{"id":133833,"date":"2019-04-14T11:16:46","date_gmt":"2019-04-14T10:16:46","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=133833"},"modified":"2019-04-14T10:20:20","modified_gmt":"2019-04-14T09:20:20","slug":"homilia-do-bispo-do-funchal-no-domingo-de-ramos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-do-funchal-no-domingo-de-ramos\/","title":{"rendered":"Homilia do Bispo do Funchal no Domingo de Ramos"},"content":{"rendered":"<p><!--more-->Caros irm\u00e3os e, de um modo muito particular, caros jovens<\/p>\n<p>As celebra\u00e7\u00f5es do Domingo de Ramos como que concentram em si um misto de emo\u00e7\u00f5es, aparentemente contradit\u00f3rias: por um lado, Jesus \u00e9 aclamado como Messias pelos habitantes de Jerusal\u00e9m e, por outro lado, caminha serenamente para a Paix\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, a liturgia deste Domingo, verdadeira \u201cporta de entrada da Semana Santa\u201d, ensina-nos o modo de olhar para a cruz de Jesus e, deste modo, a viver o sofrimento que marca tantas vezes a nossa vida, e (sobretudo) a sermos disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>Com efeito, sem retirar nada ao dramatismo da morte de Jesus: ao sofrimento f\u00edsico e ao abandono que Ele padece; \u00e0 derrota, ao fracasso que lhe est\u00e1 associado, \u00e0 inconsist\u00eancia dos habitantes de Jerusal\u00e9m que t\u00e3o depressa aclamam Jesus como o conduzem \u00e0 morte; \u00e0 vergonha sobre o modo como os seus disc\u00edpulos mais pr\u00f3ximos viveram todos estes dias \u2014 sem retirar nada ao dramatismo da morte de Jesus, tudo isso nos aprece envolvido por um \u201cpano de fundo\u201d de serenidade gloriosa.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o apenas os hossanas que cant\u00e1mos durante a prociss\u00e3o com que entr\u00e1mos jubilosamente nesta nossa Catedral. As pr\u00f3prias leituras, h\u00e1 pouco proclamadas, se revestem deste misto de \u201cpaix\u00e3o gloriosa\u201d: \u201cO Senhor abriu-me os ouvidos e eu n\u00e3o resisti nem recuei um passo\u201d \u2014 dizia o profeta; \u201cAparecendo como homem, humilhou-se ainda mais obedecendo at\u00e9 \u00e0 morte, e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou\u201d \u2014 escrevia S. Paulo; \u201cVendo o que sucedera (a morte de Jesus na cruz), o centuri\u00e3o deu gl\u00f3ria a Deus\u201d \u2014 narrava S. Lucas ao descrever o momento da morte do Senhor.<\/p>\n<p>N\u00e3o nos convida a Palavra de Deus ao triunfo dos que, vitoriosos na batalha, desdenham dos derrotados. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o nos prop\u00f5e o sentimento masoquista da derrota ou (muito menos), a raiva que conduz \u00e0 vingan\u00e7a \u2014 o modo como, habitualmente, no mundo s\u00e3o pagas as humilha\u00e7\u00f5es sofridas.<\/p>\n<p>A Palavra de Deus convida-nos antes \u00e0 atitude com que o pr\u00f3prio Jesus viveu todos estes momentos: a atitude serena daquele a quem foi dada a gra\u00e7a de escutar e de falar, certo de que, precisamente nesta aparente derrota, se manifesta o m\u00e1ximo do amor divino por n\u00f3s, por todos. Trata-se de deixar que, tamb\u00e9m em n\u00f3s, o amor de Deus (o mesmo que conduziu Jesus \u00e0 cruz) se manifeste, d\u00ea forma ao nosso modo de ser e de viver.<\/p>\n<p>N\u00e3o a nossa vit\u00f3ria, mas a vit\u00f3ria de Deus. N\u00e3o o nosso amor e a nossa generosidade, mas o amor divino. N\u00e3o as nossas capacidades, mas aquelas que s\u00e3o pr\u00f3prias de Deus \u2014 as \u00fanicas a vencer e a convencer verdadeiramente o cora\u00e7\u00e3o dos homens.<\/p>\n<p>E, assim, o Evangelho ensina-nos tamb\u00e9m o conte\u00fado daquilo que os disc\u00edpulos de Jesus t\u00eam a dizer ao mundo e tamb\u00e9m a forma com que, neste nosso s\u00e9culo XXI, o havemos de anunciar. A mensagem de Jesus h\u00e1 de dar forma ao nosso modo de viver, ao nosso \u201cestilo de vida\u201d de crist\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao conte\u00fado que havemos de anunciar e ao modo como havemos de viver se referia o Papa Francisco na sua recente Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica \u201cCristo vive\u201d, publicada na sequ\u00eancia do S\u00ednodo dos Bispos sobre os jovens, e que vos convido a ler e a meditar.<\/p>\n<p>Quanto ao conte\u00fado, o Santo Padre dividia-o em 3 pontos essenciais. Afirmava: \u201cEis a primeira verdade que quero dizer a cada um: \u00abDeus ama-te\u00bb. Mesmo que j\u00e1 o tenhas ouvido \u2013 n\u00e3o importa! \u2013, quero recordar-to: Deus ama-te. Nunca duvides disto na tua vida, aconte\u00e7a o que acontecer. Em toda e qualquer circunst\u00e2ncia, \u00e9s infinitamente amado\u201d (112).