{"id":129585,"date":"2019-03-03T00:04:10","date_gmt":"2019-03-03T00:04:10","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=129585"},"modified":"2019-03-02T21:10:32","modified_gmt":"2019-03-02T21:10:32","slug":"o-carnaval-e-o-momento-de-respirar-fundo-antes-do-mergulho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-carnaval-e-o-momento-de-respirar-fundo-antes-do-mergulho\/","title":{"rendered":"\u00abO Carnaval \u00e9 o momento de respirar fundo antes do mergulho\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/PeVascoPMagalhaes.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-129451 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/PeVascoPMagalhaes.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/PeVascoPMagalhaes.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/PeVascoPMagalhaes-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/PeVascoPMagalhaes-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/PeVascoPMagalhaes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/PeVascoPMagalhaes-1080x720.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><\/a>O jesu\u00edta Vasco Pinto Magalh\u00e3es fala em dias para descobrir quem somos, para entender a liberdade ao servi\u00e7o do bem e para fazer a ponte para o caminho at\u00e9 \u00e0 P\u00e1scoa<\/p>\n<p><em>Entrevista conduzida por L\u00edgia Silveira<\/em><\/p>\n<p><em>Ag\u00eancia Ecclesia (AE)- Que import\u00e2ncia tem o \u00abfaz de conta na vida\u00bb de uma pessoa?<\/em><\/p>\n<p><em>Padre Vasco Pinto Magalh\u00e3es (VPM)<\/em><strong> &#8211; <\/strong>A vida \u00e9 um desafio e extravasar-se desafia-nos, faz-nos ir mais longe. Temos uma personalidade muito concreta mas est\u00e1 sempre em express\u00e3o e \u00e0 procura de se identificar. A m\u00e1scara tem a ver com a necessidade de procurar as nossas identidades m\u00faltiplas; quando conseguimos sintetizar, encontrar o nosso caminho e voca\u00e7\u00e3o. Claro que no exagero, despersonaliza. Mas pode ser uma forma de riqueza, de perceber como sou capaz de identificar.<\/p>\n<p>O teatro vive disso: de sermos capazes de desempenhar v\u00e1rios pap\u00e9is, no mundo do outro, percebe-lo. O pior \u00e9 quando despersonaliza. Mas tem uma fun\u00e7\u00e3o. E, para as crian\u00e7as que est\u00e3o \u00e0 procura do que querem ser, embora seja um caminho de identidade e personaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o faz mal nenhum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Esta experimenta\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria na vida?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Sim. Estamos sempre a comparar-nos, para bem e para mal. As compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o perigosas mas n\u00e3o vivemos sem elas. O primeiro processo de conhecimento \u00e9 por imita\u00e7\u00e3o: vestir-se como os pais, falar como eles, vestir-se como os irm\u00e3os\u2026 pior \u00e9 quando isso atinge uma f\u00f3rmula perigosa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Corremos o risco de querer ser outra pessoa que n\u00e3o n\u00f3s pr\u00f3prios?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Um grande te\u00f3logo Ren\u00e9 Girard diz que a grande origem do mal \u00e9 o mimetismo doente, a c\u00f3pia: j\u00e1 n\u00e3o suporto ser eu ou o outro ao p\u00e9 de mim. Isso gera a competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A pergunta \u00abquem sou eu?\u00bb pode gerar uma luta muito grande\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Necessariamente. A crian\u00e7a tem tend\u00eancias e qualidades mas est\u00e3o por expressar e amadurecer. Este trabalho de amadurecer e descobrir o que mais nos identifica, prende-se com o conhecimento pr\u00f3prio, mas tamb\u00e9m com a experi\u00eancia, com o fazer v\u00e1rios pap\u00e9is. Experimentar uma identifica\u00e7\u00e3o que corresponde a tr\u00eas coisas: \u00e0 minha identidade mais interior, \u00e0 minha rela\u00e7\u00e3o com os outros de forma mais eficaz, e, para quem tem f\u00e9, corresponde \u00e0 vontade de Deus. Deus quer que sejamos quem somos no servi\u00e7o, na transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Uma identidade egoc\u00eantrica, fechada, n\u00e3o percebe que os outros me mostram quem eu sou, nem se consegue transcender, fica fechado em si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A crian\u00e7a, quando est\u00e1 a crescer, n\u00e3o tem a dimens\u00e3o do seu crescimento \u00e0 luz da f\u00e9. Que import\u00e2ncia assumem as rela\u00e7\u00f5es nesse crescimento? No equil\u00edbrio entre o faz de conta e a descoberta daquilo que \u00e9?