{"id":136438,"date":"2019-05-10T08:30:31","date_gmt":"2019-05-10T07:30:31","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=136438"},"modified":"2019-07-04T16:29:27","modified_gmt":"2019-07-04T15:29:27","slug":"coesao-e-acolhimento-do-outro-devem-ser-marcas-da-europa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/coesao-e-acolhimento-do-outro-devem-ser-marcas-da-europa\/","title":{"rendered":"Coes\u00e3o e acolhimento do outro devem ser marcas da Europa"},"content":{"rendered":"<p>O padre Duarte da Cunha, foi secret\u00e1rio-geral do Conselho das Confer\u00eancias Episcopais da Europa (CCEE) durante uma d\u00e9cada. A poucas semanas das elei\u00e7\u00f5es europeias, fala das v\u00e1rias realidades que encontrou no Velho (cada vez mais) Continente, das ra\u00edzes crist\u00e3s por redescobrir e da coes\u00e3o social que pode assegurar uma resposta condigna \u00e0 crise migrat\u00f3ria e aos populismos crescentes.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a), Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Fotos: Manuel Costa (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_136383\" aria-describedby=\"caption-attachment-136383\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-136383 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019a.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019a.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019a-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019a-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019a-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019a-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-136383\" class=\"wp-caption-text\">Ag\u00eancia Ecclesia\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Acabamos de celebrar mais um Dia da Europa e estamos em contagem decrescente para as elei\u00e7\u00f5es europeias. Tendo em conta a sua experi\u00eancia de v\u00e1rios anos, de contacto com esta realidade em v\u00e1rios pa\u00edses, do ponto de vista da Igreja e n\u00e3o s\u00f3, o que mais o preocupa na Europa hoje?<\/em><\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer que o que mais falta hoje na Europa \u2013 aquilo que o Papa Francisco chama a velhice da Europa -\u00e9 a falta de esperan\u00e7a e empenho, achar que as coisas n\u00e3o podem melhorar. Tem a ver com o envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o, as crises demogr\u00e1ficas, o chamado inverno demogr\u00e1fico, mas tamb\u00e9m com uma perda de alma da Europa, uma certa desorienta\u00e7\u00e3o sob a identidade da pr\u00f3pria Europa.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 transversal aos pa\u00edses da Uni\u00e3o Europeia, aos pa\u00edses em geral. Paradoxalmente, s\u00e3o os pa\u00edses de Leste, talvez porque sa\u00edram de regimes ditatoriais, onde a esperan\u00e7a estava atrofiada, que mais mexem com a Europa, numa perspetiva de constru\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m por isso s\u00e3o mais rebeldes a certas orienta\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p>A falta de esperan\u00e7a e empenho no futuro, a falta de querer qualquer coisa, de nitidez para onde se quer chegar, \u00e9 um problema generalizado que faz com que muitos desistam. Est\u00e3o metidos na sua vida, nas suas coisas, n\u00e3o se interessam com o destino do bem-comum, do seu pa\u00eds, muito menos com o destino dos europeus\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sentiu essa falta de esperan\u00e7a nestes anos em que esteve no CCEE? Mesmo do ponto de vista da Igreja?<\/em><\/p>\n<p>A falta de esperan\u00e7a est\u00e1 ligada ao individualismo: as pessoas n\u00e3o querem construir uma coisa comum porque querem construir o seu conforto. Isto indica falta de evangeliza\u00e7\u00e3o. Se pensarmos bem, o que faz com que uma pessoa possa ter um certo \u00edmpeto para construir, um chamamento, uma dimens\u00e3o mais vocacional, diria quase.