{"id":129630,"date":"2019-03-05T00:01:53","date_gmt":"2019-03-05T00:01:53","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=129630"},"modified":"2019-03-03T23:36:24","modified_gmt":"2019-03-03T23:36:24","slug":"carnaval-a-celebracao-do-espanto-e-a-festa-da-transformacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/carnaval-a-celebracao-do-espanto-e-a-festa-da-transformacao\/","title":{"rendered":"Carnaval: A celebra\u00e7\u00e3o do espanto e a festa da transforma\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>J\u00falio Mart\u00edn \u00e9 o diretor Art\u00edstico do Teatro Universit\u00e1rio da Universidade de Lisboa (TUT). O Carnaval foi o pretexto para um di\u00e1logo sobre a festa e o fasc\u00ednio que, por estes dias, leva alguns a assumir m\u00e1scaras e personagens.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Matos<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ag\u00eancia Ecclesia (AE) \u2013 Qual \u00e9 para si o potencial do carnaval, porque \u00e9 que desperta uma pluralidade celebrativa?<\/em><\/p>\n<p>J\u00falio Mart\u00edn (JM) &#8211; O Carnaval s\u00e3o celebra\u00e7\u00f5es que v\u00eam desde o in\u00edcio da humanidade e da sua \u00edntima rela\u00e7\u00e3o com a natureza e, portanto, s\u00e3o celebra\u00e7\u00f5es do espanto. Do espanto em primeiro lugar pela transforma\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria natureza. Ou seja, h\u00e1 um inverno, parece que os dias s\u00e3o mais curtos, as noites s\u00e3o mais longas, est\u00e1 frio, parece que a natureza se retira, adormece e, passado um tempo, tudo se transforma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os dias come\u00e7am a ser mais compridos, o sol est\u00e1 mais brilhante, est\u00e1 mais calor e a pr\u00f3pria natureza renasce e desabrocha. Come\u00e7a por ser a natureza, o pr\u00f3prio meio ambiente onde a humanidade vive, a realidade que se transforma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por outro lado, os seres humanos desde o in\u00edcio que sonham. E quando sonham veem nos sonhos pessoas que j\u00e1 morreram, mas que, nesses sonhos, est\u00e3o vivas. Veem nos sonhos que \u00e0s vezes podem voar, fazer outras coisas. Ou seja h\u00e1 todo este espanto pela transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Uma natureza que se transforma e dos pr\u00f3prios seres humanos numa rela\u00e7\u00e3o uns com os outros e nos seus pr\u00f3prios sonhos que tamb\u00e9m se transformam. E por isso, esse espanto da transforma\u00e7\u00e3o, de eu me surpreender comigo pr\u00f3prio e com o outro vendo-o a fazer uma outra express\u00e3o facial, uma outra atitude corporal, tudo isso despertou sempre na humanidade um grande fasc\u00ednio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O teatro \u00e9 uma pr\u00e1tica antiga. O que leva as pessoas a esta paix\u00e3o pela representa\u00e7\u00e3o de papeis que as colocam noutras personagens?<\/em><\/p>\n<p>JM &#8211; H\u00e1 essa atitude natural. E isso acontece no Carnaval, de no fundo, deixarmos de cumprir aquilo que \u00e9 expect\u00e1vel de n\u00f3s, assumir uma outra postura, ser outro que n\u00e3o eu pr\u00f3prio. \u00c9 uma possibilidade de um escape, de uma fuga de uma rotina, daquela m\u00e1scara social a que muitas vezes somos remetidos&#8230; e temos v\u00e1rias ao longo do dia, como pais de fam\u00edlia, no emprego, numa coletividade&#8230; vamos assumindo diferentes atitudes, diferentes posturas e o Carnaval permite-nos essa experi\u00eancia de liberdade. De repente posso fazer aquilo que eu quero sem uma autocr\u00edtica nem a cr\u00edtica dos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Ent\u00e3o o Carnaval \u00e9 uma \u00e9poca n\u00e3o tanto para colocar, mas para retirar as m\u00e1scaras?<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 A quest\u00e3o da m\u00e1scara \u00e9 muito interessante precisamente por isso. A m\u00e1scara serve para ocultar a identidade, mas por outro serve para revelar uma outra identidade que faz parte de n\u00f3s e que, em alguns momentos, podemos exprimi-la e express\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas isto \u00e9 algo diferente do teatro e do ator. O ator \u00e9 um profissional, \u00e9 algu\u00e9m que est\u00e1 preparado para entrar na pele do outro, encarnar o outro, no fundo dar espa\u00e7o para acolher o outro, para o interpretar e representar. Um outro que podem ser v\u00e1rios. Um ator representa v\u00e1rios papeis ao longo da sua carreira.