{"id":135111,"date":"2019-04-25T00:11:44","date_gmt":"2019-04-24T23:11:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=135111"},"modified":"2019-05-02T13:09:32","modified_gmt":"2019-05-02T12:09:32","slug":"25-de-abril-a-mudanca-de-condicoes-politicas-afetou-o-lugar-da-religiao-na-construcao-das-identidades-coletivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/25-de-abril-a-mudanca-de-condicoes-politicas-afetou-o-lugar-da-religiao-na-construcao-das-identidades-coletivas\/","title":{"rendered":"25 de abril: \u00abA mudan\u00e7a de condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas afetou o lugar da religi\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o das identidades coletivas\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Num dia em que Portugal comemora o 25 de abril, a Ag\u00eancia ECCLESIA procurou perceber o que \u00e9 que mudou desde 1974 no pa\u00eds, na perspetiva da f\u00e9, em di\u00e1logo com o professor Alfredo Teixeira, autor da obra \u2018Religi\u00e3o na sociedade portuguesa\u2019, da Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel dos Santos.<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida pelo jornalista Henrique Matos <\/em><\/p>\n<p><em> <img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-135105 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/img_956489951324.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/img_956489951324.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/img_956489951324-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/img_956489951324-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/img_956489951324-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/img_956489951324-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/em><\/p>\n<p><em>Ag\u00eancia Ecclesia &#8211; At\u00e9 que ponto \u00e9 que a identidade religiosa dos portugueses tamb\u00e9m mudou com a revolu\u00e7\u00e3o do 25 de abril de 1974?<\/em><\/p>\n<p>Alfredo Teixeira &#8211; De facto os acontecimentos que conduziram ao processo de democratiza\u00e7\u00e3o no pa\u00eds n\u00e3o podem ser isolados de todo um conjunto de transforma\u00e7\u00f5es que, no caso da religi\u00e3o, a meu ver, tinham conhecido alguma acelera\u00e7\u00e3o a partir da d\u00e9cada de 60.<\/p>\n<p>Eu diria que o 25 de abril n\u00e3o \u00e9 propriamente um sobressalto religioso na sociedade portuguesa, mas de alguma maneira a mudan\u00e7a de condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas afetou sobretudo o lugar da religi\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o das identidades coletivas. \u00c9 curioso que, ainda antes da revolu\u00e7\u00e3o, num dos poucos estudos sociogr\u00e1ficos sobre a religi\u00e3o em Portugal, coordenado pelo frei Lu\u00eds de Fran\u00e7a, era observada uma coisa curiosa.<\/p>\n<p>O estudo pretendia saber o que \u00e9 que os portugueses achavam acerca do problema da Concordata, se ela devia ser revista ou n\u00e3o, colocavam-se v\u00e1rias perguntas relativas \u00e0 quest\u00e3o da liberdade religiosa em Portugal. E \u00e9 interessante observar que, de uma forma geral, os portugueses n\u00e3o estavam demasiado preocupados com a quest\u00e3o da Concordata em termos gerais, ou seja, n\u00e3o estavam muito preocupados com os problemas da rela\u00e7\u00e3o Estado-Igreja Cat\u00f3lica em termos gerais.<\/p>\n<p>Estavam preocupados sim com uma quest\u00e3o em concreto, que tinha a ver com a sua pr\u00f3pria liberdade individual, que era o problema de estar interdito aos cat\u00f3licos o acesso ao instituto jur\u00eddico do div\u00f3rcio. A\u00ed, de uma forma de facto massiva, os portugueses inquiridos manifestam-se contra a revoga\u00e7\u00e3o desse privil\u00e9gio que era dado \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, de manuten\u00e7\u00e3o de um certo controlo social podemos dizer assim, sobre esse aspeto.<\/p>\n<p>Eu diria que, sob esse ponto de vista, a revolu\u00e7\u00e3o do 25 de abril de 1974 est\u00e1 no lugar de uma trajet\u00f3ria de emancipa\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos na sociedade portuguesa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Havia nesta altura uma falha de comunica\u00e7\u00e3o<\/em> entre a Igreja com a pr\u00f3pria sociedade?