{"id":13346,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/projecto-orbis-da-diocese-de-aveiro-chega-ao-amazonas\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"projecto-orbis-da-diocese-de-aveiro-chega-ao-amazonas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/projecto-orbis-da-diocese-de-aveiro-chega-ao-amazonas\/","title":{"rendered":"Projecto ORBIS da Diocese de Aveiro chega ao Amazonas"},"content":{"rendered":"<p>No sil\u00eancio barulhento das \u00e1guas do Rio gigante <!--more--> Enquanto o sil\u00eancio toma conta do conv\u00e9s, vou recordando como cheguei aqui. De \u00c1frica, passou um ano, a Miss\u00e3o volta e desta vez, para a Amaz\u00f3nia. O desconhecido toma conta de mim a par com outras coisas que me ajudam a seguir adiante: os companheiros de miss\u00e3o, o esp\u00edrito salesiano que nos vai acolher, o nome de Aveiro e da sua Igreja que actua no meio dos mais pobres. Cheg\u00e1mos ao Brasil via S. Paulo. Voo longo e tranquilo. De l\u00e1 apanhamos liga\u00e7\u00e3o para Manaus, a cidade capital da selva \u2013 a Amaz\u00f3nia. Cheg\u00e1mos \u00e0 meia-noite local. A trovoada era omnipresente, via-se a toda a hora no c\u00e9u, mas apenas l\u00e1 para cima, como que num espect\u00e1culo de fogo de artif\u00edcio silencioso. Durante uma semana fic\u00e1mos l\u00e1, conhecemos o meio. Depois seguimos viagem. Destino Bel\u00e9m, no Estado do Par\u00e1, o mais portugu\u00eas do Brasil. Para chegar l\u00e1, ter\u00edamos de apanhar um barco, daquele tipo Vapor. O nosso era-o mesmo e tinha sido convertido, descobri a bordo mais tarde, em 1950, o \u201cSantar\u00e9m\u201d, cruzador da Amaz\u00f3nia j\u00e1 era um navio velho.  Ter\u00edamos de atravessar o Rio Amazonas, de uma ponta \u00e0 outra. Percorrer 925 milhas que separavam as duas cidades, pelo meio atravessar a selva, ver, perceber e aprender algumas coisas, misturarmo-nos com as pessoas, ser delas, com elas. Ser mission\u00e1rio tamb\u00e9m \u00e9 isto, estar com, viver com, partilhar. Ter com-paix\u00e3o por, no sentido lato da palavra: ter paix\u00e3o por\u2026 Enquanto escrevo estas linhas, enquanto navego num qualquer barco cruzando o imenso Rio Amazonas, \u00e9 nisto que penso e \u00e9 nisto que a caneta vai discorrendo. Estou deitado numa rede, no conv\u00e9s de um barco: \u201cO Santar\u00e9m\u201d. Vamos para Oeste, \u00e9 noite. O Cruzeiro do Sul acompanha-nos e orienta-nos no meio de um rio que mais parece o Mar. Sou uma rede no meio de 165 (na realidade s\u00e3o mais porque a lota\u00e7\u00e3o foi ultrapassada) do 2\u00ba conv\u00e9s. Por baixo de mim, um outro conv\u00e9s igual mas, sem ar condicionado; por cima, os camarotes de 1\u00aa. A lota\u00e7\u00e3o ultrapassada foi fiscalizada pela pol\u00edcia federal. Nada que n\u00e3o se consiga resolver com di\u00e1logo\u2026 Anuncia-nos o microfone que o barco foi interceptado com gente a mais, mas que entretanto foi liberado. Se n\u00e3o saiu ningu\u00e9m, como diaxo foi liberado o barco pergunto-me eu adivinhando a reposta c\u00famplice entre armador e a fiscaliza\u00e7\u00e3o. Nos barcos do Amazonas, as pessoas dormem em sal\u00f5es amplos, arejados. Os conv\u00e9s t\u00eam barras de ferro atravessadas junto ao tecto. A\u00ed os passageiros montam a sua rede (\u201cchichorro\u201d como se diz nos vizinhos latino-americanos) e ficam a dormir, a descansar, a fazer sala, enfim, tudo o que se possa fazer numa viagem que vai durar cerca de cinco dias. Neste momento, sou uma rede no meio de centenas de redes, estou deitado, sinto o calor humano pr\u00f3ximo das pessoas que se amontoam. Eu sou uma delas, no meio de um barco que navega como tantos no meio de um rio enorme, o maior do Mundo, envolvido por uma floresta imensa, a mais in\u00f3spita que h\u00e1. \u2013 Eis-me na Amaz\u00f3nia, a terra dos sonhos cumpridos. Sou uma rede no meio de tantas num conv\u00e9s de um barco entre