{"id":12985,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/peregrinacao-crista-sinal-dos-tempos-que-a-nova-evangelizacao-nao-pode-ignorar\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"peregrinacao-crista-sinal-dos-tempos-que-a-nova-evangelizacao-nao-pode-ignorar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/peregrinacao-crista-sinal-dos-tempos-que-a-nova-evangelizacao-nao-pode-ignorar\/","title":{"rendered":"Peregrina\u00e7\u00e3o crist\u00e3 &#8211; sinal dos tempos que a nova evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ignorar"},"content":{"rendered":"<p>D. Teodoro de Faria, Bispo do Funchal <!--more--> O peregrino \u00e9 movido por convic\u00e7\u00f5es individuais ou causas sociais que tornam a peregrina\u00e7\u00e3o um fen\u00f3meno dif\u00edcil de definir. A alma humana sente necessidade de acreditar em qualquer coisa que transcende a precariedade da vida material de cada dia, necessita de ser protegida por um ser superior, espera um milagre de Deus atrav\u00e9s da intercess\u00e3o de um santo.  1. Em todos os tempos os homens peregrinaram at\u00e9 lugares considerados santos e onde sentiam mais fortemente a presen\u00e7a de uma divindade ou do sobrenatural. Estas desloca\u00e7\u00f5es humanas pertencem a todas as religi\u00f5es e credos.  Na B\u00edblia encontramos peregrina\u00e7\u00f5es ordenadas por Deus e outras nascidas da piedade individual ou colectiva. O centro de todas elas era os santu\u00e1rios por onde passaram os patriarcas, como Betel, H\u00e9bron, Bersabeia, mas principalmente Jerusal\u00e9m.  O encontro com Deus realizava-se no santu\u00e1rio, dum modo especial nas grandes festas da P\u00e1scoa, Pentecostes e Tabern\u00e1culos.  Nos tempos da Igreja, as peregrina\u00e7\u00f5es continuam privilegiando os lugares santificados por Jesus Cristo na Terra Santa, ou pelos ap\u00f3stolos, como Roma onde se veneram os t\u00famulos de Pedro e Paulo e Compostela com Santiago.  Na Idade M\u00e9dia, as peregrina\u00e7\u00f5es para al\u00e9m dos santu\u00e1rios locais, privilegiaram as rel\u00edquias dos santos. Acreditava-se que as rel\u00edquias tinham o poder de curar os doentes, tornar as terras f\u00e9rteis, afastar a peste e a mis\u00e9ria, dar a vit\u00f3ria ao ex\u00e9rcito.   2 &#8211; A venera\u00e7\u00e3o das rel\u00edquias dos santos j\u00e1 aparece no s\u00e9c. II. Os crist\u00e3os recolhiam os restos mortais dos m\u00e1rtires, colocavam-nos em lugares dignos para celebrar o anivers\u00e1rio do seu mart\u00edrio. Por vezes as rel\u00edquias eram escondidas para vener\u00e1-las em segredo. Desta forma um lugar torna-se santo e centro de peregrina\u00e7\u00e3o pela presen\u00e7a concreta de uma rel\u00edquia ou de um facto extraordin\u00e1rio ali acontecido.  O povo crist\u00e3o quer ver qualquer coisa de concreto para tocar e sentir uma presen\u00e7a espiritual. O lugar mais santo da cristandade foi e continua a ser o santo sepulcro de Jerusal\u00e9m.  O peregrino empreende uma longa viagem para tocar no m\u00e1rmore de um t\u00famulo ou numa caixa que cont\u00e9m o corpo de um m\u00e1rtir. Peda\u00e7os de pano, len\u00e7os e at\u00e9 pap\u00e9is que tocaram o t\u00famulo do santo s\u00e3o levados como rel\u00edquias, porque se julga que ficaram impregnados do poder dos santos. Alguns escritores, como S. Cirilo de Jerusal\u00e9m, dizem que as rel\u00edquias podem fazer milagres. Outros recolheram at\u00e9 o azeite da l\u00e2mpada que ardia diante do m\u00e1rtir ou o p\u00f3 que cobria o t\u00famulo.  O culto das rel\u00edquias, desde o in\u00edcio do cristianismo, aparece como uma forma de piedade. Santo Agostinho, reagindo contra os maniqueus que acusavam os crist\u00e3os de idolatria, escreveu: \u00abO povo crist\u00e3o celebra a mem\u00f3ria dos m\u00e1rtires com solenidade religiosa para ser incitado \u00e0 imita\u00e7\u00e3o da sua coragem, associar-se aos seus m\u00e9ritos, ser ajudado pelas suas ora\u00e7\u00f5es\u00bb. A doutrina da Igreja sublinha com prud\u00eancia que a santidade das rel\u00edquias salva somente os que imitam as virtudes dos santos.   