<\/p>\n<p>AT &#8211; Em parte sim, mas \u00e9 preciso recordar que em todo o caso a Igreja Cat\u00f3lica portuguesa vivia j\u00e1 os dinamismos de rece\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II. Portanto, em muitos contextos haviam j\u00e1 sensibilidades que n\u00e3o podiam j\u00e1 descrever-se no quadro daquela alian\u00e7a, pelo menos simb\u00f3lica, entre Estado e Igreja, que tinha acontecido antes.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; O pr\u00f3prio 25 de abril contou com a participa\u00e7\u00e3o dos cat\u00f3licos.<\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; Exatamente, e mesmo no per\u00edodo anterior \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o n\u00f3s temos claramente grupos de cat\u00f3licos que se afirmam como resistentes ao regime autorit\u00e1rio anterior.<\/p>\n<p>Agora, de facto, de alguma maneira o Estado-Novo tinha constru\u00eddo uma imagem do Portugal-Aldeia, do Portugal fechado sobre si e ao mesmo tempo aliado a uma certa ideia de imp\u00e9rio, que podia ser facilmente descrito como uma extens\u00e3o da pr\u00f3pria cristandade no mundo. Esse aproveitamento da for\u00e7a moral, da for\u00e7a agregadora da religi\u00e3o por parte do Estado-Novo de alguma forma construiu, pelo menos politicamente, a ideia de que ser-se portugu\u00eas ou ser-se cat\u00f3lico era quase a mesma coisa.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o diria que a revolu\u00e7\u00e3o de 1974 \u00e9 o \u00fanico acontecimento que destr\u00f3i essa constru\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 de facto um acelerador dessa desconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; O livro \u2018Religi\u00e3o na sociedade portuguesa\u2019 tamb\u00e9m d\u00e1 conta de uma certa tens\u00e3o entre a religiosidade mais institucional da Igreja Cat\u00f3lica no pa\u00eds e a religiosidade popular, por exemplo das romarias. H\u00e1 aqui um ponto de entendimento nas festividades? <\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; Eu costumo usar mais o termos transa\u00e7\u00e3o entre esses dois universos religiosos. N\u00f3s n\u00e3o podemos compreender a sociedade portuguesa, do ponto de vista religioso, sem levarmos em conta que em Portugal subsistiram estruturas de tradicionalidade religiosa at\u00e9 bastante tarde.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso recordar que n\u00f3s nos anos 70 por exemplo ainda tivemos aqui antrop\u00f3logos que vieram da Europa, antrop\u00f3logos estrangeiros que vieram estudar Portugal sob o ponto de vista religioso, um pouco como iam para diferentes pa\u00edses do hemisf\u00e9rio sul vistos como outros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa. Esse interesse antropol\u00f3gico e etnogr\u00e1fico d\u00e1 conta da perce\u00e7\u00e3o, na Europa, de que Portugal era na altura de alguma maneira encarado como um outro, como um espa\u00e7o diferente, ex\u00f3tico, sob o ponto de vista religioso.<\/p>\n<p>Eu estou a recordar-me por exemplo Pierre Sanchis, um antrop\u00f3logo franc\u00eas que depois migrou para o Brasil. O que \u00e9 que ele veio estudar em Portugal nessa altura? Veio estudar a romaria, o fen\u00f3meno da romaria.<\/p>\n<p>A romaria que \u00e9 uma peregrina\u00e7\u00e3o com carater\u00edsticas pr\u00f3prias, porque \u00e9 uma peregrina\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Ela constr\u00f3i-se n\u00e3o apenas naquilo que \u00e9 uma dimens\u00e3o de religiosidade individual, ligada aos problemas de cada um, da fam\u00edlia, dos seus c\u00edrculos de rela\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 uma peregrina\u00e7\u00e3o muito mais marcada pela pr\u00f3pria constru\u00e7\u00e3o da identidade local de uma comunidade.<\/p>\n<p>De alguma maneira, essa religiosidade subsistiu at\u00e9 bastante tarde. Eu diria que at\u00e9 n\u00f3s, de uma forma diferente, mas por exemplo nesta quadra que vivemos da P\u00e1scoa, em que muitos portugueses regressam \u00e0s suas terras de origem e vivem a\u00ed de alguma maneira a religi\u00e3o da sua terra.<\/p>\n<p>Era de facto muito marcada por esta dimens\u00e3o comunit\u00e1ria. E isso, de facto, a partir dos anos 60, sobretudo quando vamos conhecer uma certa desruraliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, vamos conhecer fen\u00f3menos diversos de migra\u00e7\u00e3o, para fora do pa\u00eds, para grandes \u00e1reas metropolitanas, isso desestruturou de facto essa religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Portanto aquela alian\u00e7a que havia, com tens\u00f5es como referiu, entre um catolicismo institucional, governado sob o ponto de vista da sua institucionalidade, a partir de um corpo de sacerdotes.