{"id":129980,"date":"2019-03-08T10:36:51","date_gmt":"2019-03-08T10:36:51","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=129980"},"modified":"2019-07-04T16:56:03","modified_gmt":"2019-07-04T15:56:03","slug":"dia-internacional-da-mulher-eugenia-costa-quaresma-e-o-destaque-das-mulheres-na-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/dia-internacional-da-mulher-eugenia-costa-quaresma-e-o-destaque-das-mulheres-na-igreja\/","title":{"rendered":"Dia Internacional da Mulher: Eug\u00e9nia Costa Quaresma e o destaque das mulheres na Igreja"},"content":{"rendered":"<p><em>A primeira mulher leiga na dire\u00e7\u00e3o da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa das Migra\u00e7\u00f5es (OCPM) acredita numa abertura da Igreja em Portugal para valorizar o feminino em fun\u00e7\u00f5es de destaque<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-129982 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>No Dia Internacional da Mulher, Eug\u00e9nia Costa Quaresma d\u00e1 conta da resili\u00eancia, da capacidade de escuta e de concilia\u00e7\u00e3o que a mulher naturalmente apresenta mas, mais do que homem ou mulher, gostaria de ver os leigos a assumirem a sua natural voca\u00e7\u00e3o.\u00a0 <\/em><em>Sobre as migra\u00e7\u00f5es a diretora da OCPM afirma o bom trabalho da Igreja mas a necessidade de maior trabalho em rede e comunica\u00e7\u00e3o. Se a sociedade portuguesa \u00e9 acolhedora persistem fatores &#8216;sociocomplicativos&#8217; a combater.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e L\u00edgia Silveira (Ag\u00eancia Ecclesia)<br \/>\nFotografias: Manuel Costa (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Foi a primeira mulher e leiga a assumir a dire\u00e7\u00e3o do Secretariado Nacional da Mobilidade Humana e da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa das Migra\u00e7\u00f5es, at\u00e9 a\u00ed sempre ocupados por homens e sacerdotes. A sensibilidade feminina \u00e9 importante para estas fun\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que sim. Acho que naturalmente temos um lado conciliador e um lado de escuta, que trago pessoalmente, e que acho que atravessa o lado feminino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E faz falta esta sensibilidade feminina tamb\u00e9m para outros cargos na lideran\u00e7a da Igreja cat\u00f3lica? O Papa Francisco tem procurado trazer o contributo das mulheres para a lideran\u00e7a e para lugares de algum destaque na hierarquia da Igreja &#8211; ainda o ano passado chamou tr\u00eas mulheres para a Congrega\u00e7\u00e3o da Doutrina da F\u00e9. Este esfor\u00e7o sente-se tamb\u00e9m em Portugal, ou devia ser mais sentido?<\/em><\/p>\n<p>Eu estou c\u00e1, n\u00e3o \u00e9? Portanto existe esta abertura. E existe tamb\u00e9m o movimento de mulheres que se fazem notar e que s\u00e3o reconhecidas, cada vez mais, \u00e0 medida que o tempo vai avan\u00e7ando, t\u00eam mais voz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mesmo que n\u00e3o seja em lugares de destaque?<\/em><\/p>\n<p>Ainda que n\u00e3o seja em lugares de destaque. \u00c9 importante \u00e9 valorizar o tanto que j\u00e1 fazem, porque a lideran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 estar \u00e0 frente, tamb\u00e9m existe uma lideran\u00e7a \u00e0 retaguarda, e h\u00e1 muitas mulheres que na retaguarda v\u00e3o liderando e v\u00e3o servindo.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-129980-1\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Eug\u00e9niaQuaresma_Mulheres_Igreja.mp3?_=1\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Eug\u00e9niaQuaresma_Mulheres_Igreja.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Eug\u00e9niaQuaresma_Mulheres_Igreja.