar os conhecimentos de defini\u00e7\u00e3o, quantitativa e qualitativa, desta popula\u00e7\u00e3o, para melhor estruturar formas de presen\u00e7a fraterna e de inclus\u00e3o social. A Igreja, com uma forte presen\u00e7a organizada nas estruturas de apoio assistencial, pode ser, para muitos deles, a porta da esperan\u00e7a. A palavra que anuncia o Evangelho tem de ser, junto desta popula\u00e7\u00e3o, acompanhada do testemunho da ternura que liberta e ajuda cada um a sentir-se pessoa. E a\u00ed ganha relev\u00e2ncia a comunidade local, porque a caridade fraterna \u00e9 tamb\u00e9m exerc\u00edcio de vizinhan\u00e7a.  <b>A cidade temida e evitada<\/b> \tA adensar a complexidade da nossa cidade, surgem aqueles bairros que muitos evitam e alguns temem, porque intuem a poss\u00edvel rela\u00e7\u00e3o existente entre eles e a inseguran\u00e7a urbana. S\u00e3o, frequentemente, marcados por dimens\u00f5es como as minorias \u00e9tnicas, os migrantes clandestinos, a economia paralela, a marginalidade social. A Igreja tem j\u00e1 uma presen\u00e7a viva e estruturada em todos eles e aparece como a institui\u00e7\u00e3o mais respeitada. Em alguns deles, a ac\u00e7\u00e3o da Igreja foi o ponto de partida da sua evolu\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o social. Mas isso n\u00e3o significa que n\u00e3o continuem a representar, para a Igreja, um grande desafio pastoral, inventando formas sempre novas de p\u00f4r em pr\u00e1tica aquilo a que Jo\u00e3o Paulo II chamou \u201ca fantasia da caridade\u201d. Temos consci\u00eancia de que a prioridade est\u00e1 em desenvolver ac\u00e7\u00f5es e pedagogias envolventes que levem os habitantes desses bairros a sentir-se pessoas, a conviverem com toda a restante popula\u00e7\u00e3o na mesma cidade, da qual n\u00e3o se devem sentir exclu\u00eddos e ningu\u00e9m os deveria excluir. \tPerante estes estratos de popula\u00e7\u00e3o mais problem\u00e1ticos, a Igreja est\u00e1 disposta a inter-agir, em converg\u00eancia de colabora\u00e7\u00e3o, com outras entidades, p\u00fablicas e privadas.   <b>III \u2013 A IGREJA ENVIADA \u00c0 CIDADE<\/b> \t9. \u00c9 a esta cidade concreta que a Igreja \u00e9 hoje enviada, anunciando a esperan\u00e7a que brota da mensagem evang\u00e9lica. A miss\u00e3o da Igreja na cidade \u00e9 uma realidade permanente, porque a Igreja partilha a vida, as tristezas e alegrias, os problemas e as esperan\u00e7as da cidade. A miss\u00e3o evangelizadora da Igreja deve sempre harmonizar a dimens\u00e3o perene da perspectiva evang\u00e9lica da vida e da hist\u00f3ria, com as respostas, situadas no tempo, aos problemas actuais da comunidade. Trata-se de ler o Evangelho de sempre, como Palavra de Jesus Cristo, vivo na Sua Igreja, discernindo e interpretando os \u201csinais dos tempos\u201d, isto \u00e9, captando as incid\u00eancias entre o Evangelho e a vida concreta dos homens, em cada momento e em cada tempo. O Congresso Internacional para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, procura essa s\u00edntese: anunciar a verdade perene, o Evangelho de Jesus Cristo, n\u00e3o de forma abstracta, mas como mensagem dirigida a homens concretos, num tempo concreto. Isso exige dos evangelizadores uma dupla experi\u00eancia: de contacto profundo com Jesus Cristo vivo e com a Sua Palavra e de empenhamento generoso na vida dos homens. \u00c9 uma dupla paix\u00e3o, que \u00e9 afinal a mesma, porque a paix\u00e3o de Jesus Cristo \u00e9 o homem. Quanto mais o conhecemos e amamos, mais nos sentimos enviados por Ele para o amor dos homens. Esta dupla experi\u00eancia tem de constituir a atitude permanente duma Igreja que se assume como enviada e h\u00e1-de aprofundar-se no Congresso, constituindo a sua principal consequ\u00eancia, a exigir continuidade e radicalidade.  <b>Lisboa ainda \u00e9 uma cidade crist\u00e3?