<\/p>\n<p>Com a seculariza\u00e7\u00e3o generalizada, com o desaparecimento de Deus e o individualismo muito concentrado no eu, na autoestima e realiza\u00e7\u00e3o pessoal, h\u00e1 uma crise para querer fazer algo para o destino dos meus filhos, para os outros, ou para as pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, o consumismo. Mas isto s\u00e3o aspetos negativos, a Europa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aspetos negativos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A hierarquia cat\u00f3lica e os \u00faltimos Papas t\u00eam chamado sistematicamente \u00e0 aten\u00e7\u00e3o para o que colocou sobre o abandono das ra\u00edzes crist\u00e3s da Europa \u2013 o secularismo, o abandono da f\u00e9\u2026 S\u00e3o quest\u00f5es que v\u00e3o para al\u00e9m da pr\u00f3pria religi\u00e3o. <\/em><\/p>\n<p>Encaro as ra\u00edzes crist\u00e3s da Europa em tr\u00eas blocos: uma raiz crist\u00e3 relacionada com a espiritualidade da Europa. Os europeus s\u00e3o pessoas religiosas, basta andar pela paisagem europeia e v\u00ea-se nas igrejas, os locais de ora\u00e7\u00e3o, santu\u00e1rios, ainda h\u00e1 muita gente a rezar e muita devo\u00e7\u00e3o por piedade popular ou formas mais sofisticadas.<\/p>\n<p>H\u00e1 um abandono da pr\u00e1tica dominical, h\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o do n\u00famero de crist\u00e3os, mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma espiritualidade crist\u00e3, uma vida interior dos europeus. A perda da pr\u00e1tica da vida espiritual \u00e9 um certo afastamento das ra\u00edzes crist\u00e3s e isso tem consequ\u00eancias no resto da vida.<\/p>\n<p>Uma outra raiz crist\u00e3 relaciona-se com os valores, os princ\u00edpios morais e a orienta\u00e7\u00e3o da vida, a mundivid\u00eancia crist\u00e3, que tem a ver com o amor, a caridade, a solidariedade, o respeito pela dignidade da vida da pessoa, os grandes princ\u00edpios da Doutrina Social da Igreja (DSI). Os nossos bispos acabaram de publicar uma Carta Pastoral, \u00abUm olhar sobre Portugal e a Europa \u00e0 luz da Doutrina Social da Igreja\u00bb, onde sublinham esta import\u00e2ncia. Se estas refer\u00eancias crist\u00e3s desaparecem, s\u00e3o substitu\u00eddas por outras mais utilitaristas e consumistas, de outra ordem. Esse abandono das ra\u00edzes crist\u00e3s no \u00e2mbito dos valores \u00e9 tamb\u00e9m uma perda.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda um terceiro fator, que \u00e9 o que a Europa entende como a sua voca\u00e7\u00e3o no mundo global. A globaliza\u00e7\u00e3o implica uma consci\u00eancia de cada um sobre o seu papel neste mundo global. Todos somos espec\u00edficos, especiais, \u00fanicos. E a Europa tem a sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p>No mundo, a Europa teve sempre um papel, \u00e0s vezes menos bom, mas teve um papel e levou muita coisa boa: a f\u00e9 crist\u00e3, o desenvolvimento, a tecnologia, os direitos do Homem que hoje temos e, genericamente s\u00e3o aceites no mundo &#8211; podemos dizer que nem toda a gente aceita os Direitos do Homem pelas mesmas raz\u00f5es, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a raiz que deu origem a esta afirma\u00e7\u00e3o dos Direitos do Homem depois da II Guerra Mundial, \u00e9 uma raiz crist\u00e3. H\u00e1 um entendimento da humanidade e da sociedade crist\u00e3mente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quando terminou o segundo mandato como secret\u00e1rio da CCEE deixou uma nota otimista de esperan\u00e7a, de uma vida eclesial forte na Europa. Teve oportunidade de contactar com diversas realidades, sobretudo no Leste, desconhecida da maioria. Sente uma forte esperan\u00e7a na vida eclesial, capaz de dar um sinal diferente para a Europa de hoje?