3 \u2013 O que levou tantos crist\u00e3os a empreenderem viagens longas, perigosas, a exporem-se \u00e0 morte, para visitar lugares t\u00e3o distantes como Roma, Compostela e Jerusal\u00e9m?  O peregrino \u00e9 movido por convic\u00e7\u00f5es individuais ou causas sociais que tornam a peregrina\u00e7\u00e3o um fen\u00f3meno dif\u00edcil de definir. A alma humana sente necessidade de acreditar em qualquer coisa que transcende a precariedade da vida material de cada dia, necessita de ser protegida por um ser superior, espera um milagre de Deus atrav\u00e9s da intercess\u00e3o de um santo. Quando se desconfia da ci\u00eancia procura-se a protec\u00e7\u00e3o do alto, especialmente da m\u00e3e de Deus, para receber conforto e ajuda ou confirmar a pr\u00f3pria f\u00e9.  Em todas as peregrina\u00e7\u00f5es aparecem tr\u00eas elementos que s\u00e3o comuns: uma viagem que leva at\u00e9 uma meta, geralmente um santu\u00e1rio dedicado \u00e0 M\u00e3e de Deus; a chegada ao lugar onde se estabelece um contacto com o sagrado; e um caminho de regresso a casa.  Alguns santu\u00e1rios s\u00e3o hoje reconhecidos pela Igreja, devido a apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora, como Lourdes e F\u00e1tima, e t\u00eam fama internacional, foram visitados pelos Papas e t\u00eam uma mensagem doutrinal forte.  A peregrina\u00e7\u00e3o crist\u00e3 acredita na comunica\u00e7\u00e3o dos santos e na poderosa intercess\u00e3o de Nossa Senhora.  Os s\u00e9culos XIX e XX foram muito ricos em apari\u00e7\u00f5es marianas, cada uma delas privilegiando um aspecto doutrinal. Lourdes aparece como lugar de curas extraordin\u00e1rias, F\u00e1tima tem um car\u00e1cter mais penitencial e, Medjugorje, ainda n\u00e3o reconhecido oficialmente pela Igreja, apresenta um car\u00e1cter mais apocal\u00edptico.  Em nosso tempo, as peregrina\u00e7\u00f5es aos santu\u00e1rios contendo rel\u00edquias de santos s\u00e3o menos frequentes, enquanto aumentam as que se dirigem aos lugares de apari\u00e7\u00f5es marianas. Dizia o Cardeal Marty, arcebispo de Paris, que na Fran\u00e7a, sob o aspecto religioso, tudo estava em decl\u00ednio, excepto as peregrina\u00e7\u00f5es.  Devido \u00e0 facilidade dos meios de transporte, organiza\u00e7\u00f5es especializadas e assist\u00eancia aos fi\u00e9is, as peregrina\u00e7\u00f5es hoje n\u00e3o correm riscos graves como no passado. Os sacrif\u00edcios e as fadigas da viagem n\u00e3o s\u00e3o considerados essenciais, apesar de n\u00e3o terem desaparecido em F\u00e1tima e Medjugorje. A t\u00e9cnica tur\u00edstica favorece esta forma de espiritualidade, mas uma Ag\u00eancia de viagem, n\u00e3o tem a voca\u00e7\u00e3o de organizar peregrina\u00e7\u00f5es, sem uma liga\u00e7\u00e3o com uma estrutura eclesi\u00e1stica, porque peregrinar, embora tenha alguns aspectos semelhantes ao turismo, realmente \u00e9 diferente dele. Movimenta-se noutra esfera, embora por vezes se conjugue peregrina\u00e7\u00f5es e tempo livre dando origem ao chamado turismo religioso.  O n\u00famero de pessoas que as peregrina\u00e7\u00f5es movimentam \u00e9 muito grande, chegando nalguns pa\u00edses, como a It\u00e1lia, a ultrapassar os 40 milh\u00f5es por ano.  Peregrinar \u00e9 um sinal dos tempos que a nova evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ignorar, mas deve servir-se desta corrente profunda da alma humana para uma experi\u00eancia do sobrenatural, transforma\u00e7\u00e3o da vida e dedica\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo.   <i>D. Teodoro de Faria, Bispo do Funchal<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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