<\/b> \t10. Um estudo recente, referido na imprensa di\u00e1ria, situava a Pol\u00f3nia e Portugal como os pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia onde a f\u00e9 religiosa, concretamente a f\u00e9 em Deus, tem uma maior express\u00e3o. Isso leva-nos a tentar enunciar, ainda que de forma resumida e gen\u00e9rica, as principais atitudes que definem a popula\u00e7\u00e3o de Lisboa do ponto de vista da f\u00e9 religiosa. \u00b7\tOs chamados cat\u00f3licos praticantes, aqueles que, por f\u00e9 esclarecida ou simples tradi\u00e7\u00e3o religiosa, se re\u00fanem ao domingo para celebrar a Eucaristia. Esta \u00e9, desde os primeiros s\u00e9culos, a afirma\u00e7\u00e3o principal da perten\u00e7a \u00e0 Igreja e da f\u00e9 em Cristo ressuscitado. Ali\u00e1s a Igreja re\u00fane-se ao domingo (Dies Domini), porque \u00e9 o dia em que Cristo ressuscitou dos mortos. Toda a evangeliza\u00e7\u00e3o deve conduzir a esta valoriza\u00e7\u00e3o do domingo, dia em que a Igreja se reconhece e se assume como comunidade pascal. Quando os baptizados n\u00e3o fazem, espontaneamente, da reuni\u00e3o dominical a principal express\u00e3o da sua f\u00e9 e da sua identidade crist\u00e3, ainda n\u00e3o assumiram um verdadeiro sentido de perten\u00e7a \u00e0 Igreja. A valoriza\u00e7\u00e3o da liturgia dominical, em profundidade e beleza, torna-se elemento decisivo para o crescimento da f\u00e9 das comunidades. Na Diocese de Lisboa, aqueles que se re\u00fanem ao domingo s\u00e3o cerca de 12% da popula\u00e7\u00e3o total, quando os contamos num domingo em concreto. Quando interrogamos amostragens da popula\u00e7\u00e3o, com o m\u00e9todo da sondagem, sobe a percentagem dos que se declaram \u201cpraticantes\u201d, o que revela uma atitude que se vai acentuando: muitos crist\u00e3os, mesmo indo habitualmente \u00e0 missa dominical, n\u00e3o v\u00e3o todos os domingos, sem deixarem por isso, de se considerar praticantes. Esta atitude denuncia a relativiza\u00e7\u00e3o progressiva do \u201cpreceito\u201d da obrigatoriedade da missa dominical. Este dado n\u00e3o pode ser descurado na pastoral evangelizadora, pois toda ela deve levar os crist\u00e3os baptizados a assumirem a sua perten\u00e7a \u00e0 Igreja e a reconhecer na Eucaristia dominical a sua principal express\u00e3o. Em todo o caso, \u00e9 preciso reconhecer que as assembleias dominicais s\u00e3o a principal express\u00e3o da visibilidade da Igreja na cidade e o ponto de partida para a irradia\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o. \u00b7\tOs baptizados \u201cn\u00e3o praticantes\u201d. \u00c9 um grupo significativo da nossa popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 um fen\u00f3meno que se deve a v\u00e1rios factores: o h\u00e1bito, ainda generalizado, de pedir o baptismo para as crian\u00e7as; a fragiliza\u00e7\u00e3o progressiva da fam\u00edlia como primeira comunidade transmissora da f\u00e9; uma catequese de inf\u00e2ncia, onde incidem todas as dificuldades sociol\u00f3gicas da fam\u00edlia, mais concebida como aprendizagem de uma doutrina e n\u00e3o tanto como processo de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 vida crist\u00e3 e que se revelou, muitas vezes, incapaz de fidelizar, num sentido de perten\u00e7a \u00e0 Igreja; a evolu\u00e7\u00e3o do sentido do dever da pr\u00e1tica religiosa, que desliza das condicionantes culturais e sociais, para uma op\u00e7\u00e3o pessoal, consciente e livre; o ambiente cultural envolvente, marcado pelo naturalismo. Este grupo deve constituir o alvo privilegiado da \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d, porque guarda uma atitude crente fundamental, muitos contactam ainda a Igreja em momentos particularmente significativos da vida, como o s\u00e3o o nascimento, o casamento, a morte e outros momentos de afli\u00e7\u00e3o. E tamb\u00e9m porque o baptismo \u00e9 sempre uma semente de vida sobrenatural da f\u00e9, apta a germinar desde que o m\u00ednimo de circunst\u00e2ncias lhe sejam prop\u00edcias. A ac\u00e7\u00e3o pastoral junto destes \u201ccrist\u00e3os esquecidos\u201d, exige da Igreja uma reflex\u00e3o criativa sobre atitudes e m\u00e9todos. A evangeliza\u00e7\u00e3o tem de privilegiar o primeiro an\u00fancio querigm\u00e1tico, em que se valorize o acolhimento como momento desse an\u00fancio. A catequese tem de se afirmar como caminhada de inicia\u00e7\u00e3o catecumenal e a administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos que ainda solicitam \u00e0 Igreja tem de se enquadrar numa proposta de evangeliza\u00e7\u00e3o. A Igreja n\u00e3o nega sacramentos, mas tem o direito e o dever de ajudar a criar as atitudes de f\u00e9 que permitam receb\u00ea-los com fruto. \u00b7\tOs ateus e os agn\u00f3sticos. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil quantificar este grupo. Enquanto o ate\u00edsmo \u00e9, normalmente, uma atitude fundamentada racionalmente, o agnosticismo apresenta-se como um n\u00e3o tomar posi\u00e7\u00e3o perante Deus e a religi\u00e3o. Os seus fundamentos racionais s\u00e3o, por vezes, t\u00e3o fr\u00e1geis como os do simples abandono da pr\u00e1tica religiosa. Tem frequentemente a ver com a afirma\u00e7\u00e3o da laicidade, caracter\u00edstica pol\u00edtica do Estado moderno, transformada em \u201creligi\u00e3o laica\u201d, que se estende, abusivamente, \u00e0 sociedade como um todo, qual filosofia inspiradora de valores e comportamentos. A Igreja mant\u00e9m com este grupo de cidad\u00e3os, muitos deles baptizados, uma atitude respeitadora e de abertura ao di\u00e1logo, porque muitos deles, sobretudo os agentes culturais, mant\u00eam atitudes convergentes com a ac\u00e7\u00e3o da Igreja. Essa abertura ao di\u00e1logo \u00e9 o contexto em que se podem detectar aberturas \u00e0 mensagem evang\u00e9lica, mas n\u00e3o pode impedir a Igreja de proclamar, na sociedade, os valores e perspectivas que brotam da f\u00e9 crist\u00e3, sobretudo no que diz respeito \u00e0 dignidade da vida e da pessoa humana e \u00e0 harmonia da sociedade, baseada na verdade, na justi\u00e7a e na constru\u00e7\u00e3o da fraternidade e da paz. \u00b7\tOs outros grupos religiosos. A maior parte reportam-se ao cristianismo, quer sob a forma de Igrejas organizadas, quer em tradi\u00e7\u00f5es mais di\u00e1fanas e doutrinalmente menos estruturadas. A atitude ecum\u00e9nica \u00e9 hoje componente constitutiva de toda a pastoral da Igreja. A diocese de Lisboa quer pratic\u00e1-la em comunh\u00e3o com as orienta\u00e7\u00f5es do Santo Padre para toda a Igreja Universal. Al\u00e9m destas comunidades crentes que se reportam ao cristianismo, est\u00e3o implantadas, na cidade de Lisboa, comunidades significativas de outras religi\u00f5es, tais como o juda\u00edsmo, o islamismo, o hindu\u00edsmo e mesmo o budismo. O respeito m\u00fatuo, ponto de partida para um sadio di\u00e1logo inter-religioso, deve ser a nossa atitude fundamental, que n\u00e3o exclui colabora\u00e7\u00e3o inter-religiosa em projectos concretos, sobretudo de incid\u00eancia social. Mas devemos estar vigilantes para que esta atitude de di\u00e1logo n\u00e3o ca\u00eda num sincretismo religioso, em que todas as religi\u00f5es s\u00e3o iguais. A fidelidade \u00e0 nossa especificidade cat\u00f3lica \u00e9 a base segura para todo o di\u00e1logo ecum\u00e9nico e inter-religioso.  <b>Uma identidade crist\u00e3 dif\u00edcil e problem\u00e1tica<\/b> \t11. Um dos factores que a evangeliza\u00e7\u00e3o tem de ter em conta \u00e9 a deteriora\u00e7\u00e3o progressiva da identidade crist\u00e3 e da especificidade da vida da gra\u00e7a, assumida como caminho de santidade, e que se verifica mesmo entre o grupo dos crist\u00e3os praticantes. As principais manifesta\u00e7\u00f5es desta tend\u00eancia s\u00e3o a separa\u00e7\u00e3o entre a vida da f\u00e9 e a atitude moral que inspira o exerc\u00edcio da liberdade nos comportamentos habituais, esquecendo que a fidelidade crist\u00e3 se exprime tamb\u00e9m nas \u201cobras da f\u00e9\u201d, agindo segundo a exig\u00eancia do Evangelho, conduzidos pelo Esp\u00edrito Santo; a pobreza da vida de ora\u00e7\u00e3o vista apenas como intercess\u00e3o, nos momentos de afli\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o como express\u00e3o de uma intimidade de vida e de amor com Deus. \tEste fen\u00f3meno encontra as suas causas, n\u00e3o apenas na fraqueza pessoal, mas no ambiente cultural envolvente, cada vez menos condizente com a qualidade da vida crist\u00e3 e que influencia tamb\u00e9m as atitudes e comportamentos dos crist\u00e3os, o que sublinha a import\u00e2ncia da evangeliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas das pessoas, mas tamb\u00e9m da cultura.  <b>O naturalismo na compreens\u00e3o da vida<\/b> \t12. O nosso tempo \u00e9 positivamente marcado por uma valoriza\u00e7\u00e3o da natureza. Denunciam-se os abusos destruidores dos interesses e das concretiza\u00e7\u00f5es do que se considera progresso e cultiva-se o respeito pela natureza, de que as pessoas aprendem a fruir. Esse culto da natureza gera o naturalismo na interpreta\u00e7\u00e3o do sentido moral da exist\u00eancia, segundo o princ\u00edpio de que tudo o que \u00e9 natural \u00e9 bom. Esta atitude esquece, no entanto, dados decisivos para uma exist\u00eancia de qualidade, segundo o des\u00edgnio criador de Deus. Antes de mais, n\u00e3o \u00e9 coerente, pois n\u00e3o respeita a verdade da natureza em aspectos essenciais da dignidade humana, como s\u00e3o o respeito pela vida desde a sua concep\u00e7\u00e3o, os ego\u00edsmos desenfreados nas rela\u00e7\u00f5es humanas, a prioridade