<\/em><\/p>\n<p>Julgo que a esperan\u00e7a vir\u00e1 do que podemos chamar de comunidades vivas, que podem n\u00e3o ser maiorit\u00e1rias, mas s\u00e3o vivas e coesas. \u00c9 interessante ver que h\u00e1, por toda a Europa, norte ou sul, Noruega a Malta, Mold\u00e1via \u00e0 Irlanda, vida crist\u00e3 viva. Talvez n\u00e3o sejam as maiorias, talvez haja crise e conflitos, muitos problemas, mas h\u00e1 lugares onde esta experi\u00eancia viva, gente a converter-se, pessoas a pedirem o batismo, comunidades a serem constru\u00eddas.<\/p>\n<p>Gente a querer ter uma vida interior e espiritual crist\u00e3, que n\u00e3o \u00e9 o \u00abnew age\u00bb \u00e0 procura de um vazio para descansar, mas a procura de Deus para o encontrar e a procura da verdade e do encontro com Deus, a experi\u00eancia em presen\u00e7a de Deus. O espec\u00edfico da espiritualidade crist\u00e3.<\/p>\n<p>H\u00e1 comunidade coesas, de amigos, amizades, apoios e fam\u00edlias, obras de caridade e miseric\u00f3rdia que s\u00e3o muito vis\u00edveis. Bastaria imaginar que se na Europa desaparecessem as obras de caridade promovidas pelos cat\u00f3licos, em cada um dos pa\u00edses europeus, o mapa seria dr\u00e1stico, tr\u00e1gico mesmo. H\u00e1 muita experi\u00eancia viva e bonita.<\/p>\n<p>Assim como h\u00e1 muitos jovens, fam\u00edlias e pol\u00edticos \u2013 talvez gost\u00e1ssemos que fossem mais \u2013 mas h\u00e1 alguns que pensam e querem pensar o bem-comum e cuidar da pessoa, defender a vida. Por isso n\u00e3o \u00e9 algo morto, antes pelo contr\u00e1rio. Mas pode ser uma mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O \u00abnew age\u00bb que se fala revela que as pessoas procuram a dimens\u00e3o espiritual. A Igreja Cat\u00f3lica, se calhar, nem sempre consegue responder a esse desejo e procura\u2026<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 uma procura do religioso na Europa. As sondagens do Eurostat indicam isso claramente: os europeus, ao contr\u00e1rio do que talvez se tivesse pensado nos anos 60, n\u00e3o se secularizaram no sentido de considerarem a dimens\u00e3o religiosa ou a sua rela\u00e7\u00e3o com o transcendente in\u00fatil.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a experi\u00eancia religiosa crist\u00e3, que n\u00e3o \u00e9 simplesmente a experi\u00eancia de um encontro com o transcendente, mas com Jesus Cristo, essa que era maiorit\u00e1ria num ambiente que cham\u00e1vamos de Cristandade e que hoje n\u00e3o \u00e9 maiorit\u00e1ria, n\u00e3o deixa de ser verdadeira e de existir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fal\u00e1vamos da dimens\u00e3o social do trabalho das comunidades cat\u00f3licas: h\u00e1 um tema que tem gerado tens\u00e3o que s\u00e3o as migra\u00e7\u00f5es e refugiados. Conhece muito da realidade europeia porque teve a oportunidade de percorrer os v\u00e1rios pa\u00edses. H\u00e1 v\u00e1rias tens\u00f5es entre a forma como diferentes comunidades cat\u00f3licas olham para esta realidade?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 e \u00e9 preciso reconhecer isso, sem pretender que todos fa\u00e7am o mesmo, porque as realidades e experi\u00eancias s\u00e3o diferentes. H\u00e1, por vezes, uma certa demagogia da comunica\u00e7\u00e3o social, uma n\u00e3o compreens\u00e3o, n\u00e3o ir ao fundo das raz\u00f5es que colocam nos t\u00edtulos bispo do pa\u00eds A contra o do pa\u00eds B, e as coisas s\u00e3o mais profundas.<\/p>\n<p>Julgo que h\u00e1 uma ideia generalizada na Europa de que existe necessidade de criar uma certa coes\u00e3o e identidade, que vivemos em tempos de grande desagrega\u00e7\u00e3o social e de falta de coes\u00e3o. O tema da coes\u00e3o social \u00e9 dos que mais se ouve falar nos \u00faltimos anos. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que interfere com a quest\u00e3o dos imigrantes.<\/p>\n<p>A Europa crist\u00e3 olha para cada pessoa, migrante, refugiado, como pessoa e por isso, tem de equilibrar as duas coisas: a coes\u00e3o e o acolhimento do outro.<\/p>\n<p>O que a Igreja tem dito, em geral, desde os Papas aos bispos, deste ou daquele pa\u00eds, \u00e9 que as duas coisas t\u00eam de estar unidas. Os imigrantes n\u00e3o podem entrar num ambiente desagregado. Mas isto n\u00e3o significa que eles n\u00e3o podem entrar, significa antes que temos de tomar consci\u00eancia do que est\u00e1 a acontecer \u00e0 Europa, a falta de identidade e coes\u00e3o social, falta de amor \u00e0 vida e \u00e0 tal esperan\u00e7a que falava no in\u00edcio, faz com que as pessoas vivam egoisticamente, fechadas em si.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 tanto entrar mais ou menos imigrantes, mas o que podemos fazer para que a Europa n\u00e3o se sinta amea\u00e7ada pela chegada dos imigrantes; antes pelo contr\u00e1rio, se sinta chamada e ajudada, porque h\u00e1 muitos lugares onde os imigrantes s\u00e3o ajuda no trabalho e porque trazem a juventude e a esperan\u00e7a. Mesmo na Igreja h\u00e1 muitas comunidades imigrantes, n\u00e3o s\u00f3 europeus mas africanos e da Am\u00e9rica latina, de comunidade asi\u00e1ticas, que s\u00e3o muito vivas e d\u00e3o uma vitalidade \u00e0 Igreja local.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia da chegada de imigrantes e de refugiados, al\u00e9m de provocar a caridade dos que recebem, desafia a uma certa consci\u00eancia de quem somos, que identidade temos e qual a nossa verdade. Por isso n\u00e3o temos medo.<\/p>\n<p>Mas estas coisas s\u00e3o um bocadinho te\u00f3ricas: uma situa\u00e7\u00e3o \u00e9 entrar um imigrante na Alemanha onde h\u00e1 muito dinheiro e pode ser integrado; outra \u00e9 na Hungria, onde h\u00e1 pouco dinheiro e n\u00e3o h\u00e1 integra\u00e7\u00e3o. Um bairro de imigrantes refugiados, que s\u00e3o acolhidos e quase h\u00e1 uma cidade \u00e0 margem das grandes cidades, onde eles t\u00eam tudo, escolas, onde s\u00e3o integrados com entrevistas individuais\u2026 outro cen\u00e1rio \u00e9 em pa\u00edses mais pobres onde n\u00e3o existem infraestruturas e, de repente, ficam todos ali.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 desigualdade na forma como a Europa \u00e9 solid\u00e1ria, na forma como se acolhe os refugiados. Devia haver mais aten\u00e7\u00e3o para a raiz do problema, dos pa\u00edses de origem? <\/em><\/p>\n<p>Essa \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o geral que os bispos da Europa defendem. Al\u00e9m de provocar um ambiente acolhedor, como dizia, de coes\u00e3o, precisamos de cuidar da nossa comunidade para acolher. N\u00e3o \u00e9 uma alternativa, as duas coisas podem estar em simult\u00e2neo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, olhando para as pessoas concretas que chegam, sobretudo para os refugiados que chegam desesperados, n\u00f3s somos chamados a ter aten\u00e7\u00e3o que \u00e9 preciso desenvolver os outros pa\u00edses. E ai perguntamo-nos: quem governa a nossa Europa? S\u00e3o interesses econ\u00f3micos, s\u00e3o pessoas que querem o desenvolvimento do mundo e das pessoas? Quais os interesses? Porque n\u00e3o se empenham no desenvolvimento dos pa\u00edses mais pobres? Porque continua a haver venda de armas, hipocrisia nas atitudes para com os pa\u00edses em guerra? Estas quest\u00f5es deveriam fazer-nos refletir, agora \u00e0 beira de elei\u00e7\u00f5es europeias.<\/p>\n<p>A Europa que queremos sente-se com uma miss\u00e3o para o mundo? As tais ra\u00edzes crist\u00e3s que falava\u2026 Somos capazes de levar a consci\u00eancia da dignidade da pessoa, da paz e do amor, da solidariedade aos outros pa\u00edses\u00bb? Ou desprezamos?