{"id":134666,"date":"2019-04-19T21:36:56","date_gmt":"2019-04-19T20:36:56","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=134666"},"modified":"2019-04-23T12:28:34","modified_gmt":"2019-04-23T11:28:34","slug":"homilia-do-bispo-da-diocese-das-forcas-armadas-e-das-forcas-de-seguranca-na-celebracao-da-paixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-da-diocese-das-forcas-armadas-e-das-forcas-de-seguranca-na-celebracao-da-paixao\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo da Diocese das For\u00e7as Armadas e das For\u00e7as de Seguran\u00e7a na Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>HOMILIA SEXTA-FEIRA SANTA de D. RUI VAL\u00c9RIO<\/strong><\/p>\n<p><strong>Diocese das For\u00e7as Armadas e For\u00e7as de Seguran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p><strong>1.<\/strong>Envolvidos pelo sil\u00eancio que brota da Cruz do Calv\u00e1rio, de onde pende o Redentor do mundo, o nosso assombro iguala o de Elias, quando, no Monte Horeb, pressentiu a passagem do Senhor no murm\u00fario de uma brisa suave e cobriu o seu rosto. Hoje, cobrimos aqui a nossa mudez com algumas quest\u00f5es decisivas que a santidade deste Horizonte nos sugere. E n\u00e3o nos questionamos sobre o porqu\u00ea do sofrimento, mas interpelamos o Cristo Crucificado sobre <strong>que Deus nos revela ele e que ser humano nos prop\u00f5e<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong>\u201cQue Deus nos revelas?\u201d<\/p>\n<p>Ao contemplarmos o G\u00f3lgota, vislumbramos um Deus de compaix\u00e3o, que assume totalmente a nossa condi\u00e7\u00e3o, partilhando connosco tudo quanto nos define e configura, exceto o pecado, mesmo os limites e constrangimentos com que a exist\u00eancia humana se confronta, como a experi\u00eancia do sofrimento, da insufici\u00eancia, da vulnerabilidade e da morte.<\/p>\n<p>O livro do G\u00e9nesis diz-nos que, ao sermos criados, Deus imprimiu em n\u00f3s a Sua imagem e semelhan\u00e7a, concedendo-nos os seus atributos: a Beleza, a Bondade e a Verdade. Os relatos da crucifica\u00e7\u00e3o parecem, de certa maneira, inverter o que fora realizado no ato criador primordial. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o ser humano a receber de Deus a sua assinatura inconfund\u00edvel; \u00e9 o pr\u00f3prio Deus a receber da condi\u00e7\u00e3o humana tudo o que a define at\u00e9 ao limite impens\u00e1vel do sofrimento, da dor, da morte e da solid\u00e3o, que a ele era estranho e contr\u00e1rio. E \u00e9 maravilhoso constatar que Deus, por amor, se deixa tocar por aquilo que n\u00e3o havia criado e a ele era adverso \u2014o sofrimento e a morte \u2014, permitindo que a sua amada criatura o insulte, o rejeite, o fustigue e o condene \u00e0 mais ignominiosa de todas as mortes. \u00c9 assim que Deus nos recebe e acolhe inteiramente, com toda a nossa mis\u00e9ria, com toda a nossa podrid\u00e3o. Grande e inimagin\u00e1vel \u00e9 semelhante Amor! Com raz\u00e3o dizia S. Bernardo de Claraval: \u201cAs chagas do corpo deixam ver o \u00edntimo do cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong>A humanidade vive no ex\u00edlio de si mesma. Veio de Deus e para Deus foi criada, mas na desobedi\u00eancia a Deus, partiu para uma terra distante e long\u00ednqua, afastada da sua p\u00e1tria divina. Jesus veio at\u00e9 aos seus dom\u00ednios para a resgatar dessa condi\u00e7\u00e3o desgra\u00e7ada, para a reconquistar e libertar, para a fazer regressar \u00e0 terra sagrada da sua condi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria. A Cruz \u00e9, portanto, o \u00eaxodo que realiza esse regresso, \u00e9 o caminho pelo deserto da vida, sem o qual n\u00e3o seria poss\u00edvel ver a pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o, a p\u00e1tria onde corre leite e mel, onde ningu\u00e9m ser\u00e1 escravo ou servo, onde todo o ser humano se assume como filho amado de Deus e irm\u00e3o dos demais. A cruz \u00e9 tamb\u00e9m a ponte, atrav\u00e9s da qual Cristo vem at\u00e9 n\u00f3s, ao mesmo tempo que mergulha na miser\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o do ser humano para nos resgatar e reconquistar para Si. Na cruz, revela-se este apego de Deus \u00e0 humanidade, a cada um de n\u00f3s, este amor indiz\u00edvel que se estende at\u00e9 \u00e0 loucura de jamais desistir de n\u00f3s, filhos pr\u00f3digos, alienados e vendidos aos deuses f\u00e1ceis e mesquinhos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>4.