{"id":13763,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/sacerdocio-evangelizacao-pastoral-e-politicas-da-saude\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"sacerdocio-evangelizacao-pastoral-e-politicas-da-saude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sacerdocio-evangelizacao-pastoral-e-politicas-da-saude\/","title":{"rendered":"Sacerd\u00f3cio, evangeliza\u00e7\u00e3o, pastoral e pol\u00edticas da sa\u00fade"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista ao Pe. V\u00edtor Feytor pinto, coordenador Nacional da Pastoral da sa\u00fade  <!--more--> VP \u2013 Referiu na celebra\u00e7\u00e3o do seu 50\u00ba anivers\u00e1rio de Presb\u00edtero que a alegria da fidelidade foi, por vezes, exigente. Esta exig\u00eancia que aponta \u00e9 apenas fruto das turbul\u00eancias do mundo actual? P. Feytor Pinto (FP) \u2013 A exig\u00eancia de um sacerd\u00f3cio vivido sente-se a partir da vida pessoal onde nem sempre \u00e9 f\u00e1cil viver a voca\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0s suas \u00faltimas consequ\u00eancias. Foi o pr\u00f3prio Jesus que no-lo disse: \u201cquem quiser vir ap\u00f3s mim, tome a sua cruz e siga-me\u201d, \u201cquem s\u00f3 quiser ganhar a vida, acaba por perd\u00ea-la\u201d. Vale-nos a certeza de que \u201cn\u00e3o somos tentados acima das nossas pr\u00f3prias for\u00e7as\u201d. A fidelidade constante ao sacerd\u00f3cio tem um pre\u00e7o: a entrega total e permanente ao Senhor que nos chamou. Depois h\u00e1 as dificuldades do ambiente, uma sociedade materialista que cultiva o ter, o poder e o prazer, o culto da facilidade, a permissividade como norma, o individualismo como padr\u00e3o de conduta, tudo isto condiciona a vida sacerdotal e obriga a uma exig\u00eancia sempre maior para manter a fidelidade, mas uma fidelidade que nos faz feliz.  VP \u2013 50 anos de servi\u00e7o \u00e0 Igreja, ao mundo e \u00e0 humanidade, num \u00e2mbito de comunidade ampla e geral, s\u00e3o j\u00e1 uma vida! Que mais de marcante fica gravado neste meio s\u00e9culo? FP \u2013 Houve na Igreja uma s\u00e9rie de acontecimentos que influenciaram muito o meu sacerd\u00f3cio. O primeiro foi, sem d\u00favida, o pontificado de Jo\u00e3o XXIII e a convoca\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II. Depois, a preocupa\u00e7\u00e3o de Paulo VI por levar \u00e0 pr\u00e1tica a din\u00e2mica da renova\u00e7\u00e3o conciliar. Repare que estive em Roma durante as \u00faltimas duas sess\u00f5es do Conc\u00edlio, e vivi durante seis anos, entre 1965 e 1971, a pregar o Conc\u00edlio em muitos grupos e estruturas pastorais da Igreja em Portugal. Um outro facto marcante para o meu sacerd\u00f3cio foi a elei\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II, um papa de di\u00e1logo com o mundo, a obrigar-me a um sacerd\u00f3cio dialogante com todos os homens de boa vontade. Finalmente, estou marcado pelas diversas tarefas pastorais vividas a n\u00edvel internacional: os m\u00e9dicos cat\u00f3licos, o Conselho Pontif\u00edcio para a Pastoral da Sa\u00fade, a sensibilidade \u00e9tica de cariz universalista.  