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No caso do Carnaval e nestes momentos, n\u00e3o \u00e9 que a pessoa v\u00e1 interpretar muitos outros personagens, o sentido n\u00e3o \u00e9 esse, \u00e9 um sentido mais libertador de invers\u00e3o de papeis. A possibilidade de ser agora, algo que normalmente n\u00e3o posso ser.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Estamos nas v\u00e9speras da Quaresma, apresenta-se um per\u00edodo de modera\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 por isso que h\u00e1 nestes dias uma certa pressa em fazer festa? Ou este calend\u00e1rio religioso j\u00e1 n\u00e3o tem assim tanto peso no quotidiano das pessoas?<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 J\u00e1 n\u00e3o tanto&#8230; Acho que, como diria o poeta, hoje o Carnaval \u00e9 sempre que um homem quiser&#8230; E, portanto, h\u00e1 v\u00e1rias alturas do ano e h\u00e1 v\u00e1rios acontecimentos sociais em que essa transforma\u00e7\u00e3o pessoal \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E como \u00e9 que um ator, como \u00e9 o seu caso, vive estes dias? \u00c9 um foli\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 Em crian\u00e7a e adolescente sim, tinha esse gosto de me mascarar, de me disfar\u00e7ar, de assumir outros papeis, hoje em dia, pela minha profiss\u00e3o \u00e9 algo que j\u00e1 fa\u00e7o ao longo do ano e numa outra situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Carnaval n\u00e3o h\u00e1 propriamente essa interpreta\u00e7\u00e3o que um ator faz, h\u00e1 mais essa vontade de liberdade, tamb\u00e9m de cr\u00edtica social e de uma grande liberdade pessoal e corporal. \u00c9 um momento em que os corpos n\u00e3o est\u00e3o condicionados e as pessoas est\u00e3o livres para vestir e fantasiar aquilo que querem. S\u00e3o momentos importantes como escape de uma rotina, de acesso a uma outra experi\u00eancia, uma outra forma de estar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Apesar de toda a importa\u00e7\u00e3o de estilos carnavalescos, h\u00e1 ainda, no nosso pa\u00eds, momentos celebrativos muito etnogr\u00e1ficos que nos remetem para uma identidade dos lugares e das suas gentes&#8230;<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 Sem d\u00favida, e n\u00f3s temos riqu\u00edssimas tradi\u00e7\u00f5es. No Norte, temos os Caretos que \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o fort\u00edssima, tal como os bonecos, os gigantones. E ainda bem que temos esta tradi\u00e7\u00e3o portuguesa de celebrar o Carnaval. De alguma forma fomos n\u00f3s que a globaliz\u00e1mos. Nomeadamente o Carnaval no Brasil foi muito influenciado pelo Carnaval da Madeira, porque a ilha era um ponto de passagem&#8230; E mesmo hoje em dia, essas celebra\u00e7\u00f5es s\u00e3o ainda muito fortes na Madeira, de onde foram levadas para o Brasil, onde se misturaram com uma cultura pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Temos tradi\u00e7\u00f5es que s\u00e3o long\u00ednquas e ancestrais, nomeadamente a do Entrudo que est\u00e1 relacionado tamb\u00e9m com estas festividades do Carnaval. O Entrudo como um introito, o in\u00edcio da Quaresma, este per\u00edodo de liberta\u00e7\u00e3o, que tinha tamb\u00e9m o costume de lan\u00e7ar \u00e1gua que ficou hoje guardada nas bisnagas dos mi\u00fados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 tamb\u00e9m uma \u00e9poca prop\u00edcia \u00e0 cr\u00edtica social, ou seja, na festa, aproveitar para dizer as verdades e anunciar aquilo que o povo pensa?