{"id":137178,"date":"2019-03-15T10:57:42","date_gmt":"2019-03-15T10:57:42","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=137178"},"modified":"2019-05-15T11:02:45","modified_gmt":"2019-05-15T10:02:45","slug":"a-urgencia-de-uma-conversao-ecologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-urgencia-de-uma-conversao-ecologica\/","title":{"rendered":"A urg\u00eancia de uma convers\u00e3o ecol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"<p><em>Eduardo Duque<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Greta-Thunberg.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-137179\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Greta-Thunberg.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Greta-Thunberg.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Greta-Thunberg-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Greta-Thunberg-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Greta-Thunberg-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Greta-Thunberg-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Nas sociedades contempor\u00e2neas, marcadas por uma crescente complexidade, as pol\u00edticas est\u00e3o voltadas para o presente, t\u00eam um olhar curto, atendem, na maior parte das vezes, ao urgente e n\u00e3o priorit\u00e1rio.<\/p><\/blockquote>\n<p>E sabemos bem que o priorit\u00e1rio tem um horizonte bem mais dilatado do que a miopia do urgente, em que tudo tem de ser resolvido no imediato, numa acelera\u00e7\u00e3o tamanha que tende a anular qualquer dimens\u00e3o ecol\u00f3gica. Tal facto faz peregrinar, entre n\u00f3s, sinais de grande paradoxo: por um lado, exprime-se a satisfa\u00e7\u00e3o com a vida, procurando viver com grande conforto e numa dimens\u00e3o est\u00e9tica, parecendo que nada nos falta, por outro, deparamo-nos com not\u00edcias que antecipam novas crises e a inexor\u00e1vel deteriora\u00e7\u00e3o que elas acarretam, facto que suscita novas d\u00favidas sobre a mat\u00e9ria com que estamos a construir o tempo presente.<\/p>\n<h3>Na sociedade do conhecimento o futuro tornou-se opaco<\/h3>\n<p>Contrariamente \u00e0 sociedade do conhecimento, nas sociedades industriais o presente era mais linear; as mudan\u00e7as seguiam rumos expect\u00e1veis, o que permitia um futuro mais igual ao presente. Na sociedade do conhecimento, o saber est\u00e1 em saber gerir o desconhecido. A quest\u00e3o aqui n\u00e3o est\u00e1 em aceder \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, mas sim em saber filtr\u00e1-la, selecion\u00e1-la para avan\u00e7ar.<\/p>\n<p>Dado que o futuro se tornou menos previs\u00edvel e mais opaco, tem-se imposto como dono e senhor absoluto da hist\u00f3ria, o que nos leva a dizer que s\u00f3 existe o presente e ele tudo coloniza.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria ficou como que baralhada e as estruturas e institui\u00e7\u00f5es entraram em crise, abriram muitas ruturas, causaram sofrimentos, mas, na ordem dos valores, pouco se tem assimilado porque n\u00e3o se disp\u00f5e de tempo suficiente para aprender e interiorizar que o tempo do futuro tem que ganhar peso pol\u00edtico no tempo presente. Neste contexto, o tempo presente tem que ser mais amigo do futuro. Tem que construir de forma mais criativa e integrada, tendo sempre em aten\u00e7\u00e3o que, depois de n\u00f3s, vir\u00e3o outros que t\u00eam o mesmo direito de habitar as sociedades e de respirar sem qualquer liga\u00e7\u00e3o a um ventilador.<\/p>\n<h3>Da luta pela palavra \u00e0 luta pela a\u00e7\u00e3o fundada na verdade<\/h3>\n<p>Em\u00a0<em>A Origem da Trag\u00e9dia<\/em>, de Nietzsche, o fim da idade tr\u00e1gica do homem e o princ\u00edpio da idade da raz\u00e3o d\u00e1-se com S\u00f3crates, j\u00e1 que ele acreditou dever endireitar o mundo: \u201csozinho apresentou-se ent\u00e3o com ar irreverente e superior, como o precursor de uma civiliza\u00e7\u00e3o, de uma arte e de uma moral inteiramente diferentes, num mundo em que a nossa maior felicidade deveria estar em conservarmos respeitosamente o pouco que ainda nos merecia venera\u00e7\u00e3o\u201d. O poder e o fasc\u00ednio que S\u00f3crates exercia sobre os helenos explica-se pela descoberta que este fez de uma nova forma de luta, a luta atrav\u00e9s da palestra, que fascinava e excitava o instinto vital dos helenos.