<\/p>\n<p>Tudo isso que conhecemos como t\u00edpico de uma religi\u00e3o institucionalizada, dialogava de facto com um vasto report\u00f3rio de religiosidade que era muito marcado por essa l\u00f3gica local, comunit\u00e1ria, onde de alguma maneira ser habitante de um lugar era tamb\u00e9m partilhar um conjunto de convic\u00e7\u00f5es, de pr\u00e1ticas religiosas, que descreviam esse lugar.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/IMG_3387.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-135104 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/IMG_3387-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/IMG_3387-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/IMG_3387-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/IMG_3387-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/IMG_3387-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/IMG_3387.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>AE &#8211; Mas neste estado de coisas depois apresenta no livro por exemplo F\u00e1tima como um caso de estudo da modernidade religiosa.<\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; Sim, porque F\u00e1tima de facto tem desse ponto de vista um lugar paradoxal, porque ao mesmo tempo em F\u00e1tima encontramos boa parte desse tal report\u00f3rio religioso tradicional.<\/p>\n<p>F\u00e1tima dialoga com a religiosidade da B\u00ean\u00e7\u00e3o, com a religiosidade da Promessa.<\/p>\n<p>Mas desde muito cedo encontramos em F\u00e1tima muitas orienta\u00e7\u00f5es que de alguma forma visavam distinguir F\u00e1tima daquilo que n\u00f3s conhec\u00edamos como a tal romaria tradicional, porque a romaria \u00e9 uma festa total, envolve todas as dimens\u00f5es da comunidade humana, desde a troca comercial ao divertimento, todas as dimens\u00f5es poss\u00edveis da festa. E de alguma maneira F\u00e1tima, recolhendo parte desse report\u00f3rio religioso, no entanto vai construir marcas distintivas.<\/p>\n<p>Portanto eu diria que F\u00e1tima \u00e9 ao mesmo tempo esse lugar que recolhe uma certa tradicionalidade religiosa, mas a inscreve agora em quadros sociais novos. E por isso \u00e9 que eu costumo falar de F\u00e1tima como um agente de destradicionaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sociedade portuguesa.<\/p>\n<p>Aquilo que era central em boa parte da religiosidade dos portugueses, e que de alguma maneira agora \u00e9 vivido em quadros sociais novos, j\u00e1 n\u00e3o determinados, j\u00e1 n\u00e3o agarrados a essa tal religi\u00e3o de um lugar, a essa religi\u00e3o essencialmente familiar, constru\u00edda na aldeia, a partir dessa identidade, agora essa religiosidade tem que acompanhar os portugueses nos seus tr\u00e2nsitos. Tem que acompanhar a fam\u00edlia portuguesa que chega aqui \u00e0 Esta\u00e7\u00e3o de Santa Apol\u00f3nia para reconstruir a sua vida numa qualquer periferia de Lisboa, ou a que chega a Paris para reconstruir a sua vida numa periferia dessa grande cidade europeia. Em todas estas circunst\u00e2ncias F\u00e1tima vai se revelar de facto muito importante na reconstru\u00e7\u00e3o da identidade religiosa dos portugueses.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; E hoje quem passa pela Cova da Iria percebe que h\u00e1 ali formas de celebrar e de viver F\u00e1tima por parte de jovens urbanos, de jovens rurais, de pessoas mais idosas, de pessoas de meia-idade. Todos encontram ali um lugar de celebra\u00e7\u00e3o da sua f\u00e9. \u00a0\u00a0\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; Nesse sentido, de alguma maneira F\u00e1tima incorpora um dos aspetos fundamentais da cultura moderna, que \u00e9 o pluralismo, esta viv\u00eancia que j\u00e1 n\u00e3o pode ser reduzida, compactada numa \u00fanica forma de expressividade.<\/p>\n<p>F\u00e1tima \u00e9 ao mesmo tempo um grande lugar de di\u00e1logo da Igreja Cat\u00f3lica com a sociedade de uma forma geral, mas h\u00e1 tamb\u00e9m aquilo que eu chamaria de uma F\u00e1tima biogr\u00e1fica, que \u00e9 aquela F\u00e1tima reconstru\u00edda pela hist\u00f3ria de cada um, pela hist\u00f3ria dos diferentes grupos e comunidades.