VP \u2013 Quando foi ordenado come\u00e7ou logo por ser P\u00e1roco? Ou seja, qual foi o seu percurso de minist\u00e9rio presbiteral? FP \u2013 Comecei por ser coadjutor (vig\u00e1rio cooperador) na par\u00f3quia da S\u00e9 da Guarda. Uma grande escola para um jovem padre (2 anos). Depois trabalhei nos quadros diocesanos da minha diocese, em colabora\u00e7\u00e3o estreita com o Bispo da Igreja local (7 anos). Depois parti para Roma, para ingressar no Movimento por um Mundo Melhor, onde trabalhei 6 anos. Passei, em 1970, a ser Assistente Nacional da JEC e, logo a seguir, Coordenador Nacional da Pastoral Juvenil. Em 1982 fui chamado a um trabalho inovador que continua a apaixonar-me, a Pastoral da Sa\u00fade. S\u00f3 em 1997 aceitei ser p\u00e1roco de uma comunidade paroquial de Lisboa, o Campo Grande.  VP \u2013 Sei que alimenta ainda o sonho de fazer coisas novas e transformar o mundo, mesmo considerando isso uma utopia. Como \u00e9 esta certeza de poder continuar a renovar a Igreja? FP \u2013 S\u00f3 na criatividade pastoral \u00e9 que se vive o sacerd\u00f3cio. Sem criatividade, a ac\u00e7\u00e3o pastoral \u00e9 uma rotina. Ora a Igreja n\u00e3o pode evangelizar sem a constante Boa Nova dada aos pobres, sem a liberdade conseguida para os oprimidos e cativos, sem a oferta da alegria a quantos sofrem. Um padre meu amigo de Set\u00fabal, com quem conversava ontem, dizia-me que, na diocese s\u00f3 h\u00e1 5% das pessoas que t\u00eam uma pr\u00e1tica religiosa; e logo afirmava: \u201ctenho de me preocupar com os outros 95%\u201d. Esta preocupa\u00e7\u00e3o faz-se com criatividade pastoral ou n\u00e3o existe. Ali\u00e1s, Jo\u00e3o Paulo II ao falar da nova evangeliza\u00e7\u00e3o reclamava \u201cnovo ardor, novos m\u00e9todos e novas express\u00f5es\u201d. S\u00f3 renovando-se, a Igreja \u00e9 evangelizadora.  VP \u2013 \u201cO caminho faz-se caminhando\u2026\u201d N\u00e3o sendo assim n\u00e3o haver\u00e1 caminho? Ou poder\u00e1 haver, mas duma forma incompleta? FP \u2013 Esta palavra \u00e9 de Ant\u00f3nio Machado. De facto, o caminho n\u00e3o est\u00e1 feito, \u00e9 cada um que o faz. N\u00e3o bastam os livros, exigem-se experi\u00eancias que abram caminhos novos. \u00c9 por isso que digo que \u201co caminho faz-se a andar\u201d. S\u00e3o precisos caminhos novos com novos objectivos e uma nova esperan\u00e7a.  VP \u2013 O caminho que agora lhe proponho \u00e9 imenso: a Sa\u00fade. De que forma se deu a liga\u00e7\u00e3o da Sa\u00fade \u2013 com os altos cargos que exerce \u2013 na sua vida? FP \u2013 A Pastoral da Sa\u00fade \u00e9, dentro da comunidade crist\u00e3, o que de mais inovador fez Jo\u00e3o Paulo II. Quando sofreu o atentado, foi internado na Cl\u00ednica Gemelli onde ficou alguns meses. Repensou o sofrimento \u2013 escreveu mesmo uma carta enc\u00edclica sobre ele, a \u201cSalvifici Doloris\u201d \u2013 mas depois come\u00e7ou a reflectir sobre a sa\u00fade aqu\u00e9m e al\u00e9m da doen\u00e7a. Antes da doen\u00e7a \u00e9 preciso preveni-la, depois da doen\u00e7a \u00e9 preciso trat\u00e1-la. Com esta simplicidade, transformou a Pastoral dos Doentes em Pastoral da Sa\u00fade. Quase por acaso fui envolvido nesta preocupa\u00e7\u00e3o do Santo Padre, quando me foi pedido pela Confer\u00eancia Episcopal para renovar as Capelanias Hospitalares, uma vez que acabara de sair um Decreto Regulamentar que criava uma presen\u00e7a diferente da Igreja nos hospitais do estado (D.R. 58\/80). Rapidamente compreendi que era importante educar para a sa\u00fade, prevenir as doen\u00e7as e cuidar dos doentes para os integrar na sua vida normal. Criamos tr\u00eas dinamismos nos hospitais: \u201chumaniza\u00e7\u00e3o para todos, evangeliza\u00e7\u00e3o para os crentes, sacramenta\u00e7\u00e3o para os que o pedem\u201d. Foi o princ\u00edpio de um trabalho verdadeiramente novo, uma \u00e1rea fundamental para a vida humana, a da Sa\u00fade.  