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esse \u00e9 um trabalho ainda escondido na Igreja em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Se calhar \u00e9, tamb\u00e9m um bocadinho pela hist\u00f3ria e pelo modo de ser Igreja, faz parte da identidade da Igreja. Durante muito tempo era o &#8216;n\u00e3o saiba a m\u00e3o direita o que faz a m\u00e3o esquerda&#8217;, era um trabalho de sil\u00eancio. Hoje reivindicamos muito mais, e \u00e9 bom mostrar, porque aquilo que n\u00e3o \u00e9 mostrado n\u00e3o existe. Portanto, \u00e9 bom irmos falando, irmos mostrando o trabalho que \u00e9 feito tamb\u00e9m na invisibilidade, e que \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 muitos patamares de decis\u00e3o e muitas fun\u00e7\u00f5es. H\u00e1, por exemplo, na Igreja quem defenda que se devia abrir portas ao sacerd\u00f3cio feminino. O que \u00e9 que pensa sobre isso?<\/em><\/p>\n<p>Acho que \u00e9 uma quest\u00e3o cultural, e pode ser que cheguemos l\u00e1. H\u00e1 muitas outras coisas que s\u00e3o necess\u00e1rias resolver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 priorit\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o creio que seja priorit\u00e1rio. H\u00e1 muitas mulheres que t\u00eam capacidade para celebrar, na celebra\u00e7\u00e3o da Palavra. Existem tantos servi\u00e7os. Agora, \u00e9 preciso \u00e9 ser realmente reconhecido. E se n\u00f3s come\u00e7armos a valorizar aquilo que vem de dentro, os talentos naturais, talvez n\u00e3o fiquemos t\u00e3o agarrados ao facto de ser homem ou ser mulher, e valorizemos mais os talentos naturais e as voca\u00e7\u00f5es naturais. \u00c9 um obrigar a olharmos para as voca\u00e7\u00f5es de uma forma diferente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 mais priorit\u00e1rio, no seu entender, dar-se destaque aos leigos, concretizando a miss\u00e3o do Conc\u00edlio Vaticano II?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, reconhecer esse papel, essa especificidade, a quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 importante. Mas, sim, valorizar cada papel e cada setor, e olhar para as voca\u00e7\u00f5es de uma outra forma. Penso que estamos nesse caminho de olhar n\u00e3o s\u00f3 para a voca\u00e7\u00e3o sacerdotal e religiosa, mas tamb\u00e9m para a voca\u00e7\u00e3o matrimonial, e o caminho faz-se caminhando. Infelizmente as mudan\u00e7as s\u00e3o lentas, mas inici\u00e1mos um movimento e o importante \u00e9 n\u00e3o parar, continuar com seriedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este discurso da miss\u00e3o dos leigos j\u00e1 vai para 60 anos. Porque \u00e9 que no seu entender custa tanto a implementar?<\/em><\/p>\n<p>Mentalidades. Porque onde n\u00e3o existiram sacerdotes, os leigos ocuparam um papel preponderante, e gra\u00e7as a eles, leigos e leigas, a Igreja n\u00e3o morreu. Portanto, \u00e9 continuar a olhar para estes exemplos. \u00c9 uma quest\u00e3o de di\u00e1logo. Voltando \u00e0 pergunta inicial, o lado feminino que faz falta, esta concilia\u00e7\u00e3o e esta escuta, os tempos de hoje obrigam a isto. Penso que este pode ser o meu grande contributo, esta capacidade de escutar e de conciliar mundos aparentemente diferentes, mas que s\u00e3o complementares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma_ligia_angela_rr.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-129983 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma_ligia_angela_rr-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma_ligia_angela_rr-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma_ligia_angela_rr-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma_ligia_angela_rr-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma_ligia_angela_rr-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/eugenia_quaresma_ligia_angela_rr.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>O seu contributo tamb\u00e9m tem a ver com as suas ra\u00edzes, onde cresceu e o que faz. Nasceu em Portugal em 75, mas a sua fam\u00edlia \u00e9 de S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe, cresceu na Amora, na margem sul, e h\u00e1 v\u00e1rios anos que contacta de perto com a popula\u00e7\u00e3o migrante da Grande Lisboa. Pela sua experi\u00eancia \u00e9 correto falar-se de racismo e xenofobia em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Se calhar mais xenofobia do que racismo. H\u00e1 algum tempo eu ouvi dizer que a ra\u00e7a \u00e9 s\u00f3 uma, \u00e9 a ra\u00e7a humana. Xenofobia sim, sem d\u00favida. Esta avers\u00e3o ao estranho, \u00e0quilo que eu n\u00e3o conhe\u00e7o, faz parte do nosso crescimento. \u00c9 ali pelos oito meses que n\u00f3s pela primeira vez, os beb\u00e9s, come\u00e7am a estranhar e a fechar-se mais no seu mundo, mas h\u00e1 toda uma pedagogia e toda uma educa\u00e7\u00e3o que leva a abrir-se e a mostrar que o mundo \u00e9 mais do que aquilo que ele conhece.