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> As rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma aprendizagem. Temos de aprender a ter boas rela\u00e7\u00f5es, construtivas, que ajudam a crescer, que descansam.<\/p>\n<p>A identidade, muitas vezes, assenta em rela\u00e7\u00f5es violentas, constrangedoras, que n\u00e3o fazem desabrochar, metem medo, s\u00e3o moralistas, n\u00e3o causam bem-estar.<\/p>\n<p>Depende da educa\u00e7\u00e3o que vem de casa: pode ser uma educa\u00e7\u00e3o para a personaliza\u00e7\u00e3o ou para a formata\u00e7\u00e3o. E formata\u00e7\u00e3o n\u00e3o permite que eu me expresse com liberdade. S\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es com a natureza, com os outros, com os valores, que socializam e fazem despertar para a cultura e para a f\u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0AE \u2013 Nesse crescimento as m\u00e1scaras s\u00e3o importantes?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Sim. Eu diria que o Carnaval \u00e9 tirar a m\u00e1scara. Vivemos mascarados, com tantos condicionamentos, desempenhamos um papel. Claro que h\u00e1 um certo teatro que todos temos de fazer: p\u00f5e-se a gravata para o trabalho, chega-se a casa e p\u00f5e-se as pantufas\u2026 s\u00e3o linguagens. H\u00e1 pessoas que vivem mascaradas, vestiram a farda da sua profiss\u00e3o e t\u00eam dificuldade em tirar. O Carnaval \u00e9 precisamente para tirar a m\u00e1scara.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 um sinal de alguma liberdade de um mundo muito quadriculado, r\u00edgido, onde h\u00e1 hor\u00e1rios a cumprir, formata\u00e7\u00f5es, que cansam muito. O Carnaval tem esse aspeto social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Faz\u00ea-lo em conjunto tem um significado?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Com o perigo de ser um excesso, pode perder o equil\u00edbrio. Vivemos condicionados por comportamentos sociais, pelo nosso \u00abdever ser\u00bb, as nossas exig\u00eancias interiores e pensamos que isso \u00e9 um certo descanso. At\u00e9 \u00e9. O grande perigo s\u00e3o os exageros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O poeta Teixeira de Pascoaes diz que \u00abnascer \u00e9 p\u00f4r a m\u00e1scara\u00bb\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> As crian\u00e7as come\u00e7am a aprender a comportar-se. Se isso \u00e9 muito exterior, sou um menino bem comportado que faz o que lhe mandam, posso estar a inibir uma for\u00e7a natural muito saud\u00e1vel e \u00fanica. O contr\u00e1rio: a educa\u00e7\u00e3o que deixa crescer que depois eles l\u00e1 saber\u00e3o, um naturalismo sem regras, \u00e9 tamb\u00e9m uma m\u00e1scara.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Qual o ponto de equil\u00edbrio? Quando se percebe que temos de equilibrar entre a necessidade de se colocar a m\u00e1scara e perceber que ela nos pode auto destruir?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> O ponto de equil\u00edbrio vai-se encontrando, n\u00e3o \u00e9 algo r\u00edgido. H\u00e1 indicadores que as nossas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o saud\u00e1veis, que experimento que estou a crescer na alegria, na esperan\u00e7a e na responsabilidade e que essas rela\u00e7\u00f5es favorecem esse crescimento. Encontra-se o equil\u00edbrio em rela\u00e7\u00f5es construtivas: comigo, com o outro, com os valores. Este ponto de equil\u00edbrio \u00e9 um equil\u00edbrio din\u00e2mico. N\u00e3o \u00e9 estar paradinho\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 \u00c9 f\u00e1cil nos dias de hoje encontrar os alertas para esse equil\u00edbrio e o necess\u00e1rio ajuste?