{"id":12953,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/missionario-portugues-em-roraima-denuncia-terrorismo-dos-grandes-fazendeiros\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"missionario-portugues-em-roraima-denuncia-terrorismo-dos-grandes-fazendeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/missionario-portugues-em-roraima-denuncia-terrorismo-dos-grandes-fazendeiros\/","title":{"rendered":"Mission\u00e1rio portugu\u00eas em Roraima denuncia \u00abterrorismo\u00bb dos grandes fazendeiros"},"content":{"rendered":"<p>Pe. M\u00e1rio Campos fala de amea\u00e7as de morte, de raptos e da miss\u00e3o da Igreja na defesa das comunidades ind\u00edgenas <!--more--> No m\u00eas de Janeiro de 2003, os Mission\u00e1rios da Consolata em Roraima, no Brasil, saltaram para as primeiras p\u00e1ginas dos jornais, depois de terem sido raptados por causa da sua luta ao lado dos ind\u00edgenas e contra os grandes fazendeiros brancos. Em quest\u00e3o estava o controlo de uma \u00e1rea que corresponde a 1.651.300 campos de futebol, localizada numa zona encravada entre a Guiana e a Venezuela &#8211; a chamada zona &#8220;Raposa Serra do Sol&#8221;, uma regi\u00e3o onde vivem perto de 15 mil ind\u00edgenas. O padre M\u00e1rio Campos, portugu\u00eas, que trabalha na miss\u00e3o h\u00e1 tr\u00eas anos e meio, seria um dos alvos dos raptores, mas n\u00e3o estava na miss\u00e3o na noite da invas\u00e3o. Agora, de passagem por Portugal, fala destas lutas e do \u201cterrorismo\u201d dos grandes propriet\u00e1rios contra aqueles que lutam pelos direitos das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.  <i>Ag\u00eancia ECCLESIA \u2013 \u00c9 f\u00e1cil perceber que a ac\u00e7\u00e3o dos mission\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 bem-vinda por toda a gente&#8230; Pe. M\u00e1rio Campos &#8211;<\/i> N\u00e3o \u00e9, de facto. Na terra ind\u00edgena &#8220;Raposa Serra do Sol&#8221;, que \u00e9 uma \u00e1rea que representa cerca de 1\/5 do territ\u00f3rio portugu\u00eas vivem 8 fazendeiros, que s\u00e3o quem nos persegue directamente: amea\u00e7am-nos de morte, foram eles os mandat\u00e1rios do sequestro dos meus colegas no ano passado, j\u00e1 destru\u00edram comunidades ind\u00edgenas, enfim, um verdadeiro terrorismo, porque n\u00e3o tem outro nome. As amea\u00e7as de morte s\u00e3o muito claras e \u00e0s vezes proferidas em p\u00fablico na r\u00e1dio e na televis\u00e3o.   <i>AE \u2013 Como se reage a uma situa\u00e7\u00e3o dessas? MC &#8211;<\/i> O nosso trabalho \u00e9 ao lado dos \u00edndios e eles entendem estas coisas. Juntos vamos construindo e tentando encontrar o melhor caminho para todos.  <b>N\u00f3s Existimos<\/b> Com a Campanha \u00abN\u00f3s Existimos\u00bb, os mission\u00e1rios recolheram assinaturas num abaixo-assinado entregue ao Governo Federal do Brasil, onde solicitavam a homologa\u00e7\u00e3o da terra ind\u00edgena \u201cRaposa Serra do Sol\u201d, a aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto dos Povos Ind\u00edgenas, a puni\u00e7\u00e3o dos envolvidos num esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o e a n\u00e3o-concess\u00e3o de incentivos fiscais aos latifundi\u00e1rios plantadores de arroz irrigado, soja e ac\u00e1cia mangium.   <i>AE \u2013 \u00c9 importante que as pessoas em Portugal tenham conhecimento de todas estas situa\u00e7\u00f5es? MC &#8211;<\/i> Eu acho que \u00e9 fundamental, antes de mais para o bem dos povos ind\u00edgenas e para a nossa pr\u00f3pria sociedade. N\u00e3o s\u00f3 em Portugal, mas em toda a Europa, temos procurado informar as pessoas, sobretudo nos momentos de maior crise. Felizmente temos tido boa aceita\u00e7\u00e3o e esse trabalho teve um impacto muito positivo em favor dos \u00edndios.  <i>AE \u2013 A campanha \u201cN\u00f3s Existimos\u201d foi um sucesso&#8230; MC &#8211;<\/i> Essa campanha deu origem ao que \u00e9, neste momento, o movimento \u201cN\u00f3s existimos\u201d. Nele est\u00e3o englobadas v\u00e1rios organismos sociais, sectores da Igreja, sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas. No fundo \u00e9 uma alian\u00e7a dos ind\u00edgenas, dos trabalhadores rurais e da Igreja que est\u00e1 a resultar a 100%, obrigando a v\u00e1rias pol\u00edticas no Estado de Roraima.  <i>AE \u2013 A Confer\u00eancia Episcopal Brasileira (CNBB) acompanha de perto todas estas ac\u00e7\u00f5es. Como v\u00ea esse interesse? MC &#8211;<\/i> Posso dizer que nestes 3 anos em que l\u00e1 estou, foram j\u00e1 duas as ocasi\u00f5es em que o pr\u00f3prio presidente da CNBB se deslocou a Roraima, em gestos p\u00fablicos de solidariedade pelo trabalho dos mission\u00e1rios. Al\u00e9m disso, s\u00e3o j\u00e1 muitas as vezes em que a CNBB interv\u00e9m oficialmente, atrav\u00e9s de comunicados, junto do Governo e da sociedade, em favor da terra ind\u00edgena \u201cRaposa Serra do Sol\u201d, cuja luta \u00e9 emblem\u00e1tica.  <b>Vit\u00f3ria e desilus\u00e3o<\/b> No passado dia 15 de Abril, o presidente do Brasil, Lula da Silva, assinou o decreto de homologa\u00e7\u00e3o da Terra Ind\u00edgena \u201cRaposa Serra do Sol\u201d. O acto causou enorme satisfa\u00e7\u00e3o e regozijo entre os \u00edndios e todos os que, no Brasil e no mundo, de alguma maneira, ajudaram a tornar a homologa\u00e7\u00e3o uma realidade.  <i>AE \u2013 Este era, verdadeiramente, o momento que todos esperavam? MC &#8211;<\/i> Foi uma aut\u00eantica vit\u00f3ria, um momento de grande alegria acompanhado de grande expectativa e de muita ansiedade. Para se ter uma ideia do impacto desta decis\u00e3o, o governador do Estado de Roraima declarou uma semana de luto no dia 16 de Abril. Isto mostra qu\u00e3o anti-ind\u00edgena \u00e9 esta sociedade. Logo no dia 17 de Abril, foram raptados 4 pol\u00edcias federais que viriam a ser libertados sob a condi\u00e7\u00e3o de que a pol\u00edcia federal sa\u00edsse da \u00e1rea \u2013 para que os fazendeiros pudessem continuar o seu dom\u00ednio.  <i>AE \u2013 A mudan\u00e7a est\u00e1, portanto, ainda por acontecer? MC &#8211;<\/i> Esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que nos deixa muito apreensivos, muito preocupados, porque as comunidades ind\u00edgenas sentem-se defraudadas nos seus direitos.  <b>Pastoral Indigenista<\/b> A Diocese de Roraima fez a sua op\u00e7\u00e3o preferencial pelos povos ind\u00edgenas no Estado de Roraima, atrav\u00e9s das suas diferentes ac\u00e7\u00f5es pastorais. A Pastoral Indigenista, nos seus mais de 30 anos de compromisso e servi\u00e7o, tem 44 mission\u00e1rios\/as consagrados\/as e leigos\/as, que procuram, com a presen\u00e7a solid\u00e1ria, apoiar o processo de autonomia cultural, social, econ\u00f3mica, religiosa e pol\u00edtica dos povos ind\u00edgenas, animando as suas organiza\u00e7\u00f5es.  <i>AE \u2013 A Pastoral Indigenista \u00e9 uma din\u00e2mica com tr\u00eas d\u00e9cadas, mas a presen\u00e7a mission\u00e1ria j\u00e1 tem s\u00e9culos. Esta diferen\u00e7a mostra algum receio em rela\u00e7\u00e3o a um tipo de trabalho mais \u201cpol\u00edtico\u201d? MC &#8211;<\/i> O nosso trabalho, numa situa\u00e7\u00e3o destas, tem muito tamb\u00e9m de pol\u00edtico, mas n\u00e3o de partid\u00e1rio. S\u00e3o povos que foram esmagados e perseguidos, ainda hoje o s\u00e3o, e que t\u00eam direito \u00e0 sua autonomia. Permitir que eles vivam melhor, segundo os seus direitos, tamb\u00e9m faz parte da nossa miss\u00e3o e essa consci\u00eancia foi-se ganhando ao longo dos anos. Nunca se deixou de lado, por\u00e9m, a pastoral da cidade, que hoje tem uma grande import\u00e2ncia.  <i>AE \u2013 A ac\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria \u00e9 muito diferente da que se poderia fazer noutra parte do mundo? MC &#8211;<\/i> A Pastoral Indigenista \u00e9, de facto, uma op\u00e7\u00e3o fundamental da Diocese de Roraima, uma \u00e1rea predominantemente ind\u00edgena, habitada por povos muito diferentes, que j\u00e1 l\u00e1 est\u00e3o desde tempos imemoriais. Esta op\u00e7\u00e3o passa por um estilo de trabalho, com uma presen\u00e7a muito atenta, que procura abrir-se ao di\u00e1logo com a cultura e a tradi\u00e7\u00e3o desses povos. A nossa miss\u00e3o \u00e9 escutar, sobretudo. O m\u00e9todo de trabalho \u00e9 o acompanhamento das suas organiza\u00e7\u00f5es e, lado a lado com eles, tentar garantir os seus direitos, para manterem a sua liberdade.  <i>AE \u2013 Qual \u00e9 a estrutura pastoral em Roraima? MC &#8211;<\/i> Em toda a Diocese, mesmo na cidade, n\u00e3o existe uma \u00fanica par\u00f3quia, o sistema \u00e9 totalmente diferente. Aqui o importante \u00e9 o envolvimento dos leigos, at\u00e9 porque s\u00e3o \u00e1reas muito extensas \u2013 eu sozinho teria a meu cargo 30 comunidades ind\u00edgenas, separadas nalguns casos por 200 quil\u00f3metros. Al\u00e9m disso, \u00e9 fundamental que as comunidades se aliem umas com as outras.  <i>AE \u2013 Como \u00e9 o confronto entre a ancestralidade das tradi\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas e a \u201cBoa Nova\u201d dos mission\u00e1rios? MC &#8211;<\/i> Esse \u00e9 um aspecto muito interessante, porque esta \u00e9 uma das poucas \u00e1reas no mundo em que os mission\u00e1rios est\u00e3o presente porque os \u00edndios foram cham\u00e1-los. A Evangeliza\u00e7\u00e3o teve como base a Palavra de Deus e os \u00edndios ainda hoje deixam tudo para ler, ouvir e discutir uma passagem do Evangelho. Ora, um trabalho que tem como centro a Palavra de Deus \u00e9 algo que liberta e que entra em di\u00e1logo com as tradi\u00e7\u00f5es e culturas ind\u00edgenas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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