<\/p>\n<p>Acho que faz falta olharmos para n\u00f3s, para o nosso ser, como \u00e9 que n\u00f3s nos desenvolvemos enquanto seres humanos, e perceber que esta estranheza existe de parte a parte. Infelizmente existem pessoas que se concentram muito e ficam muito fechadas no tom de pele, que acham que pelo tom de pele definem e classificam as pessoas. Se calhar a minha reivindica\u00e7\u00e3o muito pessoal e silenciosa \u00e9 esta &#8211; eu n\u00e3o me defino pelo tom da minha pele, e quero de alguma forma for\u00e7ar as pessoas a reconhecer aquilo que \u00e9 humano em mim, e tenho procurado aquilo que \u00e9 humano nos outros, o porque \u00e9 que falhamos tanto, e porque \u00e9 que acertamos tamb\u00e9m. Isto faz-se no encontro e conhecendo o desconhecido.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma frase que eu gosto muito, da minha adolesc\u00eancia, que \u00e9 &#8216;nada na vida deve ser receado, tem apenas que ser compreendido&#8217;, e isto faz-se arriscando a conhecer o outro lado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essas dificuldades s\u00e3o agudizadas no contexto feminino? Ou seja, a mulher com um tom de pele diferente sente mais essas diferen\u00e7as em Portugal?<\/em><\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-129980-2\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/EugeniaQuaresma_Preconceito.mp3?_=2\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/EugeniaQuaresma_Preconceito.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/EugeniaQuaresma_Preconceito.mp3<\/a><\/audio>\n<p>Eu acho que n\u00e3o sou um bom exemplo, mas vou ouvindo testemunhos e lembro-me de uma refugiada que escutei uma vez, que falava de fatores &#8216;socio-complicativos&#8217; \u2013 por ser refugiada, ser mulher e ser negra. Isto tem a ver mais com a quest\u00e3o do preconceito. Se eu tenho um preconceito em rela\u00e7\u00e3o ao tom de pele, isso vai complicar a vida. Se eu tenho um preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 nacionalidade &#8211; porque tamb\u00e9m existe -, isso vai complicar a vida. Se eu tenho um preconceito em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religi\u00e3o, isso vai complicar a vida. Portanto, tem a ver muito com o contexto e olharmos para n\u00f3s e vermos quais s\u00e3o os preconceitos que nos habitam, e como \u00e9 que eu combato isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quando falamos do drama dos refugiados, as mulheres e as meninas continuam a ser o lado mais fraco no movimento migrat\u00f3rio, ou tamb\u00e9m podemos v\u00ea-las como o lado mais resiliente?<\/em><\/p>\n<p>As duas coisas. Infelizmente nos campos de refugiados as meninas e as mulheres est\u00e3o mais vulner\u00e1veis e s\u00e3o sujeitas a viola\u00e7\u00f5es. T\u00eam necessidades que nem sempre s\u00e3o contempladas, necessidades muito espec\u00edficas do ser feminino, desde os cuidados de higiene, que s\u00e3o diferentes entre homem e mulher, a necessidade de privacidade, que nem sempre se consegue respeitar, a desocupa\u00e7\u00e3o dentro dos campos, em que mesmo que queiram n\u00e3o lhes permitem sair, nem arranjar trabalho.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, em algumas culturas est\u00e1 vedada para as meninas, portanto h\u00e1 aqui uma luta grande a ser feita. Existem v\u00e1rias coisas ao mesmo tempo, e tenho alguma dificuldade em generalizar, mas acho que o desafio \u00e9 sempre de olhar para os casos concretos, a pessoa que eu tenho \u00e0 minha frente, que dificuldades atravessa? N\u00e3o d\u00e1 para olhar para ela e saber tudo. Tenho que conversar, tenho que escutar e tenho de ver de onde \u00e9 que veio, escutar a sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Porque o contexto cultural tamb\u00e9m \u00e9 muito importante?