VP \u2013 Qual \u00e9 o estado cl\u00ednico que faz da Sa\u00fade em Portugal? E comparativamente com os outros pa\u00edses europeus e n\u00e3o europeus? FP \u2013 A sa\u00fade, em Portugal, continua a ser uma preocupa\u00e7\u00e3o cada vez mais consciente dos cidad\u00e3os, e constitui para os governantes, uma exig\u00eancia constante para melhorar sempre mais os servi\u00e7os que a ela se dedicam, os hospitais, os centros de sa\u00fade, as unidades de especializa\u00e7\u00e3o, os diversos institutos postos \u00e1 disposi\u00e7\u00e3o de todos. Gostaria de referir tr\u00eas aspectos que s\u00e3o raz\u00e3o de esperan\u00e7a, para mais e melhor sa\u00fade das pessoas: A preocupa\u00e7\u00e3o pelos cuidados prim\u00e1rios, a fim de conseguir prevenir as doen\u00e7as e assegurar ao cidad\u00e3o o conhecimento suficiente sobre os riscos na sua sa\u00fade; e ter servi\u00e7os que, organizadamente, proporcionem esta orienta\u00e7\u00e3o: a higiene, a alimenta\u00e7\u00e3o, os consumos, a vida sexual, a organiza\u00e7\u00e3o do tempo para evitar stress. S\u00e3o in\u00fameros campos onde a preven\u00e7\u00e3o se imp\u00f5e, com cuidados prim\u00e1rios eficazes. A moderniza\u00e7\u00e3o das unidades de sa\u00fade, com o suficiente equipamento, a qualidade dos t\u00e9cnicos, a resposta r\u00e1pida em acesso f\u00e1cil, a par da humaniza\u00e7\u00e3o dos cuidados, das rela\u00e7\u00f5es, dos espa\u00e7os, das estruturas. O equil\u00edbrio na disponibilidade de servi\u00e7os, quer p\u00fablicos, quer privados, para que seja f\u00e1cil a chegada a um hospital e rapidamente se fa\u00e7a um diagn\u00f3stico, para terapias eficazes, nas diversas \u00e1reas da medicina e da sa\u00fade. Em Portugal est\u00e1-se ainda muito longe, de uma forma geral, da qualidade de servi\u00e7os que existe em Inglaterra, na Alemanha ou mesmo na Fran\u00e7a e It\u00e1lia. \u00c9 longo o caminho que temos a percorrer. Mas h\u00e1 raz\u00f5es de esperan\u00e7a porque a melhoria dos servi\u00e7os \u00e9 real.  VP \u2013 Ouvimos muitas vezes dizer, independentemente do Governo que seja, que a pasta da Sa\u00fade, para al\u00e9m de mais uma ou outra, \u00e9 sempre priorit\u00e1ria e de maior import\u00e2ncia. Isto \u00e9 verdadeiramente real? Ou, digamos, n\u00e3o passa de mais uma promessa pol\u00edtica incumprida? FP \u2013 Qualquer pol\u00edtica, um qualquer estado, tem de dar prioridade absoluta \u00e1 educa\u00e7\u00e3o, \u00e0 sa\u00fade e ao trabalho. Se um governo n\u00e3o for capaz de responder a estes problemas, perde cr\u00e9dito junto das popula\u00e7\u00f5es. A sa\u00fade \u00e9 um destes campos de ac\u00e7\u00e3o priorit\u00e1ria e tem rela\u00e7\u00e3o com os outros dois, porque \u00e9 preciso educar para a sa\u00fade e os trabalhos  em sa\u00fade s\u00e3o dos que exigem maior compet\u00eancia. O caminho a percorrer ainda \u00e9 muito longo.  VP \u2013 Qual \u00e9 a \u00e1rea da Sa\u00fade que, para si, merece maior aten\u00e7\u00e3o e preocupa\u00e7\u00e3o, mesmo que n\u00e3o esteja fragilizada? E qual a que lhe sensibiliza e lhe emociona mais? FP \u2013 Preocupo-me principalmente com a preven\u00e7\u00e3o, com os cuidados prim\u00e1rios. Senti muito isso quando era Alto-comiss\u00e1rio para o Projecto Vida, at\u00e9 porque tratar era mais f\u00e1cil e mais caro do que prevenir. Sensibilizou-me muito a medicina e a enfermagem ligadas \u00e0 vida, quer ao n\u00edvel do nascimento com qualidade e fonte de alegria para todos, quer ao n\u00edvel das situa\u00e7\u00f5es terminais para assegurar ao paciente a capacidade de vida at\u00e9 ao fim, com uma qualidade humana suficiente. O nascer e o morrer emocionaram-me sempre mais e em todas as circunst\u00e2ncias.   