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, porque vivemos hoje num mundo extrovertido e, no mau sentido, divertido. Que diverge e nos condiciona. Precisamos de ter a capacidade de parar, interiorizar, olhar para dentro, avaliar as rela\u00e7\u00f5es. Hoje n\u00e3o h\u00e1 tempo para isso. As pessoas vivem exteriorizadas, no mau sentido.<\/p>\n<p>Para encontrar o equil\u00edbrio tenho de fazer a s\u00edntese, o meu exame de consci\u00eancia. Tenho de ter tempo saud\u00e1vel, pac\u00edfico para reavaliar, e n\u00e3o de uma maneira gen\u00e9rica, a rela\u00e7\u00e3o com esta pessoa, comigo pr\u00f3prio nestas circunst\u00e2ncias. Isso sup\u00f5e que eu me retire da confus\u00e3o, do barulho, do mundo, da pressa, que s\u00e3o altamente condicionantes.<\/p>\n<p>Por isso vemos que as pessoas t\u00eam uma grande necessidade de ir ao deserto, de se refugiar\u2026 Pode haver ambiguidade na fuga e no ref\u00fagio, mas sem esse espa\u00e7o e tempo, ficamos hist\u00e9ricos. Quando experimentamos a paz encontramos o equil\u00edbrio. A paz interior e nas rela\u00e7\u00f5es. E a paz n\u00e3o \u00e9 uma pasmaceira, n\u00e3o s\u00e3o \u00e1guas paradas, nem \u00e9 o bem-estar. A paz \u00e9 sentir que estou num dinamismo construtivo. Sentir e experimentar, tamb\u00e9m intelectualmente e na vontade, que estou a dar os passos certos, que encontrei o ritmo da vida.<\/p>\n<p>As pessoas participam num retiro espiritual para descansar e o que nos descansa \u00e9 um encontro connosco pr\u00f3prios, encontrar-se com Deus: n\u00e3o h\u00e1 nada que mais descanse do que estar na presen\u00e7a de quem nos ama. Isso \u00e9 din\u00e2mico, mas descansa\u2026<\/p>\n<p>H\u00e1 quem procure outras formas de descansar: apanho um avi\u00e3o e vou ao Carnaval do Brasil. N\u00e3o quer dizer que isso n\u00e3o descanse, mas \u00e9 outro tipo de descanso. Todos se prestam a fugas. \u00c9 curioso: as pessoas descansam, v\u00e3o para a praia despojar-se de tudo, descansam arranjando umas botas e um fato para subir \u00e0 montanha e outros descansam a ler, outros a rezar, outros encontrando aquilo que os organiza, que lhes d\u00e1 ordem \u00e0 vida, vontade de viver.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Quando preparava esta nossa conversa encontrei um an\u00fancio de uma empresa de brinquedos que dizia: \u00abe tu, que queres ser hoje?\u00bb Esta possibilidade de a cada dia sermos coisas novas, \u00e9 tamb\u00e9m uma surpresa de Deus \u2026 <\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Aqui h\u00e1 o interesse de vende, entra a gan\u00e2ncia e uma certa competi\u00e7\u00e3o. Numa linguagem de crian\u00e7as, pode ser, mas n\u00e3o se pode ficar s\u00f3 aqui. Quero ser pirata ou super-homem\u2026 O que queres ser hoje? Que haja indica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 essa a vida. Para n\u00e3o ficar dominado por um momento.<\/p>\n<p>O mal das pedagogias, \u00e0s vezes, \u00e9 serem est\u00e1ticas, por blocos e n\u00e3o por processos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013A criatividade e a imagina\u00e7\u00e3o ajudam a crescer.<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Sim, a descobrir riquezas que h\u00e1 em n\u00f3s. P\u00f4r-se no papel de outros\u2026 Lamento \u00e9 que esse processo n\u00e3o venha com uma s\u00edntese. Em certa altura temos de fazer escolhas. O pior que podemos fazer \u00e9 uma educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o eduque para escolher, para a liberdade. Uma liberdade que seja capaz de escolher o bem.<\/p>\n<p>Circula hoje a ideia de que liberdade \u00e9 fazer o que me apetece: trocar de casa, de vida, trocar de tudo. Isso \u00e9 libertino, n\u00e3o \u00e9 ser livre. A liberdade \u00e9, sendo capaz de ponderar alternativas, escolher a que melhor me personaliza, me ajuda a relacionar com os outros, a encontrar o meu lugar no servi\u00e7o do mundo. Uma educa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o eduque para a liberdade n\u00e3o \u00e9 educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 A cada dia somos colocados perante o desafio de cultivar os dons que temos e fazer novas todas as coisas.