dada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da harmonia e da paz, a defesa da fam\u00edlia concebida como compromisso amoroso e fecundo entre o homem e a mulher, a pr\u00f3pria abertura do cora\u00e7\u00e3o humano \u00e0 transcend\u00eancia de Deus, tamb\u00e9m essa natural. \tMesmo na reflex\u00e3o teol\u00f3gica, a harmonia entre a natureza e a gra\u00e7a n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de conseguir. A experi\u00eancia dolorosa do pecado que enfraqueceu o dinamismo positivo da natureza, levou muitas vezes a menosprez\u00e1-la, valorizando apenas a for\u00e7a redentora de Cristo como fonte da verdade e da harmonia. Numa cultura de super-valoriza\u00e7\u00e3o da natureza, \u00e9 urgente retomar na evangeliza\u00e7\u00e3o a busca desta harmonia. O fruto da reden\u00e7\u00e3o que se exerce em n\u00f3s atrav\u00e9s da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, \u00e9 levar o homem a viver em plenitude todas as potencialidade de amor, de verdade e de beleza contidas na cria\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 natural s\u00f3 ser\u00e1 plenamente bom se for vivido com a for\u00e7a da gra\u00e7a sobrenatural. Na verdade da exist\u00eancia crist\u00e3 n\u00e3o pode haver lugar, nem para naturalismos simplistas, nem para vis\u00f5es desencarnadas da perfei\u00e7\u00e3o humana.  <b>A \u201cren\u00fancia\u201d \u00e0 vida eterna<\/b> \t13. O j\u00e1 referido estudo, noticiado na imprensa di\u00e1ria, acrescentava outro dado: uma percentagem elevada dos que declararam acreditar em Deus, admitiam n\u00e3o acreditar na vida para al\u00e9m da morte, ou seja, excluem a esperan\u00e7a na vida eterna. Al\u00e9m de ser um contra-senso, pois n\u00e3o se percebe como \u00e9 poss\u00edvel acreditar em Deus e excluir a vida eterna, altera o essencial da f\u00e9 crist\u00e3 que tem a sua fonte de verdade e de sentido na ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo, em cuja plenitude de vida participamos desde j\u00e1, na esperan\u00e7a de ressuscitarmos com Ele e por Ele sermos introduzidos na plenitude da vida. Essa \u00e9 uma express\u00e3o de f\u00e9 que est\u00e1 muito pr\u00f3xima da descren\u00e7a. \tEssa atitude altera, profundamente, o sentido da vida presente, reduzida aos limites deste mundo. A certeza de que a vida eterna come\u00e7a j\u00e1 neste mundo, na vida vivida com Cristo, \u00e9 a fonte da exig\u00eancia e do sentido da vida e da morte. A vida eterna n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o que vem depois da morte, mas \u00e9 uma densidade de vida que envolve e d\u00e1 sentido \u00e0 pr\u00f3pria morte. A vida limitada ao seu horizonte temporal altera inevitavelmente a maneira de viver a morte, a dos outros e a nossa. \tEsta dimens\u00e3o de eternidade da nossa pr\u00f3pria vida, que inaugura, neste mundo, a dimens\u00e3o escatol\u00f3gica, tem de fazer parte dos conte\u00fados de toda a evangeliza\u00e7\u00e3o. A Eucaristia e a pastoral da morte s\u00e3o momentos prop\u00edcios para este an\u00fancio.  <b>O subjectivismo na busca da verdade<\/b> \t14. Uma outra dimens\u00e3o do ambiente cultural em que vivemos, \u00e9 a atitude das pessoas perante a verdade, que influencia a pr\u00f3pria atitude dos crist\u00e3os praticantes. A valoriza\u00e7\u00e3o da liberdade individual, desemboca facilmente no subjectivismo da verdade, em que cada um tem direito a construir a sua pr\u00f3pria verdade. Esta perspectiva p\u00f5e em quest\u00e3o dimens\u00f5es fundamentais da atitude do crist\u00e3o frente \u00e0 verdade: relativiza a origem transcendente e revelada da Verdade, para n\u00f3s concretizada na Sagrada Escritura, sobretudo nos ensinamentos de Jesus, na Tradi\u00e7\u00e3o e no Magist\u00e9rio da Igreja, enquanto int\u00e9rprete aut\u00eantico dessa verdade revelada; e, ao acentuar exclusivamente a dimens\u00e3o individual da verdade, secundariza a dimens\u00e3o comunit\u00e1ria da verdade, constitutiva de uma Tradi\u00e7\u00e3o. A nossa f\u00e9 \u00e9 a f\u00e9 da Igreja e \u00e9 por isso que s\u00f3 a Igreja pode ser Mestra segura da verdade e da f\u00e9, garantia da objectividade da pr\u00f3pria verdade. A exig\u00eancia moral da vida crist\u00e3 encontra o seu fundamento nessa dimens\u00e3o comunit\u00e1ria e revelada da verdade, e dilui-se sem essa refer\u00eancia \u00e0 verdade objectiva, cuja plenitude nos foi manifestada em Jesus Cristo, Ele que nos disse claramente: Eu sou a verdade.  <b>Sinais de esperan\u00e7a<\/b> \t15. O Conc\u00edlio Vaticano II convidou-nos a identificar, na realidade complexa do mundo, em cada tempo hist\u00f3rico, sinais de esperan\u00e7a, lendo os \u201csinais dos tempos\u201d. A\u00ed \u00e9 dito que a Igreja, para cumprir a sua miss\u00e3o no mundo, \u201ctem o dever de, em cada momento, perscrutar os sinais dos tempos e de os interpretar \u00e0 luz do Evangelho, para poder responder, de maneira adaptada a cada gera\u00e7\u00e3o, \u00e0s quest\u00f5es eternas da vida dos homens sobre o sentido da vida presente e futura e suas rela\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas\u201d . \tNesta sociedade a que a Igreja quer anunciar a esperan\u00e7a, \u00e9 poss\u00edvel encontrar, na sua realidade complexa, sinais da ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, sementes de verdade abertas \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o plena da verdade de Deus para o homem. \u00b7\tA descoberta da solidariedade: apesar do acentuar de ego\u00edsmos pessoais e grupais que minam a sociedade, \u00e9 not\u00f3ria a descoberta da solidariedade, enquanto express\u00e3o de ajuda m\u00fatua e de servi\u00e7o dos outros. E \u00e9 particularmente significativo que sejam os jovens os mais sens\u00edveis a essa atitude. \u00c0 luz do Evangelho e da exig\u00eancia do amor fraterno, os crist\u00e3os est\u00e3o na primeira linha desse servi\u00e7o dos irm\u00e3os, pessoalmente e atrav\u00e9s das institui\u00e7\u00f5es da Igreja. Mas a evangeliza\u00e7\u00e3o deve lev\u00e1-los a descobrir, cada vez mais, nessa solidariedade, a beleza da caridade, que acontece sempre que o amor dos irm\u00e3os \u00e9 uma express\u00e3o do pr\u00f3prio amor de Deus. \u00b7\tA redescoberta do dinamismo mission\u00e1rio: tamb\u00e9m aqui s\u00e3o sobretudo os jovens que t\u00eam a ousadia de inventar novas formas de partir em miss\u00e3o. Muitos fazem experi\u00eancias de algum tempo o que leva sempre alguns a decidir consagrar toda a sua vida ao servi\u00e7o da miss\u00e3o. Hoje s\u00e3o muitos os crist\u00e3os leigos que partem em miss\u00e3o: fam\u00edlias, profissionais de v\u00e1rias \u00e1reas, pessoas enquadradas em movimentos. Este fen\u00f3meno \u00e9, em si mesmo, sinal da vitalidade da Igreja, que procura caminhos novos para a miss\u00e3o de sempre. A voca\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria \u00e9 constitutiva do ser da Igreja. \u00b7\tA inquieta\u00e7\u00e3o da radicalidade. Embora o panorama aparente da sociedade seja de facilitismo, atitude de quem busca e se contenta com uma felicidade moment\u00e2nea, desfrutando avidamente de quanto a vida pode oferecer de imediato, nota-se em muitos a inquieta\u00e7\u00e3o da profundidade e da radicalidade. Trata-se de uma esp\u00e9cie de insatisfa\u00e7\u00e3o cultural que pode ser abertura \u00e0 descoberta da aut\u00eantica radicalidade crist\u00e3. \u00b7\tVoltar \u00e0 ora\u00e7\u00e3o. A fragilidade e, por vezes, o abandono completo da experi\u00eancia pessoal da ora\u00e7\u00e3o, \u00e9 dos sintomas mais preocupantes da vida crist\u00e3. Mas tamb\u00e9m neste campo se verifica um movimento de redescoberta e valoriza\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o pessoal, a partir de bases s\u00f3lidas de toda a ora\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o, tais como a valoriza\u00e7\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Igreja e da adora\u00e7\u00e3o, sob a forma de adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica. J\u00e1 o afirm\u00e1mos v\u00e1rias vezes: a ora\u00e7\u00e3o, porventura oculta e silenciosa, pode representar uma for\u00e7a decisiva para a vida da cidade.   <b>IV \u2013 O AN\u00daNCIO CRIST\u00c3O<\/b> \t16. Este Congresso acentuar\u00e1 a dimens\u00e3o querigm\u00e1tica da nossa pastoral evangelizadora, ou seja, ensinar-nos-\u00e1 a anunciar, de forma simples, directa e interpelante, as verdades decisivas da f\u00e9 crist\u00e3, as \u00fanicas que podem mudar as vidas e converter os cora\u00e7\u00f5es. \tO an\u00fancio querigm\u00e1tico da f\u00e9 tem determinadas caracter\u00edsticas que constituem a sua for\u00e7a de convic\u00e7\u00e3o. Tem a simplicidade da vida, a clareza da convic\u00e7\u00e3o, que lhe vem do facto de ser um testemunho de vida, a humildade da proposta, fruto do amor fraterno, baseado na coer\u00eancia da verdade em que se acredita. Brota da alegria de se pertencer a um Povo, o Povo de Deus, verdadeiro sujeito da f\u00e9 da Igreja, que situa no mist\u00e9rio da comunh\u00e3o a dimens\u00e3o pessoal e individual da nossa cren\u00e7a. \u00c9 sempre uma express\u00e3o de amor, repassado de respeito pelos outros e desprendido nos resultados que espera ou procura, pois uns semeiam e outros colhem, e s\u00f3 o Senhor \u00e9 o Mestre da seara. \tEste testemunho simples, sincero e ousado, mas desprendido e gratuito, \u00e9 hoje muito importante no contexto da miss\u00e3o da Igreja na cidade. Ele comunica o essencial da f\u00e9 da Igreja, apresentada como experi\u00eancia de vida e n\u00e3o apenas como exposi\u00e7\u00e3o doutrinal.  <b>Anunciar o Deus Vivo<\/b> \t17. Deus \u00e9 um problema crucial para o homem de todos os tempos. Ele \u00e9 um mist\u00e9rio, n\u00e3o no sentido de um enigma a decifrar, mas como realidade profunda no cora\u00e7\u00e3o do homem, que este \u00e9 convidado a descobrir, encontrando-se no mais profundo de si mesmo. O homem confronta-se, na busca da sua verdade, com problemas e com mist\u00e9rios. Os problemas podem situar-se nas realidades exteriores ao homem, que ele procura esclarecer e, porventura, resolver, com a sua intelig\u00eancia racional. O mist\u00e9rio situa-se no interior do homem e este s\u00f3 o pode iluminar mergulhando na sua pr\u00f3pria profundidade. Quando o homem limita a sua pr\u00f3pria busca da verdade ao n\u00edvel mais superficial das apar\u00eancias, corre o risco de marginalizar Deus, mesmo que continue a dizer que acredita n\u2019Ele. \tQueixamo-nos frequentemente de que Deus se esconde, \u00e9 obscuro, n\u00e3o Se manifesta e no fundo somos n\u00f3s que nos recusamos a mergulhar no mais profundo de n\u00f3s mesmos. Aqueles que aceitam faz\u00ea-lo, conduzidos pelo Esp\u00edrito, acabam por tocar a simplicidade e a luminosidade de Deus, que se nos revela com aquela proximidade \u00edntima que s\u00f3 o amor torna poss\u00edvel. No an\u00fancio querigm\u00e1tico de Deus, n\u00e3o basta falar de Deus, discutir sobre Deus; \u00e9 essencial testemunhar aqueles momentos mais aut\u00eanticos da nossa vida em que Deus se manifestou como luz. Escutar, sem desfalecer, a Sua Palavra, teimar humildemente na experi\u00eancia da ora\u00e7\u00e3o, porque s\u00e3o caminhos que nos conduzem ao mais fundo de n\u00f3s mesmos, s\u00e3o, por isso mesmo, caminhos para experimentar o Deus Vivo. \u00c9 dessa densidade e profundidade de experi\u00eancia de Deus que Jesus Cristo \u00e9, para n\u00f3s, a Testemunha, Ele que conhece Deus na intimidade do amor filial. Jesus Cristo \u00e9 o Vivo porque entre a Sua vida e a vida de Deus h\u00e1 identifica\u00e7\u00e3o que s\u00f3 o amor gera.  <b>Reconhecer Deus em Jesus Cristo<\/b> \t18. \u00c9 por isso que Cristo Vivo para sempre, porque venceu a morte e nos comunica a vida, ajudando-nos a vencer a nossa pr\u00f3pria morte, \u00e9 o an\u00fancio primordial dos crist\u00e3os. Toda a mensagem de Jesus, o \u201cEvangelho do Reino\u201d, \u00e9 um convite \u00e0 profundidade. \u201cMudai o vosso cora\u00e7\u00e3o\u201d, eis o desafio que resume a Sua mensagem, que \u00e9 desafio e proposta, na certeza da Sua experi\u00eancia, de que Deus \u00e9 o mais \u00edntimo do homem. Esse \u00e9 o itiner\u00e1rio que Cristo nos convida a percorrer com Ele, da superficialidade \u00e0 profundidade, de um cora\u00e7\u00e3o dividido a um cora\u00e7\u00e3o novo, de um Deus desconhecido a uma experi\u00eancia viva do Deus Vivo. O Senhor sabe que esse regresso \u00e0 verdade profunda de n\u00f3s mesmos pode supor o sofrimento purificador, caminho que Ele percorreu at\u00e9 \u00e0 radicalidade, na certeza de que s\u00f3 Ele nos pode conduzir nesse acto recriador do regresso \u00e0 profundidade de n\u00f3s mesmos. Ele revela, sem explicar, a rela\u00e7\u00e3o existente entre sofrimento e nova cria\u00e7\u00e3o. \tA quantos se sentem atra\u00eddos por Ele, o Senhor lan\u00e7a sempre o mesmo desafio: vinde comigo, segui-Me. Verdadeiramente n\u00e3o nos convida para lado nenhum, porque Ele pr\u00f3prio n\u00e3o tem onde reclinar a cabe\u00e7a. O itiner\u00e1rio que nos prop\u00f5e, seguindo-O, \u00e9 o regresso \u00e0 profundidade de um cora\u00e7\u00e3o recriado, \u00e9 ir ao encontro do Deus Vivo. \u00c9 por isso que acrescenta: quem quiser vir comigo, tome a sua cruz e siga-Me. O regresso a Deus \u00e9 sempre um acto de coragem radical e generosa. \tCristo ressuscitado est\u00e1 vivo, na Sua Igreja; s\u00f3 isso torna poss\u00edvel que continue, em todos os