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As migra\u00e7\u00f5es s\u00e3o um dos principias problemas das Europa, \u00e9 incontorn\u00e1vel. Na campanha est\u00e1-se a falar pouco disto?<\/em><\/p>\n<p>Depende de pa\u00eds para pa\u00eds.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em Portugal em concreto?<\/em><\/p>\n<p>Somos um pa\u00eds acolhedor, os imigrantes s\u00e3o bem-vindos, mas n\u00e3o querem vir muitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E os que v\u00eam, muitos n\u00e3o ficam.<\/em><\/p>\n<p>E n\u00f3s estar\u00edamos dispostos a receber mais. Nesse sentido somos um pa\u00eds simp\u00e1tico, acolhedor. Quem fica sem vontade de se ir embora, acaba por agradecer \u2013 h\u00e1 casos disso. N\u00e3o estranho que em Portugal n\u00e3o se fale muito do problema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas h\u00e1 not\u00edcias de que o Governo portugu\u00eas n\u00e3o tem aproveitado os fundos comunit\u00e1rios que t\u00eam sido enviados para acolher as migra\u00e7\u00f5es. Parece que h\u00e1 um desinteresse por este tema?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito complexo, n\u00e3o sei o que se passa a n\u00edvel pol\u00edtico, nos bastidores. N\u00e3o sabemos tudo, e tenho pena, porque vejo na sociedade e na Igreja em Portugal uma grande vontade, disponibilidade e empenho para acolher e fazer mais, para promover.<\/p>\n<p>Organizei alguns encontros com a pastoral dos migrantes pela Europa fora, e a experi\u00eancia portuguesa era apresentada, muitas vezes e reconhecida, como uma experi\u00eancia piloto de coopera\u00e7\u00e3o entre a sociedade e a Igreja.<\/p>\n<p>Se me diz que o Estado n\u00e3o est\u00e1 a aproveitar os fundos que poderia ter para fazer mais, eu diria que tenho pena disso. Porque n\u00e3o o faz? Quais os interesses que est\u00e3o por detr\u00e1s? N\u00e3o sei.<\/p>\n<figure id=\"attachment_136382\" aria-describedby=\"caption-attachment-136382\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019b.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-136382 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019b-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019b-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019b-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019b-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019b-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/duarte_cunha2019b.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-136382\" class=\"wp-caption-text\">Ag\u00eancia Ecclesia\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Agora como p\u00e1roco de Santa Joana Princesa, em Lisboa, mant\u00e9m o seu olhar sobre a Europa: a par\u00f3quia est\u00e1 a organizar um ciclo de debates \u00abQual Europa?\u00bb Surge neste tempo de prepara\u00e7\u00e3o para as elei\u00e7\u00f5es europeias. \u00c9 importante que a Igreja tenha iniciativas como esta que v\u00e3o para al\u00e9m da espuma dos dias?<\/em><\/p>\n<p>Julgo que muito povo de Deus, os portugueses, t\u00eam solicitado que falemos da Europa e est\u00e3o preocupados e conscientes da import\u00e2ncia do que acontece na Europa, com reflexo na vida em Portugal. Mas n\u00e3o se percebem todos os porqu\u00eas e os mecanismos. As pessoas querem perceber mais. Era \u00f3timo que a campanha eleitoral, em vez de debater quest\u00f5es muito internas, nos ajudasse a perceber o funcionamento da Europa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Porque s\u00e3o elei\u00e7\u00f5es europeias\u2026<\/em><\/p>\n<p>E n\u00e3o s\u00f3 como \u00e9 que funciona a estrutura. mas tamb\u00e9m quais as pol\u00edticas comuns, os objetivos, as propostas, como pensamos a integra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Europa, o Papa Francisco diz muitas vezes, \u00e9 uma fam\u00edlia de povos. E \u00e9 importante que se mantenha assim \u2013 ele fala da multipolaridade. N\u00e3o \u00e9 uma Europa que olha toda para uma dire\u00e7\u00e3o, mas podemos ter diferen\u00e7as e isso \u00e9 uma riqueza.