<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013 <\/em>E o novo \u00e9 personaliz\u00e1vel: fazer \u00e0 minha maneira sem a ideia de que tenho de ser um original. A vida devia ser sempre criativa. O que n\u00e3o significa saltar por cima de todas as regras. A liberdade \u00e9 tamb\u00e9m a capacidade de assumir regras e condicionamentos e viver bem com eles. \u00c9 ter o cora\u00e7\u00e3o centrado no essencial e capaz de se descentrar, de colocar o seu foco no s\u00edtio certo. Se o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o anda livre mas solto, n\u00e3o \u00e9 capaz de amar.<\/p>\n<p>Quando n\u00e3o h\u00e1 um quadro de valores interiorizado n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel escolher, torna-se dif\u00edcil encontrar prioridades. Vivo momento a momento, a satisfa\u00e7\u00e3o aqui e agora, vivo um Carnaval sem antes nem depois. Hoje h\u00e1 muita gente que se despersonaliza por ai. Faz muita coisa mas n\u00e3o faz nada bem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Que import\u00e2ncia t\u00eam os momentos de festa e de folia na vida?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Marcam os ritmos e o crescimento por etapas. Temos a necessidade de celebrar os nascimentos e as mortes, o fim do curso, as festas universit\u00e1rias, a queima das fitas e os cortejos, o in\u00edcio do curso, o casamento\u2026 Estamos sempre a marcar e temos necessidade de celebrar. \u00c9 preciso \u00e9 celebrar bem. (A festa) \u00e9 um momento de interiorizar e agradecer mas de reparar a nova etapa. As festas deveriam ser ritos de passagem, mudan\u00e7as, de etapas, caso contr\u00e1rio fica uma celebra\u00e7\u00e3o vazia. Varre-se a sala no fim da festa e fica tudo na mesma.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O Carnaval \u00e9 a passagem para dias de interioriza\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Sempre foi entendido assim. Atravessamos o deserto em honra a uma festa maior. Entramos num per\u00edodo de concentra\u00e7\u00e3o e interioridade. O Carnaval \u00e9 o momento de respirar fundo antes do mergulho. H\u00e1 claro, os exageros. A ideia de que entramos num tempo de penit\u00eancia, que a vida vai ser dura, com uma subida \u00e0 montanha muito ingreme. Vamos por isso extravasar um bocado\u2026<\/p>\n<p>Se o Carnaval \u00e9 de facto o adeus \u00e0 carne, para entrar na abstin\u00eancia, faz sentido. A festa que nos prepara para o mergulho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Mas sugeria que o Carnaval \u00e9 tirar a m\u00e1scara. Se entramos no Carnaval com a disposi\u00e7\u00e3o de sermos n\u00f3s pr\u00f3prios, \u00e9 j\u00e1 um p\u00f3rtico para o tempo que vem a seguir\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Sim, faz parte, n\u00e3o \u00e9 separ\u00e1vel se for vivido como um momento de transi\u00e7\u00e3o. De sair de um tempo regulariz\u00e1vel para outro espec\u00edfico. H\u00e1 um ritmo. E esse Carnaval faz com que eu me despoje, para entrar num ritmo interior antes de me despojar do anterior.<\/p>\n<p>H\u00e1 que superar uma etapa, caso contr\u00e1rio vamos arrastando coisas e n\u00e3o se muda. N\u00e3o se consegue uma nova rela\u00e7\u00e3o porque se est\u00e1 preso \u00e0 anterior; n\u00e3o se consegue entrar em algo porque a nostalgia, mesmo das coisas boas, \u00e9 uma pris\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>O Carnaval na medida em que se pode disparatar, seria um adeus ao que est\u00e1 para tr\u00e1s, para iniciar um caminho novo e encarar como a prepara\u00e7\u00e3o para a convers\u00e3o. Se a Quaresma \u00e9 o caminho para a convers\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 O Carnaval pode ser esse p\u00f3rtico?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Pode. E devia ser. Mas tudo se reduz ao Carnaval do Rio (de Janeiro) \u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 E depois h\u00e1 quem opte por viver estes dias de folia, retiradas.<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Podiam ir fazer uma viagem que ser\u00e1 uma forma de sair da rotina. Para muitos, at\u00e9 porque \u00e9 pr\u00e1tico, arranjando dias livres. N\u00e3o vivemos ritmos muito humanizados. Um dos atuais perigos, do trabalhar e ganhar dinheiro, \u00e9 o trabalhar mal. Trabalhamos demais, sem ritmo, horas a fio, com hor\u00e1rios de press\u00e3o, sem respira\u00e7\u00e3o. Acabamos por trabalhar muito mas mal.