<\/strong>\u201cQue ser humano nos prop\u00f5es?\u201d<\/p>\n<p>Cristo Crucificado \u00e9 o Filho de Deus que se entrega \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana inteiramente por amor. N\u00e3o foi por causa de nenhuma lei eterna e imut\u00e1vel \u00e0 qual Deus teria de obedecer que o Filho se fez humano e assumiu todos os condicionalismos dessa humanidade at\u00e9 \u00e0 morte. Foi por absoluto amor que Deus assumiu a carne vulner\u00e1vel e desabrigada. Mostra-nos, assim, que o \u00fanico itiner\u00e1rio poss\u00edvel para a vida \u00e9 o caminho do amor, da d\u00e1diva de si at\u00e9 ao limite, da entrega \u00e0 causa de Deus e dos seres humanos. Apenas deste modo poderemos viver ao jeito e ao estilo de Deus, que se n\u00e3o poupou, mas se ofereceu, na fragilidade ignominiosa da cruz, para a reden\u00e7\u00e3o da humanidade ferida. Ser dom de si, exatamente ao estilo e jeito de Deus, eis a miss\u00e3o de cada crente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>5.<\/strong>Elie Wiesel, um autor judeu que viveu o terr\u00edvel holocausto nazi, refere que enquanto Cristo j\u00e1 desceu da Cruz, foi sepultado e \u00e9 celebrado como Ressuscitado, Abra\u00e3o ainda \u201ccontinua com o bra\u00e7o levantado, m\u00e3o estendida, segurando o punhal para degolar o filho Isaac\u201d nos Mori\u00e1 do mundo. Embora aluda ao sofrimento do povo judeu, Wiesel tem raz\u00e3o tamb\u00e9m no que se refere a Cristo: o mesmo Cristo que foi crucificado e que morreu \u2014Ressuscitou.<\/p>\n<p>Contudo, o santo povo de Deus, a Igreja, n\u00e3o obstante os mil\u00e9nios que passaram, continua, com Maria e Jo\u00e3o, o disc\u00edpulo amado, sempre junto \u00e0 Cruz. Nunca a Igreja arredou p\u00e9 de junto de quem sofre, de quem pende da Cruz porque os crist\u00e3os nunca deixaram de se compadecer com quem sofrer, nem de estar junto dos aflitos. Este o ser humano proposto pelo Crucificado: fazer-se pr\u00f3ximo de todos os que est\u00e3o ca\u00eddos pela estrada da vida: os que sofrem num leito do hospital, os que vivem atormentados pelo isolamento e solid\u00e3o, mas tamb\u00e9m os que diariamente s\u00e3o fustigados pela dor de n\u00e3o serem devidamente valorizados pelo seu trabalho.<\/p>\n<p>Infelizmente, assistimos hoje a um incremento das condi\u00e7\u00f5es que tornam a vida de muitos um aut\u00eantico calv\u00e1rio. Quanta solid\u00e3o e abandono dos mais velhos! Quanta explora\u00e7\u00e3o in\u00edqua do trabalho alheio, n\u00e3o compensado como seria de esperar, nem valorizado por aqueles que enriquecem sobre o sofrimento e o des\u00e2nimo dos outros com quem n\u00e3o querem nem pretendem partilhar os recursos obtidos! A economia n\u00e3o parece estar direcionada para a realiza\u00e7\u00e3o das pessoas, de todas as pessoas, mas para o enriquecimento de um pequeno n\u00famero. Vive-se para acumular incessantemente, para engordar as contas banc\u00e1rias estrategicamente abertas em para\u00edsos fiscais. E \u00e9 assim que vemos os estados serem espoliados dos devidos impostos que alguns dos mais ricos se negam a pagar por via de ardis financeiros, comprometendo o bem comum. Os crucificados da hist\u00f3ria s\u00e3o os mesmo de sempre: os mais pobres, os deserdados, aqueles a quem n\u00e3o se paga a justa remunera\u00e7\u00e3o, os que fogem da guerra e n\u00e3o t\u00eam onde pousar a cabe\u00e7a, os que procuram melhores condi\u00e7\u00f5es de vida, mas encontram apenas \u00f3dio e viol\u00eancia\u2026 Do outro lado, num profundo desd\u00e9m pelo bem dos outros, os algozes de Cristo perpetuam-se de azorrague em punho, apegados aos bens de que n\u00e3o precisam, indiferentes \u00e0s chagas dos novos crucificados e hostis a todos os que possam perturbar a sua vida privilegiada e mesquinha.<\/p>\n<p>Acolhamos o incomensur\u00e1vel dom que o Crucificado, do alto da Cruz, nos oferece: um projeto de nova humanidade constru\u00edda sobre os alicerces do seu amor infinito.<\/p>\n<p>+Rui Val\u00e9rio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HOMILIA SEXTA-FEIRA SANTA de D. 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