{"id":13247,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/doutrina-social-para-hoje\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"doutrina-social-para-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/doutrina-social-para-hoje\/","title":{"rendered":"Doutrina Social para hoje"},"content":{"rendered":"<p><i>O texto que aqui se apresenta foi uma das reflex\u00f5es das Oficinas de Ver\u00e3o da C\u00e1ritas: seis grandes quest\u00f5es permitem ter uma vis\u00e3o da Doutrina Social hoje. De um lado estavam as problem\u00e1ticas actuais, no campo econ\u00f3mico-social, do outro as tr\u00eas enc\u00edclicas sociais de Jo\u00e3o Paulo II: A Laborem Exercens (de 1981), a Sollicitudo Rei Socialis (de 1987) e a Centesimus Annus (de 1991).<\/i>  A primeira das quest\u00f5es abordadas foi o Trabalho. Essa quest\u00e3o tem sido um dos motores da DSI. Ali\u00e1s, a primeira enc\u00edclica social, a Rerum Novarum, focou precisamente a \u201cquest\u00e3o oper\u00e1ria\u201d. A reflex\u00e3o sobre este assunto partiu de uma frase de William Bridges: \u201cCostum\u00e1vamos dizer que pelo anos 200 toda a gente trabalharia apenas 30 horas por semana e o resto seria lazer. Mas, quanto mais o anos 2000 se aproximava, mais nos aperceb\u00edamos de que, afinal, metade trabalharia 60 horas por semana e outra metade estaria desempregada\u201d. E de not\u00edcias que falam de despedimentos e precariedade no trabalho (Lear, Bawo, Benetton, Yasaki&#8230;). Por outro lado, constatou-se que terminou a vida separada em tr\u00eas fases: aprendizagem, profiss\u00e3o, reforma. Anda tudo misturado. O objectivo foi evitar duas ou tr\u00eas tend\u00eancias nestes contextos: a lamenta\u00e7\u00e3o inconsequente; a diaboliza\u00e7\u00e3o da economia, das empresas e da globaliza\u00e7\u00e3o (com as deslocaliza\u00e7\u00f5es). Exige-se uma compreens\u00e3o mais profunda dos fen\u00f3menos. E o melhor modo de os enfrentar \u00e9 a montante, na forma\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias pessoas, que periodicamente precisam de adquirir novos conhecimentos, ainda que os \u201cdadores de trabalho indirecto\u201d (express\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II, na LE) tenham uma parte a cumprir. Com o t\u00edtulo \u201cTrabalho: colabora\u00e7\u00e3o com Deus&#8230; em part-time\u201d pretendeu-se sublinhar o sentido teol\u00f3gico do trabalho e as circunst\u00e2ncias actuais.  O segundo tema centrou-se nos Direitos Humanos. Deu-se uma perspectiva hist\u00f3rica, do c\u00f3digo de Hamurabi \u00e0 Declara\u00e7\u00e3o Universal de 1948, para sublinhar que se houve um tempo de oposi\u00e7\u00e3o papal aos DH, hoje (desde a Pacem in Terris de Jo\u00e3o XXII) n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esse div\u00f3rcio. \u201cA inspira\u00e7\u00e3o crist\u00e3 dos DH foi assumida plenamente nos ensino social da Igreja com consequ\u00eancias pr\u00e1ticas que contribu\u00edram para modificar a paisagem pol\u00edtica deste fim de s\u00e9culo\u201d (Jos\u00e9 Leit\u00e3o em 2000). Referiram-se ao v\u00e1rios \u201cmea culpa\u201d de Jo\u00e3o Paulo II e deram-se a conhecer (al\u00e9m dos \u00faltimos textos de DSI falam dos DH), em trabalhos de grupo, organismos que trabalham na \u00e1rea, com a Amnistia Internacional, a Ajuda \u00e0 Igreja que Sofre, a Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz&#8230;  O terceiro tema centrou-se na \u201cquest\u00e3o ecol\u00f3gica\u201d. A abordagem foi feita com tr\u00eas inten\u00e7\u00f5es: 1) perceber que a quest\u00e3o tem a ver com cada um (estilo de vida, consumos, uso do autom\u00f3vel&#8230;) em vez de deslocalizar para outrem (ind\u00fastrias, EUA&#8230;). Para isso usou-se a din\u00e2mica da \u201cPegada Ecol\u00f3gica\u201d. E 2) levar a ler a quest\u00e3o em perspectiva crist\u00e3, procurando as ra\u00edzes ambientais do cristianismo, entendendo o cuidado da Terra como obriga\u00e7\u00e3o moral (poluir \u00e9 mal; pode ser um mal necess\u00e1rio, e pode ser pecado), e aceitando as consequ\u00eancias da Cria\u00e7\u00e3o: foi-nos dada a Terra como administradores (e n\u00e3o donos). Temos de devolv\u00ea-la a Deus. Por outras palavras: N\u00e3o devemos pensar que herdamos a terra dos nossos av\u00f3s. Foi-nos emprestada pelos nossos filhos e netos (em CA 37 o Papa fala \u201cdireitos das gera\u00e7\u00f5es futuras\u201d). 3) levar a ac\u00e7\u00f5es consequentes, a n\u00edvel individual, familiar, empresarial (ou na escola ou noutra estrutura) e a n\u00edvel social. Uma sugest\u00e3o: Pensar na certifica\u00e7\u00e3o ambiental (informal, obviamente) dos servi\u00e7os que cada um desempenha.  