<\/p>\n<p>\u00c9 bom aproveitar estes dias: pode-se fazer uma viagem, ler um livro ou escrever uma coisa que tenho ou fazer Exerc\u00edcios Espirituais (EE). S\u00e3o exerc\u00edcios, uma atividade profunda e interior para encontrar a liberdade, aquele Deus que me ama.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 Onde se prop\u00f5e tirar a m\u00e1scara\u2026 <\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Sim. O in\u00edcio dos EE prop\u00f5e deixar para tr\u00e1s o que n\u00e3o importa e abrir caminho para os pr\u00f3ximos passos. Embora fa\u00e7am o exame de consci\u00eancia, n\u00e3o fica preso a lamentar o que passou. Serve para tomar consci\u00eancia da realidade e, depois, dar vida nova a esta realidade.<\/p>\n<p>Os EE de Santo In\u00e1cio s\u00e3o virados para a frente: a partir da minha realidade de hoje posso reiniciar um caminho de maior proximidade com Deus e com a sua vontade.<\/p>\n<p>Santo In\u00e1cio diz que vamos aos EE para p\u00f4r ordem na vida, para arrumar gavetas. Deitar fora algumas coisas, arrumar outras e desenhar os passos futuros. Isso descansa, porque a pessoa reorganiza a sua vida, tranquiliza-se. Esta correria de n\u00e3o ter tempo para pensar, para encontrar algu\u00e9m\u2026 trata-se de um acumular de coisas que n\u00e3o est\u00e3o arrumadas. Isso cansa muito.<\/p>\n<p>E por isso faz-se EE para descansar: fazer um balan\u00e7o da vida sem pressa. A pressa d\u00e1 cabo de tudo.<\/p>\n<p>O Papa Francisco diz que uma das doen\u00e7as do nosso tempo \u00e9 o \u00abrapidismo\u00bb: queremos tudo para ontem. Engolimos, sem mastigar. Por isso andamos um bocadinho enfartados. Isso n\u00e3o descansa nada.<\/p>\n<p>A pergunta a fazer \u00e9: estou a precisar de rever as minhas rela\u00e7\u00f5es com os outros, de me equilibrar, equilibrar a minha rela\u00e7\u00e3o com Deus? A segunda pergunta \u00e9 \u00abComo?\u00bb. Quem orienta os EE ajuda a colocar os problemas e a ponderar alternativas para encontrar a mais libertadora, a que faz encontrar consigo pr\u00f3prio. Deve-se sair dos EE com uma escolha, uma revis\u00e3o de vida que n\u00e3o ficou s\u00f3 a ver o que aconteceu, mas sai, at\u00e9 \u00e0 pr\u00f3xima vez, com estes prop\u00f3sitos: concretos, poucos, poss\u00edveis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE \u2013 No seu entender \u00e9 uma boa forma de iniciar os 40 dias propostos pela Igreja?<\/em><\/p>\n<p><em>VPM \u2013<\/em> Ganha-se um balan\u00e7o para viver a quarentena que prepara a P\u00e1scoa, a grande festa da vida, o encontro, mas tudo precisa de convers\u00e3o. Divers\u00e3o ou convers\u00e3o? Divergir ou convergir? E a vida deve seguir o caminho do convergir.<\/p>\n<p>Dizemos que Quaresma \u00e9 um tempo de convers\u00e3o, de reencontro connosco, e \u00e9. N\u00e3o s\u00e3o dias de esfor\u00e7o, tristeza\u2026 Cai-se no sacrif\u00edcio mal-entendido. Fala-se num tempo de penit\u00eancia mas esquecemo-nos de que penit\u00eancia significa mudan\u00e7a. Pensamos em penit\u00eancia para aumentar a austeridade. A austeridade \u00e9 uma coisa boa porque \u00e9 saber prescindir das m\u00e1scaras todas, saber ser mais livre. Mas a austeridade n\u00e3o est\u00e1 na moda.<\/p>\n<p>Fomos educados a perceber a penit\u00eancia como algo exigente, dif\u00edcil e que isso me d\u00e1 pontos. Mas a palavra latina significa mudar, o cora\u00e7\u00e3o, a atitude. Claro que isso exige esfor\u00e7o, reconhecer o que precisa ser mudado, o que pode ser mudado e como. Tudo isto se faz \u00e0 luz do exemplo de Jesus, da sua vida e palavras, que estimulam a fazer o discernimento e escolha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":129451,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-129585","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=129585"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/129585\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/129451"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=129585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=129585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=129585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}