<\/p>\n<p>\u201cA segunda verdade \u2014 continuava o Santo Padre \u2014 \u00e9 que, por amor, Cristo entregou-Se at\u00e9 ao fim para te salvar\u201d. [\u2026] \u201cE Cristo, que nos salvou dos nossos pecados na Cruz, com o mesmo poder da sua entrega total, continua a salvar-nos e a resgatar-nos hoje. Olha para a sua Cruz, agarra-te a Ele, deixa-te salvar (118.119).<\/p>\n<p>\u201cMas \u2014 dizia tamb\u00e9m o Papa \u2014 h\u00e1 uma terceira verdade, que \u00e9 insepar\u00e1vel da anterior: Ele vive! \u00c9 preciso record\u00e1-lo com frequ\u00eancia, porque corremos o risco de tomar Jesus Cristo apenas como um bom exemplo do passado, como uma recorda\u00e7\u00e3o, como Algu\u00e9m que nos salvou h\u00e1 dois mil anos. De nada nos aproveitaria isto: deixava-nos como antes, n\u00e3o nos libertaria. Aquele que nos enche com a sua gra\u00e7a, Aquele que nos liberta, Aquele que nos transforma, Aquele que nos cura e consola \u00e9 Algu\u00e9m que vive. \u00c9 Cristo ressuscitado, cheio de vitalidade sobrenatural, revestido de luz infinita\u201d (124).<\/p>\n<p>Mas de que forma poderemos dar testemunho deste Deus que \u00e9 amor, que nos salva em Jesus Cristo e que vive hoje connosco? Que estilo, que modo de viver havemos de assumir para mostrar como tudo isto \u00e9 vida e importante para a vida de todos, e n\u00e3o um simples discurso ret\u00f3rico?<\/p>\n<p>O Papa Francisco, apontava tamb\u00e9m tr\u00eas aspetos. Come\u00e7ava por recordar as palavras de Carlo Acutis, um jovem italiano falecido em 2006 e que gostava de lembrar: \u201ctodos nascem como originais, mas muitos morrem como fotoc\u00f3pias\u201d. Quer dizer: Deus criou-nos \u00fanicos, e n\u00f3s temos a tend\u00eancia de nos irmos copiando uns aos outros, pensando que, desse modo, seremos melhores quando, de facto, n\u00e3o \u00e9 assim.<\/p>\n<p>Por isso, diz tamb\u00e9m o Santo Padre (primeiro ponto): \u201c<strong>Ousa ser mais<\/strong>, porque o teu ser \u00e9 mais importante do que qualquer outra coisa; n\u00e3o precisas de ter nem de parecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu \u00e9s, se reconheceres o muito a que est\u00e1s chamado. Invoca o Esp\u00edrito Santo e caminha, confiante, para a grande meta: a santidade. Assim, n\u00e3o ser\u00e1s uma fotoc\u00f3pia; ser\u00e1s plenamente tu mesmo\u201d (107). E ainda: \u201cPara a juventude desempenhar a finalidade que lhe cabe no curso da vida, deve ser um tempo de doa\u00e7\u00e3o generosa, de oferta sincera, de sacrif\u00edcios que custam, mas nos tornam fecundos\u201d (108).<\/p>\n<p>De seguida, o Papa Francisco convidava: \u201cSe \u00e9s jovem mas te sentes fr\u00e1gil, cansado ou desiludido, <strong>pede a Jesus que te renove<\/strong>. Com Ele, n\u00e3o se extingue a esperan\u00e7a. [\u2026] Cheio de vida, Jesus quer ajudar-te para que valha a pena ser jovem. Assim, n\u00e3o privar\u00e1s o mundo daquela contribui\u00e7\u00e3o que s\u00f3 tu \u2013 \u00fanico e irrepet\u00edvel, como \u00e9s \u2013 lhe podes dar\u201d (109).<\/p>\n<p>E, finalmente: \u201c\u00c9 muito dif\u00edcil lutar [\u2026] se estivermos <strong>isolados<\/strong>. O isolamento enfraquece-vos e exp\u00f5e-vos aos piores males do nosso tempo\u201d (110).<\/p>\n<p>Ousar ser como Deus nos pede, com Jesus e na companhia dos irm\u00e3os: este \u00e9, segundo o Papa, o modo de anunciar o amor de Deus que se manifestou na cruz de Jesus \u2014 deste Jesus que venceu a morte e vive para sempre.<\/p>\n<p>\u00c9 tudo isto que, afinal, descobrimos tamb\u00e9m nesta liturgia de Domingo de Ramos: a vit\u00f3ria serena mas firme daquele que por amor de cada um de n\u00f3s viveu a cruz e, desse modo, se entregou ao Pai e aos irm\u00e3os, mostrando que o amor de Deus \u00e9 vida entregue e proposta para todos.<\/p>\n<p>Convidando-nos a olhar para Jesus, a viver com Ele, o Domingo de Ramos ensina-nos o modo de sermos crist\u00e3os: o que havemos de anunciar e como o havemos de fazer. Pe\u00e7amos ao Senhor que nos grave hoje, no cora\u00e7\u00e3o, essa qualidade \u00fanica que queremos marque a nossa vida: ser disc\u00edpulos daquele Jesus que por amor se ofereceu na cruz.<\/p>\n<p>Catedral do Funchal, 14 de abril de 2019<\/p>\n<p><em>D. Nuno Br\u00e1s, Bispo do Funchal<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[186,308],"class_list":["post-133833","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-funchal","tag-semana-santa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133833","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=133833"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/133833\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=133833"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=133833"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=133833"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}