{"id":134406,"date":"2019-04-18T18:40:09","date_gmt":"2019-04-18T17:40:09","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=134406"},"modified":"2019-04-18T18:40:09","modified_gmt":"2019-04-18T17:40:09","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-da-ceia-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-na-missa-da-ceia-do-senhor\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Funchal na Missa da Ceia do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->\u201cFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d<\/p>\n<p>\u201cFazei-o em mem\u00f3ria de Mim\u201d. Escutadas hoje, estas palavras de Jesus ressoam, n\u00e3o raras vezes, como um simples: \u201cquando estiverdes juntos e comerdes e beberdes a ceia, lembrai-vos de mim\u201d. Como se fosse uma simples repeti\u00e7\u00e3o para recordar ou para nunca esquecer.<\/p>\n<p>A Eucaristia n\u00e3o \u00e9 uma mera lembran\u00e7a distante ou representa\u00e7\u00e3o da \u00daltima Ceia. Se fosse assim, dever\u00edamos hoje estar sentados \u00e0 mesa pascal judaica, a comer ervas amargas, juntamente com um cordeiro, como ter\u00e1 sucedido naquela \u00faltima refei\u00e7\u00e3o de Jesus.<\/p>\n<p>Contudo, desde os primeiros dias, logo ap\u00f3s os acontecimentos pascais, os crist\u00e3os celebraram a Eucaristia sem esperar que passasse um ano e chegasse de novo o momento da Ceia, e sem comer o cordeiro imolado no Templo e as ervas amargas. O ponto de partida da celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia n\u00e3o foi uma festa anual mas a ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor, esse acontecimento que, no meio do tempo, no seio da hist\u00f3ria humana, projecta o fulgor da vida divina e nos oferece um novo sentido para a exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Aquilo que os crist\u00e3os celebram \u2014 hoje como desde o primeiro dia \u2014 \u00e9 o Mist\u00e9rio Pascal de Jesus e, com ele, o mundo novo que nos \u00e9 oferecido, a cada um de n\u00f3s, pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor. \u00c9 daqui, e \u00e0 luz deste acontecimento, que podemos descobrir o significado pleno da celebra\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e tamb\u00e9m o significado daquela Ceia derradeira que Jesus quis comer com os seus.<\/p>\n<p>Da \u00daltima Ceia, o que foi retido e celebrado pelos crist\u00e3os foram aquelas palavras e aqueles gestos que, no meio dos ritos e celebra\u00e7\u00f5es judaicas, trouxeram consigo a novidade, proclamada depois pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor: \u201cTomai e comei: isto \u00e9 o meu Corpo\u201d; \u201cTomai e bebei: este \u00e9 o c\u00e1lice do meu sangue\u201d; \u201cFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d.<\/p>\n<p>Ainda que vindos da parte de Jesus, tais palavras e gestos ter\u00e3o sido dif\u00edceis de escutar pelos disc\u00edpulos. Eles traziam consigo a identifica\u00e7\u00e3o de Jesus com um peda\u00e7o de p\u00e3o e com a ta\u00e7a de vinho. Mais ainda: o convite a comer o Seu Corpo e a beber o Seu Sangue e, ao mesmo tempo, a faz\u00ea-lo partilhando-os entre os presentes, num real gesto comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Jesus identifica-se com o p\u00e3o e com a ta\u00e7a de vinho. Mas como pode tal acontecer? Quem \u00e9 Aquele que se identifica com o p\u00e3o e o vinho? Certamente: o Jesus que pronuncia estas palavras e realiza estes gestos \u00e9 Aquele que os Doze tinham acompanhado ao longo dos anos nas caminhadas da Galileia e da Judeia, em particular nas suas refei\u00e7\u00f5es com os pecadores. Mas esse Jesus seria apenas uma mem\u00f3ria, uma recorda\u00e7\u00e3o, uma narra\u00e7\u00e3o distante, n\u00e3o uma identifica\u00e7\u00e3o, uma realidade. S\u00f3 o Senhor morto e ressuscitado se poderia identificar com o p\u00e3o partido e o c\u00e1lice de vinho partilhado. Apenas Aquele que na cruz se ofereceu em sacrif\u00edcio, experimentou a morte e ressurgiu no primeiro dia do mundo novo; apenas Ele poderia dizer: isto \u00e9 o meu Corpo, este \u00e9 o c\u00e1lice do meu sangue \u2014 ou seja: sou eu mesmo, tomai e comei! Apenas Ele poderia realizar esse gesto para sempre!