{"id":13412,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/tendencias-migratorias-de-portugal-e-brasil-uma-aprendizagem-por-fazer\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"tendencias-migratorias-de-portugal-e-brasil-uma-aprendizagem-por-fazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/tendencias-migratorias-de-portugal-e-brasil-uma-aprendizagem-por-fazer\/","title":{"rendered":"Tend\u00eancias migrat\u00f3rias de Portugal e Brasil &#8211; uma aprendizagem por fazer&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista a D. Laurindo Guizzardi, presidente do Departamento da Pastoral dos Brasileiros no Exterior da CNBB <!--more--> A globaliza\u00e7\u00e3o inverteu as tend\u00eancias de mobilidade humana. Portugal continua emigrante mas abre-se \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. O Brasil descobre-se emigrante, com o \u00eaxodo da classe m\u00e9dia baixa. Na 33\u00aa Semana de Migra\u00e7\u00f5es, Portugal convida o Brasil a uma an\u00e1lise \u00e0 luz das aprendizagens hist\u00f3ricas; sob o tema \u201dO Di\u00e1logo Intercultural Fecunda uma Sociedade Integrada\u201d. D. Laurindo Guizzardi, presidente do Departamento da Pastoral dos Brasileiros no Exterior, na Confer\u00eancia Nacional dos Bispos Brasileiros e bispo de Foz do Igua\u00e7u, conta como a Uni\u00e3o Europeia \u201camarra\u201d um \u201crelacionamento especial\u201d entre irm\u00e3os e as \u201cmanifesta\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00f5es\u201d aquando da visita do presidente Lula, continuam por cumprir.   Na luta pelos direitos e pela dignidade anuncia a necessidade de \u201csuperar preconceitos\u201d nos pa\u00edses de origem e de acolhimento. N\u00e3o h\u00e1 \u201cintrusos\u201d, nem \u201ccidad\u00e3os mal agradecidos\u201d.  <i>OCPM &#8211; Como recebe o convite para presidir \u00e0 Peregrina\u00e7\u00e3o Internacional do Migrante e Refugiado em F\u00e1tima? D. Laurindo Guizzardi &#8211;<\/i> Foi uma grata surpresa. N\u00e3o obstante os in\u00fameros trabalhos que ocupam meu tempo, seja na Diocese, como na Confer\u00eancia Episcopal, recebi o convite com alegria. \u00c9 uma \u00f3tima oportunidade para estreitar o relacionamento do nosso Episcopado com o de Portugal, de p\u00f4r-me em contato com os emigrados brasileiros em terras portuguesas e de rever velhos amigos da Congrega\u00e7\u00e3o dos Mission\u00e1rios de S\u00e3o Carlos.  <i>OCPM &#8211; Quais as suas principais preocupa\u00e7\u00f5es com a emigra\u00e7\u00e3o brasileira, no mundo? LG &#8211;<\/i> Em primeiro lugar \u00e9 o n\u00famero crescente de brasileiros que tomam o rumo do exterior para conseguir uma vida melhor. Depois preocupo-me em descobrir as comunidades mais consistentes para concentrar nelas os esfor\u00e7os. Mas a preocupa\u00e7\u00e3o mais importante \u00e9 marcar uma presen\u00e7a da Igreja no Brasil entre os emigrados. Para isto, mantenho contatos constantes com o Episcopado Brasileiro e com as Dioceses onde o n\u00famero de brasileiros se apresenta mais consistente no estrangeiro.  <i>OCPM &#8211; Quais as maiores dificuldades encontradas pelos brasileiros, ao chegar a Portugal?  