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, da minha experi\u00eancia em contexto de debate, em contextos diversos em que falo de F\u00e1tima para diferentes audi\u00eancias, quando as pessoas depois tomam a palavra aquilo que acontece normalmente \u00e9 que as pessoas t\u00eam uma qualquer hist\u00f3ria para contar acerca de F\u00e1tima, da sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o com F\u00e1tima. Nesse sentido, F\u00e1tima acompanha muito bem toda a trajet\u00f3ria de individualiza\u00e7\u00e3o religiosa que marca de facto as din\u00e2micas da modernidade.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Neste livro \u2018Religi\u00e3o na sociedade portuguesa\u2019 temos tamb\u00e9m um elemento que altera um pouco as coisas, que \u00e9 a mobilidade. Esta democratiza\u00e7\u00e3o do transporte particular, dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, nomeadamente no meio urbano, que levou a que as par\u00f3quias tenham visto os seus limites tradicionais um tanto ou quanto alterados. <\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; Sim, a mobilidade \u00e9 uma carater\u00edstica das culturas urbanas, e portanto essa tal religiosidade de vizinhan\u00e7a, ligada sobretudo a essa ancoragem num lugar, de alguma maneira foi afetada pela experi\u00eancia de mobilidade. Eu diria que temos de ver isso de dois pontos de vista.<\/p>\n<p>H\u00e1 um primeiro ponto de vista que \u00e9 o da mobilidade de mais longo curso, que n\u00f3s podemos identificar no caso portugu\u00eas com esse tr\u00e2nsito que aconteceu do espa\u00e7o rural para os espa\u00e7os urbanos ou periurbanos, que conduziu a esta litoraliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds que conhecemos.<\/p>\n<p>De uma maneira geral, nos inqu\u00e9ritos que fazemos sobre as identidades religiosas em Portugal, quando n\u00f3s restringimos a amostra apenas \u00e0s pessoas que vivem num determinado lugar h\u00e1 10 ou menos anos, o peso relativo dos cat\u00f3licos diminui imediatamente.<\/p>\n<p>As pessoas que est\u00e3o num lugar h\u00e1 10 ou menos anos s\u00e3o normalmente mais jovens e s\u00e3o normalmente pessoas que incorporam a pr\u00f3pria mobilidade como algo que faz parte do seu estilo de vida. Ora, de uma forma geral, o catolicismo que herdamos parece n\u00e3o estar muito adaptado a esta condi\u00e7\u00e3o nova. E por isso quando n\u00f3s de facto isolamos esse tipo de popula\u00e7\u00e3o, a identidade cat\u00f3lica est\u00e1 menos representada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/blur-candlelight-close-up-1024900.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-135103 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/blur-candlelight-close-up-1024900-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/blur-candlelight-close-up-1024900-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/blur-candlelight-close-up-1024900-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/blur-candlelight-close-up-1024900-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/blur-candlelight-close-up-1024900-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/04\/blur-candlelight-close-up-1024900.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>AE &#8211; E a Igreja ainda est\u00e1 a perceber isto?<\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; A Igreja, no fundo, desde j\u00e1 o per\u00edodo industrial, do final do s\u00e9culo XIX, da primeira metade do s\u00e9culo XX, acompanhou de alguma maneira este processo. Acompanhou-o por exemplo multiplicando as par\u00f3quias no espa\u00e7o urbano para criar as tais unidades de proximidade.<\/p>\n<p>Depois \u00e9 preciso ter em conta por exemplo a import\u00e2ncia dos movimentos eclesiais, em particular depois j\u00e1 do Conc\u00edlio Vaticano II, que s\u00e3o claramente formas de identifica\u00e7\u00e3o religiosa que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o dependentes dessa tal estrutura territorial, correspondem j\u00e1 a um modelo novo de constru\u00e7\u00e3o da perten\u00e7a cat\u00f3lica. S\u00f3 que de facto a capacidade que uma institui\u00e7\u00e3o tem de se apropriar estrategicamente dessa din\u00e2mica \u00e9 muito limitada, porque os indiv\u00edduos movem-se porque se podem mover.