<\/p>\n<p>Ao pronunciar estas palavras, Jesus cria uma nova presen\u00e7a, uma presen\u00e7a real, que se oferece a si mesma, que n\u00e3o depende das mem\u00f3rias dos amigos humanos, mas que depende dele pr\u00f3prio e do seu novo modo de ser ressuscitado: a presen\u00e7a sacramental. Apenas Deus o poderia fazer: apenas o Deus que surge vitorioso da morte e do sepulcro, e que, com a sua vida, atravessa o tempo e a hist\u00f3ria, apenas Ele o poderia fazer!<\/p>\n<p>Essa era, ali\u00e1s, o sentido do \u201cmemorial\u201d para o povo de Israel. \u201cEm cada gera\u00e7\u00e3o \u2014 diz o texto da celebra\u00e7\u00e3o pascal judaica \u2014, cada um deve considerar-se como tendo pessoalmente sa\u00eddo do Egipto, porque a Torah diz: \u2018contar\u00e1s ao teu filho naquele dia dizendo: isto \u00e9 o que o Senhor fez por mim quando sa\u00ed da terra do Egipto (Ex 13,8). N\u00e3o apenas os nossos pais foram libertados pelo Santo, bendito seja Ele, mas tamb\u00e9m n\u00f3s, como diz a Torah: e fez-nos sair para nos conduzir \u00e0 terra prometida aos nossos pais e no-la oferecer\u201d (Haggada de Pesah).<\/p>\n<p>Porque eram ac\u00e7\u00e3o de Deus na hist\u00f3ria, os acontecimentos da P\u00e1scoa revestem-se de uma tal qualidade que englobam todos aqueles que os celebram, ainda que distantes no tempo \u2014 tornam aqueles que os celebram presentes \u00e0 sa\u00edda do Egipto e \u00e0 entrada na Terra Prometida.<\/p>\n<p>Antes de se entregar no sacrif\u00edcio da cruz; antes de experimentar o sil\u00eancio do sepulcro; antes de ressuscitar glorioso, o Senhor permitiu que os seus vivessem antecipadamente esses acontecimentos centrais e que, como memorial, eles permanecessem como realidade constantemente presente e modificadora da hist\u00f3ria e da vida.<\/p>\n<p>Como sucedeu a todos os crist\u00e3os que nos antecederam, a n\u00f3s, os seus disc\u00edpulos do s\u00e9culo XXI, o Senhor permite vivermos esse momento. Tamb\u00e9m n\u00f3s estamos hoje, como comunidade de disc\u00edpulos, sentados \u00e0 mesa eucar\u00edstica. Perante o mist\u00e9rio que celebramos, quer dizer: perante esta presen\u00e7a, este \u201choje divino\u201d, os acontecimentos do \u00caxodo tornam-se figura, an\u00fancio; perante esta presen\u00e7a, percebemos como a morte e sepultura do Senhor se revestem da qualidade de acontecimentos de salva\u00e7\u00e3o; perante esta presen\u00e7a, percebemos a Eucaristia que celebramos. Percebemos a gra\u00e7a de nos encontrarmos reunidos \u00e0 volta do Senhor que, uma vez mais, nos diz: \u201cTomai e comei isto \u00e9 o meu corpo; tomai e bebei, este \u00e9 o c\u00e1lice do meu sangue\u201d.<\/p>\n<p>Sentados \u00e0 mesa eucar\u00edstica com Jesus, deixemos que Ele nos conduza, uma vez mais, pela Sua morte, sepultura e ressurrei\u00e7\u00e3o. Comunguemos, irm\u00e3os. Quer dizer: comamos o seu Corpo, bebamos o Seu Sangue, unamo-nos a Ele; deixemos que Ele nos fa\u00e7a seus, e que a Sua Cruz seja a nossa. Porque aquele que come o Seu Corpo e bebe o Seu Sangue passa, n\u00e3o j\u00e1 do Egipto \u00e0 Terra Prometida, mas da morte \u00e0 vida. Participemos do memorial da Sua Paix\u00e3o. Deixemos que hoje ela se fa\u00e7a presente na nossa vida. Mostremos a todos o caminho que Deus nos oferece para participar da Sua vida eterna.<\/p>\n<p>S\u00e9 do Funchal,<br \/>\n19 de Abril de 2019<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":3,"featured_media":88294,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186,308],"class_list":["post-134406","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134406","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=134406"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/134406\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/88294"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=134406"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=134406"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=134406"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}