LG &#8211;<\/i> S\u00e3o duas: a falta de documenta\u00e7\u00e3o e a falta de trabalho. O migrante vive num c\u00edrculo vicioso: n\u00e3o encontra trabalho porque n\u00e3o tem documenta\u00e7\u00e3o regular e n\u00e3o consegue documenta\u00e7\u00e3o porque carece de um trabalho est\u00e1vel.  <i>OCPM &#8211; Como caracteriza a emigra\u00e7\u00e3o brasileira, actual? Qual o perfil do emigrante brasileiro? LG &#8211;<\/i> A emigra\u00e7\u00e3o do Brasil envolve pessoas da classe m\u00e9dia baixa. N\u00e3o \u00e9 o povo simples que emigra; s\u00e3o pessoas que tem um certo grau de estudo e um emprego, mas n\u00e3o est\u00e3o contentes com a remunera\u00e7\u00e3o que conseguem em seu pa\u00eds. O maior n\u00famero de migrantes prov\u00e9m do estado de Minas Gerais. Mas hoje quase todos os estados tem sua quota de cidad\u00e3os que buscam vida mais f\u00e1cil fora do pa\u00eds.  <i>OCPM &#8211; Em 2002, findo o 1\u00ba Encontro Ib\u00e9rico dos Brasileiros no Exterior afirmou que havia \u201calgo de novo no oeste\u201d. Que novidades h\u00e1 em 2005? O que mudou desde essa reflex\u00e3o? LG &#8211;<\/i> O primeiro facto, que n\u00e3o \u00e9 novidade, \u00e9 o cont\u00ednuo aumento de brasileiros que se dirigem para o exterior. H\u00e1, por\u00e9m, uma certa maior consci\u00eancia por parte do governo a respeito do fen\u00f4meno das migra\u00e7\u00f5es. Se de um lado ele se preocupa, de outro manifesta um certo agrado, pois os migrantes atraem divisas para o pa\u00eds. Por parte da Igreja h\u00e1 maior empenho no que concerne o atendimento religioso dos emigrados. No que diz respeito \u00e0 Pastoral para os Brasileiros no Exterior, pode-se dizer que ganhou foros de cidadania dentro e fora do pa\u00eds, sendo reconhecida como \u00f3rg\u00e3o oficial da Confer\u00eancia Episcopal.  <i>OCPM &#8211; Que eco recebe da emigra\u00e7\u00e3o brasileira em Portugal? LG &#8211;<\/i> Percebo que \u00e9 dif\u00edcil levar adiante aquele estatuto especial que considerava como brasileiros os portugueses residentes no Brasil e vice-versa. Mas h\u00e1 esfor\u00e7os para manter vigente aquele relacionamento especial que une os dois pa\u00edses.  <i>OCPM &#8211; O que h\u00e1 a mudar para acolhermos melhor os brasileiros e os imigrantes, em geral? LG &#8211;<\/i> Antes de mais nada, \u00e9 preciso superar certos preconceitos seja nos pa\u00edses de emigra\u00e7\u00e3o, como nos pa\u00edses de imigra\u00e7\u00e3o. Nos pa\u00edses de onde partem os emigrantes \u00e9 f\u00e1cil considerar a estes como cidad\u00e3os mal agradecido com a pr\u00f3pria p\u00e1tria. E nos pa\u00edses que recebem os migrantes \u00e9 mais f\u00e1cil ainda consider\u00e1-los como intrusos que v\u00eam romper a harmonia da sociedade e roubar os lugares de trabalho aos filhos da terra. \u00c9 bom lembrar que todos t\u00eam direito a viver com dignidade, dentro ou fora do pr\u00f3prio pa\u00eds, e que o imigrante n\u00e3o rouba o lugar de ningu\u00e9m, porque assume as tarefas rejeitadas pelos filhos da terra.  <i>OCPM &#8211; Como entende a efic\u00e1cia do acordo de reciprocidade Portugal-Brasil, quando da visita de Lula? LG &#8211;<\/i> Creio que se trata de uma manifesta\u00e7\u00e3o de inten\u00e7\u00f5es v\u00e1lida embora nem sempre vi\u00e1vel na pr\u00e1tica. Rezo a Deus para que confirme os bons prop\u00f3sitos de nossos governantes.  <i>OCPM &#8211; E, na integra\u00e7\u00e3o socio-ec\u00f3n\u00f3mica e religiosa \u2013 Que queixas e dificuldades sentem os imigrantes brasileiros? LG &#8211;<\/i> A semelhan\u00e7a de tradi\u00e7\u00f5es e culturas favorece a integra\u00e7\u00e3o. Mas o migrante \u00e9 sempre um homem que vive entre a saudade e a esperan\u00e7a. De um lado conserva os la\u00e7os culturais que carrega de sua terra, e do outro sonha em ser cidad\u00e3o igual a todos os demais. Tenho a impress\u00e3o de que, se uma queixa os brasileiros emigrados carregam consigo, \u00e9 contra quem os encaminhou para a emigra\u00e7\u00e3o por motivos de lucro, tornando-se comerciante de carne humana. Quanto \u00e0 dificuldade, a maior \u00e9 conseguir a documenta\u00e7\u00e3o e um posto de trabalho.  <i>OCPM &#8211; Porque falham as declara\u00e7\u00f5es de boa-vontade e as pol\u00edticas imigrat\u00f3rias e, entre os estados? LG &#8211;<\/i> Creio que \u00e9 o desejo, \u00e0s vezes infundado, de proteger os pr\u00f3prios interesses e, no caso de Portugal, a amarras assumidas com os outros pa\u00edses da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. Tendo entrado na Uni\u00e3o Europ\u00e9ia o pa\u00eds n\u00e3o est\u00e1 mais livre de adotar uma legisla\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria aut\u00f4noma.  <i>OCPM &#8211; Qual o valor-acrescentado das migra\u00e7\u00f5es? LG &#8211;<\/i> As migra\u00e7\u00f5es tendem a abrir a mente e o cora\u00e7\u00e3o da gente para ideais de fraternidade universal. Esta abertura pode fazer do emigrante um mensageiro de boas novas e tamb\u00e9m de evangeliza\u00e7\u00e3o.  <i>OCPM &#8211; Como podem os migrantes e refugiados mudar o mundo?  LG &#8211;<\/i> Levando os povos a superar suas barreias de culturas e de cren\u00e7as, abrindo espa\u00e7o para uma comunica\u00e7\u00e3o que, embora respeitosa diante das culturas e das cren\u00e7as, elimine preconceitos e rivalidades, criando uma sociedade mais justa e fraterna.  <i>OCPM &#8211; Como explica a contradi\u00e7\u00e3o paradigm\u00e1tica da necessidade de m\u00e3o obra mas as pol\u00edticas migrat\u00f3rias serem resistentes?   LG &#8211;<\/i> A necessidade de m\u00e3o de obra nasce do facto que o n\u00edvel de vida dos pa\u00edses que recebem os migrantes induz os cidad\u00e3os a desprezarem os trabalhos mais humildes. As pol\u00edticas migrat\u00f3rias resistentes inspiram-se no desejo de impedir que a gente vinda de fora ocupe o lugar dos trabalhadores do pa\u00eds.   <i>OCPM &#8211; Que recado deixa aos brasileiros em Portugal? LG &#8211;<\/i> A emigra\u00e7\u00e3o \u00e9 um direito,  mas \u00e9 tamb\u00e9m uma aventura. Uma vez que optaram por fazer a vida em Portugal, procurem n\u00e3o desanimar diante das dificuldades, procurem respeitar o pa\u00eds que os hospeda e tornar-se elementos \u00fateis dentro da nova sociedade.   <i>OCPM &#8211; Que mensagem deixa \u00e0 embaixada\/consulado brasileiro? LG &#8211;<\/i> Creio que a contribui\u00e7\u00e3o que a embaixada\/consulado podem dar maior \u00e9 garantir assist\u00eancia aos emigrados, ajud\u00e1-los a conseguir a documenta\u00e7\u00e3o e pleitear junto aos governos do Brasil e de Portugal medidas que os ajudem a conseguir uma vida digna na p\u00e1tria que adoptaram.  <i>OCPM &#8211; Que mensagem pretende deixar ao Alto Comiss\u00e1rio para Imigra\u00e7\u00e3o e Minorias \u00c9tnicas? LG &#8211;<\/i> A sociedade do futuro vai ser intercultural e composta de pessoas em movimento. Junto com a Igreja, os Governos e as Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Alto Comissariado pode dar um grande contributo para a forma\u00e7\u00e3o de uma sociedade solid\u00e1ria, aberta e comprometida com o bem de todas as pessoas.  <i>OCPM &#8211; Que mensagem no Servi\u00e7o de Estrangeiros e Fronteiras? LG &#8211;<\/i> Que saiba aplicar a legisla\u00e7\u00e3o deixando espa\u00e7o ao cora\u00e7\u00e3o ao lado do compromisso com a  lei.   <i>OCPM &#8211; Que li\u00e7\u00f5es tem Portugal a aprender com a experi\u00eancia imigrat\u00f3ria brasileira? LG &#8211;<\/i> Sendo Portugal at\u00e9 h\u00e1 pouco um pa\u00eds de emigra\u00e7\u00e3o,  que enviou grande contingente de seus filhos para o Brasil,  \u00e9 de se desejar que saiba aplicar aos emigrantes brasileiros aquele cuidado que no passado desejava que o Brasil dispensasse aos seus filhos.  <i>OCPM &#8211; E o que pode aprender o Brasil com a experi\u00eancia emigrante portuguesa? LG &#8211;<\/i> O Brasil recebeu grande contributo da emigra\u00e7\u00e3o portuguesa. Pode servir de exemplo a Portugal na acolhida,  e afian\u00e7ar que os brasileiros poder\u00e3o retribuir, ao menos em parte, o bem que os emigrados portugueses lhe proporcionaram.  <i>OCPM &#8211; Se estivesse nas suas m\u00e3os, qual a melhor not\u00edcia que podia dar aos brasileiros imigrados em Portugal? LG &#8211;<\/i>  Daria a not\u00edcia que todos est\u00e3o legalizados, que todos t\u00eam emprego e que o Brasil conseguiu  eliminar sua pobreza e prevenir a necessidade de emigrar.   <i>OCPM &#8211; Considera Portugal um pa\u00eds tolerante? LG &#8211;<\/i> Sim, considero Portugal um pa\u00eds tolerante. Entretanto sinto-o amarrado pelos compromissos que tem com a Uni\u00e3o Europeia,  no que tange a imigra\u00e7\u00e3o.  <i>OCPM &#8211; As migra\u00e7\u00f5es s\u00e3o tamb\u00e9m fomentadas pela globaliza\u00e7\u00e3o. A globaliza\u00e7\u00e3o comporta uma forte tend\u00eancia de uniformiza\u00e7\u00e3o, que significa o oposto \u00e0 diversidade? LG &#8211;<\/i> A globaliza\u00e7\u00e3o tende efectivamente a  nivelar tudo.  Mas a diversidade h\u00e1 que ser respeitada, porque enriquece. O migrante n\u00e3o deve trair suas origens: deve manter sua cultura, com o compromisso, por\u00e9m, de eliminar as arestas que poderiam dificultar-lhe a inser\u00e7\u00e3o no pa\u00eds que o acolhe. Sua diversidade deve servir para enriquecer a sociedade de seu novo pa\u00eds.  A mobilidade humana \u00e9 milenar. Remete \u00e0s origens do homem n\u00f3mada e supera a tend\u00eancia uniformizadora da recente globaliza\u00e7\u00e3o. O paradigma solve-se no respeito democr\u00e1tico entre culturas, coroado pela comunica\u00e7\u00e3o aberta, que descobre o precioso que h\u00e1 no Outro.   Migrantes e refugiados procuram o lucro e o bem estar, mas sobretudo a paz. A paz que estabiliza o mundo. <i>Cid\u00e1lia Calisto, OCPM<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a D. 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