<\/p>\n<p>Parece uma verdade de La Palisse mas de facto \u00e9 isso que acontece, as pessoas t\u00eam condi\u00e7\u00f5es para isso, e portanto o destino daquilo que lhes \u00e9 transmitido, aquilo que elas v\u00e3o fazer com aquilo que lhes \u00e9 transmitido pode ter de facto contextos muito diversos.<\/p>\n<p>Nas cidades em concreto, nos espa\u00e7os de mobilidade mais integrada, a\u00ed temos um outro fen\u00f3meno, que n\u00e3o se distribui igualmente por todo o territ\u00f3rio, mas est\u00e1 concentrado sobretudo nestes espa\u00e7os da cidade, portanto, claramente espa\u00e7os mais integrados sob o ponto de vista da mobilidade. E aqui n\u00f3s, de facto, encontramos comunidades paroquiais onde a dimens\u00e3o territorial, no que diz respeito \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da comunidade, pode ter j\u00e1 muito pouca import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>S\u00f3 para dar um exemplo, num estudo de profundidade que fiz j\u00e1 no in\u00edcio deste s\u00e9culo, numa par\u00f3quia aqui da cidade de Lisboa, por exemplo nas assembleias dominicais eu encontrava sempre acima de 60 por cento de n\u00e3o residentes na par\u00f3quia. Mas se eu passasse das assembleias dominicais para os pequenos grupos que funcionam dentro da par\u00f3quia, para o universo daqueles que no fundo fazem funcionar a comunidade no seu interior, a\u00ed ent\u00e3o, em muitos casos, os residentes eram menos de 10 por cento.<\/p>\n<p>Portanto estamos a falar j\u00e1 de um contexto em que a par\u00f3quia pode ter uma forte dimens\u00e3o eletiva, as pessoas escolhem estar ali e, nesse sentido, a sua rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio \u00e9 diferente. N\u00e3o deixa de haver uma rela\u00e7\u00e3o com o territ\u00f3rio, mas ela \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; A par\u00f3quia \u00e9 a cidade, como diz aqui no livro.<\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; Sim, eu cito a\u00ed um autor importante aqui do Patriarcado de Lisboa que, com essa afirma\u00e7\u00e3o no fundo revela a consci\u00eancia de que hoje, numa cidade como espa\u00e7o integrado, pensar uma din\u00e2mica pastoral para a Igreja Cat\u00f3lica implica pensar a cidade como um todo, e n\u00e3o com a l\u00f3gica da quadr\u00edcula paroquial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Estamos a falar na mobilidade, que alterou um pouco o panorama das coisas. H\u00e1 um fen\u00f3meno de alguma mobilidade, dos tempos medievais, que era a peregrina\u00e7\u00e3o, o deslocar-se, o ir a algum lado. Curiosamente, hoje nos tempos que temos h\u00e1 um reavivar da identifica\u00e7\u00e3o das pessoas com este g\u00e9nero de experi\u00eancia. <\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; De facto a peregrina\u00e7\u00e3o, em termos mais gerais, \u00e9 um fen\u00f3meno religioso universal. Quase que n\u00e3o conhecemos uma grande tradi\u00e7\u00e3o religiosa que n\u00e3o tenha no interior de si a pr\u00e1tica da peregrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Porque de alguma maneira a peregrina\u00e7\u00e3o dialoga muito bem com algo que \u00e9 estrutural na experi\u00eancia religiosa, e quando falo de experi\u00eancia religiosa estou a falar da experi\u00eancia religiosa humana, independentemente depois do contexto denominacional e confessional em que se vive, que \u00e9 esta experi\u00eancia do humano que se p\u00f5e a caminho, ou seja, que considera n\u00e3o definitivo o pr\u00f3prio lugar que habita e procura alguma coisa que est\u00e1 para al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Portanto, o caminho \u00e9 de alguma maneira uma afirma\u00e7\u00e3o, por um lado, desta consci\u00eancia do provis\u00f3rio que \u00e9 a nossa pr\u00f3pria exist\u00eancia, e da sua pr\u00f3pria abertura das pessoas a algo que as transcende. Agora isto depois teve concretiza\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas diferentes.<\/p>\n<p>O que \u00e9 interessante nas nossas sociedades hipermodernas \u00e9 ver como \u00e9 que, de alguma maneira, este tra\u00e7o que podemos dizer que \u00e9 at\u00e9 um dos tra\u00e7os mais tradicionais da viv\u00eancia religiosa, \u00e9 talvez um dos lugares de mais forte recomposi\u00e7\u00e3o, ou seja, \u00e9 um dos lugares onde encontramos maior criatividade religiosa.