tantos que navegam o rio maior e mais comprido, o rio que leva um quinto da \u00e1gua doce do planeta. \u00c0 nossa volta, \u00e1gua portanto, \u00e1gua e mais \u00e1gua. O Solim\u00f5es barrento e o Rio Negro j\u00e1 se misturaram numa candura de Amor! S\u00e3o Um! O castanho e o negro misturam-se depois de 18kms de namoro e formam o emaranhado de \u00e1gua que \u00e9 o Amazonas. Enquanto me instalo na minha insignific\u00e2ncia, na minha min\u00fascula pequenez deste quadro, no micro-ponto que somos na cria\u00e7\u00e3o, sorrio porque estou em harmonia. A Amaz\u00f3nia \u00e9 enorme e absorve-me completamente. Somos pequenos, somos um ponto. Somos da natureza e fazemos parte dela, tanto quanto uma gota de \u00e1gua, uma folha de uma \u00e1rvore no meio de milh\u00f5es nesta floresta. N\u00e3o estamos acima de nada, n\u00e3o estamos abaixo de nada. Na cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 classes. Todos ocupam o seu lugar, diferente, mas sempre igual.  <b>Como n\u00e3o acreditar em Deus neste lugar?<\/b> Nesta insignific\u00e2ncia encontro-me com Deus. Sinto-me parte d\u2019Ele e lembro-me que era isto que as pessoas deviam sentir sempre que v\u00e3o comungar na missa. Este descontrolo, este estar, este ser sem dominar, esta exist\u00eancia, ao sabor da vontade dos elementos, da vontade de Deus\u2026 o saber que n\u00e3o tenho poder ou for\u00e7a alguma e o saber que n\u00e3o tenho de ter, n\u00e3o preciso de ter, porque eu sou eu, tu \u00e9s tu, a \u00e1gua \u00e9 a \u00e1gua, o c\u00e9u o c\u00e9u, a seringueira a seringueira, a barata \u00e9 a barata. Tudo \u00e9 nada e juntos somos comunh\u00e3o, eu, os meus companheiros de viagem que aturam a minha aus\u00eancia, enquanto rabisco linhas, tudo, todos, somos o mesmo, somos a cria\u00e7\u00e3o, a vontade Divina do Amor infinito celebrado a cada manh\u00e3 amaz\u00f3nica em que o sol, ainda antes de se ver, se reflecte na omnipresente \u00e1gua. Em que a neblina desce dos picos, e d\u00e1 o beijo doce de bom dia a tudo quanto existe e tem lugar neste intervalo de espa\u00e7o e de tempo.  Como n\u00e3o acreditar em Deus neste lugar? Como n\u00e3o acreditar n\u2019Ele olhando \u00e0 minha volta, para as pessoas, para a Amaz\u00f3nia, para o gigante de \u00e1gua doce? Como n\u00e3o acreditar n\u2019Ele tornando presente os que me Amam, que est\u00e3o aqui, ao meu lado sentados e dentro de mim no meu pensamento\u2026 Como conceber que Deus possa n\u00e3o existir quando me d\u00e1 tudo isto, todos estes e outro tanto mais que n\u00e3o d\u00e1 sequer para descrever em linhas de escrita&#8230; S\u00e3o coisas que nos envolvem, que nos tocam, est\u00e3o por dentro, por fora\u2026 S\u00e3o indiz\u00edveis. Esta \u00e9 a frustra\u00e7\u00e3o de quem escreve, fala ou fotografa. Estas s\u00e3o as m\u00e3os atadas de quem tenta transmitir o nada e o tudo que vive. Esta \u00e9 a doce solid\u00e3o de quem n\u00e3o pode, porque n\u00e3o consegue repassar a mensagem.  <b>Tanta desigualdade e pobreza, t\u00e3o perto do para\u00edso<\/b> Recordo Manaus, j\u00e1 deix\u00e1mos para tr\u00e1s a cidade adolescente que deu um pulo de crescimento quando a fizeram zona franca. Como qualquer adolescente, cresceu, pulou, mas est\u00e1 cheia de borbulhas: a pobreza, o casario desordenado, feio e invadido, ocupado sem regras, sem ordem. Pergunto como \u00e9 poss\u00edvel tal ilhota no meio da \u201cordem, progresso e harmonia\u201d que \u00e9 a Amaz\u00f3nia. Quando chegamos ao aeroporto, recolhemos a bagagem enquanto respir\u00e1vamos \u00e1gua, mais do que ar. Pass\u00e1mos um corredor, um balc\u00e3o vazio e estamos na rua. Estamos no Brasil. O tempo perdido inutilmente a preencher os pap\u00e9is de entrada de estrangeiros podia ter sido aproveitado para continuar a n\u00e3o fazer nada, a dormir ou a ver filmes dobrados em portugu\u00eas de sotaque carioca. Meia-noite locais, balc\u00e3o