<\/p>\n<p>Estes povos, que s\u00e3o diferentes, t\u00eam coisas comuns, como as ra\u00edzes crist\u00e3s, e t\u00eam destinos comuns, porque estamos num mundo globalizado. Se os pa\u00edses europeus n\u00e3o estiverem unidos, acabam absorvidos por uma cultura dominante, que n\u00e3o \u00e9 libertadora, mas antes limitadora.<\/p>\n<p>Para voltar \u00e0 quest\u00e3o: era bom que consegu\u00edssemos perceber melhor \u2013 e foi isso que me levou a propor um ciclo de confer\u00eancias \u2013as partes econ\u00f3micas, pol\u00edticas mas tamb\u00e9m as que n\u00e3o sendo da compet\u00eancia direta da Uni\u00e3o Europeia s\u00e3o muito marcantes na Uni\u00e3o, como as ideologias, as quest\u00f5es da vida e da fam\u00edlia, os lobbies ideol\u00f3gicos em Bruxelas que funcionam de maneira organizada, at\u00e9 reconhecida. N\u00e3o se trata de uma acusa\u00e7\u00e3o, \u00e9 algo reconhecido.<\/p>\n<p>Mas esta \u00e9 uma batalha que l\u00e1 existe e a Igreja est\u00e1 presente nessas batalhas com uma proposta, n\u00e3o de grupo de interesses, mas como representante da sociedade geral, com uma proposta de valores sociais. S\u00e3o este g\u00e9nero de quest\u00f5es precisamos perceber, os seus mecanismos. H\u00e1 mais de 30 mil funcion\u00e1rios da Uni\u00e3o Europeia em Bruxelas, n\u00e3o podemos perceber tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os bispos portugueses aprovaram a Carta pastoral \u00abUm olhar sobre Portugal e a Europa \u00e0 luz da Doutrina Social da Igreja\u00bb, onde, entre outras quest\u00f5es, manifestam-se muito preocupados com o crescimento da xenofobia, os movimentos de desagrega\u00e7\u00e3o que amea\u00e7am a coes\u00e3o da Europa. S\u00e3o alertas importantes feitos pela Igreja, ainda mais em tempo de elei\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>A carta est\u00e1 muito interessante, porque come\u00e7a com as quest\u00f5es da vida, da ess\u00eancia da vida, da dignidade humana para a forma como a vida humana vive e, depois, para a organiza\u00e7\u00e3o da sociedade onde essa vida humana se desenvolve.<\/p>\n<p>Os movimentos populistas ou xen\u00f3fobos, assim como os movimentos ideol\u00f3gicos do \u00abGender\u00bb, ou mais complicados como o que chamo de homologa\u00e7\u00e3o &#8211; uma palavra que vem do italiano, ou seja, esta tentativa de homogeneizar toda a realidade. Se pensarmos todos da mesma maneira, temos todos os mesmos interesses, sermos todos for\u00e7ados a seguir a cartilha ideol\u00f3gica vigente. Penso que este \u00e9 um problema que a Europa atravessa.<\/p>\n<p>O problema dos populismos que desagregam identit\u00e1rios em excesso e os problemas mais globalistas ou internacionalistas que tentam dissolver as identidades s\u00e3o dois polos que se promovem uns aos outros, paradoxalmente: quanto mais existe algu\u00e9m a dizer que a Europa a construir tem de ser unida, uns Estados Unidos da Europa, mais aparecem uns a dizer que temos de nos separar, para n\u00e3o haver esse perigo; quanto mais aparecem uns a dizer que temos de viver em tens\u00e3o uns com os outros, mais aparecem outros a dizer o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>A intelig\u00eancia cat\u00f3lica com que esta Uni\u00e3o Europeia foi pensada era a capacidade de cada um ser mais ele mesmo, na medida em que \u00e9 mais com os outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma oposi\u00e7\u00e3o ser com e ser eu. Esta \u00e9 a experi\u00eancia do amor, a l\u00f3gica da solidariedade, em que o pa\u00eds ganha por poder