O quarto tema, sobre cultura e t\u00e9cnica, pretendeu de alguma forma mostrar que a cultura (investiga\u00e7\u00e3o) se aplica na t\u00e9cnica e a t\u00e9cnica muda a nossa cultura \u2013 a forma de trabalhar, comunicar, entender o mundo e mesmo amar. Pretendeu mostrar um mundo de promessas (a comunicabilidade total) e pesadelos (o isolamento), esperan\u00e7as (tecnologias limpas e baratas) e v\u00edcios (depend\u00eancias de subst\u00e2ncias e comportamentos), amea\u00e7as e vantagens (da internet aos telem\u00f3veis, dos transg\u00e9nicos \u00e0 vida humana prolongada at\u00e9 idades centen\u00e1rias). Perante o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico h\u00e1 tend\u00eancia para se ser apocal\u00edptico (\u201cmas o que vai ser de n\u00f3s\u201d?) ou integrado (\u201ccalma, vamos l\u00e1 analisar o que est\u00e1 em causa\u201d). Os documentos papais real\u00e7am que apesar do avan\u00e7o t\u00e9cnico, a grande quest\u00e3o continua a residir no seu humano (LE 5). Mas a nova riqueza est\u00e1 no conhecimento e na t\u00e9cnica (CA 32), apesar de disfuncionalidades como o consumismo e a droga (CA 36). Jo\u00e3o Paulo II, a navegar na Internet, a usar os media, era claramente um integrado.  A abordagem da globaliza\u00e7\u00e3o procurou uma leitura positiva e anti-preconceituosa. \u00c9 f\u00e1cil dizer mal da globaliza\u00e7\u00e3o. Mas in\u00fatil. Necess\u00e1rio \u00e9 compreend\u00ea-la. Esse foi a perspectiva do orientador, que defendeu que a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica \u00e9 uma oportunidade para as na\u00e7\u00f5es mais pobres, desde que as regras n\u00e3o sejam subvertidas. Nesse aspecto, as na\u00e7\u00f5es mais ricas t\u00eam de ser acusadas de incoerentes porque defendem a globaliza\u00e7\u00e3o (com liberaliza\u00e7\u00e3o de mercados), mas n\u00e3o abrem os seus mercados de produtos agr\u00edcolas (porque altamente subsidiados) \u00e0s na\u00e7\u00f5es mais pobres e que mais dependem da agricultura. Neste contexto, \u00e9 hipocrisia defender ajudas monet\u00e1rias ao Terceiro Mundo, quando o que eles de facto precisam (o acesso livre aos mercados) e que n\u00e3o \u00e9 ajuda, mas direito, n\u00e3o lhes \u00e9 concedido. De resto, foi defendida uma perspectiva de esperan\u00e7a, de que a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica traga tamb\u00e9m a da solidariedade (como de certa forma j\u00e1 se experimentou com o Tsunami), a dos Direitos Humanos, da democracia, do bem-estar. Na reflex\u00e3o. utilizaram-se textos papais que, sem referirem a globaliza\u00e7\u00e3o, falam de interdepend\u00eancia crescente, comunidade internacional, acelera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, solidariedade universal.  O \u00faltimo tema foi dedicado ao Desenvolvimento dos Povos, que \u2013 considerou o orientador \u2013 a par com a quest\u00e3o do trabalho s\u00e3o as duas colunas da DSI. Viveu-se por esses dias a Cimeira do G8, na Esc\u00f3cia, dedicada \u00e0s quest\u00e3o do Clima (aquecimento global) e da Pobreza, e o atentado de Londres, pelo que se falou do desenvolvimento com os olhos nesses acontecimentos. A quest\u00e3o do desenvolvimento total (como dizem os papas, \u201cda pessoa toda e de todas as pessoas\u201d), sustentado e sustent\u00e1vel, n\u00e3o apenas econ\u00f3mico (mas a come\u00e7ar por essa dimens\u00e3o), \u00e9, de longe, a quest\u00e3o mais importante em termos sociais. Enquanto uns poucos (os ocidentais) se questionam sobre o sentido da exist\u00eancia, a grande maioria da humanidade pergunta: o que vou comer logo? Porque n\u00e3o sabe o tem para comer. A resolu\u00e7\u00e3o deste problema passa pelos governantes, mas tamb\u00e9m pelas ac\u00e7\u00f5es individuais de voluntariado (cada vez mais \u00e9 incentivado o voluntariado dos jovens em pa\u00edses pobres \u2013 e porque n\u00e3o o dos reformados ou desempregados?), pelas op\u00e7\u00f5es de consumo, pela promo\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio justo e do microcr\u00e9dito (iniciativas analisadas).  Neste contexto, e porque em 2007 completam-se 40 anos da Populorum Progressio (a enc\u00edclica de Paulo VI dedicada \u00e0 quest\u00e3o desenvolvimento dos povos) e 20 sobre a Sollicitudo Rei Socialis, levantou-se a hip\u00f3tese de Bento XVI preparar uma enc\u00edclica de DSI para esse ano e sobre o tema Desenvolvimento\/Globaliza\u00e7\u00e3o.  Autor: Ant\u00f3nio Jorge P. Ferreira<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto que aqui se apresenta foi uma das reflex\u00f5es das Oficinas de Ver\u00e3o da C\u00e1ritas: seis grandes quest\u00f5es permitem ter uma vis\u00e3o da Doutrina Social hoje. 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