tempos, a convidar-nos a percorrer, com Ele, esse caminho de regresso, que \u00e9 descoberta da mais profunda verdade de n\u00f3s mesmos. E n\u00e3o nos convida, apenas, a ir atr\u00e1s d\u2019Ele. Porque nos comunica a Sua vida, atrai-nos para percorrer, com Ele, \u00e0 maneira d\u2019Ele, esse caminho da vida. Essa participa\u00e7\u00e3o na vida do Senhor ressuscitado \u00e9 a irrup\u00e7\u00e3o, no presente da nossa vida, da plenitude escatol\u00f3gica que nos \u00e9 prometida. S\u00f3 Ele \u00e9 a garantia de a alcan\u00e7armos. \tEste an\u00fancio de Cristo Vivo como caminho para a vida s\u00f3 pode ser feito por quem j\u00e1 encetou esse caminho, seguindo-O como Mestre e Senhor. O pr\u00f3prio facto de o testemunhar, compromete-nos mais com essa op\u00e7\u00e3o de fazer da nossa vida um caminho com Cristo. \u00c9 um testemunho que inclui, necessariamente, a experi\u00eancia da Eucaristia como celebra\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da P\u00e1scoa, momento verdadeiramente decisivo desse caminho de vida.  <b>O an\u00fancio atrav\u00e9s de uma op\u00e7\u00e3o clara de vida<\/b> \t19. Sempre, mas de modo mais claro no nosso tempo, o an\u00fancio de Jesus Cristo tem de incluir uma afirma\u00e7\u00e3o clara de uma maneira de viver, da \u201cvida nova\u201d em que Ele nos introduziu. Sem isso, a op\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9 est\u00e9ril, incapaz de transformar positivamente o homem e a sociedade. Seguir Jesus Cristo toca, de forma exigente e transformadora, em todas as principais express\u00f5es da vida do homem enquanto ser espiritual e livre. S\u00e3o as grandes quest\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o humano, de que fala o Conc\u00edlio: o sentido da vida e da morte, a rela\u00e7\u00e3o entre a vida presente e a eternidade, a exig\u00eancia da verdade e do amor, o modelo de felicidade que se procura, uma maneira de estar no mundo e o compromisso s\u00e9rio pela edifica\u00e7\u00e3o de uma civiliza\u00e7\u00e3o do amor. O crist\u00e3o n\u00e3o pode esconder que Jesus Cristo \u00e9 fonte de exig\u00eancia \u00e9tica e deve proclam\u00e1-lo e testemunh\u00e1-lo na pr\u00e1tica das suas escolhas e comportamentos. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que a santidade se exprime na vida, na carne e no sangue das nossas op\u00e7\u00f5es e dos nossos ideais, e que a separa\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e da vida \u00e9 a maior fragilidade da Igreja. \tEste \u00e9, certamente, o aspecto mais exigente do an\u00fancio crist\u00e3o, pois sup\u00f5e a coragem de ser diferente e, de certo modo, \u201clutar contra a corrente\u201d das maneiras de ver a vida, aceites pela sociedade contempor\u00e2nea. S\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel travar esta luta com a for\u00e7a de Deus e a firmeza inabal\u00e1vel da f\u00e9.  <b>V\u00e1rias linguagens para o mesmo an\u00fancio<\/b> \t20. Essa foi a experi\u00eancia surpreendente do Pentecostes: na diversidade das linguagens, todos captaram a mesma mensagem. Este testemunho simples e interpelante da sua f\u00e9, os crist\u00e3os podem exprimi-lo em diversas linguagens: na simples coer\u00eancia de vida com que procuram ser fi\u00e9is \u00e0 verdade em todas as circunst\u00e2ncias; na explicita\u00e7\u00e3o dialogal, pessoa a pessoa, quando as circunst\u00e2ncias o tornam poss\u00edvel; no sil\u00eancio da sua ora\u00e7\u00e3o confiante e, porventura sofrida; identificando-se com a linguagem da Igreja, quando celebra o mist\u00e9rio ou quando se assume como Mestra da f\u00e9; na busca racional da inteligibilidade ou na express\u00e3o art\u00edstica da beleza; no servi\u00e7o generoso dos irm\u00e3os, sobretudo dos que mais precisam. \tDevemos estar atentos e aprender a escutar as linguagens, aparentemente profanas, de todos os que connosco convivem na cidade, pois tamb\u00e9m elas podem exprimir a busca da verdade e da beleza. O conjunto de todas essas linguagens constitui o fen\u00f3meno da cultura, verdadeiro quadro da express\u00e3o de todas as buscas e de todos os anseios. A Igreja em si mesma, na variedade das suas express\u00f5es, enquadra-se nesse quadro mais vasto e plural da cultura, que hoje j\u00e1 n\u00e3o se define por uma refer\u00eancia religiosa, o que n\u00e3o significa que a exclua ou a negue. A Igreja, na sua miss\u00e3o evangelizadora, deve valorizar esta presen\u00e7a do mundo da cultura, no seio da pr\u00f3pria muta\u00e7\u00e3o cultural, pois esse \u00e9 talvez o \u00fanico contexto em que muitos contempor\u00e2neos nossos podem escutar a mensagem da Igreja e em que os pr\u00f3prios crist\u00e3os aprendem a escutar outras linguagens.   <b>V \u2013 OS DESAFIOS DO CONGRESSO INTERNACIONAL PARA A NOVA EVANGELIZA\u00c7\u00c3O<\/b> \t21. O Congresso foi longamente preparado e est\u00e3o criadas as condi\u00e7\u00f5es para que aconte\u00e7a com qualidade. Desde o in\u00edcio ele tem um objectivo claramente assumido: levar as Igrejas que est\u00e3o nas cinco cidades europeias em que se realiza, a encontrarem caminhos novos de evangeliza\u00e7\u00e3o, no contexto cultural do homem europeu contempor\u00e2neo. Assumindo-se como uma proposta de di\u00e1logo com a cidade, em que a Igreja explicita a esperan\u00e7a que a anima e o seu modo pr\u00f3prio de estar na cidade, ele \u00e9, antes de mais, interpela\u00e7\u00e3o \u00e0s comunidades crist\u00e3s para aprofundarem a sua f\u00e9, \u00fanico ponto de partida v\u00e1lido para o dinamismo evangelizador. E esse poder\u00e1 ser o seu fruto mais precioso: levar os crist\u00e3os e as comunidades a assumirem que a evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 simples e urgente. Se a nossa f\u00e9 \u00e9 um dom precioso e Jesus Cristo, o nosso tesouro, n\u00e3o podemos deixar de os anunciar para os partilhar. \tDurante o Congresso haver\u00e1 uma \u201cmiss\u00e3o na cidade\u201d. Ela deve afirmar-se como um momento forte de uma atitude permanente dos crist\u00e3os na cidade: serem coerentes com a sua f\u00e9 e darem testemunho dela sempre que as circunst\u00e2ncias o tornem poss\u00edvel. Isso significa coer\u00eancia consigo pr\u00f3prio, toler\u00e2ncia para aceitar a diferen\u00e7a, discernimento para perceber o momento e o modo de compromisso com o bem da comunidade. \tA sua dimens\u00e3o europeia ajudar-nos-\u00e1 a perceber melhor, n\u00e3o s\u00f3 a exig\u00eancia da constru\u00e7\u00e3o de uma verdadeira comunidade em plano europeu, mas a universalidade da Igreja, onde brilha a luz da unidade da f\u00e9 e da verdade. Acolheremos os nossos irm\u00e3os vindos de Viena, de Paris, de Bruxelas e de Budapeste e com eles partilharemos a unidade da mesma f\u00e9 e o entusiasmo por um processo de nova evangeliza\u00e7\u00e3o para a Europa. Na sua rela\u00e7\u00e3o com os povos da Europa, a Igreja j\u00e1 provou, ao longo dos s\u00e9culos, que, em termos de evangeliza\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar sempre de novo. Em comum com estas Igrejas irm\u00e3s, aprenderemos a amar esta Europa, de que hoje se fala quase s\u00f3 na vertente econ\u00f3mica e pol\u00edtica. \tPe\u00e7o a todos que intensifiquem a sua ora\u00e7\u00e3o, pois dela depende a fecundidade misteriosa desta iniciativa. A experi\u00eancia dos \u201cmission\u00e1rios da ora\u00e7\u00e3o\u201d, em curso desde o an\u00fancio do Congresso, deve alargar-se a todos os crist\u00e3os do Patriarcado. O Congresso foi colocado sob a protec\u00e7\u00e3o de Santa Teresinha do Menino Jesus, Padroeira das Miss\u00f5es, cujas rel\u00edquias ser\u00e3o veneradas na nossa Catedral durante toda a semana do Congresso. Mas contamos, particularmente, com a protec\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora que, na sua imagem da Capelinha das Apari\u00e7\u00f5es, estar\u00e1 connosco durante o Congresso. Confiemos-lhe, desde j\u00e1, n\u00e3o apenas a sua realiza\u00e7\u00e3o, mas os frutos fecundos que dele poder\u00e3o brotar para a Igreja de Lisboa.  \t22. Durante todo o Ano Pastoral que come\u00e7a com o Congresso, procuraremos, nas diversas inst\u00e2ncias da Igreja diocesana, perceber os dinamismos inovadores para a nossa maneira de ser Igreja e de realizar a miss\u00e3o evangelizadora que o Senhor nos confiou. Procuraremos que toda a comunidade diocesana partilhe neste discernimento de novos caminhos da miss\u00e3o. Espero que todos aqueles e aquelas que v\u00e3o estar mais directamente envolvidos no Congresso, tenham, desde j\u00e1, essa preocupa\u00e7\u00e3o de discernir o futuro. O Congresso n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma festa, \u00e9 um momento duma peregrina\u00e7\u00e3o, dum caminho que queremos percorrer.  Lisboa, 8 de Setembro de 2005, Festa da Natividade da Virgem Santa Maria   <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carta Pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. 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