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 importante e determina, e n\u00e3o determina. As mulheres resilientes s\u00e3o aquelas que n\u00e3o se deixam subjugar pela circunst\u00e2ncia. H\u00e1 qualquer coisa dentro delas que as faz lutar, e portanto a resili\u00eancia vem da\u00ed, dessa capacidade de n\u00e3o vergar, de ter consci\u00eancia de que tem uma dignidade, ter consci\u00eancia de que isto n\u00e3o pode ficar assim, que \u00e9 preciso dizer &#8216;basta&#8217;. E \u00e9 isso que faz a diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Essa boa pr\u00e1tica de escuta, de compreens\u00e3o, do local de origem, da hist\u00f3ria da pessoa que se acolhe, \u00e9 uma pr\u00e1tica c\u00e1 em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma pr\u00e1tica. Falando dos servi\u00e7os diocesanos, ligados \u00e0 Obra Cat\u00f3lica Portuguesa das Migra\u00e7\u00f5es, parte do trabalho come\u00e7a por a\u00ed, o acolhimento, a escuta e a triagem. Sem acolhimento, sem escuta, n\u00e3o o conseguem fazer. Isto a n\u00edvel do trabalho pastoral. Depois, houve um projeto onde tive a oportunidade de escutar v\u00e1rias hist\u00f3rias na primeira pessoa, de adolescentes e jovens, e a\u00ed isto era muito gritante. \u00c9 realmente importante escutar, e escutando gera-se uma empatia e sentimos vontade n\u00e3o s\u00f3 de olhar a pessoa de ouro modo, mas de fazer qualquer coisa para mudar a realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Portugal \u00e9 considerado um dos pa\u00edses que melhor acolhe e que tem boas pr\u00e1ticas de acolhimento. Mas, teoria e pr\u00e1tica, de facto, convergem?<\/em><\/p>\n<p>Sim. E penso que a n\u00edvel das migra\u00e7\u00f5es temos vindo a caminhar para a\u00ed, nomeadamente quando h\u00e1 uma mudan\u00e7a de lei, como a Lei da Imigra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 feita sem escutar as associa\u00e7\u00f5es de imigrantes e outros atores, e portanto abre-se esse lado. Cada vez mais estamos a chegar \u00e0 conclus\u00e3o que \u00e9 preciso ouvir para modificar as coisas e sermos mais assertivos naquilo que queremos implementar. Portanto, estamos a caminhar para a\u00ed, se calhar n\u00e3o em todos os setores ao mesmo tempo, mas a n\u00edvel das migra\u00e7\u00f5es tem-se procurado e tem-se criado espa\u00e7o para a escuta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Alguns pa\u00edses europeus procuram fechar as suas fronteiras. Esses exemplos de que forma \u00e9 que chegam a Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Chegam com tristeza. Estou a lembrar-me do Pacto Global, em que tivemos alguns pa\u00edses que n\u00e3o assinaram, mas a diretiva do Vaticano \u00e9 muito clara, a Igreja a\u00ed tem um papel maior e tem que liderar pelo exemplo, tem de ser aquilo que os seus princ\u00edpios lhe dizem para ser, tem de &#8216;acolher, proteger, promover e integrar&#8217;, trabalhar nesse sentido, na esperan\u00e7a de influenciar as pol\u00edticas com o seu exemplo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Estamos a falar do \u2018Pacto Global para a Migra\u00e7\u00e3o Segura, Ordenada e Regular\u2019, que foi j\u00e1 rubricado por v\u00e1rios l\u00edderes mundiais, e que o secret\u00e1rio-geral da ONU, Ant\u00f3nio Guterres, considerou uma &#8216;conquista significativa&#8217;\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, significativa porque pela primeira vez cento e tal pa\u00edses disseram &#8216;n\u00f3s, para resolvermos as quest\u00f5es das migra\u00e7\u00f5es, tem de ser em conjunto&#8217;. Apesar do documento n\u00e3o ser vinculativo, \u00e9 um compromisso, \u00e9 dizer &#8216;eu quero trabalhar para que as migra\u00e7\u00f5es sejam seguras, regulares e ordenadas&#8217;, &#8216;quero que as pessoas se sintam pessoas por onde quer que andem&#8217;, &#8216; quero ser mais assertivo no combate ao tr\u00e1fico de seres humanos&#8217;&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Que \u00e9 um problema ligado \u00e0s migra\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Est\u00e1 tamb\u00e9m interligado. E \u00e9, ainda, dizer &#8216;eu quero dar uma resposta mais humana aos refugiados&#8217;, &#8216;eu quero comprometer-me com a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza, das guerras, da corrup\u00e7\u00e3o&#8217;. Os pa\u00edses est\u00e3o a dizer isto tudo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esses s\u00e3o fatores que est\u00e3o na origem dos v\u00e1rios fen\u00f3menos migrat\u00f3rios. Olhamos muito para Europa, porque \u00e9 o nosso \u2018quintal\u2019, mas tamb\u00e9m est\u00e1 a acontecer na Venezuela, e nos pa\u00edses \u00e0 volta.<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim, um fen\u00f3meno de migra\u00e7\u00e3o e desloca\u00e7\u00e3o for\u00e7ada, em que vemos claramente que h\u00e1 ali uma pol\u00edtica que est\u00e1 a empurrar as pessoas para fora, a deixar as pessoas sem condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de sobreviv\u00eancia. Curiosamente h\u00e1 um grande n\u00famero (de pessoas) a sair, mas tamb\u00e9m h\u00e1 aqueles que est\u00e3o ali heroicamente a resistir e a lutar dentro, e \u00e9 t\u00e3o v\u00e1lida a postura de quem sai, como a postura de quem fica.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Igreja Cat\u00f3lica tem procurado estar na linha da frente no apoio aos migrantes e aos refugiados, e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Venezuela percebemos que inclusivamente a Igreja em Portugal est\u00e1 muito atenta, ao destinar para aquele pa\u00eds grande parte das ren\u00fancias quaresmais deste ano. De qualquer forma, o que \u00e9 que se pode fazer para melhorar esta ajuda? A Igreja est\u00e1 a fazer tudo aquilo que est\u00e1 ao seu alcance?<\/em><\/p>\n<p>Acho que sim, que estamos a trabalhar a n\u00edvel do acolhimento daqueles que conseguiram vir, queremos trabalhar melhor ao n\u00edvel da prote\u00e7\u00e3o e ao n\u00edvel da inclus\u00e3o. Eu acho que se calhar temos de afinar aqui a articula\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o entre os servi\u00e7os da Igreja. Este \u00e9 o grande desafio de trabalharmos cada vez mais em conjunto, trabalharmos cada vez mais em rede, e penso que faremos muito mais e melhor se isso acontecer. E as propostas e as diretivas que v\u00eam a n\u00edvel da Pastoral das Migra\u00e7\u00f5es s\u00e3o essas, trabalharmos em conjunto e trabalharmos em rede.<\/p>\n<audio class=\"wp-audio-shortcode\" id=\"audio-129980-3\" preload=\"none\" style=\"width: 100%;\" controls=\"controls\"><source type=\"audio\/mpeg\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Eug\u00e9niaQuaresma_Migra\u00e7oes_Igreja.mp3?_=3\" \/><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Eug\u00e9niaQuaresma_Migra\u00e7oes_Igreja.mp3\">https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/Eug\u00e9niaQuaresma_Migra\u00e7oes_Igreja.mp3<\/a><\/audio>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foi anunciado h\u00e1 poucos dias que a pr\u00f3xima mensagem para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, escrita pelo Papa Francisco, vai ter como tema &#8216;N\u00e3o se trata apenas de migrantes&#8217;. \u00c9 uma reflex\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1rio colocar tamb\u00e9m na sociedade portuguesa?<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim, recordar que estamos a falar de pessoas, pessoas em situa\u00e7\u00e3o de mobilidade, e que esta situa\u00e7\u00e3o de mobilidade pode passar e as pessoas n\u00e3o podem ficar rotuladas, nem marcadas por uma escolha necess\u00e1ria. \u00c9 sempre uma escolha necess\u00e1ria, uma escolha dolorosa, porque ningu\u00e9m escolhe partir de \u00e2nimo leve, h\u00e1 sempre algo que fica para tr\u00e1s, e portanto olhar para a pessoa em situa\u00e7\u00e3o de mobilidade \u00e9 importante. E depois a reflex\u00e3o pastoral, n\u00e3o se trata s\u00f3 de pessoas, \u00e9 Cristo que nos convoca, que nos convida, que nos interpela, \u00e9 Cristo que tamb\u00e9m est\u00e1 a atravessar, e como \u00e9 que n\u00f3s damos resposta a isto?