<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>JM \u2013 Sem d\u00favida! Isso \u00e9 at\u00e9 um fator muito importante em termos sociais. Claro que hoje em dia, ao longo do ano, temos os humoristas que fazem isso. Mas no Carnaval, de uma forma popular, isso \u00e9 muito vivenciado. Da\u00ed a express\u00e3o, no Carnaval ningu\u00e9m leva a mal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Falamos do Carnaval, falamos da Quaresma, s\u00e3o como que portas que nos permitem passar de uma realidade \u00e0 outra, como que arrumando o ano em momentos com caracter\u00edsticas pr\u00f3prias? <\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 S\u00e3o ciclos da vida e intimamente relacionados com os ciclos da natureza, apesar das esta\u00e7\u00f5es do ano hoje j\u00e1 n\u00e3o serem como eram. A verdade \u00e9 que a pr\u00f3pria vida humana necessita destes ciclos, de momentos prop\u00edcios a determinados tipos de atividades e express\u00f5es. Se precisamos de momentos de alegria e de folia, tamb\u00e9m precisamos de momentos de reflex\u00e3o sobre a nossa pr\u00f3pria vida, sobre a sociedade e sobre o mundo, sem d\u00favida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como purifica\u00e7\u00e3o do excesso dos dias passados?<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 Sim, de alguma forma \u00e9 verdade. E essa complementaridade \u00e9 muito humana, \u00e9 quase biol\u00f3gica e a pr\u00f3pria natureza faz isso e isso repercute-se no pr\u00f3prio viver e no sentido humano sem d\u00favida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Como \u00e9 que um dia se apaixonou pelo teatro?<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 Justamente por esta vontade de querer saber o que \u00e9 estar na pele do outro. O que \u00e9 estar num outro tempo, num outro lugar, num outro espa\u00e7o, num outro corpo e sentir o que se pensa&#8230; E essa rela\u00e7\u00e3o humana para mim foi muito importante. E ao mesmo tempo \u00e9 uma forma de autoconhecimento, ou seja, eu colocando-me no lugar do outro, descubro em mim dimens\u00f5es que at\u00e9 ent\u00e3o desconhecia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 uma pedagogia? Ajuda a crescer interiormente?<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 Sem d\u00favida. E por isso o teatro e a educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o intimamente ligados, porque \u00e9 uma experi\u00eancia fundamental, especialmente nos dias que correm, em que h\u00e1 tantas tecnologias. Vivemos rodeados de \u00e9crans de todas as dimens\u00f5es e \u00e9 preciso n\u00e3o perder esta dimens\u00e3o do humano de realmente podermos estar olhos nos olhos e sentir a respira\u00e7\u00e3o do outro e nos podermos tocar. E isso tem essa componente pedag\u00f3gica muito forte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 diretor art\u00edstico do Teatro Acad\u00e9mico da Universidade de Lisboa, como \u00e9 que os estudantes vivem hoje esta realidade do teatro?<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 Cada vez com mais interesse e com mais intensidade. Eu tamb\u00e9m comecei no teatro universit\u00e1rio, estudava na altura ci\u00eancias farmac\u00eauticas e, por causa do teatro, acabei por n\u00e3o terminar o meu curso e ir para a Escola Superior de Teatro e Cinema.<\/p>\n<p>\u00c9 uma experi\u00eancia muito rica, porque h\u00e1 alunos de todos os cursos, desde medicina, a direito, economia, veterin\u00e1ria, engenharia e todos eles comungam desta experi\u00eancia que \u00e9 estar juntos, construir algo juntos e, ao mesmo tempo, no processo de forma\u00e7\u00e3o, enriquecer-se com o desenvolvimento destas componentes pessoais, aquilo que se chama hoje as <em>soft skills, <\/em>estas compet\u00eancias de falar em p\u00fablico, de falar com os outros, de trabalhar em equipa&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Estes dias de Carnaval podem ser ocasi\u00e3o para se descobrir o gosto pelo teatro?<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>JM \u2013 \u00c1s vezes pode acontecer, mas eu acho que s\u00e3o realidades diferentes. O Carnaval \u00e9 algo mais espont\u00e2neo, de liberdade pessoal, coletiva e de festa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 um festejar tamb\u00e9m em comunidade, ningu\u00e9m festeja o Carnaval sozinho.<\/em><\/p>\n<p>JM \u2013 Sim e n\u00e3o h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o de contar uma hist\u00f3ria, transmitir algo&#8230; o Carnaval \u00e9 uma experi\u00eancia coletiva de festa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00falio Mart\u00edn \u00e9 o diretor Art\u00edstico do Teatro Universit\u00e1rio da Universidade de Lisboa (TUT). O Carnaval foi o pretexto para um di\u00e1logo sobre a festa e o fasc\u00ednio que, por estes dias, leva alguns a assumir m\u00e1scaras e personagens. 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