ajudar porque no todo somos desenvolvidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Europa est\u00e1 visivelmente envelhecida, a v\u00e1rios n\u00edveis. A Igreja cat\u00f3lica tem procurado com o seu discurso e a aten\u00e7\u00e3o que dedica \u00e0 realidade juvenil, que os jovens se sintam cada vez mais empenhados e tenham voz ativa, at\u00e9 na vida pol\u00edtica. De que forma uma renova\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as, inspirada em valores que acabou de referir, pode ser importante para combater esses perigos na Uni\u00e3o europeia?<\/em><\/p>\n<p>Temos esperan\u00e7a. A Igreja na Europa tem tentado enfrentar a quest\u00e3o do envelhecimento em duas formas: valorizando o idoso enquanto tal, a pessoa na sua dignidade, at\u00e9 ao seu \u00faltimo respiro. A pessoa tem esse valor e n\u00e3o lhe queremos nem retirar nem acelerar a morte porque ela vale.<\/p>\n<p>A outra dimens\u00e3o \u00e9 dizer: a Europa n\u00e3o pode ser s\u00f3 envelhecida. A riqueza dos que viveram mais anos \u00e9 a possibilidade de passar o testemunho a outros. Queremos ter jovens que possam receber o testemunho \u2013 o Papa fala da rela\u00e7\u00e3o entre av\u00f3s e netos como importante \u2013, para que estes jovens possam pegar nas r\u00e9deas dos destinos do mundo com valores que, n\u00e3o s\u00f3 herdam, mas que desenvolvam. Uma heran\u00e7a n\u00e3o fossilizada e pronta, mas que herdo como algo vivo, desenvolvo.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que faz com que haja propostas novas e criativas. O Papa fala que a criatividade \u00e9 importante na Europa, uma Europa fecunda e criativa.<\/p>\n<p>E Os jovens pol\u00edticos nos pa\u00edses e na Europa ter\u00e3o de ser pessoas bem formadas e que vivam em alguma experi\u00eancia comunit\u00e1ria. N\u00e3o podem ser um \u00abRobin Hood\u00bb que salva o mundo. \u00c9 preciso gente e grupos de reflex\u00e3o e que sejam movidos pelo amor, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 por um jogo de interesse ou por um combate, mas atrav\u00e9s do di\u00e1logo e da promo\u00e7\u00e3o do bem, consigam melhorar as coisas.<\/p>\n<p>Uma nova gera\u00e7\u00e3o come\u00e7a a nascer que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o anticat\u00f3lica como a anterior, at\u00e9 porque o catolicismo n\u00e3o tem tanta express\u00e3o p\u00fablica como tinha, j\u00e1 n\u00e3o faz sentido em alguns pa\u00edses da Europa ser-se anticat\u00f3lico. Faz sentido, ao mesmo tempo, procurar saber o que se perdeu pelo caminho, as tais ra\u00edzes e valores, os tais ideias e esperan\u00e7as que se a Europa n\u00e3o tiver e os jovens europeus n\u00e3o tiverem, tamb\u00e9m n\u00e3o se constr\u00f3i.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O padre Duarte da Cunha, foi secret\u00e1rio-geral do Conselho das Confer\u00eancias Episcopais da Europa (CCEE) durante uma d\u00e9cada. A poucas semanas das elei\u00e7\u00f5es europeias, fala das v\u00e1rias realidades que encontrou no Velho (cada vez mais) Continente, das ra\u00edzes crist\u00e3s por redescobrir e da coes\u00e3o social que pode assegurar uma resposta condigna \u00e0 crise migrat\u00f3ria e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":136383,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[630],"tags":[],"class_list":["post-136438","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136438","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=136438"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/136438\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/136383"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=136438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=136438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=136438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}