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 tamb\u00e9m ligada, h\u00e1 alguns anos, \u00e0 \u2018Academia Ubuntu\u2019, um projeto que assenta no conceito de &#8216;lideran\u00e7a servidora&#8217;, para capacita\u00e7\u00e3o dos jovens provenientes de contextos de exclus\u00e3o, mas que t\u00eam potencial de lideran\u00e7a, e podem ser eles pr\u00f3prios a intervir e modificar esses contextos. \u00c9 uma forma de empoderamento, de interven\u00e7\u00e3o c\u00edvica?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Nasceu muito dessa necessidade de dar resposta a um conjunto de jovens que n\u00e3o eram valorizados. Apesar do valor e do empenho que tinham nas suas comunidades n\u00e3o eram valorizados, n\u00e3o eram conhecidos. Esta Academia permitiu essa capacita\u00e7\u00e3o, e permitiu encontrarmo-nos. \u00c9 uma plataforma de encontro muito bonita, de encontro de diferentes culturas, de conhecer descendentes de diferentes migrantes africanos, de diferentes pa\u00edses, com diferentes culturas e religi\u00f5es, unidos por este conceito \u2018Ubuntu\u2019 &#8211; &#8216;eu s\u00f3 posso ser pessoa atrav\u00e9s de outras pessoas&#8217;. E a\u00ed, atrav\u00e9s do exemplo de grandes l\u00edderes mundiais (como Nelson Mandela), perceber como \u00e9 que pod\u00edamos fazer da nossa sociedade uma sociedade melhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que isto tamb\u00e9m a tem ajudado a si na vida pessoal e nas fun\u00e7\u00f5es em que serve a Igreja?<\/em><\/p>\n<p>Primeiro, a partir deste conceito de &#8216;lideran\u00e7a servidora&#8217;, ter percebido que fui nomeada para servir, e portanto ter consci\u00eancia de quem s\u00e3o as pessoas que eu estou a servir, n\u00e3o s\u00f3 os migrantes, mas tamb\u00e9m os agentes pastorais que trabalham com os migrantes, aqui em Portugal e fora de Portugal. Depois olhar para tr\u00e1s, ter este olhar retrospetivo, e perceber que apesar de n\u00e3o andar \u00e0 procura da lideran\u00e7a, de vez em quando fui posta em cargos de lideran\u00e7a, e ver como \u00e9 que posso desempenhar este papel. Porque n\u00e3o se trata de mandar, eu n\u00e3o tenho muito jeito para mandar, mas de perceber o que \u00e9 necess\u00e1rio e tirar o melhor das pessoas, p\u00f4-las a render, p\u00f4r os talentos a render. No fundo \u00e9 isto, \u00e9 o acreditar que as coisas podem ser diferentes e podem ser feitas de maneira diferente, e n\u00e3o ter medo de levar tempo a descobrir qual \u00e9 este caminho, n\u00e3o ter medo de levar tempo a sentir a urg\u00eancia de fazer alguma coisa e de interromper um ciclo, se for caso disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 isso que procura transmitir tamb\u00e9m \u00e0s suas filhas, com 9 e 13 anos?<\/em><\/p>\n<p>Responsabilidade naquilo que se faz. Responsabilidade pessoal, n\u00e3o p\u00f4r s\u00f3 a culpa nos outros, n\u00e3o estar s\u00f3 \u00e0 espera que os outros fa\u00e7am, mas &#8216;o que \u00e9 que eu posso fazer para que as coisas mudem&#8217;. Acho que este conceito \u2018Ubuntu\u2019 \u00e9 muito aquilo que lhes quero passar. E que aprendam a valorizar as suas ra\u00edzes e aprendam a dialogar com a sociedade e com o tempo em que est\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira mulher leiga na dire\u00e7\u00e3o da Obra Cat\u00f3lica Portuguesa das Migra\u00e7\u00f5es (OCPM) acredita numa abertura da Igreja em Portugal para valorizar o feminino em fun\u00e7\u00f5es de destaque<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":129982,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[630],"tags":[],"class_list":["post-129980","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129980","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=129980"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129980\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/129982"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=129980"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=129980"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=129980"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}