<\/p>\n<p>A meu ver, isso tem que ver com diversos fatores. O primeiro, a peregrina\u00e7\u00e3o, apesar de em algumas das suas concretiza\u00e7\u00f5es, como eu referia antes, poder ter uma forte dimens\u00e3o comunit\u00e1ria, em todo o caso ela pode ter facilmente tamb\u00e9m uma forte apropria\u00e7\u00e3o individual. Ou seja, a peregrina\u00e7\u00e3o pode adaptar-se bem a um perfil da religiosidade marcadamente individual, e nesse sentido a peregrina\u00e7\u00e3o tem uma plasticidade muito grande.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco fal\u00e1vamos de F\u00e1tima, aqui de facto encontramos as mais diversas motiva\u00e7\u00f5es, as mais diversas formas de express\u00e3o, da pr\u00f3pria religiosidade que conduz as pessoas ali. Mas se pensarmos noutros acontecimentos, que \u00e0 primeira vista n\u00e3o ver\u00edamos como peregrina\u00e7\u00e3o, como por exemplo as Jornadas Mundiais da Juventude.<\/p>\n<p>S\u00e3o eventos que, a meu ver, se enra\u00edzam claramente nesta mesma tradi\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/peregrinacao_militares_fatima111.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-131444 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/peregrinacao_militares_fatima111-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/peregrinacao_militares_fatima111-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/peregrinacao_militares_fatima111-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/peregrinacao_militares_fatima111-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/peregrinacao_militares_fatima111-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/peregrinacao_militares_fatima111.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>AE &#8211; E esta plasticidade depois poder\u00e1 ser porta de entrada para uma religi\u00e3o mais institucionalizada, para alguns?<\/em><\/p>\n<p>AT &#8211; Pode ser porta de entrada ou de sa\u00edda, ali\u00e1s as portas t\u00eam essa dupla fun\u00e7\u00e3o. De facto, na medida em que esse acontecimento, que pode sofrer uma forte apropria\u00e7\u00e3o individual, n\u00e3o encontrar depois uma rela\u00e7\u00e3o coesa com outras dimens\u00f5es da experi\u00eancia eclesial, de alguma forma ela pode manter-se como uma esp\u00e9cie de navega\u00e7\u00e3o \u00e0 vista, que \u00e9 um aspeto interessante na religiosidade atual, a que devemos estar atentos. Porque n\u00f3s temos no campo cat\u00f3lico &#8211; n\u00e3o s\u00f3 cat\u00f3lico mas no campo isso \u00e9 observ\u00e1vel em diferentes contextos europeus &#8211; um conjunto importante de cat\u00f3licos que mant\u00eam a comunidade cat\u00f3lica como uma esp\u00e9cie de refer\u00eancia.<\/p>\n<p>Isso quer dizer que, em muitos casos, a sua aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade cat\u00f3lica pode ter ritmos que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os ritmos que conhec\u00edamos. Estou a recordar-me por exemplo se uma investiga\u00e7\u00e3o recente, feita em Fran\u00e7a, que mostra como por exemplo os mosteiros franceses desempenham para estas pessoas um papel muito importante.<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas, fam\u00edlias, que por exemplo por ano tiram sempre uma semana, um fim-de-semana, alguns dias, para estar num determinado convento. E est\u00e3o l\u00e1 porqu\u00ea? Por exemplo, esse estudo demonstrava que os conventos que t\u00eam mais sucesso s\u00e3o aqueles que de alguma forma incluem as pessoas em algumas das din\u00e2micas de viv\u00eancia religiosa do pr\u00f3prio mosteiro, portanto n\u00e3o s\u00e3o apenas uma esp\u00e9cie de inst\u00e2ncia tur\u00edstica.<\/p>\n<p>O que quer dizer que as pessoas de alguma forma vivem esta rela\u00e7\u00e3o com o religioso, querem ter momentos para isso, mas porventura j\u00e1 n\u00e3o o v\u00e3o fazer com o tipo de rela\u00e7\u00e3o quotidiana e com os ritmos que n\u00f3s conhec\u00edamos anteriormente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num dia em que Portugal comemora o 25 de abril, a Ag\u00eancia ECCLESIA procurou perceber o que \u00e9 que mudou desde 1974 no pa\u00eds, na perspetiva da f\u00e9, em di\u00e1logo com o professor Alfredo Teixeira, autor da obra \u2018Religi\u00e3o na sociedade portuguesa\u2019, da Funda\u00e7\u00e3o Francisco Manuel dos 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