vazio\u2026era a alf\u00e2ndega. N\u00e3o se v\u00ea a Pol\u00edcia Federal. Nada a fazer e entramos ilegais no Brasil. Para provar, nem sequer um carimbo no passaporte. Assim, daqui a muitos anos, talvez eu pense que isto foi um sonho lindo, cumprido ou por cumprir. E ent\u00e3o a\u00ed, eu possa voltar de novo \u00e0 Amaz\u00f3nia e me encontre, de novo, com Deus, comigo e com pessoas: ind\u00edgenas, caboclos, mission\u00e1rios, professores. O povo daqui \u00e9 pobre. Vive com pouco, carregando na vida uma certa consci\u00eancia do desequil\u00edbrio. O Brasil atesta bem os mais ricos entre os ricos e os mais pobres entre os pobres do mundo. O que me aflige no que vi \u00e9 que estes pobres aqui n\u00e3o s\u00e3o refugiados, n\u00e3o sofreram guerras, n\u00e3o s\u00e3o degenerados, drogados ou malandros ,nem s\u00e3o de ra\u00e7as inferiores se as houvesse ou diferentes sequer. S\u00e3o pessoas normais, de fam\u00edlia constitu\u00edda. S\u00e3o pessoas que trabalham todos os dias e ganham mis\u00e9rias que n\u00e3o d\u00e3o para ter os filhos na escola sequer. Estas pessoas n\u00e3o t\u00eam nome, s\u00e3o ningu\u00e9m. N\u00e3o contam para estat\u00edsticas, porque para o mundo eles s\u00e3o remediados\u2026 at\u00e9 t\u00eam emprego!!! Mas as condi\u00e7\u00f5es, a sub-humanidade que se concilia sempre com uma grande dignidade e esperan\u00e7a, na comunh\u00e3o, na solidariedade, na liberta\u00e7\u00e3o de tudo o que \u00e9 mal e oprime esta comunh\u00e3o com todos. Muitos vieram da selva para Manaus, zona Franca, \u00e0 procura de trabalho nas f\u00e1bricas que aproveitam o para\u00edso de impostos. Mas n\u00e3o t\u00eam forma\u00e7\u00e3o adequada, n\u00e3o est\u00e3o formatados. Os impostores, os que se aproveitam da tal situa\u00e7\u00e3o livre de impostos, passo a redund\u00e2ncia, n\u00e3o oferecem grandes condi\u00e7\u00f5es e assim cresce e se ocupa uma cidade, em que a expans\u00e3o se d\u00e1 pela pior hip\u00f3tese. A cintura de pobreza aumenta sempre e \u00e9 assim que a cidade tem caminhado nos \u00faltimos quinze anos. Que fazer? Apesar do sil\u00eancio circundante, apesar da m\u00fasica das \u00e1guas a cruzar a quilha do navio, por dentro de mim, h\u00e1 muito barulho, uma certa ang\u00fastia em aceitar que t\u00e3o perto do para\u00edso possa haver tanta desigualdade e pobreza. Levanto a cabe\u00e7a. Para l\u00e1 do conv\u00e9s a \u00e1gua corre mais encrespada. O sol sobe l\u00e1 para cima e lembra-me os Yanomamis: \u201c Hoje \u00e9 hoje e s\u00f3 hoje\u201d. Olho para a barriga e lembro-me do mata-bicho, caf\u00e9 da manh\u00e3 pequeno-almo\u00e7o. Est\u00e1 na hora, que sorte tenho de poder comer algo mais que farinha e peixe. Descemos para o interior d\u2019O Santar\u00e9m\u201d, chamado assim em homenagem \u00e0 vila onde chegaremos ao meio-dia, com o mesmo nome da cidade Portuguesa. T\u00e3o iguais, t\u00e3o diferentes\u2026  <i>Pedro Neto, com Paulo Fontes e Ana Laura Guedes (volunt\u00e1rios em miss\u00e3o no Brasil), Barco \u201cN-M \/ Santar\u00e9m\u201d, algures no Rio Amazonas<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No sil\u00eancio barulhento das \u00e1guas do Rio gigante<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[101,122,170,180,187,206,291,314],"class_list":["post-13346","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-vaticano","tag-africa","tag-brasil","tag-diocese-de-aveiro","tag-diocese-de-santarem","tag-diocese-do-porto","tag-familia","tag-refugiados","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13346","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13346"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13346\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13346"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13346"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13346"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}