TR\u00cdMERO TEM\u00c1TICO:  VP \u2013 Distan\u00e1sia vs. Eutan\u00e1sia: como, para qu\u00ea e desde quando?&#8230;  FP \u2013 A Eutan\u00e1sia \u00e9 um erro monumental, porque a medicina vem dizer, por ela, que \u00e9 incapaz de acompanhar o doente na sua fase terminal. \u00c9 a nega\u00e7\u00e3o da medicina. A distan\u00e1sia, encarni\u00e7amento terap\u00eautico ou obstina\u00e7\u00e3o terap\u00eautica, \u00e9 tamb\u00e9m sinal de uma medicina que tem medo de aceitar a morte como um fen\u00f3meno natural e universal que \u00e9 preciso ensinar a viver e a acompanhar com qualidade. Os cuidados paliativos s\u00e3o o sinal da intelig\u00eancia m\u00e9dica, face \u00e0 morte.  VP \u2013 Tr\u00e1fego de \u00f3rg\u00e3os: um desrespeito desigual ou uma conveni\u00eancia alternativa?&#8230; FP \u2013 O tr\u00e1fico de \u00f3rg\u00e3os \u00e9 um crime. Se os transplantes s\u00e3o uma conquista da ci\u00eancia para a melhor qualidade de vida das pessoas, \u00e9 inadmiss\u00edvel que se queira tirar lucros econ\u00f3micos da disponibilidade de alguns para ajudar outros a viver. Os \u00f3rg\u00e3os nunca podem ser comercializados, muito menos clandestinamente.  VP \u2013 Propaga\u00e7\u00f5es alarmantes da Sida e do Cancro&#8230; FP \u2013 A sida e o cancro, s\u00e3o doen\u00e7as que devem ser prevenidas por todos os meios ao alcance da humanidade. Esta preven\u00e7\u00e3o \u00e9 um desafio para a ci\u00eancia, mas sempre sem o recurso a crit\u00e9rios que desrespeitem a dignidade da pessoa humana. A preven\u00e7\u00e3o tem de ser estudada em toda a sua complexidade, para que, na liberdade, cada um encontre a forma de n\u00e3o ser apanhado por s\u00edndromas t\u00e3o violentas e delicadas. Sem panaceias, mas com crit\u00e9rio e liberdade, os cidad\u00e3os devem aprender a n\u00e3o ser apanhados por estas doen\u00e7as que, em muitos casos, s\u00e3o tamb\u00e9m comportamentais.   ASPECTOS DE ELEI\u00c7\u00c3O:  VP \u2013 Uma voca\u00e7\u00e3o&#8230; FP \u2013 A voca\u00e7\u00e3o sacerdotal \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o de entrega ao outro, sem limites, sendo assim, ponte entre Deus e o homem concreto que o Senhor ama. Seguindo Cristo, sem condi\u00e7\u00f5es, servimos Cristo no irm\u00e3o que est\u00e1 ao nosso lado.  VP \u2013 Um Presb\u00edtero&#8230; FP \u2013 O presb\u00edtero serve a comunidade nas tr\u00eas dimens\u00f5es de servi\u00e7o. Proclama a Palavra, celebra a Eucaristia, coordena a caridade (a ac\u00e7\u00e3o social) na comunidade que lhe foi confiada. \u00c9 feliz a servir, sem condi\u00e7\u00f5es.  VP \u2013 Uma ac\u00e7\u00e3o pastoral&#8230; FP \u2013 Uma ac\u00e7\u00e3o pastoral \u00e9 sempre um acto de criatividade para responder ao problema concreto que o outro vive e que o padre quer ajudar a resolver. Consegue-o pela ac\u00e7\u00e3o salv\u00edfica de Cristo concretizada na ac\u00e7\u00e3o pastoral que desenvolve.  VP \u2013 Um rem\u00e9dio&#8230; FP \u2013 O \u00fanico rem\u00e9dio, em todas as circunst\u00e2ncias, \u00e9 o amor. Pelo Amor, por Cristo, com Cristo, em Cristo, empurramos o outro para a felicidade desejada.  In \u00abVoz Portucalense\u00bb<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista ao Pe. 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