<\/p>\n<p>Creio que, nos tempos de hoje, a luta j\u00e1 n\u00e3o se faz pela palavra ou pela ast\u00facia argumentativa, como no tempo de S\u00f3crates, bem pelo contr\u00e1rio, as palavras est\u00e3o gastas e sem valor, porque, em muitos dos casos, n\u00e3o coincidem com o testemunho e com a vida da pessoa. Hoje, imp\u00f5e-se uma luta silenciosa, que tem que ser travada por todo aquele que acredita que \u00e9 poss\u00edvel construir um mundo melhor, uma luta fundada na verdade do ser humano, edificada na justi\u00e7a, cimentada no amor, no perd\u00e3o, no reconhecimento do outro, na coopera\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria das pessoas, independentemente da sua op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ou ideol\u00f3gica. Neste contexto, a convers\u00e3o ecol\u00f3gica que aqui se prop\u00f5e \u00e9 for\u00e7a afirmativa e criadora e a consci\u00eancia de uma dimens\u00e3o cr\u00edtica e dissuasiva.<\/p>\n<h3>Reconfigurar a nossa forma de pensar e de viver<\/h3>\n<p>Esta dimens\u00e3o ecol\u00f3gica, que n\u00e3o pode ser desvinculada nem ser independente da ordem moral, deve reconfigurar a nossa forma de pensar e de viver e, naturalmente, de construir, de comprar, de negociar, de edificar e de nos relacionarmos uns com os outros.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, por isso, conciliar as met\u00e1foras do conhecimento l\u00f3gico-cient\u00edfico, que provaram ser, em muitos casos, uma casca vazia, com a dimens\u00e3o art\u00edstica e sens\u00edvel da vida, que tamb\u00e9m ela, por si s\u00f3, pode tornar a vida dif\u00edcil e agreste. Imp\u00f5e-se, portanto, uma nova concilia\u00e7\u00e3o entre a ci\u00eancia e a arte, a t\u00e9cnica e o sens\u00edvel, o l\u00f3gico e o po\u00e9tico. Duas dimens\u00f5es opostas, que fazem existir duas perspetivas diferentes do mesmo mundo, mas, se conciliadas, s\u00e3o capazes de regenerar a democracia, a voca\u00e7\u00e3o e o compromisso da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<h3>Um\u00a0<em>pharmakon<\/em>\u00a0para o equil\u00edbrio entre crescimento econ\u00f3mico, coes\u00e3o social e prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente<\/h3>\n<p>Para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio fazer estoirar um \u201cgolpe de dom\u201d, \u201cum golpe de dom silencioso\u201d, que se estenda \u00e0 pr\u00f3pria pol\u00edtica, \u00e0 economia, \u00e0 cultura, \u00e0 dimens\u00e3o social, ao respeito pela natureza e a todas as texturas da vida. Este tratamento ter\u00e1 um efeito de\u00a0<em>pharmakon<\/em>, ser\u00e1 o veneno, na forma de rem\u00e9dio, que procurar\u00e1 curar as feridas que todos os dias se abrem nas nossas sociedades. Este golpe, sob a designa\u00e7\u00e3o de desenvolvimento integrado, tem for\u00e7a para fazer estoirar uma verdadeira convers\u00e3o ecol\u00f3gica, quando prop\u00f5e um equil\u00edbrio entre crescimento econ\u00f3mico, coes\u00e3o social e prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente. Falta, por\u00e9m, ousadia \u00e0s estruturas, \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e a cada um de n\u00f3s capacidade para desconstruir preconceitos, barreiras e fronteiras e deixar, com a nossa implica\u00e7\u00e3o, o\u00a0<em>pharmakon<\/em>\u00a0atuar.<\/p>\n<p>A desconstru\u00e7\u00e3o, neste caso, \u00e9 o primeiro princ\u00edpio da convers\u00e3o ecol\u00f3gica, que constitui um rombo no casco do nosso conforto e que deve tender para o segundo princ\u00edpio, o qual clama por pessoas que, tendo percebido alguma coisa do que se passa e do que fazer, desempenhem um papel mais ativo na sociedade.<\/p>\n<p><strong>Foto da capa<\/strong>: Greta Thunberg (16 anos), acompanhada por outros ativistas clim\u00e1ticos, fala durante o evento do Comit\u00ea Econ\u00f3mico e Social Europeu (CESE)\u00a0<em>Civil Society for rEUnaissance<\/em>, em Bruxelas, B\u00e9lgica, 21 de fevereiro de 2019. EPA \/ STEPHANIE LECOCQ.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Duque<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":137120,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-137178","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137178","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=137178"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/137178\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/137120"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=137178"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=137178"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=137178"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}